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Coluna do Novo Jornal – 033 – Somos todos filhos de Gogol – 09.04.2011

setembro 30, 2011

Crônica literária sobre a descoberta tardia de minha parte, de um sensacional.

Boa leitura.

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Somos todos filhos de Gogol

Certa vez fui presenteado com uma antologia de contos chamada “Os 100 melhores contos de humor da literatura universal”. Tratava-se de uma reunião de textos de humor universais. Havia de Millôr Fernandes a Oscar Wilde, passando pela maravilhosa e debochada crônica irlandesa “Manual para fazer churrasco de crianças pobres” de Jonathan Swift. Adorei o regalo. Como bom publicitário que sou, dono de um conhecimento tão abrangente quanto superficial, especialista em porra nenhuma e mestre em me virar nos cinco primeiros minutos de qualquer conversa, poderia ler um texto de cada mestre da literatura bem-humorada mundial e sair por aí dizendo que sei das coisas, que conheço a obra de Fulano de Tal, ou do notável autor Sicrano dos Anzóis, mesmo tendo lido apenas um breve escrito de cada um.

Afinal, basicamente, é isso que os publicitários fazem nas horas vagas. Nós saímos por aí nos vendendo, tentando passar para as pessoas uma imagem vencedora que, nem sempre (ou quase nunca) corresponde à realidade. Em nosso imaginário particular, que tentamos a muito custo, tornar coletivo, somos todos uns Robertos Justus. Se você vir algum dos meus colegas de profissão tentando se passar por entendido de qualquer assunto que não seja propaganda, você estará diante de uma grande farsa. Podemos até saber um pouco de literatura, futebol, cinema, iogurtes achocolatados, automóveis ou neurocirurgia ortodôntica molecular, mas a verdade é que nunca saberemos nada com a real profundidade dos estudiosos e verdadeiros inteligentes.

Digressiono, digressiono. Voltemos agora ao objeto deste texto. Dentre os autores reunidos na antologia de contos, havia um russo (na verdade, ucraniano) chamado Nikolai Gogol. Em minha ignorância publicitária, não o conhecia, óbvio. Porém, o elemento surpresa até que foi bom, pois pude conhecer maravilhado a cada página um escritor muitíssimo à frente do seu tempo que me impressionou pela leveza, a alegria e a naturalidade com que flertava com o absurdo em meio a Czares intolerantes, privação quase que absoluta de bens e alimentos e uma estrutura burocrática pesada privilegiando a imobilidade.

Um dos contos de Gogol contido na coletânea era “O Capote”, a história de um pobre funcionário de repartição, pertencente á mais baixa casta do serviço público russo, que tinha a função de copiar documentos, reescrever com uma bela caligrafia textos redigidos por outros. Seu nome era Kakáki Kakakievitch, vivia na mais autêntica miséria, não dispunha de muita cultura e, por conseguinte, se expressava mal graças a um sofrível vocabulário. Sempre que lhe era oferecida uma oportunidade de melhorar seu status no trabalho, mediante a realização de um trabalho diferente do seu, por mais simples que fosse, recusava-se tremendo de pânico genuíno: “Dê-me algo para copiar. Dê-me algo para copiar.” E dessa forma, escapava de ter que escrever algo de sua própria lavra.

Um dia, o funcionário Kakákievitch decide mandar fazer um capote de fina estampa. Reuniu todas as suas economias e encomendou a melhor peça que suas parcas economias puderam bancar. A partir de então, trajando a recém adquirida indumentária, o funcionário passou a se mostrar mais disposto, dono de um espírito mais alegre, participando inclusive de algumas conversas, coisa que nunca havia feito na vida. Com isso, passou a receber convites que não julgava ser merecedor. O protagonista, apesar de um notório ignorante e desprovido de qualquer carisma ou habilidade social, vê sua vida literalmente mudar devido à nova aparência, algo como alguns ricos natalenses que, mesmo demonstrando incontestáveis demonstrações de burrice e mediocridade, são alvos das mais altas honrarias sociais devido a suas roupas de grife e caros automóveis. Na volta de um dos compromissos sociais para o qual havia sido convidado, Kakáki foi assaltado. Levaram-lhe o capote. Sua vida acaba. Foi definhando, tornando-se silencioso até calar-se definitivamente ao falecer de desgosto. O final fantástico que se segue é tão surpreendente quanto cômico.

Outro conto de Gogol constante na coletânea é “O Nariz”. Este, seguramente, me encantou sobremaneira. A história do assessor de colegiado Kovaliov que uma dada manhã desperta e percebe a falta do… nariz traz tanta galhofa e faz uma sátira tão bem feita aos desmandos e arbitrariedades da burocracia russa, bem como da urgência por patentes e méritos sociais artificiais, que muito me lembrou o demolidor e implacável grupo inglês Monty Python. Ainda mais devido aos recursos narrativos adotados pelo escritor que contou a história do sumiço do nariz sob duas perspectivas: a de quem perdeu e também de quem o encontrou.

É hilariante a forma como o assessor de colegiado Kovaliov, patente civil russa que equivalia ao título militar de major (aliás, o protagonista fazia questão de ser chamado de major) se preocupa muito mais com os prejuízos que a ausência do órgão pode trazer a sua carreira e vida social do que com sua saúde ou flagrante deformação. A maneira cínica com que o homem de meia idade fala de si e do seu estilo de vida parece ter sido escrito por um típico potiguar residente nos melhores condomínios do Plano Palumbo, preocupando-se sempre com o que mais lhe interessa: tudo aquilo que for mais supérfluo. Muito bom.

Meses depois de ler tais contos, encontrei um livrinho chamado “O retrato”. Arrematei no ato e foi graças a este conto que Gogol se tornou definitivamente um dos meus escritores favoritos. A trajetória do pintor que passa de artista promissor a um retratista requisitado na sociedade de São Petesburgo traz o velho dilema do artista que se vende e, por algum dinheiro, joga fora toda uma carreira de excelência dedicada às artes. Tudo isso temperado por uma maldição emanada por um misterioso retrato que o pintor havia comprado e que dá ao conto uma preciosa pitada sobrenatural.

Resolvi escrever sobre o autor ucraniano porque acabei de ler o livro “O Capote e outras histórias”, recém lançado pela Editora 34. A obra conta com 5 contos de Gogol, autor tão importante para a literatura russa do Século 19 que certa vez Dostoievisky afirmou “Somos todos filhos do “Capote”, de Gogol.” Só esta declaração já seria motivo suficiente para lê-lo.

Recomendo a todos aqueles que desejam conhecer um autor clássico com o frescor e a leveza de um bem-humorado texto contemporâneo.

Coluna do Novo Jornal – 032 – Os meninos e meninas do Clowns – 02.04.2011

setembro 28, 2011

Em 2011, uma das coisas mais legais que me aconteceram foi ter recebido um convite para trabalhar com um dos grupos de pessoas que mais admiro na atual conjuntura do mundo como está e do universo como se configura. São as meninas e os meninos do Clowns de Shakespeare, aqueles liiindos.

Bem, pode ser que o trabalho demore mais que o previsto para render frutos, em virtude do enorme sucesso da última peça do grupo, “Sua Incelença Ricardo III” que não pára de receber convites do Brasil e do exterior.

Mas, enquanto a peça não sai, aqui vai pelo menos uma crônica elogiosa (ou babona mesmo. Não vou mentir.) para vocês aproveitarem.

Boa leitura e divirtam-se.

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Os meninos e meninas do Clowns

Uma coisa que aprendi nos últimos 10 anos de publicidades, jornalismos e literaturas é que a soberba e o mérito dificilmente andam juntos. Já vi muitos homens e mulheres extremamente generosos consigo mesmos, profusos em autoelogios, apaixonados pela imagem que projetavam de si para si e os demais, autores de sinceras e exageradas exaltações aos próprios feitos, mas que no fim das contas não eram lá muito dignos de nota. São os famosos embustes, pastéis de vento, muita espuma e pouco chope. O curioso é que essas mesmas pessoas são extremamente críticas com os outros. Para eles, o inferno sempre são os outros.

Vocês conhecem o tipo. Certamente, apenas durante a leitura do parágrafo anterior, já imaginaram vários “amigos” donos de perfis semelhantes, capazes de sair por aí, de megafone em punho, apregoando o quanto são bons. Pessoas que destroem um pouco a nossa fé na humanidade a cada novo encontro. Levam-nos a refletir o quão perdida está a humanidade e se haveria alguma possibilidade de redenção. E eis que surge a surpresa: há sim.

Tais almas pecadoras serão salvas pelas personalidades opostas a elas, gente de comportamento moderado que, mesmo dotados de enorme talento, donos de uma bela trajetória ou realizadores de um excelente trabalho, preferem manter-se revestidos do véu da humildade, sabedores que são de que um elogio, para vogar mesmo, só se tiver origem alheia. Logo percebi que os mais engajados no estilo “tô com tudo e não tô prosa” não tinham muito que oferecer, enquanto os reais merecedores de loas não sofriam desta aguda carência de atenção. Alguns dos mais admiráveis e brilhantes escritores, artistas e profissionais das mais diversas áreas com quem já estive se revelaram pessoas da mais surpreendente simplicidade. Um paradoxo, certamente, como tantos que norteiam as relações humanas. Tais opostos apenas confirmam a regra geral dos homens ou como escreveu certa vez o cronista Antonio Prata: “o que é a humanidade senão essa eterna oposição de uns contra os outros?”

Fiz esse preâmbulo para falar de uma turma que há muito me encanta e orgulha. Um grupo que transformou a paixão pela arte e o teatro em montagens e apresentações memoráveis que ganharam destaque dentro e fora de casa, conquistando o reconhecimento de autoridades nacionais no assunto. Uma trupe arretada que conquistou a simpatia e confiança de alguns dos melhores dramaturgos nacionais, resultando em parcerias engrandecedoras, intercâmbios edificantes que ajudam a desenvolver a produção local graças ao idealismo e generosidade desses moços e moças. Um coletivo que se orgulha de ser exatamente isso: coletivo e, como tal, acaba semeando ótimas e benéficas iniciativas a muita gente, sejam estudantes de baixa renda, a cena cultural da cidade ou, claro, a todos nós que acompanhamos e vibramos com o seu trabalho.

Refiro-me aos meninos e meninas do Clowns de Shakespeare que vêm empreendendo com visão ampla e profissionalismo e têm colhido justamente os frutos do trabalho. Esta semana, alcançaram mais um feito. Sua peça “Sua Incelença Ricardo III” abriu o tradicional Festival de Teatro de Curitiba.  Peça esta, que tem a direção de Gabriel Vilela, um dos teatrólogos de renome nacional que têm se envolvido com o grupo, redundando em espetáculos inebriantes, hipnóticos, autênticos delírios criativos de alguns jovens loucos.

E tudo começou na escola, exatamente como deveria ocorrer com milhares de outras iniciativas educacionais que poderiam resultar em carreiras, ao despertarem nos estudantes talentos que eles poderiam descobrir graças a atividades extraclasses. Eu, por exemplo, comecei a escrever no jornal da minha escola e vi que era o que gostava de fazer. Infelizmente, a maioria dos estudantes do ensino público do RN não tem as mesmas oportunidades dada a pouca importância que a educação recebe por aqui. Mas voltando aos Clowns, tudo começou no Colégio Objetivo. Incentivados pelo professor de Literatura Marco Aurélio, eles começaram a adaptar clássicos literários para os palcos. Isso, lá pelos anos 90. Um ano depois do início do grupo, já fora da escola, encenaram o primeiro Shakespeare: “Sonho de uma noite de verão”.

No fim dos anos 90, promoveram, junto com outros abnegados agentes culturais locais como Gustavo Wanderley e Henrique Fontes, a construção da Casa da Ribeira com o projeto “Na rua da Casa” (que inclusive se parece um pouco com o “Circuito Ribeira” que ocorre amanhã no mesmo local). Na década seguinte, nos anos 00, veio a conquista definitiva da cidade de Natal, com as peças “Muito barulho por quase nada”, “Fábulas”, “Roda Chico”, “O Casamento” e “O Capitão e a Sereia”. Realizaram também o projeto “Fábulas nas escolas”, levando teatro de qualidade para crianças de colégios estaduais. Além de levar suas peças para excursões pelas cidades interioranas do RN. Tudo isto sem falar no enorme sucesso que têm obtido em temporadas paulistas e apresentações em festivais pelo Brasil.

Nesta nova década, já começaram com tudo. Na minha opinião de espectador e fã, “Sua Incelença Ricardo III” é sua melhor montagem. Aí, voltando ao assunto que principiou este texto, você pode pensar: “Nossa, com tanto elogio e babação de ovo pra cima deles, esses artistas devem ser insuportáveis”. Ah, que ironia, jovens leitores. Não. Eles são a mais doce representação da modéstia. Os meninos e meninas do Clowns não deixaram que o reconhecimento pelo bom trabalho realizado se tornasse um monstro deformador de personalidades. Mantiveram o equilíbrio e não se deixaram embriagar pela insensatez tão comum em nossa society composta de nulidades.

Mês passado, eles nos convidaram (a mim e a Patrício Jr., outro escritor local que criou a Editora Jovens Escribas comigo, Daniel Minchoni e Thiago de Góes) para que nós dois escrevêssemos para eles duas adaptações de “Hamlet” para que eles encenem no segundo semestre deste ano. Após quase engasgar de tanta emoção e corar de embaraço, aceitamos eufóricos a missão. Vai ser muito gratificante adaptar um texto consagrado para que seja encenado por pessoas que têm sido verdadeiros ídolos para nós nos últimos, sei lá, 10 anos. Porém, não será um processo órfão de preparação. Passaremos por oficinas de criação para teatro com alguns autores experimentados. Esperamos não justificar a frase do protagonista do filme argentino “O mesmo amor, a mesma chuva” que, a certa altura da película diz: “Ah, Shakespeare! Quantos textos absurdos foram cometidos em seu nome!” Ou que sejam absurdos os textos, mas pelo menos serão interpretados por esses meninos e meninas de quem gostamos tanto. E, já que eles estão excursionando pelo Brasil, aproveito para desejar boa sorte: MERDA!

Coluna do Novo Jornal – 031 – É Fantástico! – 26.03.2011

setembro 26, 2011

Crônica escrita após uma reportagem do programa dominical Fantástico da Rede Globo a respeito da prática do Turismo Sexual em Natal.

Boa  leitura.

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É Fantástico!

Peraí! Deixa ver se eu entendi. Precisou o Fantástico vir a Natal fazer uma matéria sobre turismo sexual para que as nossas otoridades percebessem que existe tal prática em nossa cidade? É isso mesmo? Quer dizer que antes de o programa ter ido ao ar, eles nunca repararam que nossa cidade é um dos destinos preferidos de europeus mais devassos que a Sandy e a Paris Hilton juntas? Será que eles nunca souberam da existência de uma praia urbana chamada Ponta negra, que fica no caminho para o Porto Brasil, onde muitos deles têm casa? Esta praia costumava ser frequentada por jovens natalenses em busca dos aprazíveis ambientes de bares como o Budda, Sargent Peppers, Taverna e alguns outros. Até que os estrangeiros com suas varas em riste, passaram a fisgar nossas cada vez mais jovens cortesãs, abordando vez ou outra algumas indignadas conterrâneas de classe média que passaram a ouvir dos visitantes de além mar perguntas como “Quanto custa?” ou “Aceita dólar?”

Mas isso não foi suficiente para sensibilizar nossos poderes. Os natalenses foram afastados da região próxima ao Conjunto Alagamar que acabou se metamorfoseando  de “Alta Ponta Negra”, como era chamada antes, para “Baixo Meretrício”, como poderia ser referida hoje sem grandes exageros. O apartheid social não parou por aí. Logo contaminaria em maior ou menor grau centros comerciais e até mesmo a praia. Em ambos os casos, há bolsões que são ocupados quase que exclusivamente por gringos e suas acompanhantes locais, nem todas com cara de terem virado muitas folhas de calendário.

Os relatos de estrangeiros se comportando de maneira imprópria, mostrando o mastro das caravelas em público ou sarrando com meninas à luz do dia são frequentes e recorrentes nos últimos anos. Causos que não devem ter ecoado nos restaurantes e lojas da Afonso Pena. Ou até foram comentados por lá, mas de maneira tão desinteressada que pareciam os senhores e suas distintas esposas estar falando de um lugar distante, onde a barbárie e o caos haviam se sobressaído ante a massa inculta, impedindo que qualquer tênue sopro civilizatório surgisse. Para a nossa elite, Ponta Negra não passava de um nome que pouco ou nada significava. Um lugar onde os bons filhos de nossa terra, os bem nascidos do Plano Palumbo, não punham os pés. A não ser em exclusivas ilhas de entretenimento como o bar sertanejo que surgiu próximo ao reduto das prostitutas, uma prova irrefutável da flagrante diferença entre elite econômica e elite cultural em nossa cidade.

A coisa ficou tão evidente que dois estudiosos europeus que andaram por aqui elaborando uma tese sociológica sugeriram botar ordem na putaria. Já que não havia vontade política de coibir o turismo sexual, ou mesmo de investigar o envolvimento de menores de idade, por que não regulamentar uma área, que poderia inclusive ser a do alto Ponta Negra, como local permitido à prática da prostituição, proibindo nos demais lugares de Natal, impedindo o crescimento da animosidade entre locais e visitantes ou o emergente sentimento de xenofobia que se revelava. Seria algo como o bairro da luz vermelha, em Amsterdã. Aí sim, houve reação oficial! Sabem como? Nossos honrados vereadores decretaram que os acadêmicos não eram mais bem-vindos a Natal. Onde já se viu? Dizer a verdade assim, na cara das pessoas? Na minha humilde opinião, agiram como o marido traído que pega a mulher com outro no sofá e, pra resolver o problema, manda queimar o sofá.

Certa vez, um comerciante denunciou a situação à imprensa. Revoltado com a inércia dos nossos representantes, fez uma série de denúncias. Na ocasião, novamente, providências foram tomadas. O então prefeito foi rápido e firme em sua resposta. Mandou todos os tipos de fiscalização possíveis para o restaurante do autor das denúncias. Encontraram uma Coca-cola vencida havia algumas horas e outras sérias ameaças à população merecedoras de pesadas multas, obrigando o empresário a fechar o restaurante. Com isso, nosso alcaide deu o exemplo. A pouco vergonha poderia até continuar, mas ninguém mais ia ter coragem de reclamar.

Mas claro, tudo isso foi antes da Globo vir fazer o Fantástico em Natal. Uma coisa é o Yuno Silva sair de megafone em punho, informando que o problema existe e que ele afugenta turistas mais interessantes. Outra bem diferente é o Zeca Camargo franzir a testa, arquear a sobrancelha e dizer o mesmo. Ao se verem mostrados na telinha do Plim-plim como aqueles  que permitiram que a situação chegasse a esse ponto, os políticos e juristas locais demonstraram grande surpresa e indignação. Deram declarações fortes, prometeram combater finalmente o problema, apareceram na mídia, mas na verdade, nada deverá mudar. Na data em que esta coluna estiver publicada, duas semanas após a reportagem do Fantástico ter ido ao ar, o assunto já terá saído da pauta.

Ao verem seu mundo de isolamento social invadido pela onipresente telinha global, logo nossos chiques e famosos vestiram a carapuça, interpretaram personagens humanos e preocupados com os outros, tentaram manter as aparências, mas assim que as câmeras apontaram para outros locais, despiram-se dessa lenga-lenga toda e voltaram a agir normalmente. Viraram as costas para o mar, para o bairro de Ponta Negra, para tudo que não seja espelho ou umbigo.

E se alguém perguntar: “E os gringos? E as de menor?”, é capaz de responderem: “Que se fodam!”

Coluna do Novo Jornal – 030 – Egito Ê. – 19.03.2011

setembro 23, 2011

A vinda do escritor Joca Reinners Terron a Natal, em março de 2011, a convite dos Jovens Escribas, me motivou a escrever esta coluna, falando do último romance do autor, “Do fundo do poço se vê a lua”, que havia me deixado absolutamente encantado.

Inclusive, Joca Terron é um dos convidados dos Jovens Escribas para participar da “AÇÃO POTIGUAR DE INCENTIVO À LEITURA” que ocorrerá de 17 a 22 de outubro em Natal-RN.

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Egito Ê

Joca Reinners Terron, do seu quarto de hotel no Cairo, contempla as ruas da capital do Egito.

Nos anos 90, em São Paulo, surgiu uma editora independente chamada “Ciência do Acidente”.

Um excelente nome para uma empreitada do tipo, cuja ousadia e criatividade felizmente não ficaram apenas no batismo. O comandante da empresa era o inquieto e exigente escritor Joca Reiners Terrón que durante alguns anos publicou dezenas de títulos de autores jovens ou que não encontravam espaço nas grandes e tradicionais editoras nacionais. Em seu catálogo, a Ciência do Acidente contava com 3 obras do próprio editor: “Eletroencefalodrama” (poesia), “Não há nada lá.” (romance) e “Animal Anônimo” (poesia).

Não li os livros de Joca Reiners Terrón na época de sua publicação (acabei de ler “Não há nada lá.” esta semana). Naquele tempo da Internet rupestre em que os modens eram movidos à lenha da conexão discada, estas exóticas iguarias da cultura alternativa não chegavam a essa esquina do Brasil com a mesma facilidade de hoje em dia. Ainda não estávamos a poucos cliques de distância de tudo. Longe disso.

Só conheci mesmo o texto do autor no seu romance alucinante (e alucinógeno) “Hotel Hell” lançado em 2003 pela “Livros do Mal”, mais uma iniciativa independente que publicava autores contemporâneos, dessa vez encabeçada pelos gaúchos Daniel Galera e Daniel Pellizari. “Hotel Hell” é até hoje um dos livros mais loucos e surpreendentes que já li. Seus personagens surreais que habitavam aquele universo paralelo, um misto de circo, hotel e cidade, protagonizavam cenas tão incríveis que lembro de ter enumerado diversas possibilidades de drogas que o autor poderia ter consumido ao escrever cada capítulo.

Em 2004, Terrón lançou pela Editora Planeta o livro de contos “Curva de Rio Sujo”. O sítio de jornalismo cultural Revista Catorze resenhou o livro há alguns meses. Quem tiver curiosidade, pode acessar o endereço (www.revistacatorze.com.br). Já em 2006, mais um livro de contos com uma premissa bem interessante: todos os protagonistas enredados em tramas pra lá de intensas eram escritores reais, alguns inclusive vivos. A obra, publicada pela Editora Casa da Palavra, se chama “Sonho interrompido por guilhotina”.

Depois deste livro, o autor passou por um período sem lançar nada. Dedicou-se a trabalhos mais cotidianos como as colaborações que faz a jornais, revistas e ao programa literário Entrelinhas, da TV Cultura. Certamente, utilizou esse período para maturar bem qual seria o próximo trabalho literário. Até que recebeu uma proposta que, à La Famiglia Corleone, não poderia recusar. “Você vai pro Egito, passa um mês no Cairo com todas as despesas pagas, atualiza um blog de lá e, na volta, escreve um romance ambientado na cidade. Ah, sim! Vou lhe pagar uma boa grana por isso.” O responsável por essa oferta do tipo “me belisca pra ver se não tô dormindo!” foi o empresário Rodrigo Texeira, responsável pelo projeto “Amores Expressos”. O projeto enviou 16 escritores para capitais do mundo para que eles desenvolvessem uma história de amor. Em troca do dinheiro por topar participar, Joca cedeu os direitos autorais do texto no caso de uma possível adaptação para o cinema. Um negócio de alto risco para o investidor, mas que, caso dê certo, será bom pra todos os envolvidos.

A experiência do escritor no Cairo resultou no romance “Do fundo do poço se vê a lua” (Cia das Letras, 2010) e arrisco dizer que talvez seja o seu melhor trabalho de todos. Pelo menos, dos 4 que li, é de longe o mais instigante e envolvente. Um texto arrebatador, viciante, desses que você não quer largar até que tenha finalmente concluído a leitura. Enfim, sem meias palavras, é bom pra caralh*! O livro mereceu destaque em quase todos os principais prêmios literários de 2010 e venceu o “Prêmio Machado de Assis” de melhor romance do ano, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, deixando para trás nomes como Edney Silvestre e o irmão da ministra da cultura, como é mesmo o nome dele? Ah, sim: Chico Buarque, claro!

A leitura de “Do fundo poço se vê a lua” proporciona tão genuína empolgação que faz querer sair por aí comentando com os amigos sobre a história engendrada com tanto esmero pelo autor. Como poucos amigos locais tiveram a oportunidade de lê-lo, fiquei só na vontade mesmo. A história dos gêmeos paulistas Wiliam e Wilson, o conflito de serem idênticos por fora e totalmente opostos por dentro, a negação e a fuga da realidade empreendida por um deles, a ida para o Egito, a relação com o conceito de duplicidade inspirada na obra de Edgard Allan Poe, o fascínio pela figura de Cleópatra são ingredientes que foram cuidadosamente acrescentados ao romance, seguindo uma meticulosa receita elaborada pelo ardiloso Joca Terrón, até que resultasse num impecável manjar a ser consumido entre suspiros de satisfação e incontidos sorrisos de saciedade.

Pensei no efeito que este romance poderia causar em naqueles leitores bissextos que estariam só esperando um livro realmente bom, uma publicação definitiva, irresistível, impactante e sedutora para passarem de vez para o lado dos leitores habituais. Esta é a história perfeita para todos eles. A obra é perfeita também para ser consumida por adolescentes do ensino médio, jovens recém ingressos na faculdade e pelo público leitor de natal. Foi então que, há algumas semanas, falei com o autor por meio de seu perfil no Twitter (@jocaterron), perguntando se ele toparia vir a Natal para conversar com alunos de escolas públicas, estudantes de Letras e lançar “Do fundo do poço se vê a lua”.

Como eu e meus colegas dos “Jovens Escribas”, os autores Patrício Jr e Daniel Minchoni, estamos preparando um evento chamado “AÇÃO POTIGUAR DE INCENTIVO À LEITURA” para o fim do ano, com o objetivo de incentivar a leitura entre os jovens, a vinda de Joca serviria como um aquecimento e uma espécie de lançamento da Ação para o público e a imprensa.

E o melhor: Joca Reiners Terrón topou vir. Na próxima segunda (depois de amanhã) vai falar sobre o prazer da leitura com estudantes de escolas estaduais, conversará também com alunos de Letras e estará no Gringo’s Bar, em Ponta Negra, a partir das 20h autografando o livro “Do fundo do poço se vê a lua”, cuja trama é ambientada no Egito. Nada a ver com os protestos do mês passado, mas que, como todo ótimo livro, pode causar uma revolução em sua cabeça.

Ação Potiguar de Incentivo à Leitura – uma inciativa dos Jovens Escribas

setembro 22, 2011

Coluna do Novo Jornal – 029 – O professor de Matemática. – 12.03.2011

setembro 21, 2011

Uma crônica sobre um ignorante pai de aluno do IFRN. A ironia: o cara é professor.

Boa leitura e divirtam-se!

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O professor de Matemática.

Deveria ter ilustrado com o Pateta, mas não encontrei.

Sempre admirei as pessoas que demonstram habilidade para lidar com números e desenvoltura para resolver problemas e equações as mais complexas. Os professores de matemática, então, estão no topo da pirâmide evolutiva daqueles dotados de talentos que nunca tive nem terei mais ânimo de desenvolver. Normal. Sempre tive predileção por outras áreas de interesse, matérias como História, Geografia ou Literatura. Acredito que esse mesmo fenômeno se dê, porém ao inverso, com todos que preferem dedicar-se com mais afinco a solucionar cálculos complexos e aplicar fórmulas variadas. O hábito da leitura, sobretudo a leitura literária, acaba ficando de lado, resultando em indivíduos íntimos dos números, mas para quem as letras são ilustres desconhecidas, senhores quase que absolutamente incapazes de interpretar um texto simples.

Numa sociedade como a nossa tantos analfabetos funcionais pode ser perigoso, gerando toda sorte de más interpretações. Aliás, acredito que grande parte dos problemas da humanidade, muitos conflitos bélicos, diversas das mais violentas disputas, enfim, os maiores desentendimentos conhecidos se devem a más interpretações. Gente que entendeu mal o que foi dito, que não atentou para esta ou aquela palavra redentora de algum discurso ou que não teve a noção completa de alguma mensagem cordial. É a não compreensão do que exprimimos que embola o meio de campo das boas intenções e transforma elogios sinceros e desinteressados em supostas críticas ferozes e impiedosas.

Com o que escrevemos esta situação se agrava sobremaneira. Tudo porque a absoluta falta do hábito da leitura em nossa sociedade produz gerações inteiras de indivíduos incapazes de interpretar um texto simples. Um fato ocorrido recentemente em Natal serve para ilustrar bem o que digo. Os leitores deste periódico, bem informados que são, devem ter tomado conhecimento do episódio envolvendo professores do IFRN e um pai de aluna, também professor do Instituto Federal, mas de matemática. Os professores passaram textos de temática sexual, todos publicados em jornais e revistas de circulação nacional. Os textos abordavam o sexo de maneira bem humorada e um deles discorria sobre o pênis. Nada demais.

Na verdade, textos que admitam a prática sexual como corriqueira e saudável, para mim, são muito bem vindos em meio a uma geração reprimida por pais conservadores que foram, eles próprios, influenciados por hábitos interioranos e dogmas religiosos medievais. Se o pênis textual em questão for utilizado também, com fins didático-pedagógicos, melhor ainda. No entanto, o pai de aluna, que ensina matemática, zeloso da inocência da filha, não assimilou bem os textos, havendo interpretado mal (muitíssimo mal) o contexto de cada um deles.  Para o pai e professor, aqueles textos não tinham nada de educativo. Muito pelo contrário: incitavam práticas imorais, inomináveis, socialmente reprováveis, ao tratar de assuntos torpes e abjetos como sexo e até chegar ao cúmulo de citar nominalmente o órgão masculino.

Foi aí que, tomado de irrefreável indignação, revestido de ignorância (e, como se sabe, a ignorância é a mãe da intolerância, do preconceito e da estupidez) o homem resolveu tomar uma atitude simples como uma equação de primeiro grau: processou os inconsequentes e despudorados professores de língua portuguesa que tentavam “corromper a juventude” por meio da infusão de termos pornográficos e de baixo calão, expressões imorais, sexuais, sórdidas.

Na audiência, após ouvir os profissionais da gramática, tomar conhecimento dos termos da acusação e do teor dos textos trabalhados em classe, o juiz considerou improcedente o pedido do docente. Livres do questionamento, mas sentindo-se expostos ao ridículo pelo colega que entende de interpretação textual na mesma medida em que eles dominam análise combinatória, agora são eles que dão o troco, processando o parvo pai da moça por tê-los prejudicado. Espero que os gramáticos não o estejam processando por burrice, uma vez que a culpa não é dele por ser tão néscio, mas sim do pouco ou quase inexistente gosto pela leitura, fato que não é privilégio do professor. No país em que não se compreende metáforas, a falta do hábito de ler nivela todas as classes sociais por baixo, provocando a generalizada má interpretação das mensagens. Acontece nas melhores famílias. Aliás, em quase todas as famílias brasileiras.

Fico imaginando o cotidiano daquele pobre professor de matemática, espécime abundante em nossas hostes, um tipo de cego, condenado às trevas da incompreensão textual, que até consegue vislumbrar as frases formuladas a sua frente, lê-las na celulóide do jornal ou no cristal líquido do seu PC, mas sem saber o que elas significam quando unidas. O coitado conseguiu identificar algumas palavras esparsas nos textos, mas ficou confuso e chocado ao não perceber o que queriam dizer ao serem organizadas em textos. O pobrezinho não entende que, assim como uma dízima periódica, a Palavra também apresenta sequências infinitas de possibilidades.

Possibilidades estas que estão longe de ser realidade para muitos jovens e adultos que padecem deste mesmo mal, o câncer chamado de analfabetismo funcional, subtraindo oportunidades de presente e futuro. É possível salvá-los. Precisamos fazer um trabalho urgente de resgate desta turma, trazê-los de volta das trevas onde se encontram aprisionados. Vamos educar as crianças, os jovens, os adolescentes, incentivá-los a ler, criar neles o gosto pela leitura, mostrar que é divertido, senão eles vão acabar mal que nem aquele professor que está sendo processado por ter entendido mal um texto e acabarão, tal qual o matemático, assustando-se quando lerem a palavra pênis como se estivessem diante de um. Dos grandes.

Coluna do Novo Jornal – 028 – Eu era feio. Agora eu tenho carro. – 05.03.2011

setembro 19, 2011

Das minhas crônicas recentes, esta é uma das que mais gosto. Um belo registro do veraneio de 2011.

Boa leitura e divirtam-se!

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Eu era feio. Agora eu tenho carro.

Dentre os muitos mistérios natalenses, os segredos inescrutáveis e as confidências jamais reveladas, uma grande curiosidade povoa as conversas da classe média e elite da cidade: “quem é@gadelhajunio?”

No sítio de relacionamentos www.twitter.com , uma febre na província desde 2009, têm surgido diversos personagens curiosos. Alguns são fictícios, como é o caso do perfil criado para o personagem Gadelha Júnio. Outros até são verdadeiros, apesar de suas características tragicômicas nos levarem, por vezes, a torcer para que fossem de mentirinha, como o ex-vereador Renato Dantas ou a seiláquemzinhaTalita Moema, uma espécie de miniThaísa Galvão pra chamar de nossa.

Gadelha Júnio é uma sátira a muitos jovens natalenses que representam a um só tempo um modo de vida fortemente provinciano, certamente fruto das nossas raízes interioranas, juntamente com a prosperidade econômica percebida na capital potiguar nos últimos anos. Esses rapazes, aos quais já me referi em crônica anteriormente, são os chamados “raqueiros”. Carregam consigo um forte sotaque a ponto de trocar a maioria das letras J por Rs: “raquejada”, “carralo”, “rarei-te!”. São extremamente ignorantes e preconceituosos, além de vagabundos assumidos e parasitas do dinheiro dos pais. Ostentam o quanto podem, andam de camionetes 4×4 importadas, equipadas com “paredões” de som, idolatram artistas como Wesley Safadão, não abrem mão de seus BlackBerrys e tratam os demais pela alcunha de “majó”. Nutrem um profundo desprezo pelos mais pobres, os que pensam diferente ou qualquer um que não faça parte do seu muitíssimo restrito universo. Contam vantagem de suas façanhas etílicas e consomem uísque importado com a mesma frequência que a maioria de nós bebe água.

Mesmo demonstrando-se totalmente desprovidos de talento, inteligência ou, em muitos casos, beleza, tais jovens são muito populares entre a elite da cidade e costumam ser irresistíveis para as mulheres locais. É que os valores cultuados pela nossa sociedade, e isso não é privilégio da juventude, de maneira alguma, são os mesmos que os do raqueiro. Somos uma cidade materialista e adepta dos prazeres intensos, presentes na embriaguez, no entretenimento pouco elaborado e em tudo que é de fácil assimilação, já que há muito abrimos mão do laborioso esforço de raciocinar. Uma realidade como esta se converte no caldo germinal perfeito para surgirem raqueiros em profusão, dirigindo seus carrões e tornando-se belos e bem interessantes aos olhos das nossas belas natalenses em flor, sempre ávidas por admirarem a beleza interior presente em um bom estofado de couro.

Ao perceberem este quadro particular e a existência de um tipo humano tão rico e promissor em nossa sociedade, o autor por trás de Gadelha Júnio criou um personagem de enorme potencial cômico. Suas histórias vêm sendo lidas por mais de 2000 pessoas, inclusive por muitos que poderiam ser apontados como bastante identificados com o perfil. Esse fenômeno se deve ao fato de os textos serem curtinhos, encaixados nos irrisórios 140 caracteres do Twitter, permitindo que boa parte da nossa juventude carnatalesca, sabidamente analfabeta funcional, possa acompanhar as hilariantes tiradas do jovem fanfarrão.

Gadelha Júnio dirige uma Hilux pela qual declara constantemente todo o seu apreço, uma vez que a camionete é a responsável direta por todas as suas conquistas amorosas. Uma vez, ele disse: “Ontem um prisiarca veio me pidí carona. Olhei pra ele i falei: majó, minha Hilux é igual geladêra, só entra o qui eu rô cumê.” Em contraposição à Hilux, Gadelha tem ódio mortal de quem dirige Uno. “Uma reiz, um motorixta de Uno mi ofereceu uma carona. Eu disse: majó, corte logo minha mão fora, mar num mi peça pra intra aí não.” A burrice do tipo também está estampada em declarações como “orrí dizê qui um tal de Abílio Diniz é mair rico qui eu só porque é dono do pão di açúcar. Rô mandar painho comprá u morro Du careca”. Uma das falas que mais arrancou gargalhadas do personagem foi a respeito de um churrasco para o qual acorreria num fim de semana: “Majores, manhã Rô num aniversário qui é mais fácil faltá areia qui priquito. E olhe qui é na praia!”

Alguns personagens e termos característicos começam a surgir em suas histórias, animando ainda mais os enredos. Wesley (nome provavelmente inspirado no vocalista da Banda Garota) é o caseiro da fazenda do pai de Gadelha Júnio: “Wesley é o fí do caseiro que me ajuda a puxá os boi na raquejada”. Fábio é o carralo. Seu nome deve ser uma homenagem ao Deputado Federal Fábio Faria, um ícone pop da touperice jovial que traz consigo todas as características de um típico raqueiro carnatalesco natalense. E tem o Rô Gadelha que é “tão grosso que uma rez perguntaram si ele tinha cortado o cabelo e ele respondeu: não. Foi minha cabeça qui cresceu!” O termo #BBE (Bem bestinha eu) também já se espalhou pela rede e tem ganho notoriedade de tanto que é repetida em seu perfil.

Resolvi tratar sobre este divertido personagem da web local por causa de um grande sucesso musical dos últimos meses que deverá continuar bombando no carnaval. Uma canção, aliás, que tem tudo a ver com a gente, tudo a ver com Natal. No refrão, um homem fala como mudou o conceito estético que as outras pessoas tinham dele a partir da aquisição de um automóvel. Tirando o tom jocoso e o espírito galhofeiro da canção, o episódio descrito por ela resume bem a maneira como as pessoas passam a ser vistas de maneira diferente, podendo ser aceitas ou rejeitadas de acordo com seus bens.

É como se o natalense precisasse de um atestado de posses, uma espécie de título de nobreza que talvez remeta a nossa herança coronelista que nos mantém em uma situação de atraso político, social e cultural de tal forma arraigada que crescimento econômico nenhum conseguirá superar. E é num ambiente propício como este que pululam os Gadelhas Júnios de verdade, povoando nossas ruas e o litoral, desrespeitando todos a um raio de quilômetros com seu poderoso paredão de som no embalo de “Eu era feio. Agora eu tenho carro. Eu era feio. Agora eu tenho carro.” É não o quê, majó?!

Lançamento “É preciso ter sorte quando se está em guerra.” – Imagens

setembro 16, 2011

Ontem, 15 de setembro de 2011, foi lançado o mais novo livro do autor Pablo Capistrano, o 15º lançado pelos Jovens Escribas. A obra, chamada “É preciso ter sorte quando se está em guerra.” atraiu muitos amigos e leitores de Pablo à livraria Siciliano do Natal Shopping. Logo abaixo, vocês poderão ver alguns momentos do evento.

Pablo Capistrano e o vereador George Câmara

Professor Daladier da Cunha Lima - Reitor da FARN

Pessoal do Natocatem.com.br entrevistam Pablo.

O diretor de cena Anselmo Duarte Jr.

Tirzah Petta e Thiago Lajus. Ele, vestindo Jovens Escribas "Caça-palavras"

Família Capistrano: Antônio, Pablo, Dr. Franklin e Vladimir

Diógenes da Cunha Lima - Presidente da Academia Norte-riograndense de letras

Carol Carvalho veste Jovens Escribas "Caça-palavras"

 

Adriano de Sousa da Editora "Flor do sal"

Henrique Fontes, Pablo, Simona Talma, Quitéria Kelly e Charlote. Henrique veste Jovens Escribas "Sopa de letrinhas".

Carol Carvalho, Nina Barbalho, eu e Luciana Lima. Todos vestindo Jovens Escribas.

Carito Cavalcanti

Yuno Silva

Andrei Gurgel e Danilo Medeiros. Na foto, modelos de camisas Jovens Escribas "Teclas" e "Sopa de letrinhas".

Quitéria Kelly, Simona Talma, Patrício Jr., Márcio Benjamin e Hélber Volpini

 

Fernando Liberato e eu

Deputado Fernando Mineiro recebe seu exemplar autografado...

... e posa para fotografia com o autor.

 

Pablo, Ana Cláudia e a caçula, após a cansativa noite de autógrafos. Semblantes cansados, mas sensação de dever cumprido.

“É preciso ter sorte quando se está em guerra” – Lançamento Hoje

setembro 15, 2011

Coluna do Novo Jornal – 027 – Pinto e Rêgo Advogados Associados – 26.02.2011

setembro 14, 2011

Nesta crônica, homenageio muitos amigos e não-amigos. Os amigos, posso citar nomes. Aliás, até o fiz, para deleite dos mais atentos. Os não-amigos ou apenas conhecidos, como de hábito, não o faço nem sob tortura ou porre bem dado. Quer dizer, com um porre bem dado, pode ser que eu libere a informação.

Boa leitura e divirtam-se!

***

Pinto e Rêgo Advogados Associados

Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo são os orgulhosos sócios do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados”. Para eles, não há causa perdida. Todos os casos são merecedores de empenho genuíno e da mais árdua dedicação. Desde muito cedo, e em ambos os casos, a inegável vocação para o exercício do Direito revelou-se na plenitude de suas personalidades inquietas e ávidas por justiça. Antes mesmo de chegarem à faculdade, ainda na escola, alguns claros sinais já se manifestavam nos garotos. O gosto pela leitura, a tendência a mediar conflitos e a postura altiva que transmitia certa superioridade ante seus pares eram algumas características que poderiam antecipar uma futura carreira jurídica. Porém, nenhuma qualidade deixava mais evidente a desenvoltura dos meninos com a ciência das Leis do que a linguagem adotada por eles.

Tanto um como outro costumava falar sem timidez, discorrendo sobre os mais diversos temas com naturalidade e segurança no semblante. Senhores de vasto vocabulário adquirido com o hábito da leitura, mania considerada estranha por seus colegas avessos a livros e a qualquer outro coletivo de letras impressas que lhes surgisse à frente, eram capazes de explicar a natureza das coisas, o porquê de o universo ser exatamente como é, além da razão por trás dos mistérios da vida, o infinito e tudo mais. As plateias privilegiadas por suas extensas preleções ficavam impressionadas com tamanha erudição e articulação de palavras para expressar pensamentos tão complexos e, ao mesmo tempo, aparentemente simples pela maneira como eram verbalizados por um dos futuros sócios. Em apresentações de trabalhos escolares, deixavam as tias e professoras com os olhos marejados de orgulho, sendo sempre premiados com notas máximas, elogios efusivos e empolgados aplausos dos coleguinhas.

No entanto, o fato de serem leitores contumazes, palestrantes desinibidos ou donos de um magnetismo natural para a admiração alheia não davam plenamente a certeza de que se tornariam profissionais das leis. Eles poderiam muito bem converter-se em líderes políticos destacados por seus dons de oratória, jornalistas premiados ou empresários capazes de excelentes negociações. O detalhe que determinava o veredicto definitivo a respeito de qual trabalho realizariam na idade adulta se encontrava no conteúdo do que eles falavam. Adriano Sérgio Rêgo e Giovanni de Sousa Pinto eram ases na arte de falar, falar e não dizer porra nenhuma! Para um observador mais atento, estava mais do que na cara que aqueles dois ali não poderiam dar para outra coisa que não fosse para advogados.

Porque os advogados mais destacados no meio são aqueles que não são compreendidos, mas falam bonito. E bonito, no Direito, quer dizer complicado. E complicado quer dizer incompreensível. Para ser bem sucinto (coisa, aliás, que um advogado nunca pode ser): em linguagem de gente não pode.

Os meninos tiravam 10 nos trabalhos, mas as tias não entendiam nada. Achavam uma gracinha e isso era o que importava. Os amiguinhos paravam para ouvi-los mesmo não fazendo a mais remota ideia do que eles diziam. “Data vênia? Que danado é isso?” Ninguém sabia, mas todo mundo achava aqueles discursos maravilhosos. Quando terminaram a escola, entraram na faculdade de Direito sem muito esforço, uma vez que metade da população universitária de Natal estuda exatamente o mesmo curso, refletindo na enorme demanda.

Nas salas de aula, a dupla encantou todo o corpo docente e logo se destacou entre os estudantes. Tarefa bastante facilitada pela grande maioria de analfabetos funcionais predominando no curso, alunos que fariam o Tiririca se sentir apto a pedir uma nomeação à ABL. Após a graduação e a aprovação no exame da OAB, os jovens e brilhantes profissionais seguiram o caminho natural, abrindo aquele que viria a se tornar o escritório referência em Natal.

O “Pinto&Rêgo Advogados Associados” atua em todas as áreas. Não há empresário, político ou figurão em toda a terra dos Magos bacharéis que não tenha se utilizado dos serviços dos mais proeminentes advogados locais. As grandes empresas potiguares também são assistidas pelos homens de ternos impecáveis e reputação inabalável. É verdade que nem sempre eles saem vencedores de suas causas. Costumam, inclusive, perder muitas delas. Recentemente, defenderam, sem sucesso, uma famosa operadora de telefonia móvel que andava meio em baixa no Estado. Também foram eles que tentaram fazer valer a inspeção veicular obrigatória para todos os automóveis e, como não poderiam deixar de ser, também tentam provar a inocência de alguns indiciados pelas operações Hygia, Foliaduto, Impacto e várias outras.

O escritório já foi contratado pelas autoridades para assegurar a realização da Copa em Natal. “Se não em 2014, que porventura possa-se imputar a louvável disputa ludopédica no subsequente ano, ou mesmo, por que não?, a competição mundial do centenário esporte bretão poder-se-ia realizar-se posteriormente, promovendo a prática mais racional de prazos condizentes com a realidade do espírito público brasileiro, democrático e republicano.” chegou a declarar impávido às páginas deste Novo Jornal o Dr. Giovanni de Sousa Pinto. Esta afirmativa nos revela dois hábitos da dupla: estar sempre presente na imprensa e usar incessantemente a mesóclise. É que os empresários das leis consideram que aparecer na mídia é mais importante que ganhar as causas, pois passar uma postura vitoriosa é, nesta profissão e na nossa cidade, bem melhor do que efetivamente ser um vencedor. Imagem é tudo. Disso, eles não têm dúvidas.

A fama dos parceiros Adriano Sérgio Rêgo e Giovanni de Sousa Pinto chegou até mesmo à esfera nacional na ocasião em que ambos foram chamados para defender políticos prejudicados pela Lei da Ficha Limpa. Não adiantou muito. A lei passou, mas a defesa estava tão irrepreensivelmente redigida que o reconhecimento da competência do escritório só cresceu com o episódio. Este, aliás, parece ser a real explicação para o magnetismo natural que os advogados têm junto aos natalenses: o charme e a arte da retórica, o convencimento das mentes incautas pela apresentação de argumentos eruditos e irresistíveis, mesmo que não compreendidos. Com isso, os sócios vão agariando mais e mais clientes na elite natalense, mesmo a despeito de acumularem derrotas e prejuízos em igual proporção. Insucessos estes que sempre são perfeitamente justificados com as escusas mais eloquentes. Mas, enfim, fazer o que? “Essa é Natal, ninguém se dá muito mal”. E, diria eu, alguns se dão muitíssimo bem. Sem mais, Meritíssimo.

Jovens Escribas – Eu visto essa camisa!

setembro 12, 2011

Nos últimos meses, os Jovens Escribas promoveram uma ação para arrecadar recursos para custear o novo livro de Pablo Capistrano, “É preciso ter sorte quando se está em guerra”. Abaixo, segue uma breve galeria de fotos com algumas das pessoas que nos ajudaram com esta iniciativa.

Thiago Lajus, Carlos Fialho, Vicente Vitoriano e Dimetrius Ferreira

Patrício Jr.

Caio Vitoriano

Joca Reinners Terron

Sérgio Fantini

Nina

Ana Morena

Fernando Liberato

Henrique Fontes

Ramon, Fábio e Beto.

Leandro Menezes

Sávio

Pablo Capistrano

Muito obrigado a todos que nos ajudaram e quem quiser adquirir a sua camisa, ainda restam camisas amarelas masculinas e femininas (babylook) e também verdes e pretas em tamanhos P e M femininas (babylook). Custam R$ 35 cada, duas por R$ 60 ou três por R$ 75.

 

Coluna do Novo Jornal – 026 – Moleskine – 19.02.2011

setembro 12, 2011

Singela crônica sobre literatura, caderninhos de marca e minhas manias de grifador e anotador compulsivo. Saiu no Novo Jornal em 19 de fevereiro deste ano.

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Moleskine

Um Moleskine.

 

Em novembro de 2007, recebi um presente de um amigo escritor. O jovem me perguntou candidamente “você tem um Moleskine?”, como se querendo apenas averiguar se eu tinha o hábito de comer sempre que a fome vinha ou se deitava quando tomado pelo cansaço. Mais do que a minha negativa, acho que meu olhar atônito me delatou. Junto a um inocente “não” expressei com o cenho franzido um inconfundível “do que diabos esse homem está falando?”, conduzindo-o à importante descoberta sociológica de que havia um escritor no mundo, autor de crônicas semanais e livros eventuais, que não conhecia um Moleskine.

 

O incrédulo amigo mal pode disfarçar sua decepção. Explicou-me que o Moleskine é um caderninho de capa de cartão, preso por um elástico, que deve ser levado no bolso para todos os lugares onde eu fosse, a fim de guardar as melhores idéias que eu tivesse, impedindo-as de escorregarem para o implacável buraco negro do esquecimento e o limbo dos textos jamais escritos. Quis saber como eu fazia para recordar-me dos motes textuais que eu tinha, digamos, durante o banho, ou num dos mais férteis ambientes criativos do mundo: uma mesa de bar. Contou-me que a tradição deste imprescindível instrumento de trabalho artístico, surgido na Itália e logo adotado por caras como Ernest Hemingway, Pablo Picasso e Vincent Van Gogh, já durava séculos e que eu deveria ter um para acompanhar-me onde quer que eu fosse. Após contextualizar a história toda, presenteou-me com um bonito Moleskine de capa preta, na esperança que eu pudesse ter uma produção mais profícua, não a ponto de escrever nada à altura de “O velho e o mar” ou rabiscar uma fase azul toda minha de Bic, mas que eu escrevesse sempre, escrevesse mais.

Desde então, passou a ser acompanhante inseparável (o Moleskine, não o desprendido amigo que me presenteou com ele). Nunca mais precisei conviver com aquelas terríveis angústias que se apoderavam de mim nos dias seguintes após as farras, por não lembrar das tiradas espirituosas e das muitíssimas pautas ditas despretensiosamente sob o efeito catalisador do álcool. Dores de memória fraca maiores que qualquer ressaca. As enormes filas, fossem num banco ou no aterrorizante DETRAN também já não causavam grandes temores. Logo eu sacava o caderninho, uma caneta e me punha a dissertar sobre temas que poderiam virar crônicas, contos, capítulos de um romance, postagens para o blogue. Foi dessa forma que escrevi vários dos textos de “Mano Celo”, meu terceiro livro, lançado em 2009. Aproveitei também para tomar nota de dezenas de citações que extraí maravilhado de diversos títulos que li neste período. Tudo muito bom até que semana passada, quando terminei de preencher todos os espaços em branco no papel aperolado do meu caderninho de grife.

Antes que alguém se apiede de minha pobre alma escriba, adianto-me, informando que já adquiri outro, à imagem e semelhança do primeiro. Na verdade, o tema desta crônica não é a lamentação de uma perda. Não. De forma alguma. Muito pelo contrário: quero dividir com vocês os registros (pelo menos alguns) que fiz no meu primeiro Moleskine e deleitar-me diante da possibilidade de seguir registrando novas ideias, rascunhos, citações e até textos inteiros. Cada folha em branco representa um universo de possibilidades.

Foi escrevendo a mão nos mais inóspitos ambientes e variadas situações que escrevi crônicas como: “Texto lento”, “Baile dos coroas”, “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ.”, “O roteirista de Stallone Cobra”, “O polvo não está saindo hoje”, “O relógio que vovô usou”, entre outras. Mas, mesmo havendo a grande maioria das páginas recebido contribuições de minha autoria, o que mais gosto no Moleskine é a profusão de trechos que me chamaram a atenção como leitor.

Quando inaugurei as primeiras páginas, colorindo-as com minha tenebrosa caligrafia, estava lendo “O Complexo de Portnoy” de Philip Roth. Por isso, uma das primeiras anotações era uma perigosa e verdadeira constatação do protagonista:  “Que homem já venceu uma discussão com o próprio pênis? Quando ele se levanta, o cérebro se enterra no chão.” Na página seguinte um trecho de Xico Sá, extraído de “El cabalero solitário”: “No hay libro, por malo que sea, que no tenga alguna cosa buena. Em livre tradução deste portunholista selvagem que não vale um falso Guarany em cédula rasgada: até mesmo no mais odiável compêndio poderemos pescar alguma nobre manjuba perdida nos mares gutemberguianos.”

De um conto de João Gilberto Noll em “O cego e a dançarina” veio a frase: “Quando voltou, era outra Diana: olheiras e reticências”. Para mim, esta frase representa toda a obra do autor gaúcho cheia de poesia e sutilezas em cada pedacinho de prosa. Anthony Burgess, em seu “Laranja Mecânica” também teve direito a alguns registros: “A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem” e também “É gozado como as cores do mundo real só parecem reais de verdade quando você as vê na tela”. Do vencedor do Nobel de literatura J. M. Coetzee e seu “O homem lento” veio a pérola “Nossas mentiras revelam tanto de nós quanto nossas verdades”.

Porém, o grande recordista de participações no caderninho é Antonio Lobo Antunes, do livro “Os cus dos Judas”, presente do amigo jornalista Paulo Araújo que havia passado uma temporada em Angola. Lobo Antunes, com seu estilo único e arrebatador, tecia figuras linguísticas maravilhosas como “O dia estava triste como a chuva num recreio de colégio” ou ainda “O sol alegre como um sorriso toca xilofone nas persianas”. O escritor português parece ter uma idéia concreta sobre tudo, explicando para nós toda a complexidade do mundo, mas de uma forma que nós possamos entender. Sobre a velhice, ele diz “Afasto-me dos retratos do ano passado como um barco do cais.”

As citações de “Os cus de Judas”grafadas a mão são muitas, mas não caberiam aqui neste espaço. Por isso, encerro com uma das que mais gosto: “Ah, as refeições frente a frente, em silêncio, cheias de um rancor que se palpa no ar como a água de colônia das viúvas.”

Espero que as páginas do novo Moleskine, recém inaugurado, possam abrigar palavras ordenadas tão magistralmente quanto estas. E que eu lembre de dividi-las com vocês aqui neste espaço.

Coluna do Novo Jornal – 025 – Ai, como eu sou intolerante. – 12.02.2011

setembro 11, 2011

Um belo dia, me acusaram de intolerante por ter citado um empresário local em crônica do Novo Jornal por ele ser um exemplo bastante representativo da mediocridade reinante em nossa sociedade. Bem, cá do meu canto, quieto, resolvi escrever uma resposta. Foi daí que surgiu a coluna “Ai, como eu sou intolerante”, publicada em 12 de fevereiro de 2011.

Boa leitura e divirtam-se!

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Ai, como eu sou intolerante.

Escrever crônicas semanais aqui no Novo Jornal ou textos opinativos no meu blogue pessoal (blogdofialho.wordpress.com) me obrigam por vezes a pisar nos calos de alguns. Normal. Uma coluna autoral como esta serve para expressar a opinião de quem a assina e isso nem sempre agrada a todos que a leem. Não raro, os próprios colunistas são também alvos de críticas por suas palavras contrariarem interesses ou posições de outrem.

Porém, venho até aqui dividir com vocês certa preocupação. Temo tornar-me um “intolerante intelectual”, aludindo de forma preconceituosa o louvável trabalho de beneméritos natalenses. Evito fazer parte, mesmo que involuntariamente, do setor da mídia que se diz “engajado” e “intelectualizado”. Estremeço ante a aterrorizante possibilidade de me converter em um redator demasiadamente refinado, um colunista acadêmico ou (O horror! O horror!) um blogueiro progressista. Deus que me defenda!

Será que tenho alimentado em meu ser uma odiosa e abjeta persona que faz da incompreensão, agressividade, preconceito e inveja, os propulsores de uma modalidade de crítica parnasiana? Uma necessidade de falar mal dos outros pelo simples ato ou efeito de falar mal dos outros? Ou, quem sabe, eu encontre, no hábito de criticar com cáustica picardia e demolidora perspicácia a subentendida afirmação de que os defeitos alheios ressaltam sobremaneira minhas “inegáveis qualidades”? Será que tenho sido invadido por tais armadilhas da vaidade? Venho sendo assaltado pelo veneno do ódio e da ambição desmedida? Será que sou um patrulheiro ideológico? Escondo, mesmo sem dar-me conta, simpatias partidárias dissimuladas?

Refleti demoradamente sobre todas estas questões, deitado em uma rede na varanda, contemplando o mar e lendo “América” de Robert Crumb e “O Capote e outras histórias” de Nikolai Gógol (percebam bem o “redator refinado” e “colunista acadêmico” em todo o seu esplendor, já que me utilizo deste parágrafo apenas para exibir diante de vocês minha cultura expressa no gosto pela leitura e no involuntário álibi de autores que nem estão aqui pra se defender. Tudo isso, claro, disfarçado de uma pretensa despretensão, ao citar o hábito simples de vislumbrar a natureza no embalo da rede. Fecham parênteses.).

Após pensar sobre minha condição atual cheguei à seguinte conclusão: eu sou sim um terrível e incorrigível intolerante.

Sou intolerante contra o culto à ignorância, a ode à burrice, a devoção explícita à mediocridade natalense que acabará por definir nossa identidade de povo de segunda classe e será eternizada junto às futuras gerações.

Sofro com a revolta que aflora em mim diante de parlamentares conterrâneos que votaram no próprio aumento de salário.

Rio desgostosamente para não chorar de políticos que não fazem nada a não ser namorar celebridades gostosas dotadas de coeficiente intelectual equivalentes a suas próprias cabecinhas ocas, enquanto promovem festas exclusivas.

Nutro um irreversível preconceito contra aqueles que desviam dinheiro de escolas, ambulâncias, estradas, das secretarias de educação, do Foliaduto, do DNIT, da SEMOB, da PQP!

Tenho verdadeiro asco de todos os que recebem suborno para aprovar projetos que contrariem as leis do município \ Estado\ país, que recebem um por fora para facilitar atos moralmente condenáveis e até mesmo para realizar trabalhos que até são favoráveis à população, mas que só saem do papel após um reforço na remuneração do secretário \ assessor \ gerente \ diretor.

Desaconselho o contato com qualquer um que tenha um histórico de calotes e maracutaias, que mesmo faturando milhões, nunca cogitem saldar as dívidas do passado, que acreditem que o fato de terem se tornado ricos possa servir de fator redentor a sua vida pregressa, mesmo que alguns “amigos” afirmem isto, até mesmo em colunas de jornal.

Passo mal ao constatar que o atrofiamento dos córtex cerebrais conterrâneos seja a regra, a prática usual, o único caminho da nossa juventude e que, quando alguém tenta sugerir uma revolução por meio da educação, os poderosos de plantão acreditem que a melhor via é o corredor da folia.

Não tolero em qualquer hipótese o egoísmo desenfreado que molda nosso jeito de ser, a total e absoluta falta de consideração pela cidade, pelos demais cidadãos, visível nas pequenas contravenções cotidianas, desde o lixo que jogamos no chão, passando pela trancada que damos no trânsito e pelo troco a mais que nos recusamos a acusar e devolver.

Fico estupefato com jornalistas que defendem a “livre iniciativa” de favorecerem este ou aquele grupo político e depois saem se dizendo imparciais. Ah, façam-me o favor!

Divirto-me com alguma condescendência ao perceber tantos colegas autoelogiosos em nossas páginas impressas ou na blogosfera local. “Eu dei tal notícia primeiro”. “Eu sou amigo de beltrano”. “Eu sou foda!” Mal sabem eles que elogio, pra valer de verdade, tem que vir dos outros.

Enfim, são muitos os sentimentos impuros a serem sufocados em meu coração. Preciso fazer um persistente trabalho de reabilitação, um constante exercício de amor ao próximo, de compreensão. Posso até ficar amigo, sei lá, do Presidente da Assembleia, Deputado Ricardo Mota, tornando-me seu fiel escudeiro e incondicional defensor, estando junto dele se um dia ele se tornar, digamos, vice-governador. Ou quem sabe, eu posso até passar a ser o último natalense a gostar da Micarla. Poderia também virar fã de alguma banda de forró da cidade. Olha aí que beleza: “Vou não. Posso não. Minha mulher não deixa não.”

Ou então continuo sendo o mesmo intolerante intelectual que tenho me revelado. Esse monstro que ressurge no Novo Jornal todos os sábados com sede de vingança, para praticar um injustificável e perverso patrulhamento ideológico.

Ai, como eu sou intolerante!

Jovens Escribas – Lançamento de “O Verso e o Briefing” – Imagens

setembro 9, 2011

 

Clotilde Tavares autografa o livro bonitão com capa e diagramação de Danilo Medeiros.

 

Ana Morena, Clotilde e Rômulo Tavares. Família que faz arte unida, permanece unida.

 

Eu, Clotilde e Patrício.

 

Jão, Rayssa e Clotilde

O homem por trás dos renomados Óculos Volpini: Hélber.

 

Carlos e Nina Fialho, lindinhos. S2

 

Quitéria e Charlote pretigiam Clotilde.

Só os caras: Adriano de Sousa, Carlos Fialho, Lucílio Barbosa, Patrício Jr. e Rômulo Tavares (o enviado).

 

O making of da foto anterior.

 

Eu, Nina, Patrício e Quitéria.

 

Vicente Vitoriano e Maria Nunes. Só tinha gente bonita.

 

O ex-prefeito Carlos Eduardo. Só tinha gente importante.

 

Lucílio e Liane. Só tinha gente bacana.

 

Thiago Lajus e Dimetrius Ferreira tietam Vicente Vitoriano e Carlos Fialho. Só tinha gente mazela.

Coluna do Novo Jornal – 024 – Onde o cientista veio amarrar seu bode? – 05.02.2011

setembro 9, 2011

Em 05 de fevereiro deste ano, minha coluna no Novo Jornal foi a respeito de uma das pessoas que mais admiro na atualidade. Após assistir à palestra promovida pelos Blogueiros Progressistas, apesar de desconfiar de que eu faça parte de uma ala mais retrógrada deste grupo capitaneado pelo Daniel Dantas, Sérgio Vilar e cia, resolvi homenagear o neurocientista Miguel Nicolelis, a pessoa que mais divulga Natal e o RN para o mundo nos dias de hoje. Espero que gostem.

***

Onde o cientista veio amarrar seu bode?

Miguel Nicolelis

Assim que chegou a Natal, na primeira semana na aprazível e acolhedora capital potiguar, o neurocientista Miguel Nicolelis concedeu uma entrevista à TVU. Ele explicava sobre a abrangência de seus projetos de pesquisa no Instituto de Neurociências que iria inaugurar, além das ações educacionais que ofereceria a milhares de crianças potiguares a oportunidade de receber uma educação de excelência. Era um programa que permitia participação popular e uma senhora ligou para fazer algumas perguntas. Foi então que deu-se o seguinte diálogo:

Telespectadora: “O senhor tem pretensão de se candidatar a algum cargo público no Rio Grande do Norte?”

Miguel Nicolelis: “Não.”

Telespectadora: “O senhor é um empresário rico e veio ganhar muito dinheiro aqui?”

Miguel Nicolelis: “Não.”

Silêncio.

Telespectadora: “O senhor… é louco?”

Naquele momento, o cientista deve ter tido a primeira noção de como pensavam os potiguares. Nós, esse povo que leva a “Lei de Gérson” à enésima potência, que só nos dignamos a dar um prego numa barra de sabão se ganharmos algo com isso, estávamos recebendo a visita de um alienígena. Um homem que, apesar de bem sucedido, mundialmente reconhecido e realizado profissionalmente, pensava e agia em prol dos outros, do bem comum, dos benefícios que as ideias podem gerar a uma comunidade. Talvez ele tenha se perguntado internamente: “Onde é que amarrei meu bode? Onde diabos estou me metendo?” Mal sabia ele que nossas cabecinhas de natalenses limitados não estão habituadas a valores nobres como a benevolência e a cortesia. Causa-nos estranhamento ver alguém disposto a trabalhar pelas pessoas de maneira abnegada. Logo nos dizemos intimamente: “Aí tem coisa.”

O trabalho teve início e, em pouco tempo, além do Instituto de Neurociências, Miguel Nicolelis fundou também o Campus do Cérebro e 3 escolas que têm levado ensino de altíssimo nível a crianças pobres de Cidade da Esperança, Felipe Camarão e Macaíba. Sua iniciativa foi motivo de matérias na mídia nacional e internacional, com tanto destaque quanto as pesquisas que coordena em diversos laboratórios espalhados pelo mundo. Graças a este forasteiro, portanto, Natal se tornava destaque mundo afora por algo verdadeiramente digno de louvor.

Há alguns dias, Nicolelis conversou com um grupo de jornalistas e blogueiros locais. O tema do bate-papo era ameno: mídias sociais. Os desdobramentos da conversa, porém, foram bastante reveladores de tudo o que vem acontecendo desde sua chegada à cidade dos Reis Magos até hoje. Logo no início de sua palestra formulou uma curiosa e essencial questão: será que a identidade que assumimos na internet é realmente a nossa identidade? O palestrante partiu de uma recente discussão que travou via Twitter com uma notória anta da blogosfera potiguar que vive de exibir seu parco vocabulário e nenhuma intimidade com o vernáculo, publicando em sua página as mais irrelevantes asneiras e enfatizando toda a sua touperice ao escrever reticências sempre que lhe faltam palavras (e não são poucas as vezes em que isto ocorre). O diálogo virtual de Nicolelis com a jornalista de córtex cerebral pouco arrojado iniciou-se quando o paulista discordou de uma declaração que ela deu em sua página no microblog. Ao se ver desmoralizada por ter tido sua opinião confrontada por tão proeminente personalidade, a senhora partiu para um torpe e elementar expediente: tentar retirar de seu interlocutor a credibilidade, acusando-o de não ser quem ele dizia ser. Obviamente que a suspeita da paquidérmica e espertalhona blogueira durou pouco e ela passou a ser motivo de piada, como sói ocorrer cada vez mais habitualmente.

O episódio supracitado é apenas mais um do já extenso rosário de pequenas questões com que o cientista tem se deparado cá na província. Questõezinhas pequeninhas porque muitas vezes nós somos um povinho pequenininho. Aliás, tentar provar sua identidade a uma pobre infeliz é bobagem perto da duríssima cruzada de Nicolelis para dotar de mínima infraestrutura a rua do Instituto de Neurociências. A rua carece de asfalto, mas o ministério público não permite. Ele quis construir uma escola, mas disseram que só deixariam se fosse com banheiros químicos. Tudo bem se o argumento for a proteção dos lençóis freáticos, mas o que impressiona é que a poucos metros do local o ministério público e a Prefeitura não fizeram nadinha para impedir a construção de algumas enormes torres de apartamento que certamente não devem ter instalado banheiros químicos no lugar dos convencionais. Como explicar isso? Alguém tem alguma po$$ível $olução para e$$e mi$tério?

Fico imaginando o Nicolelis interrompendo suas pesquisas sobre a interface cérebro-máquina, parando por alguns instantes seus estudos que podem culminar com a descoberta da cura do Mal de Alzheimer ou na reabilitação de pessoas com lesão na medula, descontinuando a coordenação dos laboratórios que chefia pelo mundo, para fazer mais um apelo às autoridades por um pouquinho de asfalto, a parte que lhe poderia caber neste latifúndio.

É de impressionar que, apesar de tantas provações, de todo esse caminho tortuoso, ele não desiste. Traz consigo a paciência peculiar aos ricos de espírito, aos bem-aventurados que vêm para nos salvar. No fundo, ele sabe que a salvação de nossa terra está na educação. Que nós já estamos perdidos. A última esperança deve ser depositada nas crianças. Essas ainda têm jeito. Vai continuar pregando contra a pequenez e a idiotice reinante, tentando nos alertar para as coisas que realmente importam. Certa vez, ele disse: “O natalense vive de migalhas. O verdadeiro desenvolvimento está na educação, na pesquisa”. Quase fundiu as cabecinhas ocas das autoridades locais com tal declaração. Eu mesmo tenho algumas dúvidas com relação ao senhor Miguel Nicolelis. A maior delas, com certeza, é: o que diabos ele veio fazer aqui nesse fim de mundo? Por que um cientista reconhecido mundialmente veio amarrar seu bode aqui em Natal? E, assim como a senhora que ligou para o programa da TVU: o senhor é louco?