Coluna do Novo Jornal – 030 – Egito Ê. – 19.03.2011

A vinda do escritor Joca Reinners Terron a Natal, em março de 2011, a convite dos Jovens Escribas, me motivou a escrever esta coluna, falando do último romance do autor, “Do fundo do poço se vê a lua”, que havia me deixado absolutamente encantado.

Inclusive, Joca Terron é um dos convidados dos Jovens Escribas para participar da “AÇÃO POTIGUAR DE INCENTIVO À LEITURA” que ocorrerá de 17 a 22 de outubro em Natal-RN.

***

Egito Ê

Joca Reinners Terron, do seu quarto de hotel no Cairo, contempla as ruas da capital do Egito.

Nos anos 90, em São Paulo, surgiu uma editora independente chamada “Ciência do Acidente”.

Um excelente nome para uma empreitada do tipo, cuja ousadia e criatividade felizmente não ficaram apenas no batismo. O comandante da empresa era o inquieto e exigente escritor Joca Reiners Terrón que durante alguns anos publicou dezenas de títulos de autores jovens ou que não encontravam espaço nas grandes e tradicionais editoras nacionais. Em seu catálogo, a Ciência do Acidente contava com 3 obras do próprio editor: “Eletroencefalodrama” (poesia), “Não há nada lá.” (romance) e “Animal Anônimo” (poesia).

Não li os livros de Joca Reiners Terrón na época de sua publicação (acabei de ler “Não há nada lá.” esta semana). Naquele tempo da Internet rupestre em que os modens eram movidos à lenha da conexão discada, estas exóticas iguarias da cultura alternativa não chegavam a essa esquina do Brasil com a mesma facilidade de hoje em dia. Ainda não estávamos a poucos cliques de distância de tudo. Longe disso.

Só conheci mesmo o texto do autor no seu romance alucinante (e alucinógeno) “Hotel Hell” lançado em 2003 pela “Livros do Mal”, mais uma iniciativa independente que publicava autores contemporâneos, dessa vez encabeçada pelos gaúchos Daniel Galera e Daniel Pellizari. “Hotel Hell” é até hoje um dos livros mais loucos e surpreendentes que já li. Seus personagens surreais que habitavam aquele universo paralelo, um misto de circo, hotel e cidade, protagonizavam cenas tão incríveis que lembro de ter enumerado diversas possibilidades de drogas que o autor poderia ter consumido ao escrever cada capítulo.

Em 2004, Terrón lançou pela Editora Planeta o livro de contos “Curva de Rio Sujo”. O sítio de jornalismo cultural Revista Catorze resenhou o livro há alguns meses. Quem tiver curiosidade, pode acessar o endereço (www.revistacatorze.com.br). Já em 2006, mais um livro de contos com uma premissa bem interessante: todos os protagonistas enredados em tramas pra lá de intensas eram escritores reais, alguns inclusive vivos. A obra, publicada pela Editora Casa da Palavra, se chama “Sonho interrompido por guilhotina”.

Depois deste livro, o autor passou por um período sem lançar nada. Dedicou-se a trabalhos mais cotidianos como as colaborações que faz a jornais, revistas e ao programa literário Entrelinhas, da TV Cultura. Certamente, utilizou esse período para maturar bem qual seria o próximo trabalho literário. Até que recebeu uma proposta que, à La Famiglia Corleone, não poderia recusar. “Você vai pro Egito, passa um mês no Cairo com todas as despesas pagas, atualiza um blog de lá e, na volta, escreve um romance ambientado na cidade. Ah, sim! Vou lhe pagar uma boa grana por isso.” O responsável por essa oferta do tipo “me belisca pra ver se não tô dormindo!” foi o empresário Rodrigo Texeira, responsável pelo projeto “Amores Expressos”. O projeto enviou 16 escritores para capitais do mundo para que eles desenvolvessem uma história de amor. Em troca do dinheiro por topar participar, Joca cedeu os direitos autorais do texto no caso de uma possível adaptação para o cinema. Um negócio de alto risco para o investidor, mas que, caso dê certo, será bom pra todos os envolvidos.

A experiência do escritor no Cairo resultou no romance “Do fundo do poço se vê a lua” (Cia das Letras, 2010) e arrisco dizer que talvez seja o seu melhor trabalho de todos. Pelo menos, dos 4 que li, é de longe o mais instigante e envolvente. Um texto arrebatador, viciante, desses que você não quer largar até que tenha finalmente concluído a leitura. Enfim, sem meias palavras, é bom pra caralh*! O livro mereceu destaque em quase todos os principais prêmios literários de 2010 e venceu o “Prêmio Machado de Assis” de melhor romance do ano, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, deixando para trás nomes como Edney Silvestre e o irmão da ministra da cultura, como é mesmo o nome dele? Ah, sim: Chico Buarque, claro!

A leitura de “Do fundo poço se vê a lua” proporciona tão genuína empolgação que faz querer sair por aí comentando com os amigos sobre a história engendrada com tanto esmero pelo autor. Como poucos amigos locais tiveram a oportunidade de lê-lo, fiquei só na vontade mesmo. A história dos gêmeos paulistas Wiliam e Wilson, o conflito de serem idênticos por fora e totalmente opostos por dentro, a negação e a fuga da realidade empreendida por um deles, a ida para o Egito, a relação com o conceito de duplicidade inspirada na obra de Edgard Allan Poe, o fascínio pela figura de Cleópatra são ingredientes que foram cuidadosamente acrescentados ao romance, seguindo uma meticulosa receita elaborada pelo ardiloso Joca Terrón, até que resultasse num impecável manjar a ser consumido entre suspiros de satisfação e incontidos sorrisos de saciedade.

Pensei no efeito que este romance poderia causar em naqueles leitores bissextos que estariam só esperando um livro realmente bom, uma publicação definitiva, irresistível, impactante e sedutora para passarem de vez para o lado dos leitores habituais. Esta é a história perfeita para todos eles. A obra é perfeita também para ser consumida por adolescentes do ensino médio, jovens recém ingressos na faculdade e pelo público leitor de natal. Foi então que, há algumas semanas, falei com o autor por meio de seu perfil no Twitter (@jocaterron), perguntando se ele toparia vir a Natal para conversar com alunos de escolas públicas, estudantes de Letras e lançar “Do fundo do poço se vê a lua”.

Como eu e meus colegas dos “Jovens Escribas”, os autores Patrício Jr e Daniel Minchoni, estamos preparando um evento chamado “AÇÃO POTIGUAR DE INCENTIVO À LEITURA” para o fim do ano, com o objetivo de incentivar a leitura entre os jovens, a vinda de Joca serviria como um aquecimento e uma espécie de lançamento da Ação para o público e a imprensa.

E o melhor: Joca Reiners Terrón topou vir. Na próxima segunda (depois de amanhã) vai falar sobre o prazer da leitura com estudantes de escolas estaduais, conversará também com alunos de Letras e estará no Gringo’s Bar, em Ponta Negra, a partir das 20h autografando o livro “Do fundo do poço se vê a lua”, cuja trama é ambientada no Egito. Nada a ver com os protestos do mês passado, mas que, como todo ótimo livro, pode causar uma revolução em sua cabeça.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 030 – Egito Ê. – 19.03.2011”

  1. manoella alves Says:

    oi fialho, vc nao me conhece mas sou de natal, morando em sao paulo a poucos anos e apaixonada por literatura…poesia ou qualquer coisa preta em fundo branco q nos toque. passo só p parabenizar todas as iniciativas literárias q vcs tem feito por aí. q bom da balada. termina no dia 22….estarei por essas bandas e pegarei o último dia. por sinal, onde vai ser?
    poderia sugerir um convite a François Silvestre de Alencar? que show q ele deu em Esmeralda: crime no santuário de lima. O livro se basta já no prefácio. torcendo aqui p nei leandro estar no ultimo dia. amo suas poesias. Pois bem, qd um dia voltar a natal, engordarei a platéia literária de vcs. De dica dessas bandas: a poesia de Ingrid Jonker, cuja vida foi fantasticamente retratada no filme “borboletas negras” (Alemanha/Holanda/África do Sul) 2011.
    abraços,
    manoella

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