Coluna do Novo Jornal – 038 – Rei, rei, rei! É o casamento gay! – 14.05.2011

Na semana em que o STF aprovou a união civil entre pessoas do mesmo sexo, o assunto não poderia ser outro.

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Rei, rei, rei! É o casamento gay!

“Se fosse feio amar alguém /  que é do nosso jeito / em vão seria viver.”

(Cris Botareli e Luiz Gadelha interpretada por Talma&Gadelha)

 

Vamos tentar falar desse assunto sem frescura (com trocadilho, faz favor). Primeiramente, permitam-me referir-me ao mesmo como Casamento Gay com todas as letras e não “união homoafetiva”, esse eufemismo filho do politicamente correto que contamina a linguagem com seus excessos e arremedos de juridiquêse sem quê nem pra quê. Entenda-se que quando falo (do verbo falar, que conste nos autos) casamento não me refiro àquela pantomima toda de Igreja, Padre, essas coisas, mas sim a juntar os trapos, os panos de bunda, as escovas de dente. Dividir contas e responsabilidades, a TV e as tarefas, a cama e as preocupações mais urgentes. Minha geração é cheia de casais que resolveram viver juntos sem passar por qualquer ritual mais elaborado ou tradicional. Tudo ao melhor estilo “tá a fim? Então, bora!” Na prática, são casados sim. Embora, na hora de assinalarem um xis em certos formulários, fiquem em dúvida em virtude da falta de uma certidão que confirme sua condição. No entanto, tirando uma ou outra saia justa de menor importância, esses casais heterossexuais têm reconhecidos pelas mais diversas instituições todos os direitos inerentes a quem é casado.

Num país “cristão” e conservador como o nosso, os casais gays sofrem o mais perverso e irracional preconceito, algo diretamente proporcional à cegueira religiosa e ao tirânico e direitôba modo de agir da nossa elite reacionária, impiedosa contra tudo e todos que representem mudança, novidade ou (o horror o horror) uma revolução de costumes. Quem está por cima tende e querer se perpetuar. É assim desde que o mundo é mundo.

Pois bem, nesse país de opinião pública volúvel, pouco instruída e mal educada em todas as instâncias, fica mais difícil propor mudanças, explicar que o preconceito contra a preferência sexual de alguns é errada, que o melhor caminho é aceitar as diferenças, respeitar os que pensam e agem de outra forma, que devemos guardar nossa intolerância para os criminosos e políticos corruptos. E como fazem aqueles que, apesar de crescerem numa sociedade em que o “correto” é ser hétero, descobrem-se atraídos pelo mesmo sexo? Devem reprimir-se até morrer de angústia em respeito às convenções a eles impostas? Levar uma vida solitária pelo bem comum, a coletividade e a paz social dos que não os aceitam como eles são? Sofrer por mim? Por você? Na boa, não rola. Cristo só teve um. Deu a outra face pra bater, morreu por nós para dizer que o amor é o grande lance pra sermos felizes e ninguém entendeu nada.

Em algum momento houve quem entendesse poder no lugar de amor e surgiu a Igreja Católica. Um pouco mais à frente, numa nova interpretação, disseram que era dinheiro, e não amor, o que Jesus queria dizer, nascendo assim o Protestantismo. E desde então, essas duas instituições de tão nobre e divina inspiração passaram a praticar exatamente o oposto do que pediu o seu Deus. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.” Será que foi inspirada nessa oração que perseguiram mulheres durante a Idade Média sempre que alguma delas resistia aos dogmas de submissão e obediência correntes?

O fato é que as religiões cristãs criaram uma situação que chega a ser absurda de tão incoerente, um paradoxo social visível na atitude de tentar a todo custo impedir que indivíduos tenham o direito a se amar e ser aceitos como são, sem agressões, hostilidade ou constrangimentos. É como se dissessem: “vamos perseguir vocês, humilhá-los e espancá-los, mas é tudo por amor. Tudo bem?”

O argumento é o mais cândido possível. Eles dizem querer salvar a sociedade dessa doença, depravação e ameaça às novas gerações que é o homossexualismo. Tão bonzinhos. Afirmam que amar alguém do mesmo sexo é uma “falha de caráter”. E este não é a única frente de batalha em que atuam. Eles também se esforçam bastante em nos livrar da camisinha e tudo que remeta a essa aberração que é o sexo “não reprodutivo”. Não amigas e amigos, não me refiro a nenhuma escritura medieval recém descoberta, mas as ideias defendidas ainda hoje, pelo líder de uma dessas religiões, aquele que é sinônimo de mingau.

Esse tipo de pensamento se aproveita oportunamente da ineficácia do Estado em prover o povo da devida atenção e de itens básicos de sobrevivência, encontrando o abrigo perfeito na população as condições perfeitas para disseminar-se indiscriminadamente. O rebanho vira alvo fácil diante da absoluta carência de senso crítico e da lavagem cerebral empreendida. Com numerosos seguidores cria-se o caldo germinal para o advento de Bolsonaros, Malafaias (a quem alguma mente brilhante da nossa Câmara Municipal concedeu o título de Cidadão Natalense) e aquele ex-deputado estadual que não merece nem ter seu nome digitado aqui. Nos tempos atuais, em que um político local em exercício de mandato, pastor evangélico, está envolvido num caso de infidelidade e possível aborto, pode-se apontar facilmente a diferença entre discurso e ações, além de definir hipocrisia sem precisar recorrer a um dicionário.

A votação do STF que reconheceu os direitos de casais homossexuais foi histórica e representa um alento em nossa rotina de desvios morais de verdade e constantes retrocessos. Falta muito ainda para nos tornarmos uma nação de verdade, com a população tendo acesso a transporte, educação e saúde de qualidade. Mas enquanto isso, combater desigualdades, pregar a justiça e conquistar direitos podem ser um sopro de esperança num futuro melhor. Foi um avanço, uma vitória maiúscula e também um duro golpe nos estandartes do atraso: os Malafaias, Bolsonaros, Soares e Berlusconis da vida. Dessa vez, eles vão ter que engolir! Ou cuspir, sei lá. Cada um é cada um.

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