Coluna do Novo Jornal – 031 – É Fantástico! – 26.03.2011

Crônica escrita após uma reportagem do programa dominical Fantástico da Rede Globo a respeito da prática do Turismo Sexual em Natal.

Boa  leitura.

***

É Fantástico!

Peraí! Deixa ver se eu entendi. Precisou o Fantástico vir a Natal fazer uma matéria sobre turismo sexual para que as nossas otoridades percebessem que existe tal prática em nossa cidade? É isso mesmo? Quer dizer que antes de o programa ter ido ao ar, eles nunca repararam que nossa cidade é um dos destinos preferidos de europeus mais devassos que a Sandy e a Paris Hilton juntas? Será que eles nunca souberam da existência de uma praia urbana chamada Ponta negra, que fica no caminho para o Porto Brasil, onde muitos deles têm casa? Esta praia costumava ser frequentada por jovens natalenses em busca dos aprazíveis ambientes de bares como o Budda, Sargent Peppers, Taverna e alguns outros. Até que os estrangeiros com suas varas em riste, passaram a fisgar nossas cada vez mais jovens cortesãs, abordando vez ou outra algumas indignadas conterrâneas de classe média que passaram a ouvir dos visitantes de além mar perguntas como “Quanto custa?” ou “Aceita dólar?”

Mas isso não foi suficiente para sensibilizar nossos poderes. Os natalenses foram afastados da região próxima ao Conjunto Alagamar que acabou se metamorfoseando  de “Alta Ponta Negra”, como era chamada antes, para “Baixo Meretrício”, como poderia ser referida hoje sem grandes exageros. O apartheid social não parou por aí. Logo contaminaria em maior ou menor grau centros comerciais e até mesmo a praia. Em ambos os casos, há bolsões que são ocupados quase que exclusivamente por gringos e suas acompanhantes locais, nem todas com cara de terem virado muitas folhas de calendário.

Os relatos de estrangeiros se comportando de maneira imprópria, mostrando o mastro das caravelas em público ou sarrando com meninas à luz do dia são frequentes e recorrentes nos últimos anos. Causos que não devem ter ecoado nos restaurantes e lojas da Afonso Pena. Ou até foram comentados por lá, mas de maneira tão desinteressada que pareciam os senhores e suas distintas esposas estar falando de um lugar distante, onde a barbárie e o caos haviam se sobressaído ante a massa inculta, impedindo que qualquer tênue sopro civilizatório surgisse. Para a nossa elite, Ponta Negra não passava de um nome que pouco ou nada significava. Um lugar onde os bons filhos de nossa terra, os bem nascidos do Plano Palumbo, não punham os pés. A não ser em exclusivas ilhas de entretenimento como o bar sertanejo que surgiu próximo ao reduto das prostitutas, uma prova irrefutável da flagrante diferença entre elite econômica e elite cultural em nossa cidade.

A coisa ficou tão evidente que dois estudiosos europeus que andaram por aqui elaborando uma tese sociológica sugeriram botar ordem na putaria. Já que não havia vontade política de coibir o turismo sexual, ou mesmo de investigar o envolvimento de menores de idade, por que não regulamentar uma área, que poderia inclusive ser a do alto Ponta Negra, como local permitido à prática da prostituição, proibindo nos demais lugares de Natal, impedindo o crescimento da animosidade entre locais e visitantes ou o emergente sentimento de xenofobia que se revelava. Seria algo como o bairro da luz vermelha, em Amsterdã. Aí sim, houve reação oficial! Sabem como? Nossos honrados vereadores decretaram que os acadêmicos não eram mais bem-vindos a Natal. Onde já se viu? Dizer a verdade assim, na cara das pessoas? Na minha humilde opinião, agiram como o marido traído que pega a mulher com outro no sofá e, pra resolver o problema, manda queimar o sofá.

Certa vez, um comerciante denunciou a situação à imprensa. Revoltado com a inércia dos nossos representantes, fez uma série de denúncias. Na ocasião, novamente, providências foram tomadas. O então prefeito foi rápido e firme em sua resposta. Mandou todos os tipos de fiscalização possíveis para o restaurante do autor das denúncias. Encontraram uma Coca-cola vencida havia algumas horas e outras sérias ameaças à população merecedoras de pesadas multas, obrigando o empresário a fechar o restaurante. Com isso, nosso alcaide deu o exemplo. A pouco vergonha poderia até continuar, mas ninguém mais ia ter coragem de reclamar.

Mas claro, tudo isso foi antes da Globo vir fazer o Fantástico em Natal. Uma coisa é o Yuno Silva sair de megafone em punho, informando que o problema existe e que ele afugenta turistas mais interessantes. Outra bem diferente é o Zeca Camargo franzir a testa, arquear a sobrancelha e dizer o mesmo. Ao se verem mostrados na telinha do Plim-plim como aqueles  que permitiram que a situação chegasse a esse ponto, os políticos e juristas locais demonstraram grande surpresa e indignação. Deram declarações fortes, prometeram combater finalmente o problema, apareceram na mídia, mas na verdade, nada deverá mudar. Na data em que esta coluna estiver publicada, duas semanas após a reportagem do Fantástico ter ido ao ar, o assunto já terá saído da pauta.

Ao verem seu mundo de isolamento social invadido pela onipresente telinha global, logo nossos chiques e famosos vestiram a carapuça, interpretaram personagens humanos e preocupados com os outros, tentaram manter as aparências, mas assim que as câmeras apontaram para outros locais, despiram-se dessa lenga-lenga toda e voltaram a agir normalmente. Viraram as costas para o mar, para o bairro de Ponta Negra, para tudo que não seja espelho ou umbigo.

E se alguém perguntar: “E os gringos? E as de menor?”, é capaz de responderem: “Que se fodam!”

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