Coluna do Novo Jornal – 026 – Moleskine – 19.02.2011

Singela crônica sobre literatura, caderninhos de marca e minhas manias de grifador e anotador compulsivo. Saiu no Novo Jornal em 19 de fevereiro deste ano.

***

Moleskine

Um Moleskine.

 

Em novembro de 2007, recebi um presente de um amigo escritor. O jovem me perguntou candidamente “você tem um Moleskine?”, como se querendo apenas averiguar se eu tinha o hábito de comer sempre que a fome vinha ou se deitava quando tomado pelo cansaço. Mais do que a minha negativa, acho que meu olhar atônito me delatou. Junto a um inocente “não” expressei com o cenho franzido um inconfundível “do que diabos esse homem está falando?”, conduzindo-o à importante descoberta sociológica de que havia um escritor no mundo, autor de crônicas semanais e livros eventuais, que não conhecia um Moleskine.

 

O incrédulo amigo mal pode disfarçar sua decepção. Explicou-me que o Moleskine é um caderninho de capa de cartão, preso por um elástico, que deve ser levado no bolso para todos os lugares onde eu fosse, a fim de guardar as melhores idéias que eu tivesse, impedindo-as de escorregarem para o implacável buraco negro do esquecimento e o limbo dos textos jamais escritos. Quis saber como eu fazia para recordar-me dos motes textuais que eu tinha, digamos, durante o banho, ou num dos mais férteis ambientes criativos do mundo: uma mesa de bar. Contou-me que a tradição deste imprescindível instrumento de trabalho artístico, surgido na Itália e logo adotado por caras como Ernest Hemingway, Pablo Picasso e Vincent Van Gogh, já durava séculos e que eu deveria ter um para acompanhar-me onde quer que eu fosse. Após contextualizar a história toda, presenteou-me com um bonito Moleskine de capa preta, na esperança que eu pudesse ter uma produção mais profícua, não a ponto de escrever nada à altura de “O velho e o mar” ou rabiscar uma fase azul toda minha de Bic, mas que eu escrevesse sempre, escrevesse mais.

Desde então, passou a ser acompanhante inseparável (o Moleskine, não o desprendido amigo que me presenteou com ele). Nunca mais precisei conviver com aquelas terríveis angústias que se apoderavam de mim nos dias seguintes após as farras, por não lembrar das tiradas espirituosas e das muitíssimas pautas ditas despretensiosamente sob o efeito catalisador do álcool. Dores de memória fraca maiores que qualquer ressaca. As enormes filas, fossem num banco ou no aterrorizante DETRAN também já não causavam grandes temores. Logo eu sacava o caderninho, uma caneta e me punha a dissertar sobre temas que poderiam virar crônicas, contos, capítulos de um romance, postagens para o blogue. Foi dessa forma que escrevi vários dos textos de “Mano Celo”, meu terceiro livro, lançado em 2009. Aproveitei também para tomar nota de dezenas de citações que extraí maravilhado de diversos títulos que li neste período. Tudo muito bom até que semana passada, quando terminei de preencher todos os espaços em branco no papel aperolado do meu caderninho de grife.

Antes que alguém se apiede de minha pobre alma escriba, adianto-me, informando que já adquiri outro, à imagem e semelhança do primeiro. Na verdade, o tema desta crônica não é a lamentação de uma perda. Não. De forma alguma. Muito pelo contrário: quero dividir com vocês os registros (pelo menos alguns) que fiz no meu primeiro Moleskine e deleitar-me diante da possibilidade de seguir registrando novas ideias, rascunhos, citações e até textos inteiros. Cada folha em branco representa um universo de possibilidades.

Foi escrevendo a mão nos mais inóspitos ambientes e variadas situações que escrevi crônicas como: “Texto lento”, “Baile dos coroas”, “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ.”, “O roteirista de Stallone Cobra”, “O polvo não está saindo hoje”, “O relógio que vovô usou”, entre outras. Mas, mesmo havendo a grande maioria das páginas recebido contribuições de minha autoria, o que mais gosto no Moleskine é a profusão de trechos que me chamaram a atenção como leitor.

Quando inaugurei as primeiras páginas, colorindo-as com minha tenebrosa caligrafia, estava lendo “O Complexo de Portnoy” de Philip Roth. Por isso, uma das primeiras anotações era uma perigosa e verdadeira constatação do protagonista:  “Que homem já venceu uma discussão com o próprio pênis? Quando ele se levanta, o cérebro se enterra no chão.” Na página seguinte um trecho de Xico Sá, extraído de “El cabalero solitário”: “No hay libro, por malo que sea, que no tenga alguna cosa buena. Em livre tradução deste portunholista selvagem que não vale um falso Guarany em cédula rasgada: até mesmo no mais odiável compêndio poderemos pescar alguma nobre manjuba perdida nos mares gutemberguianos.”

De um conto de João Gilberto Noll em “O cego e a dançarina” veio a frase: “Quando voltou, era outra Diana: olheiras e reticências”. Para mim, esta frase representa toda a obra do autor gaúcho cheia de poesia e sutilezas em cada pedacinho de prosa. Anthony Burgess, em seu “Laranja Mecânica” também teve direito a alguns registros: “A questão é se uma técnica dessas pode realmente tornar um homem bom. A bondade é algo que se escolhe. Quando um homem não pode escolher, ele deixa de ser um homem” e também “É gozado como as cores do mundo real só parecem reais de verdade quando você as vê na tela”. Do vencedor do Nobel de literatura J. M. Coetzee e seu “O homem lento” veio a pérola “Nossas mentiras revelam tanto de nós quanto nossas verdades”.

Porém, o grande recordista de participações no caderninho é Antonio Lobo Antunes, do livro “Os cus dos Judas”, presente do amigo jornalista Paulo Araújo que havia passado uma temporada em Angola. Lobo Antunes, com seu estilo único e arrebatador, tecia figuras linguísticas maravilhosas como “O dia estava triste como a chuva num recreio de colégio” ou ainda “O sol alegre como um sorriso toca xilofone nas persianas”. O escritor português parece ter uma idéia concreta sobre tudo, explicando para nós toda a complexidade do mundo, mas de uma forma que nós possamos entender. Sobre a velhice, ele diz “Afasto-me dos retratos do ano passado como um barco do cais.”

As citações de “Os cus de Judas”grafadas a mão são muitas, mas não caberiam aqui neste espaço. Por isso, encerro com uma das que mais gosto: “Ah, as refeições frente a frente, em silêncio, cheias de um rancor que se palpa no ar como a água de colônia das viúvas.”

Espero que as páginas do novo Moleskine, recém inaugurado, possam abrigar palavras ordenadas tão magistralmente quanto estas. E que eu lembre de dividi-las com vocês aqui neste espaço.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 026 – Moleskine – 19.02.2011”

  1. Clotilde Tavares Says:

    Tenho Agenda Moleskine há anos, nela escrevo meus compomissos com hora e data para acontecer; só uso vermelho, modelo Pockett.Tenho também uma caderneta, também modelo pocket, somente para anotações, que vive na bolsa junto com a agenda; e uma maior onde escrevo muito. Não vivo sem elas, e as substitutas, que dizem ser mais baratas e “iguaizinhas”, eu afirmo: não são “Iguaizinhas”. Não existe nada igual a uma Moleskine.

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