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Escritos em 2011

dezembro 29, 2011

Este ano, entre uma publicidade e outra, consegui produzir alguns textos. Foram todos em formato de crônica. 50 ao todo. A grande maioria publicada no Novo Jornal, mas alguns também na Revista do versailles, no livro “Mano Celo de bolso” ou na Preá que sairá em 2012. Outros, porém, mantém-se inéditos para serem publicados em breve. Logo abaixo, segue a relação completa:

Escritos em 2011

50 Crônicas

1 – A última reunião de Dona Noilde

2 – Os imbecis (Henrique Castriciano)

3 – Fefeu

4 – Outrover

5 – Pinto & Rêgo Advogados Associados

6 – O Maconheiro Militante 3

7 – A Patricinha Cultural 3

8 – Somos todos filhos de Gogol

9 – Moleskine

10 – Miguel Nicolelis

11 – Ai, como eu sou intolerante!

12 – Eu era feio. Agora eu tenho carro.

13 – O Professor de Matemática

14 – Egito ê (Joca Reiners Terron)

15 – Os meninos e meninas do Clowns

16 – Combustível mais barato já

17 – É Fantástico

18 – Pais playboys geram filhos órfãos

19 – A cultura do Nada.

20 – Rei, rei, rei! É o casamento gay!

21 – Pra frente é que se marcha.

22 – Rios Grandes

23 – A Prefeita mais bonita da cidade (Micarla.com)

24 – A blogueira tuiteira picareta

25 – Meu barbeiro de direita

26 – Datas

27 – Dúvidas da infância

28 – Protestos. Tudo demais é muito.

29– Fora Mikarlopoulus

30 – O filósofo do Crato

31 – Ânderson Miguel – O nosso Brás Cubas

32 – Gente Fina Beer Fest

33 – Media noche en Madrid

34 – O Impostor da província

35 – O Empresário modelo

36 – O Publicitário conterrâneo

37 – A defesa do cronista

38 – Exemplos grandiosos

39 – Secretário Mano Celo

40 – Mano Celo e o #CombustívelMaisBaratoJá!

41 – Mano Celo no #ForaMicarla

42 – Mano Celo e Cruvinel

43 – Ação Potiguar de incentivo à Leitura

44 – Versailles 2 –  Manual para padrinhos

45 – O livro que fui escrever em Madrid – Preá

46 – O quadro a quadro da demolição

47 – O cidadão natalense

48 – Blogues com a bola toda

49 – Futebol em estado puro

50 – A cidade da piada pronta

 

 

Lançamento de “Uns contos de Natal”

dezembro 7, 2011

3 Fialhos incomodam muito mais.

 

 

 

Coluna do Novo Jornal – 038 – Rei, rei, rei! É o casamento gay! – 14.05.2011

dezembro 2, 2011

Na semana em que o STF aprovou a união civil entre pessoas do mesmo sexo, o assunto não poderia ser outro.

***

Rei, rei, rei! É o casamento gay!

“Se fosse feio amar alguém /  que é do nosso jeito / em vão seria viver.”

(Cris Botareli e Luiz Gadelha interpretada por Talma&Gadelha)

 

Vamos tentar falar desse assunto sem frescura (com trocadilho, faz favor). Primeiramente, permitam-me referir-me ao mesmo como Casamento Gay com todas as letras e não “união homoafetiva”, esse eufemismo filho do politicamente correto que contamina a linguagem com seus excessos e arremedos de juridiquêse sem quê nem pra quê. Entenda-se que quando falo (do verbo falar, que conste nos autos) casamento não me refiro àquela pantomima toda de Igreja, Padre, essas coisas, mas sim a juntar os trapos, os panos de bunda, as escovas de dente. Dividir contas e responsabilidades, a TV e as tarefas, a cama e as preocupações mais urgentes. Minha geração é cheia de casais que resolveram viver juntos sem passar por qualquer ritual mais elaborado ou tradicional. Tudo ao melhor estilo “tá a fim? Então, bora!” Na prática, são casados sim. Embora, na hora de assinalarem um xis em certos formulários, fiquem em dúvida em virtude da falta de uma certidão que confirme sua condição. No entanto, tirando uma ou outra saia justa de menor importância, esses casais heterossexuais têm reconhecidos pelas mais diversas instituições todos os direitos inerentes a quem é casado.

Num país “cristão” e conservador como o nosso, os casais gays sofrem o mais perverso e irracional preconceito, algo diretamente proporcional à cegueira religiosa e ao tirânico e direitôba modo de agir da nossa elite reacionária, impiedosa contra tudo e todos que representem mudança, novidade ou (o horror o horror) uma revolução de costumes. Quem está por cima tende e querer se perpetuar. É assim desde que o mundo é mundo.

Pois bem, nesse país de opinião pública volúvel, pouco instruída e mal educada em todas as instâncias, fica mais difícil propor mudanças, explicar que o preconceito contra a preferência sexual de alguns é errada, que o melhor caminho é aceitar as diferenças, respeitar os que pensam e agem de outra forma, que devemos guardar nossa intolerância para os criminosos e políticos corruptos. E como fazem aqueles que, apesar de crescerem numa sociedade em que o “correto” é ser hétero, descobrem-se atraídos pelo mesmo sexo? Devem reprimir-se até morrer de angústia em respeito às convenções a eles impostas? Levar uma vida solitária pelo bem comum, a coletividade e a paz social dos que não os aceitam como eles são? Sofrer por mim? Por você? Na boa, não rola. Cristo só teve um. Deu a outra face pra bater, morreu por nós para dizer que o amor é o grande lance pra sermos felizes e ninguém entendeu nada.

Em algum momento houve quem entendesse poder no lugar de amor e surgiu a Igreja Católica. Um pouco mais à frente, numa nova interpretação, disseram que era dinheiro, e não amor, o que Jesus queria dizer, nascendo assim o Protestantismo. E desde então, essas duas instituições de tão nobre e divina inspiração passaram a praticar exatamente o oposto do que pediu o seu Deus. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Será que foi inspirada nessa oração que perseguiram mulheres durante a Idade Média sempre que alguma delas resistia aos dogmas de submissão e obediência correntes?

O fato é que as religiões cristãs criaram uma situação que chega a ser absurda de tão incoerente, um paradoxo social visível na atitude de tentar a todo custo impedir que indivíduos tenham o direito a se amar e ser aceitos como são, sem agressões, hostilidade ou constrangimentos. É como se dissessem: “vamos perseguir vocês, humilhá-los e espancá-los, mas é tudo por amor. Tudo bem?”

O argumento é o mais cândido possível. Eles dizem querer salvar a sociedade dessa doença, depravação e ameaça às novas gerações que é o homossexualismo. Tão bonzinhos. Afirmam que amar alguém do mesmo sexo é uma “falha de caráter”. E este não é a única frente de batalha em que atuam. Eles também se esforçam bastante em nos livrar da camisinha e tudo que remeta a essa aberração que é o sexo “não reprodutivo”. Não amigas e amigos, não me refiro a nenhuma escritura medieval recém descoberta, mas as ideias defendidas ainda hoje, pelo líder de uma dessas religiões, aquele que é sinônimo de mingau.

Esse tipo de pensamento se aproveita oportunamente da ineficácia do Estado em prover o povo da devida atenção e de itens básicos de sobrevivência, encontrando o abrigo perfeito na população as condições perfeitas para disseminar-se indiscriminadamente. O rebanho vira alvo fácil diante da absoluta carência de senso crítico e da lavagem cerebral empreendida. Com numerosos seguidores cria-se o caldo germinal para o advento de Bolsonaros, Malafaias (a quem alguma mente brilhante da nossa Câmara Municipal concedeu o título de Cidadão Natalense) e aquele ex-deputado estadual que não merece nem ter seu nome digitado aqui. Nos tempos atuais, em que um político local em exercício de mandato, pastor evangélico, está envolvido num caso de infidelidade e possível aborto, pode-se apontar facilmente a diferença entre discurso e ações, além de definir hipocrisia sem precisar recorrer a um dicionário.

A votação do STF que reconheceu os direitos de casais homossexuais foi histórica e representa um alento em nossa rotina de desvios morais de verdade e constantes retrocessos. Falta muito ainda para nos tornarmos uma nação de verdade, com a população tendo acesso a transporte, educação e saúde de qualidade. Mas enquanto isso, combater desigualdades, pregar a justiça e conquistar direitos podem ser um sopro de esperança num futuro melhor. Foi um avanço, uma vitória maiúscula e também um duro golpe nos estandartes do atraso: os Malafaias, Bolsonaros, Soares e Berlusconis da vida. Dessa vez, eles vão ter que engolir! Ou cuspir, sei lá. Cada um é cada um.

Coluna do Novo Jornal – 037 – Quero ser um Intelectual Natalense – 07.05.2011

dezembro 1, 2011

Quero ser um Intelectual Natalense

O escritor carioca Arthur Dapieve afirmou certa vez em crônica que preenchia vários requisitos que poderiam fazer dele um intelectual. Usava óculos, tinha livros publicados, era professor e careca. Fiquei pensando se eu poderia ser um intelectual também. Já publiquei uns livros, tenho meio grau de miopia e sofro de calvície faz tempo. “Só falta agora dar umas aulinhas”, pensei. Mas aí, um amigo mais experimentado me alertou. Em Natal, as regras são bem distintas. Para ser um intelectual natalense eu não precisaria ter nenhuma das características apontadas pelo cronista carioca. Adentrar na sociedade secreta da intelectualidade natalense é uma tarefa das mais complexas e exigiria de mim uma série de renúncias, além de total entrega.

Segundo esse meu amigo, minha primeira ação para me tornar um intelectual natalense seria nenhuma. Isso mesmo: nada. Um intelectual natalense que se preze é reconhecido pela completa inércia. Ele não tem tempo de ficar realizando coisas, trabalhando em prol da cultura, concretizando uma obra para dividir com os conterrâneos. Ele vive ocupado demais se lamentando pelos bares do Beco da Lama, enquanto toma uma meladinha e fala mal de quem surge em seu campo de visão.

É que o Intelectual Natalense é muito mais cerebral que proativo. É um artista que pensa e, por pensar demais, não age. Ele tem sempre as melhores ideias. Tudo de bom que as pessoas realizam, ele já tinha pensado antes. Quando algo dá errado, ele é aquele cara que diz “Eu avisei”. E depois complementa com um: “Se eu fosse fazer isso, seria de uma maneira diferente, muito melhor.”

O Intelectual Natalense reclama dos que fazem alguma coisa e critica vorazmente tudo o que é realizado na área cultural nessa terra de Poti (e de Novo Jornal). Acusa todos de incompetência, se diz vítima de perseguição e chora o fato de nunca ser lembrado, convidado, homenageado, elogiado e saudado.

Um paradoxo facilmente identificável nesse gênio da raça é que, ao mesmo tempo em que mantém um tom crítico e feroz ao comentar o trabalho alheio, demonstra completa inapetência quando é ele o alvo de críticas. Dono de singular intolerância a opiniões minimanente contrárias às suas ou reticentes com relação a sua obra, o Intelectual Natalense não aceita muito bem ser contrariado e parte para uma reação agressiva e infantil que, não raro, desencadeia ataques pessoais do mais alto grau de baixaria.

Ele tenta passar uma imagem de erudição, falando de livros que nunca leu (ou até leu, mas não tem certeza se entendeu) e filmes italianos que nunca viu (ou até viu, mas que elogia, não por ter gostado, mas porque pega bem dizer que gosta mais dos bangue-bangues italianos). Consegue sensibilizar alguns incautos que acabam convencidos que um artista brilhante como aquele mereceria um pouco mais de respeito e reconhecimento.

O Intelectual Natalense tem uma fixação por Câmara Cascudo. Sempre que quer provar uma tese, ele cita o nosso grande autor. Aliás, se utiliza de citações para exalar inteligência até nas conversas mais banais. Como a maioria dos potiguares nunca leu nem a capa de um livro de Cascudo (nem ele), fica fácil manter as aparências. “O grande Câmara Cascudo já dizia: ‘Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão’.” E as jovens universitárias com bolsa de crochê e broche do PSOL respondem: “OOOOH!”.

É fácil reconhecer um Intelectual Natalense em locais públicos. Ele mantém sempre um ar sério, circunspecto, ranzinza e mal-humorado. É aquele cineasta sem filmes, dramaturgo sem peças, poeta sem livros e pintor sem quadros que inicia 90% das frases dizendo: “Eu tenho um projeto…”. E termina se justificando: “…mas ninguém nunca se interessou.” De vez em quando, ele respira fundo, esquece do nojo que sente pelo resto da humanidade e profere algumas sentenças amargas à guiza de diálogo. Ele também tem na ponta da língua frases clássicas como “Natal não consagra nem desconsagra ninguém.” Ou ainda a trovinha: “Rio Grande do Norte,/ capital Natal;/ em cada esquina um poeta,/ em cada rua um jornal.”

Se eu quiser me tornar um Intelectual Natalense devo parar imediatamente de publicar livros e começar a escrever poemas ou contos chatíssimos que versem sobre sertão, Boi Bumbá, folclore e a vida simples no interior. Caso eu lance um livro algum dia e, por um acaso, ele não vender nada, não devo reconhecer minha pobreza criativa. Intelectual Natalense não errra e, por isso, não faz mea culpa.

Devo sim botar a culpa nos outros: na mediocridade da população, na insignificância da cidade, na touperice dos jornalistas, na limitação intelectual dos escritores, no descaso das autoridades, na juventude que cultiva interesses menores, na queda da bolsa, na alta do dólar, no cartel dos postos de gasolina. Enfim, a responsabilidade pelo meu fracasso será de qualquer um, menos minha.

Um fracasso no lançamento de um livro, inclusive, será uma ótima oportunidade para arrumar briga com alguém. Pois essa é a maior diversão de um Intelectual Natalense. Como ele não produz nada, não constrói nada e não faz porra nenhuma que não seja criticar os que fazem, sobra-lhe muita energia para ser dispensada em arengas banais que ele transforma em disputas coléricas, embates épicos e duelos mortais. Por isso, preciso urgentemente arrumar um desafeto.

Pronto. Quando eu preencher os requisitos, combinar uma boa dose de arrogância, incompetência, preguiça e despeito, poderei orgulhar-me de finalmente ser um Intelectual Natalense. Serei um homem realizado e convidarei todos vocês para tomar uma meladinha no Beco da Lama para comemorar. Na ocasião, falarei mal de todos os outros mortais que povoarem minha memória e acusarei a sociedade de desrespeito para com a minha magnânima pessoa por não me ter alçado ao posto supremo de Intelectual Natalense antes, uma vez que há muito mereço tal honraria.