Coluna do Novo Jornal – 035 – Pais playboys geram filhos órfãos – 23.04.2011

O relato de uma amiga, mãe divorciada me inspirou a cometer este texto.

Enjoy, fellows!

***

Pais playboys geram filhos órfãos

Amigos, vejam se pode uma coisa dessas! Ontem fui injustamente humilhado por aquela com quem um dia dividi um teto, mulher a quem jurei amor e com quem, em nome deste inegavelmente puro sentimento, contraí matrimônio, depositando nela a semente germinal de minha linhagem, dando-lhe a oportunidade de ser a guardiã de minha nobre descendência. Tudo aconteceu numa audiência judicial. Na vara de família. Logo eu, um proeminente advogado desta cidade, honrado e reconhecido, dono de um invejável desempenho em audiências como aquela, nas quais costumo defender clientes desamparados como eu próprio me encontrava ontem. No entanto, confesso que, mesmo sendo eu um bem sucedido e competente profissional do Direito, um dos mais brilhantes defensores revelados pelo escritório “Pinto & Rêgo Advogados Associados”, habituado ao ambiente jurídico devido à intimidade que a prática abnegada da profissão me concedeu, senti-me desconfortável e mesmo ultrajado ante a ousadia de minha ex-companheira. Estar na posição de réu, mesmo que de maneira despropositada, como é o caso, não é nada abonador para minha reputação.

E sabem o porquê de eu estar lá naquela sala, sentado à mesa diante de um jovem conciliador que não tem metade do meu conhecimento e talento? Ora, pois! A bonitona lá quer receber pensão. Vê se pode? É ou não é muita cara de pau? Por que eu preciso pagar pensão se ela tem todas as condições de sustentar a menina? É ou não é? Ela trabalha, ganha o salário dela, pois que gaste o dinheiro com as coisas da menina. Não fica o tempo todo chorando, dizendo que ela é a coisa mais importante da vida dela? Vem me pedir dinheiro, dizendo que é pra gastar com ela, com a educação dela, com a alimentação dela. Ah, tá. Acha que eu sou besta, é? Ela quer é meu dinheiro pra gastar com as besteiras dela. Fica usando a filha de desculpa pra arrancar meu valioso capital, pra tirar o que é meu por direito. Pensão! Tá bom. Era só o que me faltava mesmo.

Aí, quando eu digo que ela não precisa de pensão, pois trabalha numa boa empresa e ganha bem, ela vem toda atrevidinha me dizer: “não fiz a menina sozinha na empresa não. Você é pai e tem que ter responsabilidade.” Ôuxe! Mais responsável do que já sou? Sempre que eu posso, vejo a bichinha. A cada duas semanas, levo pra passear no shopping. E pra que? Pra mãe dela vir me dizer que eu fiz o bucho e caí fora. É isso que eu ganho daquela mal agradecida. Mas fazer o que? Ex é ex e vice-versa, né não? Quem mandou eu casar? Quem mandou eu ter feito a menina nela? Separou-se de mim por causa de uma ou outra doidinha que eu andei de chamego como se fosse grande coisa. Isso lá é motivo? E agora vem pedir uma mesada do abestalhado aqui. Além do que, ouvi dizer que ela anda de namorado. Ela não devia ter feito isso. Tá vendo uma coisa dessas? Eu tenho um nome a zelar. Mas veja se ela liga. A cidade toda deve tá comentando: “a ex dele tá com outro. A ex dele tá com outro.” Só por me fazer passar por isso, ela devia dispensar a pensão.

Na audiência, a advogada dela, que por sua vez também não é lá muito competente na atividade, privilégio relegado a poucos como eu, alegou que eu poderia muito bem pagar a pensão, uma vez que dirijo um 4X4 importado, modelo do ano, frequento os melhores restaurantes da cidade e cultivo um estilo de vida tão sofisticado quanto agitado, fazendo questão de me fazer presente em todas as baladas da alta sociedade natalense. Pensem que nessa hora foi a muito custo que me contive para não dizer umas grosserias praquela sei-lá-quemzinha. Apelando para argumentos torpes como estes para tentar me prejudicar em juízo? Onde já se viu? Se aquilo não é golpe baixo, não sei mais o que é. E se tem uma coisa que eu não tolero, essa coisa é deslealdade, meu amigo. Pode apostar.

Se o problema é o carro, ela não devia ter dito aquilo, pois todo mundo sabe que a menina sai direto pra passear nela comigo sempre que vou buscá-la na casa da mãe. Então pronto! Essa questão já morre aí. Se eu saio muito pra jantar, almoçar e badalar, não quer dizer que eu o faça por pura curtição. Ao afirmar isso, elas estão distorcendo os fatos na tentativa de induzir quem for julgar a causa em favor dela. O motivo de eu ser obrigado a frequentar lugares exclusivos é para poder me relacionar melhor com meus potenciais clientes. Não é que eu goste de me amostrar ou de luxar como elas alegam.

Eu preciso estar em locais selecionados, ver e ser visto, consumir do bom e do melhor, pois a imagem que passamos para os outros é o que determina o quão realizados seremos nessa cidade. Por isso, preciso sair à noite de quinta a domingo, comer nos mais dispendiosos restaurantes e trocar de carro a cada ano. Isso sem falar nas viagens: carnaval de Salvador, Festival de Verão em Recife, Fortal… Nada de lazer. Apenas business. É um trabalho de network que faço. Faz parte da minha atividade de profissional das Leis. Agora me digam: com tantas despesas, tanto gasto inerente à profissão, sobra alguma coisa pra dar de pensão pra minha ex-mulher gastar com as futilidades dela? Claro que não!

Além de tudo isso, tem minha recém descoberta atividade paralela. Desde o ano passado me revelei um excelente promotor de festas. Criei uma balada no veraneio de Pirangi que bomba de gente bonita e selecionada. Isso só demonstra como sou um cara bem relacionado em nossa cidade, de reputação ilibada, de caráter inquestionável, querido por muitos. Ou seja, trata-se de mais um argumento a meu favor. Um caba bom como eu não poderia estar sendo interpelado na justiça por causa de um descabido pagamento de pensão. Se essa história de que estou sendo processado se espalha, é capaz de eu perder clientes, de as pessoas não irem mais na minha festa anual. Enfim, esse processo é uma demonstração clara de que tudo o que a mãe da minha filha quer, é me prejudicar. Como é que uma pessoa consegue ser tão ruim assim, hein? Não consigo entender, fico me perguntando como é que eu me casei com ela, uma vez que ela é tão ruim e eu,… tão bom. Né não?

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 035 – Pais playboys geram filhos órfãos – 23.04.2011”

  1. Pavan Says:

    Massa!Agora deixa eu vomitar.

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