Coluna do Novo Jornal – 024 – Onde o cientista veio amarrar seu bode? – 05.02.2011

Em 05 de fevereiro deste ano, minha coluna no Novo Jornal foi a respeito de uma das pessoas que mais admiro na atualidade. Após assistir à palestra promovida pelos Blogueiros Progressistas, apesar de desconfiar de que eu faça parte de uma ala mais retrógrada deste grupo capitaneado pelo Daniel Dantas, Sérgio Vilar e cia, resolvi homenagear o neurocientista Miguel Nicolelis, a pessoa que mais divulga Natal e o RN para o mundo nos dias de hoje. Espero que gostem.

***

Onde o cientista veio amarrar seu bode?

Miguel Nicolelis

Assim que chegou a Natal, na primeira semana na aprazível e acolhedora capital potiguar, o neurocientista Miguel Nicolelis concedeu uma entrevista à TVU. Ele explicava sobre a abrangência de seus projetos de pesquisa no Instituto de Neurociências que iria inaugurar, além das ações educacionais que ofereceria a milhares de crianças potiguares a oportunidade de receber uma educação de excelência. Era um programa que permitia participação popular e uma senhora ligou para fazer algumas perguntas. Foi então que deu-se o seguinte diálogo:

Telespectadora: “O senhor tem pretensão de se candidatar a algum cargo público no Rio Grande do Norte?”

Miguel Nicolelis: “Não.”

Telespectadora: “O senhor é um empresário rico e veio ganhar muito dinheiro aqui?”

Miguel Nicolelis: “Não.”

Silêncio.

Telespectadora: “O senhor… é louco?”

Naquele momento, o cientista deve ter tido a primeira noção de como pensavam os potiguares. Nós, esse povo que leva a “Lei de Gérson” à enésima potência, que só nos dignamos a dar um prego numa barra de sabão se ganharmos algo com isso, estávamos recebendo a visita de um alienígena. Um homem que, apesar de bem sucedido, mundialmente reconhecido e realizado profissionalmente, pensava e agia em prol dos outros, do bem comum, dos benefícios que as ideias podem gerar a uma comunidade. Talvez ele tenha se perguntado internamente: “Onde é que amarrei meu bode? Onde diabos estou me metendo?” Mal sabia ele que nossas cabecinhas de natalenses limitados não estão habituadas a valores nobres como a benevolência e a cortesia. Causa-nos estranhamento ver alguém disposto a trabalhar pelas pessoas de maneira abnegada. Logo nos dizemos intimamente: “Aí tem coisa.”

O trabalho teve início e, em pouco tempo, além do Instituto de Neurociências, Miguel Nicolelis fundou também o Campus do Cérebro e 3 escolas que têm levado ensino de altíssimo nível a crianças pobres de Cidade da Esperança, Felipe Camarão e Macaíba. Sua iniciativa foi motivo de matérias na mídia nacional e internacional, com tanto destaque quanto as pesquisas que coordena em diversos laboratórios espalhados pelo mundo. Graças a este forasteiro, portanto, Natal se tornava destaque mundo afora por algo verdadeiramente digno de louvor.

Há alguns dias, Nicolelis conversou com um grupo de jornalistas e blogueiros locais. O tema do bate-papo era ameno: mídias sociais. Os desdobramentos da conversa, porém, foram bastante reveladores de tudo o que vem acontecendo desde sua chegada à cidade dos Reis Magos até hoje. Logo no início de sua palestra formulou uma curiosa e essencial questão: será que a identidade que assumimos na internet é realmente a nossa identidade? O palestrante partiu de uma recente discussão que travou via Twitter com uma notória anta da blogosfera potiguar que vive de exibir seu parco vocabulário e nenhuma intimidade com o vernáculo, publicando em sua página as mais irrelevantes asneiras e enfatizando toda a sua touperice ao escrever reticências sempre que lhe faltam palavras (e não são poucas as vezes em que isto ocorre). O diálogo virtual de Nicolelis com a jornalista de córtex cerebral pouco arrojado iniciou-se quando o paulista discordou de uma declaração que ela deu em sua página no microblog. Ao se ver desmoralizada por ter tido sua opinião confrontada por tão proeminente personalidade, a senhora partiu para um torpe e elementar expediente: tentar retirar de seu interlocutor a credibilidade, acusando-o de não ser quem ele dizia ser. Obviamente que a suspeita da paquidérmica e espertalhona blogueira durou pouco e ela passou a ser motivo de piada, como sói ocorrer cada vez mais habitualmente.

O episódio supracitado é apenas mais um do já extenso rosário de pequenas questões com que o cientista tem se deparado cá na província. Questõezinhas pequeninhas porque muitas vezes nós somos um povinho pequenininho. Aliás, tentar provar sua identidade a uma pobre infeliz é bobagem perto da duríssima cruzada de Nicolelis para dotar de mínima infraestrutura a rua do Instituto de Neurociências. A rua carece de asfalto, mas o ministério público não permite. Ele quis construir uma escola, mas disseram que só deixariam se fosse com banheiros químicos. Tudo bem se o argumento for a proteção dos lençóis freáticos, mas o que impressiona é que a poucos metros do local o ministério público e a Prefeitura não fizeram nadinha para impedir a construção de algumas enormes torres de apartamento que certamente não devem ter instalado banheiros químicos no lugar dos convencionais. Como explicar isso? Alguém tem alguma po$$ível $olução para e$$e mi$tério?

Fico imaginando o Nicolelis interrompendo suas pesquisas sobre a interface cérebro-máquina, parando por alguns instantes seus estudos que podem culminar com a descoberta da cura do Mal de Alzheimer ou na reabilitação de pessoas com lesão na medula, descontinuando a coordenação dos laboratórios que chefia pelo mundo, para fazer mais um apelo às autoridades por um pouquinho de asfalto, a parte que lhe poderia caber neste latifúndio.

É de impressionar que, apesar de tantas provações, de todo esse caminho tortuoso, ele não desiste. Traz consigo a paciência peculiar aos ricos de espírito, aos bem-aventurados que vêm para nos salvar. No fundo, ele sabe que a salvação de nossa terra está na educação. Que nós já estamos perdidos. A última esperança deve ser depositada nas crianças. Essas ainda têm jeito. Vai continuar pregando contra a pequenez e a idiotice reinante, tentando nos alertar para as coisas que realmente importam. Certa vez, ele disse: “O natalense vive de migalhas. O verdadeiro desenvolvimento está na educação, na pesquisa”. Quase fundiu as cabecinhas ocas das autoridades locais com tal declaração. Eu mesmo tenho algumas dúvidas com relação ao senhor Miguel Nicolelis. A maior delas, com certeza, é: o que diabos ele veio fazer aqui nesse fim de mundo? Por que um cientista reconhecido mundialmente veio amarrar seu bode aqui em Natal? E, assim como a senhora que ligou para o programa da TVU: o senhor é louco?

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