Coluna do Novo Jornal – 023 – Fefeu – 29.01.2011

No aniversário natalício de um amigo que morreu precocemente, minha singela homenagem ao grande Fefeu.

***

Fefeu

Frederico Gurgel, o Fefeu.

Devo confessar aos senhores. Tenho um lado reacionário. Alguns dirão: “Eu sabia! Desde que você passou a escrever no Novo Jornal, eu soube disso.” Pois é, a máscara caiu. Mas precipito-me em dizer que não é nada disso que vocês estão pensando. Em minha defesa, tenho a dizer que meu apego a certos valores antiquados não tem nada de ideológico e, portanto, não me convertem em um desses dinossauros que se recusam a aceitar a irrefreável passagem do tempo, que utilizam toda a sua retórica, loquacidade e poder de persuasão para tentar convencer o resto do mundo que a ordem natural das coisas é andar para trás, que os ponteiros bem que poderiam se mover no sentido antihorário e que evoluir não é assim tão bom quanto as pessoas andam dizendo por aí. Diante da impossibilidade de mudar a condição das coisas e de acabar com “todo esse estado de coisas” ou “tudo isso que está aí”, estes mesmos senhores despejam sobre os mais jovens toda a sua frustração, inveja e um pouquinho de raiva disfarçada de ironia, sarcasmo e críticas venenosas.

Não, senhoras e senhores. Não sou um desses. Ainda. Na verdade, minha condição de neo-conservador se manifesta no cultivo de certos hábitos ancestrais, resquícios de eras passadas quando o iPad só era possível em desenhos dos Jetsons e as canetas esferográficas ainda serviam para algo mais além de assinar documentos. Naqueles embrionários dias, quando a escrita a mão só era ameaçada, quando muito, por Gutemberg, uma espécie de Steve Jobs medieval, escrevíamos à mão. Inclusive em agendas.

E é aí onde eu queria chegar. Eu uso agendas. Sabe aquelas da Tilibra, capa meio dura, com uma página para cada dia útil e os fins de semana irmanamente dividindo o espaço? A de 2011 já está a toda, lembrando-me dos compromissos, ajudando a organizar meu tempo, avisando dos aniversários dos amigos, resgatando-me do caos em que minha vida pode entrar caso ela não esteja ali, sempre atenta, alerta, a postos.

Minha agenda 2011 esta semana me deu um recado. Amanhã, domingo, dia 30 de janeiro, é o aniversário de Fefeu. Fefeu era Frederico Gurgel, jornalista, que faleceu no último dia 22 de novembro último. Em princípios de 1998, nos conhecemos no setor V da UFRN. O curso de jornalismo naquela época era, digamos assim, o mais afamado da universidade. Infraestrutura não existia. Professores? Só pra vocês terem uma idéia do nível, Graça Pinto, possivelmente a pior professora do país, era uma das nossas “mestras”. É difícil entender como, em condições tão inóspitas, minha geração produziu talentos da lavra de Alan Severiano, Paulo Celestino e Gudmila Régis. Enfim, fenômenos que só mesmo o setor V da UFRN poderia produzir. Simplesmente não tinha explicação. Talvez o curso de comunicação fosse uma alegoria do Brasil, uma metáfora dessa desordem festiva que é a nossa sociedade tropical, um microcosmos da subversão de regras como regra primordial para formação de hábitos e costumes.

A turma de Fefeu tinha Bruno Cássio, Moisés Albuquerque, Gabriel Trigueiro, Breno Perruci, Yuri Borges, Everton Dantas, Mirella Ciarlini, entre outros. Juntos, aprendemos, acho, sobre filosofia, sociologia, teorias e paradigmas. Lemos jornais na hemeroteca e testemunhamos o esforço do professor Eduardo Pinto levar de sua casa TV e aparelho de DVD (na verdade era vídeo-cassete, mas aí poderia ser que vocês não saibam o que é isso) para tentar nos fazer compreender a semiótica, enquanto falava de maneira divertida expressões como “gótchico” ou “bisontche”. Vimos as aulas de Jânio Vidal e Ricardo Rosado, que chamávamos de “o pai de Luanda”, foi autor de várias frases que ecoam em minha mente até hoje: “O Papódromo é um monumento à nossa bestialidade” ou a melhor de todas: “Não existe vida inteligente num campo de futebol”. Cassiano Arruda, em suas aulas de Comunicação Publicitária, me fez ver que eu deveria era ser publicitário porque são os primos ricos da comunicação, aí, como não sou besta nem nada, decidi ser redator publicitário a repórter. Fefeu, nos primeiros tempos do curso, também dizia que queria ser publicitário.

Passávamos muito tempo conversando nos corredores porque os professores faltavam muito. Dessa forma, nos tornamos uma turma bem próxima na qual o bom humor imperava. Bruno, Fefeu e Breno eram os reis das piadas rápidas e sagazes. Na época, ainda não estavam na moda no Brasil essas comédias em pé, mas é possível que tivessem seguido este caminho se fosse hoje. Gabriel também tinha suas tiradas, mas com outra conotação: áspero, crítico e, claro, politicamente incorreto ao extremo. Moisés ria muito de tudo, mas era mais tímido que os demais. Tocava violão e, como Fefeu gostava de cantar, dava certinho. Em nossa turma, havia outra cantora, Afra. Ambos faziam ótimos duetos embalados pelo violão de Moisés em churrascos que começavam aos sábados e não terminavam nem quando o bom senso nos alertava do perigo da irresponsabilidade desenfreada ou do abuso do álcool. Não me lembro exatamente das paradas de sucesso que vigorava em 1998, mas desconfio que tenha ouvido algumas músicas à exaustão a ponto de hoje toda vez que ouço “My heart will go on” sentir um leve princípio de convulsão, como que acometido por uma overdose de Plasil.

Fefeu era palmeirense, mas acompanhava todos os times, pois gostava de saber das coisas. De todas as coisas. Ele também assistia ao Oscar e via todos os vencedores só para poder nos contar no outro dia. Para mim, ficava claro que ele seria jornalista mesmo, pois sua sede de informações acabaria por convertê-lo num assessor de imprensa dos mais queridos. Desisti do curso de jornalismo alguns semestres depois de ele ter desistido de mim. Fui cursar publicidade na UnP. Por isso, não acompanhei minha turma até o fim e acabei convivendo menos com as gerações vindouras que, tristemente, trouxeram Marlos Apyus e Gladis Vivane.

Nos anos seguintes reencontrava todos na tradicional festa à fantasia anual do curso, a “Fantalismo” que parecia com vandalismo e era boa demais. Fefeu continuou, assim como Breno (repórter), Moisés (editor da TV Cabo Mossoró), Bruno (Chefe de reportagem da Rede Globo – AC), Gabriel (Editor do Diário de Natal) e os outros. Fefeu se formou, trabalhou como assessor de imprensa e nos encontrávamos de tempos em tempos, sempre mantendo a mesma alegria dos primeiros tempos, das boas lembranças da turma de Comunicação Social 98.1, com seu bom humor rápido e certeiro intacto. E foi exatamente para homenagear essa alegria que resolvi escrever esta coluna / tributo de uma maneira leve, sem os ares melancólicos habituais a textos do gênero. Amanhã será o aniversário dele. O primeiro que não passará cá conosco. Faz muita falta. Este mundo superpovoado de rabugice e carente de inteligência parece nos dizer a todo momento que Fefeu partiu cedo demais. Parabéns, Fefeu. E nunca é demais dizer: você faz falta, viu?

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 023 – Fefeu – 29.01.2011”

  1. Carol Carvalho Says:

    sim. faz falta.

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