Coluna do Novo Jornal – 021 – O polvo não está saindo hoje – 15.01.2011

Uma crônica sobre como as coisas são ditas e como elas poderiam ser interpretadas. Ou como disse um amigo: “uma viagem.”

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O polvo não está saindo hoje.

Nos tortuosos caminhos percorridos pela linguagem, as transformações sofridas costumam muitas vezes desafiar qualquer lógica, retirando o sentido do que talvez tenha significado algo distinto de uma mera reunião de palavras ao acaso. Algumas expressões são bastante curiosas, trazendo consigo toda uma carga de mistério acerca de sua origem e de como as combinações que se dão graças ao processo dinâmico e constante da construção de um idioma produzem termos que beiram o completo “non-sense”.

Outro dia, num restaurante de frutos do mar, pedi a um simpático garçom uma porção de polvo no azeite. Momentos após minha solicitação, o nobre profissional retornou desolado com a má notícia: “Senhor, o polvo não está saindo hoje.” Tal resposta, primeiro me surpreendeu. Afinal de contas, eu não havia pedido informações detalhadas a respeito da vida social do molusco e se ele preferia recolher-se sob rochas de seu aquário em vez de aproveitar uma aprazível noite de sábado, sinceramente, não era da minha conta.

Depois, quando assimilada a sentença, desfiz minha expressão estupefata e me deixei conduzir  por divertidos e fantásticos devaneios. Logo me pus a imaginar o polvo recluso em seu habitat reproduzido artificialmente, indisposto, cansado, entediado, sendo chamado pelo garçom a sair de lá para saciar a fome de um cliente, ou mesmo cumprimentar com efusivos acenos os freqüentadores do estabelecimento. Ele se recusa. Diz que não vai sair. O cliente que peça camarão se quiser, porque ele prefere mil vezes ficar sem fazer nada, entregando-se a seu contemplativo ócio de cefalópode. O garçom implora, ajoelha-se aos prantos, mas não adianta. Impassível, com aquela expressão de desdém que só os octópodes sabem fazer: “Escuta aqui, amigo. Fala pro cliente que eu não estou saindo hoje e pronto!” Vencido, o garçom levanta, enxuga as lágrimas, recolhe o que resta de sua dignidade e vai dar a má notícia ao freguês.

Outra oração bastante intrigante é aquela em que o atendente diz: “Nós não trabalhamos com laranja.” “Como assim?”, você pode pensar. “Será que estamos falando da mesma laranja?”, pergunta a si mesmo entre surpreso e indignado. Você faz a recapitulação minuciosa das palavras que verbalizou, não encontrando nada de estranho ou moralmente condenável. Você apenas pediu um suco de sua fruta preferida, rica em vitamina C e de sabor refrescante. Mas o cara olha pra você com ar de reprovação, franze a testa e decreta: “nós não trabalhamos com laranja.”

Fica cada vez mais evidente que está acontecendo algo muito esquisito. As pessoas, sobretudo os garçons daquele estabelecimento, sabem de algo terrível a respeito da vida pregressa da laranja. Ou ainda, quem sabe?, um grave desvio de personalidade. Quem sabe uma personalidade dupla? É possível quem por trás de uma declaração tão convicta, quase uma afirmação de princípios, encontre-se escondida um deplorável histórico de rebeldia, insubordinação e mau comportamento.

A falta de caráter, o jeito de ser ácido, a maneira cítrica de se portar em público acabaram por custar caro à laranja. Sua reputação terminou vítima e a consequência imediata é a intransigente recusa de profissionais e restaurantes de trabalhar com ela, fazendo questão de deixar tal decisão clara assim que o cliente pede um refresco extraído desta outrora simpática fruta. Logo após o choque, a reação seguinte é de pesar. O que será da laranja caso os restaurantes continuem aderindo a esta campanha de não trabalhar com ela? Desaparecerá? Sobreviverá? Ou esta é apena mais uma das peças pregadas pela linguagem, significando apenas “não servimos suco de laranja, pois não costumamos comprar laranjas.” Não. Não deve ser nada tão simples assim. Alguma complexidade deve ter aí.

E se a laranja for inocente nessa história toda? E se ela for vítima de um espúrio complô orquestrado por invejosos e ressentidos opositores, movidos por vis interesses e pelo mais torpe desejo de que tudo acabe mal? É preciso reagir imediatamente, denunciar tal situação tão absurda quanto verdadeira. Temos que investigar e acabar com esse estado de coisas de uma vez por todas.

Mas a linguagem não nos surpreende apenas com relação ao que se come ou se bebe. Tem também aquelas vezes em que chegamos numa loja, pedimos um produto qualquer para comprar ou experimentar e o vendedor nos responde: “este produto eu não vou ter.” Você pensa em explicar que não quer saber se ele “vai ter”, mas sim se ele “tem”. Não é uma questão de perguntar hoje para comprar no futuro. Não. Você quer saber se ele tem o produto disponível no preciso momento em que pergunta. Antes de esclarecer a situação com o atendente, você desiste. Mas não sem pensar nos problemas temporais pelos quais passam os vendedores em geral. Será que eles tem algum problema em aceitar o presente? Ou estão todos treinando para ser videntes?

Entretanto, nada, nada mesmo, que tenham inventado até hoje, supera o já célebre gerundismo. Este idioma tão difundido em nossos dias que dominam os atendentes de telemarketing e que encontram adeptos nas mais diversas áreas: de palestrantes motivacionais a Micarla de Sousa, muitos conterrâneos nossos já são fluentes neste novo Esperanto revisitado. Sentenças como “eu vou estar confirmando seus dados”, “vou estar conversando com o secretariado”, “vou estar tomando uma atitude proativa” são a praga linguística do século. Nisso, eu, você, o polvo, a laranja, os garçons e os vendedores de shopping parecemos concordar.

 

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