Coluna do Novo Jornal – 022 – Os imbecis – 22.01.2011

Uma homenagem a Henrique Castriciano e sua indignação ante a pequenez de espírito de alguns conterrâneos que, infelizmente, persiste até os dias de hoje.

***

Os imbecis

Henrique Castriciano, um visionário à frente do seu tempo. E do nosso.

Henrique Castriciano de Souza era um educador potiguar, nascido em Macaíba. Foi o principal idealizador da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte, criada para desenvolver o nosso Estado através do mais eficaz instrumento concebido pelo homem: a educação. Defendia essa tese lá pelo início do século XX, 100 anos antes de alguns governantes recentes terem sucateado a educação básica e fundamental no Estado que ele tanto queria ver desenvolvido. Fico imaginando-o se revirando no túmulo ao saber do Nicolellis a procura de algum apoio local ao seu Instituto de Neurociências que realiza um excelente trabalho há 8 anos, não graças aos meus, os seus, os nossos conterrâneos.

Para mim é no mínimo estranho constatar que Natal é uma cidade em que um dos maiores neurocientistas do mundo, brasileiro que tem chance de ganhar um prêmio Nobel, um cara que poderá contribuir decisivamente para a cura do Alzheimer ou para graves lesões na medula, trabalhe sem nenhum apoio, enquanto um dos maiores milionários da cidade subiu na vida (inclusive de helicóptero) graças à autoria do refrão “Se réie pra lá!” Isso deve querer dizer alguma coisa sobre nós, nossos valores e prioridades. Quem sabe seja a prova irrefutável de nosso fracasso como sociedade civilizada.

Pois bem, lá pela virada do século XIX e início do XX, Henrique Castriciano tentava trazer melhorias, difundindo conhecimento entre seus semelhantes. Além de educador, era também poeta e cronista de jornais. Recebi no fim de 2010 o livro “Seleta – Textos e poesias – Volume 3”, reunindo diversos artigos de sua autoria. Impressiona a atualidade dos temas abordados. Não arrisco dizer que o Professor era um homem a frente do seu tempo. Na verdade, passo a acreditar que nós é que estamos atrás. Em seus artigos ele falava de temas filosóficos, literários e sociais com a lucidez dos gênios e a sensatez que permite chegar às conclusões lógicas e simples.

Por vezes, no entanto, o senhor Henrique Castriciano perdia a paciência. Banhava sua pena na tinta corrosiva da indignação e desferia profundos golpes na hipocrisia, estupidez e pobreza de espírito de seus contemporâneos. Quando a situação requeria maior firmeza, rigor na mensagem e dureza nas palavras, recorria ao expediente do pseudônimo. E foi sob o nome de José Capitulino que, em 15 de janeiro de 1899, iniciou a trilogia de crônicas “Os Imbecis”.

Os textos retratavam tipos nataleses da época, tentando alertar as pessoas para o iminente perigo de se deparar com tais espíritos de porco pelas ruas, cafés ou passeios públicos.  No primeiro da série, denuncia o “sarcasmo idiota dos emperrados, cretinos e imbecis”, referindo-se às pessoas que não contribuíam com causas, fossem elas nobres ou intelectuais, mas assim mesmo criticavam com fina ironia os feitos dos que se debruçavam ao pensamento, à realização de um projeto, a edificantes e laboriosas atividades que beneficiariam muitos. O autor prossegue em seu desabafo: “o que mais dói é a certeza que essa gente é sempre vencedora, pelo menos materialmente, porque constitui a maioria e a maioria simboliza ou representa a força.”

No parágrafo seguinte, como que transportado ao Rio Grande do Norte dos anos 10 deste novo século, vocifera contundente: “Engana-se quem supõe ser o mérito condição essencial na luta pela vida. Pelo contrário, é fator de segunda categoria. Na maioria dos casos, os vencedores não são os inteligentes ou os honestos; são os astuciosos, os dissimulados, os representantes da hipocrisia, que é a forma mais comum de imbecilidade.” HC parecia referir-se à Natal presente, em que impera a nulidade e a burrice, como uma praga devastadora, mal incurável, teima em não nos abandonar. A Natal onde os dignos de atenção precisam trabalhar 10 vezes mais para saírem exitosos com seus “Institutos de Neurociências” ou “Ligas de Ensino”, enquanto os poetas dos refrões “se réie pra lá”, impiedosamente, zombam deles. Ainda no texto, compara os já referidos imbecis a inimigos do conhecimento e do progresso da humanidade, ao dizer que foram gente desta lavra que perseguiu Galileu por não estar de acordo com “as velhas tradições bíblicas”. Ah, se ele soubesse que tais dogmas medievais  continuam a ditar regras em nossa sociedade.

O educador encerra o texto resignado, admitindo o fato que “os imbecis venceram”, pois governam “a Bolsa, a Política e a Ciência”. E conclui de maneira premonitória: “Os de amanhã terão, também, a palma da vitória… E merecem-na”.

14 dias depois, no dia 29 de janeiro de 1899, o senhor “José Capitulino” volta à carga. Em “Os Imbecis II”, aponta seu canhão de verdades condenatórias e insofismáveis para “a indiferença com que a maior parte do público brasileiro encara a vida intelectual do país”. Desta vez, rebate o argumento de que uma pátria essencialmente agrícola não pode cultivar muy proeminente erudição. A isto responde, afirmando que mesmo “os que se presumem letrados por terem feito um curso acadêmico são os mais ferozes no ataque ao nobre esforço dos que se dedicam às letras sem as lições dos mestres de toga”.

O arremate de “Os Imbecis II” é otimista, ao contrário da primeira crônica. Ele cita a construção do Teatro Carlos Gomes (que hoje é o nosso Alberto Maranhão) como indício que não se deve esmorecer. Sugere que se faça uma “comédia ou drama de costumes” para ser encenado no futuro teatro e conclui, alertando: “E não se esqueçam dos imbecis que constituem a classe mais numerosa”. Não sei se esquecemos dos imbecis, mas certamente o mau gosto de nossa elite econômica, a parvoíce flagrante de nossa juventude festiva e as paradas de sucesso radiofônicas se apressam em mostrar que os imbecis não se esqueceram de nós.

Não satisfeito com os 2 primeiros textos, Henrique Castriciano, mais uma vez convocou o distinto senhor José Capitulino para redigirem “Os Imbecis III”. Desta vez, identificou um tipo que persiste ainda em co-habitar nossa metrópole / província: o imbecil que se envergonha do Rio Grande do Norte. Ao se encontrar numa livraria com um grave e sisudo senhor, percebeu como ele se gabava de conhecer bastante os encantos do Rio de Janeiro. Perguntou-lhe: “O senhor é potiguar?” ao que o outro respondeu: “Sou, infelizmente. Antes tivesse nascido nos desertos das Arábias”. Após tal declaração, o fundador da Liga de Ensino do RN deu o veredicto: “Percebi que estava às voltas com um imbecil disfarçado.”

Atencioso, o educador seguiu ouvindo o elegante senhor palestrar sobre todas as virtudes do Rio de Janeiro e os inumeráveis defeitos desta terra primitiva. Não deixava mesmo de enfatizar: “É precioso que se note: acabo de chegar da Capital Federal, sabe? Quem lê, como eu, obras de raro valor literário, não pode aturar os literatos desta terra de jerimuns.” Por fim, o imbecil travestido de intelectual se afastou. José Capitulino / Henrique Castriciano admitiu então irônico: “Fiquei olhando-o pelas costas invejando sua felicidade de pobre de espírito. Que preciosidade!”

Nada mais atual.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 022 – Os imbecis – 22.01.2011”

  1. Bruno Andrade Says:

    Enquanto evoluía no texto, ia pensando mais num curto comentário e você escreveu na última frase. É realmente incrível como tudo é tão atual.

    Parabéns pela descoberta destas preciosidades.

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