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Coluna do Novo Jornal – 057 – Por trás daquele beijo – Eu vi o amor – 24.09.2011

janeiro 31, 2012

Esta foi uma coluna em homenagemao amor. Muitos gostaram. Espero produzir outras como esta mais à frente.

Aproveitem.

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Por trás daquele beijo

Sinal aberto. Eu, pedestre. Esperava o câmbio de cores que permitiria minha passagem para o outro extremo. Nada mais usual, nada mais corriqueiro, até que uma visão ousou desafiar a normalidade da urbe. Uma imagem terna, do outro lado da rua, quebrava a urgência da rotina, destoava dos passos apressados, dos olhares determinados ou perdidos, apontando o vazio.

Era um beijo. Intenso, demorado, com direito a um abraço apertado. Ele, sujeito jovem, mas formal. Terno cinza, gravata, sapatos italianos, óculos de grau, a pasta executiva no chão, aos seus pés, sustentada entre os calcanhares. Nada nele poderia revelar que fosse capaz de tamanho arrojo, de ir na contramão do senso comum, de declarar o seu amor, de sucumbir a espontaneidade de um gesto tão significativo, assim, em público, na frente de quem quisesse ver, nesses dias tão impessoais, de discrições e limites, de boa conduta e vida em sociedade, de etiqueta e autocontrole.

Ela, também vestida para o trabalho, menos formal, mas bem arrumada, de calças e salto alto, maquiada, cabelos lisos, se entregava completamente. Era cedo da manhã. O expediente ainda não começara, mas a metrópole já despertara, por suas artérias corriam carros e pessoas, pulsando, bebendo café, com pressa de chegar. Porém, aquele casal desafiava a paisagem, quebrava o ritmo frenético, promovia uma intervenção, quase uma licença romântica inesperada, surpreendente, longa, demorada.

O sinal abriu. Atravessei a larga avenida, passei pelo casal, andei mais de 100 metros além deles, minutos se passaram, olhei pra trás. Nenhuma mudança. Ambos permaneciam completamente envoltos um no outro, alheios ao mundo que os cercava. Os cidadãos iam e vinham, fingindo sórdida indiferença. Mas eles viam, ah viam. Teriam inveja? Satisfação? Esboçariam um sorriso em pensamento? Censurariam aquela depravação? Sentiriam vergonha alheia?

Fiquei imaginando o que esconderia aquela demonstração explícita e afetuosa. Seria um reencontro? Ou talvez um primeiro encontro? Seriam colegas de empresa, apaixonados um pelo outro, e que finalmente resolveram se declarar? O que haveria por trás daquele ilimitado catálogo de possibilidades?  Cheguei ao meu destino. Pensei em olhar pra trás, comtemplá-los mais uma vez, saber se ainda estavam se beijando com a mesma intensidade depois de tanto tempo. Não o fiz. Preferi crer que sim, prosseguiam absortos pela mesmíssima paixão que testemunhei. E continuo acreditando nisso. Penso que eles ainda estão se beijando naquela esquina neste preciso momento. E vou além: vão continuar se beijando amanhã, depois de amanhã e para sempre, mostrando aos impassíveis transeuntes, que um beijo como aquele é uma dessas coisas que fazem a vida valer a pena.

 ***

Eu vi o amor

Eu vi o amor. Aliás, tenho visto o amor todas as manhãs. Não reconheci de início, é verdade. já faz meses que cruzo com ele, mas só um dia desses me dei conta. É que o amor é assim mesmo: dissimulado. Anda por aí sempre fingindo não ser, disfarçando-se, misturando-se à multidão. Aí, quando você se dá conta, eles está lá, bem diante de seus olhos.

Encontrei o amor por acaso e no lugar mais inusitado possível. Estava pedalando na Rota do Sol. Sim, sim, tenho essa mania estranha de acordar de madrugada e sair por aí avançando uma perna após a outra em movimentos circulares, até considerar já ter vertido suficiente sudorese a ponto de me considerar um atleta amador médio de desempenho minimamente aceitável. Pedalando e suando e seguindo a canção vou me deparando com outros ciclistas e corredores da alvorada. E foi em meio a estes tipos madrugadores e umedecidos por glândulas sudoríparas em plena atividade que encontrei o amor. Por essa eu não esperava. Mas o amor é assim mesmo: surpreendente. Se você espera, ele não vem.

O amor que vi se apresentou na forma de um casal por volta dos 40. Ele, sempre correndo. Ela, sempre ao seu lado, pedalando numa bicicleta com cestinha. Todos os dias, eles cumprem a mesma rotina esportiva. Ele corre num bom ritmo e a regularidade com que o faz deve render uma dose extra de saúde e disposição para encarar o dia-a-dia. Talvez o faça por recomendação médica, ou por amor ao esporte, dependência de endorfina, ou por qualquer outra razão. Mas, apesar de seu trote ininterrupto, mostra-se sempre preocupado com sua consorte, para que ela esteja sempre protegida de veículos e desviando de outros ciclistas. Ela pedala devagar, muito lentamente mesmo. Para poder acompanhar uma pessoa a pé, o ciclista precisa moderar o ritmo a um nível quase inercial. Em suma, ela não se exercita de fato. Seu passeio diário tem o mesmo efeito sobre seu corpo que teria ficar dormindo por mais uma hora. Fica claro que o que a faz levantar mais cedo todas as manhãs é ele.

Porém, não foi essa demonstração diária de afeto mútuo que me fez ver o amor naquele casal. Um dia, quando eu pedalava, estava nublado e já nos últimos quilômetros o céu resolveu que não tinha nada melhor para fazer naquele momento que não fosse cair em nossas cabeças e assim o fez. Em meio ao caos, encharcado por um dilúvio que faria Noé botar as barbas de molho e tremer na arca, apressei o ritmo para chegar logo em casa, quando vi, do outro lado da pista, o casal, caminhando lentamente de mãos dadas. Ele conduzia a bicicleta com uma das mãos, enquanto segurava a dela com a outra. Ela, já no chão, o acompanhava sorridente rumo ao ponto final de seu trajeto. O amor é assim: adora andar de mãos dadas na chuva.

Naquele momento compreendi o que minha percepção capenga havia negligenciado por todos os meses passados. Ao ver os dois caminhando calmamente no aguaceiro que caía, de mãos dadas, sem se abalar, transmitindo uma sensação boa de calor no coração, contrastando com a frieza da chuva.

Segunda-feira, bem cedo, eles vão estar lá de novo. Ele, desprendendo-se de alguns ml de suor em troca de um suprimento extra de saúde e vigor físico, dispensando a ela toda a atenção. Ela, sempre ali, apoiando com sua companhia, numa pedalada inócua. Porque o amor é assim: rotineiro, sem nunca ser chato. Faça chuva ou faça sol.

 

Coluna do Novo Jornal – 056 – Exemplos Grandiosos – 17.09.2011

janeiro 30, 2012

Quando eu estava publicando a série “Trilogia do empreendedorismo”, fiz uma pequena pausa para assimilar se a reação histérica e desproporcional ao que eu escrevi era justa ou apenas choradeira escandalosa de quem não é acostumado a críticas. Enquanto eu não decidia, publiquei outras 3 colunas tratando de outros assuntos. Esta foi a primeira, destacando pessoas que trabalham pela literatura no RN.

Boa leitura e boas leituras.

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Exemplos Grandiosos

Esta semana, tive uma epifania. Estava prestes a enviar o terceiro episódio da trilogia do empreendedorismo, chamado de “O Publicitário Conterrâneo” quando me acometi de algo. A repercussão obtida pelas duas primeiras crônicas superaram toda e qualquer expectativa. Os leitores escreviam, tentando adivinhar de quem especificamente eu estava falando, ignorando o fato de que não me referia a ninguém em especial, mas sim a um tipo de comportamento bastante peculiar em certo círculo pré-determinado.

O público passou a apontar dedos acusadores a torto e a direito, identificando supostos alvos de minhas palavras. Foi aí que percebi que minhas palavras, à minha completa e absoluta revelia, estavam servindo para envenenar os corações de meus conterrâneos e leitores ocasionais. A maledicência, prática tão comum e usual em nossa metrópole de recente passado rural e cultura sertaneja arraigada, encontrou em minhas colunas um fértil terreno para atingir com suas implacáveis peçonhas numerosas vítimas inocentes. Um amigo querido me chamou para conversar e me alertou sobre certas consequências indesejáveis e efeitos maléficos que alguns dos meus textos têm causado. A velha e poderosa palavra, produzindo estragos com despudorada voracidade.

Por tudo isso, resolvi mudar de atitude imediatamente. A partir de agora, vou utilizar este espaço para promover o trabalho meritório de pessoas que em muito contribuem com o desenvolvimento de nossa cidade e com a construção de um RN melhor para todos. Gente admirável, cujo trabalho se pauta em fazer o bem aos demais, a uma coletividade, uma comunidade chamada povo potiguar. Dessa forma, espero eu, estarei expiando certos pecados cometidos recentemente, além de ajudando a semear bons sentimentos e anunciando o que de bom tem sido feito por gente como a gente, por pessoas bem próximas a nós. Quero aumentar o coro da torcida a favor, fechar a torneira das cáusticas insinuações e abordar apenas as certezas definitivas dos benfeitores conterrâneos. Creio que só assim poderei ajudar a cicatrizar certas feridas, abertas em peito alheio, dessas que demoram a sarar e que a experiência evita. Começarei esta série com 4 personalidades potiguares que atuam numa área que me é muito valiosa: a promoção da leitura.

A primeira delas é a professora Cláudia Santa Rosa. Uma educadora que trouxe para sua vida cotidiana uma importantíssima missão: transformar o Rio Grande do Norte num Estado de leitores. Cláudia coordena o IDE (Instituto de Desenvolvimento da Educação), criou o fórum potiguar de escolas leitoras e realiza anualmente o “Seminário Potiguar Prazer em Ler”, no qual o gosto pela leitura é multiplicado numa ampla rede social de professores. Todas essas ações são desempenhadas de forma abnegada e certamente já dão seus primeiros frutos, podendo gerar resultados incríveis no futuro.

O que Cláudia Santa Rosa realiza é louvável, admirável e imprescindível para que possamos vislumbrar um lugar melhor para criar nossos filhos. Acende em cada um de nós a chama da prosperidade possível, a esperança de que uma sociedade mais educada, culta e preparada para os desafios do mundo. A professora luta bravamente contra os baixíssimos índices de desempenho de nossas escolas públicas, vítimas de políticas predatórias de gestões passadas e anos de crônica estagnação. Vejo em toda parte cada vez mais frequentes demonstrações de reconhecimento ao seu trabalho, mas ainda acho pouco. Prevejo um dia, que não está distante, em que ela será justamente homenageada pelos serviços prestados à educação potiguar. Uma ovação muito merecida a esta professora que abraça uma das mais nobres causas que existem: o incentivo à leitura.

Para seguir com o tema leitura, parto agora para a publicação de livros. Na verdade, gostaria de escrever algumas poucas palavras direcionadas a um competente pesquisador que se dedica ao registro e publicação da literatura potiguar. Seu nome é Manoel Onofre Jr., desembargador que, após aposentar-se da magistratura, atendeu ao chamado das letras e passou a estudar, divulgar e promover publicações e autores conterrâneos. Seus livros são verdadeiras preciosidades, indispensáveis a qualquer leitor compulsivo, pesquisador acadêmico ou estudante de letras. O professor Onofre (ou Dr. Onofre, como gosto de chamá-lo, apesar de sua resistência calcada em sua característica modéstia) é, ao lado de Tarcísio Gurgel, uma das maiores referências em conhecimento de literatura potiguar e na generosidade com que divulgam esta literatura para o mundo. A eles, meu elogio e a torcida que alguém faça do Dr. Onofre um verbete ou definição tão magistral quanto os que ele próprio redige a respeito de outros escritores.

Outro jurista que assumiu uma árdua missão para com a literatura foi o Dr. Eduardo Gosson, brilhante presidente da seccional potiguar da UBE. Eduardo deu continuidade ao bom trabalho de outro homem da lei e das letras, Lívio Oliveira, e tem se notabilizado como excepcional realizador, homem de ações e resultados. O Encontro Potiguar de Escritores já vai a sua 4ª edição, cada vez mais prestigiado e representativo, o sítio da entidade, implantado em sua gestão, oferece importante conteúdo para pesquisa e o reforço do editor Francisco Alves, que comanda a editora oficial da entidade (“Nave da Palavra”), demonstra a disposição em produzir um trabalho memorável. Convido todos os que gostam de ler a conhecerem a UBE-RN por meio de sua página na Internet: http://www.ubern.org.br/

Por fim, mas não por último, minhas loas vão para Rilder Medeiros, este comunicador que saiu de Angicos para promover o livro e a leitura em todo o Estado. De Natal a Mossoró, passando por Macau e Caicó, Rilder e seu sócio, Osni Damásio, têm trazido ao nosso RN a possibilidade de intercâmbio com grandes autores deste país e levado a discussão em torno do livro para mais perto das pessoas, irradiando uma onda de conhecimento, iniciando uma reação em cadeia do bem, criando um círculo virtuoso especial. Dizer parabéns a eles talvez seja insuficiente, mas é tudo o que posso dizer neste penúltimo parágrafo da coluna.

A todos os citados acima, manifesto meus sinceros agradecimentos e espero homenagear muita gente boa aqui neste mesmo espaço nas colunas vindouras. E quero ver todos vocês comigo, na corrente pra frente, na torcida a favor. Sejamos grandes ante exemplos grandiosos. Amém.

Coluna do Novo Jornal – 059 – A defesa do cronista – 08.10.2011

janeiro 27, 2012

Vocês devem ter notado na atualização de ontem que mudei um pouco a ordem de inserção cronológica das colunas do Novo Jornal, pulando da número 55 para a 61. Agora, volto a fazer isso, publicando a 59. Fiz assim, pois fica mais fácil acompanhar a saga dos empreendedores potiguares em busca do êxito mercadológico e esta crônica extra é uma espécie de resumo de tudo, além de servir de relato de acontecimentos reais dos bastidores da trilogia. Ê Natal! Como diz um amigo meu: “Sucupira perde.”

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A defesa do cronista

Por vezes o cronista é mal interpretado pelos leitores. Normal. Acontece. Somos senhores do que escrevemos, mas nunca do que os outros lerão. Mas o pior é quando certos leitores, munidos de má intenção, comunicam o que escrevi a terceiros, temperando minhas palavras com o molho da maldade e dourando com o calor da fofoca e maledicência.

Recentemente, escrevi uma série de colunas chamadas “Trilogia do empreendedorismo”. Tais textos, em que pese terem sido inspirados em comportamentos correntes em Natal, praticados por pessoas reais, não visavam atingir ninguém. Minha intenção era expor comportamentos com os quais não concordo e, portanto, tenho o direito de criticar.

O primeiro “episódio” da trilogia foi “O impostor da província” na qual critiquei uma classe de profissionais que, aproveitando-se do amadorismo inerente a uma determinada cidade provinciana, supostamente Natal, faz carreira por lá, ganhando a vida a partir da boa vontade e ignorância dos locais, especialmente dos mais abastados e incautos empresários. Minha intenção foi apenas divertir os leitores a partir de observações cotidianas, ao estimular que cada um identificasse pessoas conhecidas suas, que tivessem as mesmas características do meu personagem, espalhando por aí suas bem sucedidas imposturas.

Na segunda semana da série, publiquei “o empresário modelo”, texto no qual abordei o comportamento excessivamente (a meu ver) capitalista de muitos homens de negócio. Não serei hipócrita aqui, dizendo que tudo que está lá foi inventado. Não foi. Baseei minha crônica numa palestra que vi recentemente e que me chocou ao perceber que o auditório aplaudia efusivamente determinados valores ali explanados. Impressionou-me ver que aquele comportamento nocivo à própria cidade do empresário era cultuado pela maioria dos seus conterrâneos. Quis mostrar o outro lado da moeda, uma opinião dissonante, uma interpretação diferente à fala do empresário. Criei uma situação ficcional, um cenário inventado e acrescentei a eles palavras efetivamente ditas na fala que motivou meu texto.

Foi aí que entrou em cena um personagem novo. Um homem que, dotado de raro senso de oportunidade, vislumbrou em meus textos uma chance de se mostrar útil e, de quebra, prejudicar alguém. Chamemos tal sinistra figura de “eminência parda”.

Ao identificar, espertamente, em minhas crônicas duas das pessoas que inspiraram as mal traçadas linhas, fez questão de ler em voz alta ambos os textos para os possíveis personagens, na condição de bom amigo, sempre alerta na defesa da dignidade dos seus. Deu ainda de brinde a eles, sua peçonhenta interpretação, carregando minhas palavras de uma agressividade maior do que eu jamais faria. Acrescentou cada parágrafo com todo o veneno possível, conferindo peso e importância ao que escrevi.

Aos assessorados, seus conselhos e avisos de velho amigo e parceiro comercial caíram como uma bomba. Tão habituados que são aos insondáveis elogios bajulatórios e às tapinhas nas costas em profusão, uma crítica, por menor que fosse, já seria uma tragédia sem precedentes. Imaginem os textos desmoralizantes e cheios de cáusticas referências que foram relatados pela eminência parda. Somem a tudo isso, as muitíssimas teorias conspiratórias que a imaginação do assessor engendrou, atribuindo a mim as mais nefastas intenções, construindo ele próprio um personagem de ficção: “Carlos Fialho o implacável destruidor de reputações e colunista do Novo Jornal que empresta suas palavras aos interesses alheios a fim de difamar homens de bem com suas corrosivas agressões”. Foi assim que o bicho papão aqui foi pintado? Ah, faça-me o favor, vossa eminência!

Logo passei a receber recados, mensagens, recomendações de toda a ordem. Todos deixavam claro o quanto eu sou um homem mau, que agredi com palavras indevidas pessoas de bem, que estou numa posição vulnerável de jovem empresário e que até as pessoas que têm para comigo laços afetivos poderiam se prejudicar seriamente. Também ouvi muito uma pergunta feita por diversos interlocutores: “o que é que você ganha com isso?”

Soube que alguns trechos específicos de minha crônica ofenderam pessoalmente o empresário que teve o texto amplificado em seus ouvidos pela fiel eminência parda. Em minha defesa, afirmo que nada do que escrevi é diferente do que foi dito na palestra que assisti. Uma reação desproporcional e passional como a que meus textos causaram me parece típica de quem não está habituado a ser criticado.

Quanto à pergunta: “o que é que eu ganho com isso?” Um questionamento fruto do tipo de mentalidade materialista e egoísta que critiquei em muitos dos meus textos. Resultado do comportamento de gente que só faz alguma coisa se levar algo em troca. Pois é. Pensando assim, não ganho nada com isso. A intenção de muitos dos meus textos é falar do cotidiano natalense ou do mundo, propondo a vocês que me leem aí do outro lado da página algumas reflexões acerca de nossa cidade, proporcionando a mim mesmo um prazer parnasiano de escriba e aos demais a oportunidade de pensar um pouco sobre os temas que abordo.

No caso da trilogia do empreendedorismo, muitos leitores que se identificaram com o texto, atribuindo características descritas por mim a este ou aquele personagem de suas vidas. Pouquíssimas pessoas haviam relacionado meus textos aos nomes reais que tomaram para si as dores de agredidos, graças à eminência parda que soprou a intriga em seus ouvidos. Porém, após a interrupção abrupta da série (o terceiro episódio nunca veio à tona) muitas pessoas utilizaram seus dotes investigativos e acabaram identificando tais personas reais. Ou seja, mais um caso de tiro que saiu pela culatra, típico dos que são mal assessorados.

Antes de me despedir, gostaria de desmentir alguns boatos que têm sido lançados por aí. Primeiro: não atendi aos interesses de ninguém ao escrever tais textos a não ser os meus próprios de redigir crônicas picarescas sobre essa Natown velha de guerra. Segundo: Cassiano Arruda Câmara não me chamou a atenção nem deu uma bronca, como tem se espalhado por aí os impostores com síndrome de pequeno poder e muito tempo livre. Se isto houvesse ocorrido, eu nem estaria aqui publicando esta defesa.

Para tranquilizar os senhores, principalmente os que se ofendem com o que escrevo, alerto que tentarei ser mais cuidadoso, leve, poético e menos crítico. Por várias razões: primeiro, para proteger as pessoas próximas a mim; segundo, porque gostei muito das colunas amenas publicadas nas três últimas semanas; terceiro, para defender a mim mesmo de certas represálias articuladas por alguma eminência parda da vida. Vou inclusive me matricular na Academia Gracie, do mestre Ronaldo Aoqui, na Prudente de Morais, próximo à futura Arena das Dunas. Nada demais. Quero apenas me utilizar da arte suave do jiu-jitsu para me defender de alguma possível agressão física. Afinal, nesta cidade, nunca se sabe quando alguém vai tentar nos dar um soco em local público, não é mesmo?

Coluna do Novo Jornal – 061 – Trilogia do Empreendedorismo – Episódio Final: O Publicitário Conterrâneo – 22.10.2011

janeiro 26, 2012

E fechando a série, o episódio final. Amanhã, publico um balanço que justifica e revela mais um personagem desta trilogia que acabou rendendo 4 capítulos.

Valeu!

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Trilogia do Empreendedorismo – Episódio Final: O Publicitário Conterrâneo.

Antes que comecem a injusta distribuição de carapuças, gostaria de revelar que esta coluna é puramente ficção e nada tem a ver com os donos de agência mais bem sucedidas do mercado.

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Uma das figuras mais pitorescas do empreendedorismo local é a do inconfundível publicitário conterrâneo. Um personagem e tanto, que não poderia ficar de fora de nossa trilogia, convertendo-se, inclusive, no perfeito fechamento para esta singela e inofensiva série de crônicas bem humoradas. Tal personagem é, invariavelmente, dono de uma agência de propaganda. Está no ramo há muitos anos. Foi um dos primeiros a perceber que esta é uma área fértil em recursos e carente de conhecimento específico, convertendo-se numa enorme fonte de dinheiro ao melhor estilo “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Aliás, ele parece levar muito a sério tal proverbial afirmativa, uma vez que age como se fosse um verdadeiro rei, soberano de suas ações, ostentando a pose de um déspota absolutista e deixando claro aos seus funcionários que não passam de humildes e inexpressivos súditos destinados a servi-lo.

Sua figura de monarca pode ser facilmente observada em solenes almoços, eventos exclusivos e gabinetes obscuros. Sempre a olhar de soslaio, buscando políticos importantes, empresários endinheirados e personagens influentes. Ao encontrar uma potencial vítima, arma-se com seu mais aberto sorriso, um cordial aperto de mão e vasto vocabulário bajulatório de ocasião. Posiciona-se estrategicamente, tal qual a rêmora que se alimenta dos nacos de carne fresca deixados para trás pelo imponente tubarão. Em tais encontros sociais, aproveita também para conversar com pessoas que admirem o trabalho de sua agência, extraindo-lhes astuciosamente elogios em voz alta que possam alcançar ouvidos alheios e preciosos a seus interesses comerciais.

Em restaurantes frequentados pela society, o Publicitário se destaca no grupo ao passar o tempo todo tecendo elogios a si mesmo e ao trabalho realizado por sua agência. Não vê nada de estranho em praticar o auto-elogio indiscriminadamente, uma vez que nem sempre as pessoas comuns percebem sua evidente genialidade, precisando ele próprio alertar ou lembrar a todos sobre tal característica inerente a si.

Outra forma de identificá-lo é prestando atenção nos trejeitos peculiares e maneirismos indisfarçáveis, como o peito estufado, o permanente olhar de desdém e a respiração profunda que antecede suas falas, na tentativa de conferir alguma importância e ineditismo às mais banais e corriqueiras afirmações. Numa roda de conversa, precisa ser o centro das atenções, brilhar mais que os demais, exibir-se tal qual um garboso pavão.

É provável que tal comportamento tenha duas origens distintas:

1 – Parecer genial é ser genial.

Na terra do Publicitário Conterrâneo, as aparências contam mais do que qualquer outro aspecto de sua vida. Por isso, passar para as pessoas uma imagem vencedora equivale a ser, de fato, um vencedor. Como ninguém presta muita atenção ao conteúdo do que se diz, pode-se perfeitamente falar a esmo um monte de asneiras e generalidades incongruentes e, ainda assim, conquistar o respeito e a admiração de todos. Como foi desta forma, ostentando uma postura de pseudo-superioridade, que o bem sucedido empresário chegou ao topo, não há razão para mexer em time que está vencendo na vida.

2 – A afirmação que se torna verdade.

A atividade da propaganda costuma exercer certo fascínio nas pessoas, fruto do desconhecimento relativo quanto ao que se faz no dia-a-dia de tal profissão. Há uma tênue névoa de charme e mistério envolvendo o universo dos anúncios e reclames. Tal fenômeno leva muitos leigos a acreditarem que a publicidade é a mais perfeita representação da arte em nossos dias, pois só ela une a sublime genialidade dos artistas ao senso de oportunidade dos grandes empresários. Os publicitários podem dizer de si mesmos que são uma espécie de mescla entre Michelângelo e Rockfeller, Mozart e Donald Trump, Machado de Assis e Eike Batista. Tal inverdade, ao ser repetida exaustivamente com o passar dos anos, acabou fixando residência no subconsciente do Publicitário Conterrâneo.  Por isso, ele também crê na imagem de ser supremo e de proeminente córtex cerebral que vende aos seus pares, pois repete a máxima da própria genialidade como um mantra motivacional que rege sua vida.

Em que pese ser a vaidade, alimentada por muitos anos de prática, um de seus maiores atributos, muitos dizem que ela é superada em intensidade e potência pela voracidade de animal selvagem com que se lança aos negócios. O Publicitário Conterrâneo apresenta um apetite insaciável por dinheiro, novas contas, verbas de mídia e produção.

Com sua trajetória irretocável, enorme êxito empresarial, maiúscula competência gerencial e uma carreira marcada por conquistas grandiosas, é natural concluir que nosso herói tenha adquirido alguns inimigos. Aliás, vários. Pensando bem, muitos. Todos os seus concorrentes o odeiam, muitos dos seus ex-clientes também e qualquer um de seus ex-funcionários apresentam sintomas de estresse, bruxismo, convulsões e estranhos tiques nervosos à simples menção de seu nome.

No entanto, tais percalços não o abatem em absoluto. Afinal, ele precisa continuar desempenhando seu papel de detentor de maior entendido em marketing que já surgiu, apesar de ter parado de se atualizar a muitos anos. Segue atuando com desenvoltura e destemor, evitando concorrências leais, regras claras de disputa e decisões pautadas na qualidade do trabalho, preferindo o jogo de bastidores, o tráfico de influência, os telefonemas a amigos importantes, a lábia de quem se acha mais charmoso que Brad Pitt e mais perspicaz que Sherlock Holmes. Tais supostas qualidades são fundamentais para novas conquistas, pois a qualidade do seu trabalho vem sendo duramente questionada nos últimos anos. Mas ele não se abala. Quem é rei, nunca perde a majestade.

Coluna do Novo Jornal – 055 – Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 2: O Empresário Modelo – 10.09.2011

janeiro 25, 2012

Dando seguimento à trilogia do empreendedorismo, o empresário modelo.

Boa leitura.

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Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 2: O Empresário Modelo

Vi anunciarem a palestra. Seria na Convenção dos Empresários. O ex-presidente da Câmara dos Dirigentes Empresariais falaria do seu caso de sucesso. Um evento para inspirar corações e mentes empreendedoras.

Corri para garantir um lugar na plateia. Afinal, o Empresário era um ótimo exemplo de êxito e causava grande admiração em seus pares. Sua ambição, seu sucesso, seus ganhos, tudo em torno dele provocava a inveja alheia. Era algo que os outros queriam pra si. Havia construído um vasto patrimônio com muito trabalho, metas bem definidas e apurado faro de negócios. Eu, como pequeno empresário que sou, tinha, portanto, a obrigação moral de assistir à palestra.

Auditório lotado, a expectativa era grande. O homem começou sua fala com uma piada. Não funcionou. Ninguém riu. O silêncio constrangedor tomou conta do ambiente, mas logo foi quebrado pelo protagonista que contou que sua vida é movida pelas metas a bater. Todos os meses ele inicia o mês com um número a atingir e canaliza toda a sua energia a alcançá-lo, e até superá-lo, o quanto antes. A frase que expressava tal sentimento e que, de certa maneira, definia sua vida era: “Tenho meta pra bater.”

Sua história não difere de muitas outras que conhecemos, quase um lugar comum. Começou administrando humildemente sua firma. Logo a ampliou, comprou as duas maiores concorrentes, dominou o mercado, prosperou economicamente, atraiu sócios importantes e estribados. Abriu capital na bolsa, fez negócios com estrangeiros e muito mais. Tudo isso, as pessoas ali presentes já sabiam. O que interessava mais eram seus métodos. O que ele fizera de diferente para ser tão exitoso?

Em instantes, ele supriu tal expectativa dos presentes. O foco sem desvios nos objetivos pretendidos era o primeiro dos seus segredos. O Empresário afirmou ter aberto mão de qualquer modalidade de lazer. Diversão pra ele era analisar balanços positivos. Não gostava de futebol, nem de cinema, não via televisão, não ouvia música. “Não faço nada disso! Tenho meta pra bater!” A certa altura, quando citou um ensinamento aprendido em um livro, descreveu da seguinte maneira: “Não tenho tempo para ler, pois tenho meta pra bater, mas uma vez dei uma folheada num livro e um autor disse que pra vencer na vida, temos que mirar nos grandes.”

Em que pese à velha e esfarrapada desculpa da “falta de tempo” que, na verdade, quer dizer que ele não prioriza aquela atividade, o empresário deu uma preciosa dica. Um dos seus segredos é a obsessão pelo trabalho de forma a não permitir distrações. A renúncia aos livros ou a qualquer aquisição de conhecimento não específico denotava certo culto à ignorância que deixava todo o potencial intelectual livre para que o indivíduo se dedicasse a uma única atividade.

O palestrante foi além. Disse que não lembrava a última vez que havia almoçado com a filha num fim de semana. Ou seja, amava o desempenho de sua firma, mais do que a família. Um sacrifício pessoal que fazia em nome das margens de lucro. A vida é feita de escolhas e ele havia feito a sua. O público se sentiu um tanto incomodado. Estava claro que, se quisessem ter êxito em suas carreiras de empresários e executivos, teriam que abandonar a diversão e deixar a família de lado.

O Empresário também explicou como fazia para “mirar nos grandes”, conforme recomendou o livro que havia citado antes. “Eu visito os estandes dos grandes do segmento e copio tudo! Tem gente que fala em se basear nos outros. Eu não tenho esse negócio de me basear não. Eu copio mesmo!” Risos constrangidos na plateia, logo seguidos de aplausos nervosos, em meio a questionamentos éticos silenciosos que remoíam os pensamentos dos assistentes, conceitos de certo e errado que pairavam no ar, duelando em seus juízos de valor, na tentativa de determinar se a atitude do homem se justificava ou não.

Novo embaraço veio na sequência. O Empresário contou a história do boom imobiliário vivido em sua cidade, motivado por investimentos estrangeiros. “Foi uma época muito boa. 1 Euro valia 4 Reais. Foquei nos estrangeiros. Vendia centenas de apartamentos e não queria nem saber dos locais.” As pessoas ali sentadas, atentas e interessadas, quase todas locais, tiveram novo momento de desconforto. Porém, o astro do dia apresentou uma reviravolta. Disse que, após 5 anos de fartura, os europeus começaram a enfrentar uma grave crise econômica e deixaram de investir na cidade. “Eu percebi isso e voltei a dar atenção ao público local.” O público local se entreolhou, sentindo-se um prêmio de consolação, ao melhor estilo “só-tem-tu-vai-tu-mesmo”.

Ou seja, para ser bem sucedidos também não se deve guardar grandes afeições pelo lugar de origem. Se o dinheiro vier de fora, mesmo que prejudique os clientes conterrâneos por concorrência desleal, represente sobrecarga à infraestrutura e ao meio ambiente do lugar, ele será sempre bem-vindo. E quanto mais rápido ele vier, melhor. Depois, se for o caso, deve-se pensar nos habitantes da cidade.

Alguns presentes lembraram-se de denúncias envolvendo o Empresário Modelo, anos antes, que davam conta de subornos pagos a vereadores para que estes votassem o plano diretor da cidade de acordo com as pretensões do mercado imobiliário. Não que as acusações tivessem fundamento, mas já que o palestrante tornava públicos naquele dia, valores morais tão elásticos, que iam do hábito de copiar os outros ao total desapego das pessoas de sua cidade, não seria por demais absurdo pensar que ele pudesse fazer certos agrados a políticos simpáticos a sua causa e, claro, a suas metas.

Ao final de sua fala, o homem revelou as metas a serem atingidas este ano e disse já estar próximo de alcançá-las. A palestra acabou com efusivos aplausos, tão intensos que quase levaram o auditório abaixo. Apesar dos momentos de sinceridade extrema, os ouvintes tinham muitos motivos para admirar o Empresário. O faturamento de sua empresa, a expansão obtida ano a ano, a voracidade insaciável com que partia para cima de novas fatias do mercado. Tudo isso fazia dele um modelo para aquelas pessoas ali, que uniam as palmas das mãos com energia e espontaneidade.

Eu próprio também saí de lá considerando o Empresário, um modelo… que não quero seguir. De jeito nenhum.

Coluna do Novo Jornal – 054 – Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 1: O Impostor da província – 03.09.2011

janeiro 24, 2012

Série de crônicas baseadas em observações corporativas cotidianas. Divirtam-se!

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Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 1: O Impostor da província

Não se sabe ao certo quando o Impostor chegou à província. Também não se tem conhecimento de qual função desempenhava. Talvez nem ele saiba explicar. Certamente, dirá o cargo que ocupava, de maneira pomposa, impostando a voz para expressar a aparente complexidade e importância do emprego, tal qual um locutor de rádio nato que, por um caprichoso do destino, elegeu outra carreira a seguir. Porém, caso queira perguntar-lhe o que fazia exatamente ali, nem ele nem ninguém poderá responder satisfatoriamente.

 

Estima-se que sua chegada tenha ocorrido em meados dos anos de 1990, quando o lugar começou a viver um surto de crescimento econômico e precisou importar gestores e líderes especializados, vindos de centros desenvolvidos. Era preciso ordem para gerir o progresso da província e a solução estava fora. Fazia-se imperativo ir às metrópoles, aquelas que já se haviam desenvolvido anos antes, garimpar os melhores agentes desta prosperidade para que eles guiassem os provincianos pelos tortuosos caminhos das decisões difíceis, alugando-lhes sua competência gerencial e inegável capacidade.

Quando chegou, logo atraiu outros como ele. Toda uma horda de Impostores foi dar com os costados na província. Instalaram-se em amplos escritórios acarpetados em cujas portas poder-se-ia ler nomes como “gerente de marketing”, “diretor de novos negócios”, “superintendente executivo”, “chefe supremo do universo corporativo”, “Pai, Filho e Espírito Santo, Amém”. A tropa comandava veículos de comunicação, compunha os conselhos de algumas das mais abastadas empresas em diversos segmentos, infiltrou-se em escalões quase altos do poder público, prestou consultorias especializadas para empresários desesperados por maiores lucros ou menores prejuízos.

Se as coisas não davam certo, o que costumeiramente ocorria, o Impostor sabia exatamente o que fazer: botar a culpa nos outros. Ele era muito bom nisso. Quando os resultados não vinham, sempre havia um subalterno incompetente que descumprira uma ordem crucial, uma conjuntura desfavorável que se interpôs no caminho, um contexto macro-econômico internacional que implodiu o seu trabalho, um concorrente desleal que lhe passou a perna, o próprio contratante que não seguiu suas recomendações ao pé da letra, ou mesmo o El Niño que andava muito cruel àquela época. Enfim, a responsabilidade era de todos, menos dele.

No entanto, caso o desempenho da organização onde estava inserido fosse bom, tomava para si todo o mérito. Palestrava aos chefes como portador da boa notícia, insuflava a assessoria de imprensa a distribuir releases festivos, dava entrevistas como um infalível homem de negócios que acabava de angariar mais um troféu para sua coleção particular de êxitos empresariais. Dessa forma, prolongava sua trajetória de enganos, convencendo um grande número de pessoas de suas competências essenciais, aproveitando-se do amadorismo reinante na pobre e ingênua província.

Não demorou muito e logo os Impostores ocuparam também as vagas de professores nos incipientes cursos de propaganda, marketing e gestão da época. Distraíam os alunos com os cargos que ocupavam, as roupas sociais que pressupunham um líder no mercado, a voz bem ritmada, a retórica elaborada, a capacidade de falar sem parar e nunca dizer nada, o hábito de repetir generalidades inócuas que não faziam outra coisa a não ser preencher o tempo das aulas e deixar nos pupilos a certeza de que “marketing é a ciência de enrolar os outros”.

Esta conclusão dos estudantes nascia de uma constatação real. Os Impostores são verdadeiros especialistas em porra nenhuma, mestres em amenidades sem importância, papagaios engravatados que repetiam sem cessar trechos de livros de auto-ajuda corporativa em palestras, salas de aula ou em suas repartições e empresas. Em seus ambientes de trabalho, além de todo esse falatório, distribuíam ordens sem sentido, omitiam-se dos fracassos e usurpavam as boas idéias dos subalternos, ganhando fortunas para isto.

A grande pergunta que você deve estar se fazendo é: “Como alguém consegue enganar tanta gente? Onde é que fica essa província de gente tão néscia e ignorante?” As respostas residem no charme pessoal dos Impostores. Mesmo não tendo profundo conhecimento a respeito de nada, comunicam-se bem como poucos. São artistas da eloquência, expressando-se com maestria numa terra em que a grande maioria balbucia um vocabulário rudimentar, ou berra em altos brados um repertório de poucas dezenas de palavras. O Impostor não. Sabe falar. Alguns deles chegam até a dar cursos de como falar em público, nos quais transmitem ensinamentos como “o que fazer com as mãos”, “que frases evitar em discursos” e outras dicas de mesma estirpe.

Tal desenvoltura oral os leva a exercer um inevitável magnetismo para microfones. Não perdem a oportunidade de discorrer sobre assuntos que não dominam sequer remotamente ou de alardear os ótimos números das empresas que gerem. Com frequência fazem as vezes de mestres de cerimônias de eventos e convenções, mantendo-se em evidência nos grandes palcos, compondo mesas lado a lado com as mais representativas autoridades, alimentando o insaciável ego ao manter-se sempre em evidência. Porque, para ele, o mais importante não é o dinheiro, mas estar próximo do poder e, dessa forma, exercê-lo também.

Vez em quando surgem convites para escrever em alguma revista de negócios da província. Ao fazê-lo, escolhem um tema insípido, sem muita profundidade, minimizando os riscos de derrapagem. Com uma abordagem superficial e professoral, escolhem um tema como “será que nós estamos nos comunicando bem?”, tratando da comunicação entre a empresa e seus funcionários ou dos funcionários entre si. Na prática, porém, não costuma manter boas relações com as camadas mais baixas dos organogramas, deixando sempre muito claro que ele é superior em importância e hierarquia.

O Impostor da província é um personagem que não pode ser eliminado. Continua por aí, perambulando de cargo em cargo, ganhando dinheiro por inércia, por W.O., por falta de outro que saiba fazer o serviço que ele também não sabe, mas dize saber.

Já ouvi dizerem que é impossível enganar a muitos por tanto tempo. Não é verdade. O Impostor segue em plena forma, ostentando um currículo repleto de apropriações de realizações alheias e propagando um discurso mais afiado do que nunca. A província não percebe nada. Lá, ele é rei, exaltado e incensado, prestigiado e influente. Porque a impostura é uma espécie de patrimônio local, tão valiosa que os provincianos não cansam de dizer ao Impostor: “Me engana que eu gosto.”

Coluna do Novo Jornal – 053 – Um Dia Verde – 27.08.2011

janeiro 23, 2012

Crônica nostálgica. Viagem no tempo comigo, jovens.

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Um Dia Verde

Eu gosto do verde. Da cor verde. E não se trata de consciência ecológica ou simpatia gratuita. Minha predileção por essa cor tem duas razões bastante simples: sou consumidor e fã da cerveja holandesa Heineken e quando eu tinha 15 anos ouvi um certo som que fez muito bem aos meus ouvidos em meio à confusa e cheia de sobressaltos adolescência. Era um som, digamos assim, “verde”, que tomava conta de tudo como uma trepadeira cobre muros e, como não poderia deixar de ser, era um som punk. Naquele já longínquo 94 do século passado, ano de muita efervescência musical, tive a consciência que só o Punk salva. Amém!

O ano do tetra foi marcado por trabalhos e acontecimentos que me causaram profunda impressão: teve o “Da Lama ao Caos” de Chico Sciensce e Nação Zumbi, o acústico do Nirvana (e o tiro na cabeça do Kurt Cobain), o primeiro disco dos Raimundos, a explosão do Oasis (“Wonderwall”, “Don’t look back in anger”), o surpreendente “Usuário” do Planet e o “Smash” do Offspring, só pra citar alguns de memória. Gosto de todos, mas para mim talvez o CD mais divertido a ser prensado naquele ano tenha sido um com encarte bonito em que havia uma ilustração bem bacana de uma cidade e uma explosão, o “Dookie” do Green Day.

Som vibrante, alegre, moleque, urgente e pegajoso, que invadiu meu toca-CDs e segue tocando alto nos fones de ouvido até hoje. Faixa por faixa era um disco quase todo composto por hits e meio que me salvou de um caminho muito perigoso. Entre os 13 e 17 anos o adolescente vive aquele período de tomada de decisão, busca de uma identidade, formação de um caráter e de uma personalidade. As escolhas que a gente faz nessa fase da vida podem marcar para sempre nossa passagem por este mundo. Por isso eu me encontrava em um terreno bastante perigoso, pois o Colégio das Neves onde estudava era uma verdadeira incubadora de idiotas. O nível educaional era muito bom. Tínhamos bons professores e o conteúdo, tirando os dogmas medievais que nos eram repetidos como mantras, produziu alguns dos melhores e mais bem sucedidos adultos de minha geração. O problema era a mentalidade reinante entre os meus colegas, uma gente muito simpática, mas careta, preconceituosa e adepta de uma estupidez corrosiva e mais contagiante que a gripe espanhola.

Num ambiente como esse, se você não reza segundo a cartilha reinante da coletividade, o que para um jovem aluno Neves significava ir a shows de Axé, saber dançar forró e frequentar os pagodes de fim de semana, pode estar condenado a uma rápida morte social ou, muito pior, ganhar reputação de excêntrico o que, aliás, dá no mesmo. Eu gostava de rock. Até me esforçava (não muito) para ser igual aos outros, mas não dava. Paguei um preço por minhas opções. Meus amigos achavam exótico, as meninas da GRD nem olhavam pra mim e os que não me conheciam tinham a sensação de que era melhor continuarem assim. Até que descobri em outras salas e séries, alguns como eu.  Minha solidão terminou quando percebi que havia um pequeno nicho roqueiro na escola. Fiz amigos como Fernando Filho, Thales Lago, Caio Vitoriano, Leonardo Medeiros, Diogo Salim, Vítor Duarte e juntos criamos nosso próprio gueto, protegido da intolerância e hostilidade dos demais.

O Green Day, Offspring e muitos outros conjuntos roqueiros gringos e também brasileiros proporcionaram minha catequese, pavimentando um caminho para que eu conhecesse outros sons, bandas mais pesadas, ritmos mais frenéticos. Estava salvo. Só havia um problema: possivelmente eu nunca teria a oportunidade de ver meus grupos preferidos em apresentações ao vivo. Numa cidade em que Durval é rei e todos os puxadores de bloco ganham títulos de cidadãos locais, deveria haver alguma lei que mantinha os shows internacionais a milhares de quilômetros. Felizmente, os anos mostraram que eu estava errado.

Em 2004, o Offspring tocou em Recife. Em 2009 e 2011, foi a vez do Iron Maiden fazer o mesmo. Vez por outra também rola um concerto imperdível em São Paulo ou Rio e, com um pouco de economia e planejamento, dá pra marcar presença. Mas ainda faltava o Green Day. Faltava, pois por uma dessas jogadas do destino, acabei vindo passar um período de estudos fora de Natal e haveria um show dos californianos na cidade onde eu morava.

Quando chegamos à fila do evento, gigantesca, dando voltas no quarteirão, a primeira coisa que vi foi a multidão de camisetas pretas que passavam uma mensagem clara: eu estava em casa. Depois percebi que a maioria era de adolescentes ou adultos bem mais jovens que eu. Senti-me o tiozão do Rock. Aquela gurizada conheceu o grupo certamente através do “American Idiot”. Ao percorrer a extensão da fila, comecei a perceber representantes de minha época, facilmente identificáveis pelas rugas pioneiras, grisalhos precoces ou calvícies proeminentes. Fiquei imaginando se a banda foi tão importante para eles, na formação de seus gostos musicais, quanto foi pra mim. Durante a espera, muitos senhores e senhoras que passavam, paravam um pouco para nos perguntar o propósito de uma multidão de jovens como aquela, disciplinadamente alinhada, ordenadamente a espera de algo certamente grande. “Vamos a um concerto de Rock”, eu respodia todo simpático.

Até que, finalmente, teve início o espetáculo: público insano, devotado e de alma lavada. Inclusive eu, pois finalmente podia ver Billy Joe, Tré Cool e Mike Dirnt numa performance memorável. Quase 3 horas de clássicos (“Basket Case”, “She”, “When I come arround”), canções históricas (“Minority”, “American Idiot”, “Boulevard of broken dreams”) e baladas (“Good riddance”), além das mais recentes do “21st Century  Breakdown”. Tudo bem orquestrado com uma produção impecável, muita energia na plateia e ótima presença de palco.

A data de 29 de setembro de 2009 entrou para a história, pelo menos para a minha história. Foi um bom dia, colorido com contornos verdes, regado ao sabor amargo de muita cerveja e cada vez que lembro do concerto se anuncia um largo e satisfeito sorriso em meu rosto. O que aconteceu naquela terça-feira foi uma celebração aos 15 anos que se passaram desde que eu ouvi o Green Day pela primeira vez.  A alegria que eu exibia no show não era apenas de um fã que via ao vivo a performance de seus ídolos, mas de um adulto que se descobria muito feliz pelas escolhas que fez.

Coluna do Novo Jornal – 052 – A Entrevista – 20.08.2011

janeiro 20, 2012

True story! Podem perguntar pra Minchoni.

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A Entrevista

Este fim de semana, está em Natal o escritor, artista plástico e publicitário, Daniel Minchoni. Nasceu em São Paulo, viveu uma década em Natal e em seguida voltou a sua cidade de origem. É meu sócio na editora Jovens Escribas que surgiu como um voluntarioso selo literário no 4º ano da década passada. Aproveito a presença de Minchoni em Natal para contar uma história real que vivenciamos em 2006.

Tudo começou numa noite de sexta-feira, eu já a caminho da praia após uma exaustiva semana de trabalho, recebi um telefonema seu. Ele disse que ligaram para ele de um canal de TV, querendo agendar para o dia seguinte, às 8 da manhã, uma entrevista ao vivo no programa de maior audiência do canal, para falar da Jovens Escribas. Minchoni achava que era uma boa chance de divulgação do nosso trabalho, mas que não iria sozinho, uma vez que um dos nossos diferenciais sempre foi a natureza coletiva do projeto. Patrício Jr. (nosso terceiro sócio) não poderia ir, pois já se encontrava no litoral norte, na casa de praia de sua família. Adiei minha ida à praia pra depois da entrevista e fui pegar Daniel bem cedo em sua casa.

A caminho da emissora, combinamos como seria todo o nosso roteiro. Primeiro, antes de entrar no ar, conversaríamos com o apresentador do programa, para dizermos que eu começaria falando um pouco de como surgiu a ideia do selo, como começamos a publicar os livros, o que pretendíamos publicar ainda em 2006. Em seguida, Minchoni falaria um pouco dos livros (Verão Veraneio, Lítio, É Tudo Mentira!, Contos Bregas e Escolha o Título) que já havíamos publicado. Com tudo combinado previamente não teria erro, uma vez que, tanto eu, quanto ele, somos muito tímidos diante de microfones ligados, estúdios com ar-condicionado no máximo e câmeras de TV apontadas para nós.

Ao chegarmos na sede do canal de TV, fomos cumprimentados pelo apresentador. Ele reconheceu Minchoni como sendo publicitário, pois já o havia entrevistado a respeito de um evento do Clube de Criação do RN, entidade da qual ele era diretor. Daniel respondeu algo como: “Sim, sou publicitário, faço parte do CCRN, mas hoje estamos aqui para falar só de literatura.” O apresentador soltou um “hum-rum” enquanto amarrava sua gravata e perguntou o que eu fazia da vida além de publicar livros. Falei que também era publicitário e trabalhava numa agência ao que ele também soltou um desinteressado “hum-rum”.

Fomos conduzidos a um estúdio refrigerado e posicionados em tamboretes altos com os microfones de lapela devidamente presos em nossas camisas. Conosco no estúdio, além do apresentador, havia uma garotinha de uns 8 anos de idade a frente de um microfone de pedestal. Meu frio na barriga crescia rapidamente e eu ficava cada vez mais nervoso (o programa era ao vivo). “Silêncio no estúdio!”, passa a vinheta de abertura e…

“Boooom dia! Bom dia! Este é mais um programa … da sua TV… e hoje nós temos aqui a Ádala Nataly, a cantora mirim de Macaíba. E temos também os publicitários Daniel Minchoni e Carlos Filho, que vão falar de publicidade e também de livros num papo muito interessante. Mas antes vamos ouvir um pouco de Ádala Nataly, a cantora evangélica mirim de Macaíba.

A garotinha começou então a cantar altíssimo com uma voz muito aguda em seu microfone: “DEEEEEEEUS, ME CAPACIIIIIITA EM SEU BEM QUEREEEEEER! POIS É PRA TI QUE EU QUERO VIVEEEEEEER!!!” Eu e Minchoni, assustados com aquela voz vigorosa e intimidados com a desenvoltura da menina com as câmeras, certamente inversamente proporcional à nossa, ficamos pensando em que contexto, nós falaríamos sobre os livros. Quando a garotinha terminou sua canção, o apresentador chegou ao nosso lado e disse novamente: “Daniel Minchoni e Carlos Filho vão conversar com a gente…” Eu já me preparava para dizer o que havia combinado previamente com Daniel, quando o homem completou “… mas não agora, porque temos uma participação ao vivo”.

Durante os seguintes 5 minutos, uma telespectadora falou o quanto ela estava tocada pela voz da pequenina Ádala Nataly, como aquela garotinha melodiosa era um instrumento de promoção do Senhor, como era possível sentir a presença do Altíssimo ao se deliciar com a suas canções maravilhosas e etc…  O apresentador, influenciado pela vivaz empolgação da telespectadora do programa, pediu a Ádala Nataly que cantasse mais uma canção. Ele próprio, visivelmente comovido, olhava para nós, fora do foco das câmeras e comentava: “É um rouxinol! É um rouxinol!” Com isso, encerrou-se o primeiro bloco e a entrevista ficou para a segunda metade do programa.

Ao voltarmos do intervalo, cumprindo a promessa, o apresentador, logo após saldar o público de casa, dirigiu-se a nós e fez a primeira pergunta da entrevista: “Clube de Publicidade de Natal! Meu amigo, Carlos Filho, explique o que faz o Clube de Publicidade de Natal…” Eu, que não tinha nada a ver com o Clube de Criação do Rio Grande do Norte, fiquei sem saber o que fazer. Então, fiz o que talvez a maioria fizesse em meu lugar, tive uma crise de riso de quase um minuto. Quando voltei a mim, tive que responder alguma coisa uma vez que aquilo era televisão ao vivo. Falei então de todas as ações maravilhosas que o CCRN promovia (todas inventadas ali mesmo de improviso) e, pra não passar vergonha sozinho, citei um monte de nomes de colegas publicitários para poder dividir, pelo menos um pouco, todo aquele embaraço surreal.

Em seguida à minha resposta, o apresentador se voltou pra Minchoni e perguntou: “E como vai a agência …?”, referindo-se à agência de propaganda em que EU trabalhava. Daniel, acompanhando o que eu havia feito, também mentiu descaradamente, falando que era uma ótima empresa, repleta de pessoas formidáveis e que tinha muito orgulho de trabalhar lá. O apresentador, muito satisfeito com a entrevista, elogiou nossa postura de jovens profissionais, exemplos para os muitos garotos que assistiam ao programa e agradeceu a presença naquela manhã de sábado. Saímos de lá sem nem sequer mencionar os assuntos livros ou selo editorial, mas antes de irmos embora, fomos mais uma vez agraciados com a voz de rouxinol da cantora evangélica mirim de Macaíba, Ádala Nataly em sua derradeira canção da manhã.

Deixei Minchoni em casa em meio a risos incontidos de ambos e torcendo para que nenhum dos nossos amigos tenha assistido ao programa. Depois, finalmente fui pra praia com vontade de não voltar. Nunca mais.

 

Coluna do Novo Jornal – 051 – Media Noche en Madrid – 13.08.2011

janeiro 19, 2012

Uma crônica sobre nostalgia.

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Media Noche en Madrid

“Não se faz mais nostalgia como antigamente.” Assim expressou sua ironia alguém espirituoso e bem-humorado de cuja identidade não me recordo. Tal frase me faz lembrar o mais recente filme de Woody Allen, “Meia noite em Paris”. Uma produção com a qual o baixinho nervoso do Brooklin encantou meio mundo com seu envolvente clima romântico e história povoada por grandes personagens da alta cultura mundial, além de inúmeras referências à literatura, cinema, música e artes plásticas.

O filme repetiu diversas virtudes de produções recentes de Allen. Um texto preciso, como em “Se tudo der certo”; um ótimo roteiro como em “Match Point”; um ar de sofisticação europeia como em “Vicky Cristina Barcelona”; e ainda resgata ingredientes fantasiosos presentes em filmes como “A Rosa Púrpura do Cairo”. O resultado logo apareceu. A produção agradou críticos e o público fiel às películas do judeu nova-iorquino, que alcançou sua melhor bilheteria desde os anos 70.

Vi “Meia noite em Paris” nas minhas últimas férias. Ocasião na qual, eu próprio vivia uma certa nostalgia. Estava em Madrid, cidade onde vivi por 6 meses entre 2009 e 2010 numa temporada de estudos. Agora, 1 ano e meio depois, quis voltar à cidade e encontrar tudo como lá deixei, além de repetir as mesmíssimas sensações que tinha quando vivia ali. Seria o final perfeito para minhas férias: 4 dias em Madrid, revendo amigos, andando por ruas conhecidas, frequentando novamente os mesmos bares e cafés aos quais costumava ir. Seria como reviver um período recente de minha vida que me traz muitas boas recordações.

No tempo em que morei na capital espanhola, Nina e eu conhecemos um grupo de amigos com os quais saíamos todas as sextas para tomar umas cervejas (na verdade, muitas) no bar San Julian. Eram 3 amigos espanhóis, 2 deles casados com brasileiras e outro com uma ucraniana. Inseparáveis, divertidos e acolhedores.

Entre 2009 e 2010, o clima não era bom. Só se falava em crise, desemprego, falta de perspectiva e outras milongas. As pessoas falavam do Brasil como se fôssemos a potência econômica hegemônica no mundo. Eu tentava dizer a elas: “vejam bem, não é assim. Temos 30% de analfabetos. Desenvolvimento não é só dinheiro, também é cultura, educação, infraestrutura…” Não adiantava. A autoestima deles estava tão em baixa que a admiração ao Brasil ganhava contornos quase ficcionais. Na TV, todos os dias havia debates no congresso entre Zapatero (primeiro ministro) e Mariano Rajoi (líder da oposição). Eu achava aquilo engraçado. Os dois homens expondo suas ideias acaloradamente, repetindo-se diariamente como num episódio do Chaves, discutindo, discutindo, mas sem nunca resolver os problemas do país.

Na minha volta, há 2 meses, planejei com Nina um grande reencontro com os casais amigos no San Julian. Chegaríamos exatamente na manhã de uma sexta-feira e seria muito bom fazer parte novamente daquela turma, mesmo que por uma noite ou um fim de semana apenas. No entanto, e como diz o ditado contemporâneo: “na teoria, a prática é outra”. O grupo de amigos inseparáveis, harmoniosos e bem-humorados estava bastante mudado. Os casais já não eram amigos. Uma pequena centelha de desentendimento e certa falta de afinidade entre as mulheres cresceram e multiplicaram-se como células cancerígenas em metástase.

Cada uma das 3 famílias vivia sem encontrar as outras 2. Viviam sem se encontrar, sem se falar, sem compartilhar nada, nem fotos no Facebook. As fofocas e intrigas sem valor ou relevância envenenaram os 6 corações, fazendo com que nossa noite se transformasse numa longa e tensa sucessão de lamentos em que cada parte expunha seu ponto de vista e tentava explicar o inexplicável: uma amizade verdadeira, de muitos anos, acabou-se pura e simplesmente por causa de pequenas fofocas sem o menor cabimento.

Na TV, Mariano Rajoi e Rodrigues Zapatero continuam brigando em cadeia nacional todos os dias, mas sem nunca conseguir solucionar os problemas do país e do povo. Ambos são vítimas dos erros cometidos lá atrás pelos próprios partidos de que fazem parte. Quando a Espanha entrou na União Europeia, agiu como um novo rico num misto de otimismo e irresponsabilidade que culminou na atual situação de insolvência iminente. Um dos casais amigos (não amigos entre si, mas ainda nossos amigos) passa por dificuldades financeiras sérias. A esposa perdeu o emprego, o marido teve o salário rebaixado e passou a dar menos aulas. E eles ainda se julgam com sorte por conseguirem pagar o aluguel e o supermercado.

Enquanto estávamos lá, desisti da ideia de voltar à rua em que vivi, tomar um espresso na cafeteria que frequentava diariamente e outras pequenas aventuras nostálgicas. Concluí, tal qual o personagem de Woody Allen, que tentar reviver, ainda que na imaginação, um passado desbotado e já distante do cenário atual, não seria tão positivo assim.

A verdade é que nunca fui bom em matéria de nostalgia. Quando olho pra trás, lembro de muitos momentos bons, felizes, experiências positivas, mas tenho a nítida sensação de que tudo o que vivi foi apenas um prólogo do que vivo hoje. Eram a entrada para que eu saboreasse o prato principal que, no caso, é o hoje. Minha infância foi meio conturbada por razões pessoais e familiares; minha adolescência, uma sucessão de inseguranças e hormônios represados pela culpa católica cultivada por anos a fio; a minha entrada na idade adulta, uma comédia de erros shakespeareana na qual fui conquistando certo êxito ao melhor estilo “Bem está o que bem acaba”.

Já no presente de onde você me lê, tudo me parece melhor. A alegria constante é intercalada por breves momentos de intensa euforia ou de tristezas pontuais. Enfim, uma vida equilibrada e feliz, pois como acreditava Epicuro: a felicidade está no equilíbrio, o caminho está no meio.

Em Madrid, não tive a mesma sensação do personagem de Woody Allen de viajar no tempo. Estava no mesmo lugar, mas os tempos eram outros. Cheguei, porém à mesma conclusão que o protagonista. Nossa vida está no agora. O resto é aprendizado.

Coluna do Novo Jornal – 050 – O relógio que vovô usou. – 06.08.2011

janeiro 18, 2012

Crônica publicada em agosto passado. Gosto dessa. 🙂

Divirtam-se!

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O relógio que vovô usou.

Em 1999 eu precisava de um relógio. Na época, eu estava fazendo intercâmbio em outro país e, além do deslocamento espacial em alguns (na verdade muitos) milhares de quilômetros ao norte, carecia de um acessório que, acoplado satisfatoriamente ao meu pulso esquerdo, pudesse me devolver a orientação temporal perdida desde que meu relógio anterior havia se quebrado. Ainda mais que eu me encontrava com 5 horas de diferença de fuso horário (confuso horário?), o que é um fator a mais de complicação. Nessas situações, um objeto que nos ajude a situar no tempo é de enorme utilidade, adquirindo um valor que transcende a própria estética inerente ao adorno em que se converteu o relógio em detrimento de sua natureza inegavelmente prática.

Busquei um centro de compras onde pudesse encontrar um dos bons, que não fosse um mero mostrador de horas. Afinal de contas, sou brasileiro, compatriota do Alberto Santos Dummont, ninguém menos que o inventor do dito cujo. E em tão privilegiada situação, eu merecia respeito e a condição de ostentar o que de melhor houvesse na categoria de indicadores de horário portátil. O relógio que eu compraria deveria preencher uma série de requisitos prévios, ser avaliado segundo rigorosos parâmetros, estar de acordo com os mais exigentes critérios, respeitando altos padrões de excelência.

Seguindo este raciocínio, o eleito deveria ter qualidade comprovada e precisava demonstrá-la , trabalhando dia e noite sem intervalos, consumir pouco das poluentes baterias, não atrasar, ser resistente e durável, tranquilizando-me quanto ao seu uso continuado e longevidade. Um relógio que se preze deve ajudar com soluções e não ser motivo de mais problemas. Por essas razões, uma boa marca, reconhecida e recomendada por especialistas, deveria ser minha opção. Também se fazia imperativo que fosse agradável aos olhos, porém discreto, uma vez que eu estaria seguidamente consultando-o, não poderia correr o risco de me cansar dele. Além disso, não seria nada conveniente que ele acabasse chamando a atenção das pessoas em demasia. Os outros só deveriam notá-lo quando precisassem saber as horas. Porque o tempo é o real motivo pelo qual usamos relógios. O tempo é o astro e o relógio é um relativo controle (ou ao menos informação) sobre o nosso tempo. Portanto, se um relógio aparece mais que o necessário, fazendo-nos esquecer, por alguns momentos que seja, seu propósito, superando o tempo em atenção dispensada, configura-se uma abjeta inversão de valores que deve ser prioritariamente corrigida.

No centro de compras encontrei várias alternativas e logo me agradou uma delas, um belo, discreto e de boa procedência (da marca Guess) relógio com tons equilibrados entre o azul, dourado e prateado. Encaixou-se bem no meu pulso, inspirou-me confiança e levei.

É motivo de grande felicidade quando as coisas dão certo em nossas vidas, quando tomamos decisões que, posteriormente, se mostram acertadas, quando temos nossas expectativas plenamente correspondidas. Pois bem, o relógio se revelou uma excelente escolha. Eu não poderia ter acertado mais. Era um disciplinado operário, consciente do seu dever, cumpridor de todas as suas obrigações com diligência e eficácia. Em 10 anos que estivemos juntos nunca quebrou, mesmo depois de tantas pancadas, e devo haver trocado suas baterias umas duas vezes apenas. Incrível!

Sua ótima qualidade e durabilidade me deixaram tão tranquilo que me esquecia completamente do fato que, um dia, teria que substituí-lo. Um amigo mais afeito aos chistes e gaiatices, uma espécie de pândego da turma, sempre que me encontrava começava a cantar: “o relógio que vovô usou, o meu pai herdou e deixou pra mim”. Ele se divertia com o fato de eu usar o mesmo artefato havia tantos anos. Com isso, o maior mérito do meu instrumento de medição temporal acabou se tornando também o principal motivo de zombaria alheia.

Não me importava com o humor do meu amigo, adepto da filosofia de que nunca se deve deixar passar uma oportunidade de tripudiar com os demais. Preferia manter-me fiel a meu relógio, companheiro de todas as horas, enquanto este ainda cumprisse bem sua missão. Era uma questão de lógica: se funciona bem, se realiza o que dele se espera, não havia porque trocá-lo por outro, ainda que mais moderno, bonito e que transmitisse mais status. Substituí-lo sem uma boa justificativa seria sujeitar-se aos caprichos nocivos do consumismo, dos supérfluos, da aparência sem propósito. Eu não sou assim. Não gosto. Prefiro adquirir coisas que realmente sejam necessárias e não sucumbir aos apelos sedutores da publicidade que cria “necessidades” novas e inúteis a cada dia, alimentando o eu-materialista que habita a superfície de cada um de nós. Por sustentar firmemente essa postura, por tomar atitudes da mais pura austeridade e absoluta consciência, por não ser mais uma vítima dos exageros e arroubos capitalistas, eu me senti tranquilo, pois sabia que a crise econômica mundial que atravessamos não foi responsabilidade minha, pelo menos em grande medida.

Só que… o tempo… Este mesmo tempo que é senhor da razão, este “mano velho” que nos dá sabedoria, discernimento e maturidade, e que é, em si mesmo, a razão para que o relógio exista, é também carrasco implacável de todas as pessoas e coisas, setenciando o nosso inevitável ocaso. Digo isso porque essa semana, depois de 10 anos de serviços prestados, meu companheiro parou de funcionar. Seu coração artificial interrompeu suas pulsações e ele, cansado da labuta de uma década, deixou de mover seus ponteiros. Estou agora neste preciso momento olhando para ele, sua carcaça inanimada é pouco mais que um arremedo do que já foi, remetendo a lembranças de episódios passados.

Percebo que finalmente chegou o momento de substituí-lo. Vou comprar outro relógio. Buscarei numa loja outro que me inspire a mesma confiança e que seja tão discreto e de boa procedência quanto ele. Espero acertar outra vez na escolha.

Quanto ao meu velho amigo, o “relógio que vovô usou”, trocarei suas baterias e ele reviverá no pulso de um homem humilde que necessite de um relógio, mas não tenha tantas condições para comprar. Espero que este homem seja tão feliz quanto eu fui e que ele funcione mais 10 anos em seu pulso. Porque certamente a sua hora derradeira ainda não chegou.

Tudo tem seu tempo.

Coluna do Novo Jornal – 049 – Orgulho e preconceito – 30.07.2011

janeiro 17, 2012

A crônica que nasceu de uma crônica. True story.

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Orgulho e preconceito

Caicó é uma cidade rica por sua história, mas também por suas histórias. A tradição da contação de causos cultivada por gerações fez a cidade mais proeminente de sua região passar adiante a “literatura oral” tão comum no sertão nordestino. Eu bem conheço essa característica caicoense, a urgência em dramatizar a realidade, a necessidade de passar adiante as ficções ou verdades floreadas do cotidiano de todos nós. Minha família materna tem origem naquela cidade e desde cedo convivi com muitas narrativas referentes a costumes interioranos, hábitos provincianos e atitudes típicas dos caicoenses.

Sempre ouvia que na Festa de Sant’anna, padroeira da cidade, as pessoas economizavam em itens básicos para investir em supérfluos. A frase: “tem gente que deixa de comer pra comprar um vestido”, por exemplo, era uma constante, vinda de diferentes emissores. Tal atitude demonstra bem as prioridades da elite e/ou classe média caicoense. Para o imaginário coletivo da cidade, o mais importante não seria aquilo que trazemos em nosso íntimo, que nos define como indivíduos, esse pequeno detalhe chamado personalidade, essa irrelevância de nome caráter. O que interessa é o exterior, o que as pessoas veem. Parecer bem é estar bem. É preciso sustentar as aparências, manter a pose.

Esse sentimento de vaidade desmedida talvez seja proveniente da constante sensação de observação reinante na cidade. As janelas e cadeiras nas calçadas direcionadas às biografias de outrem parecem repetir incessantemente um mantra sartriano: “o inferno são os outros.” Nesse contexto, aparentar sucesso, beleza e felicidade pode funcionar como um imprescindível mecanismo de defesa contra os predadores naturais, adversários do dia-a-dia, inimigos de todas as horas: os próprios conterrâneos.

Por isso, em virtude da importância desproporcional que é dedicada às vidas de terceiros, eu sempre ouvi outro comentário, resultado também da sabedoria popular: “cada um com um rabo enorme, mas só olha o dos outros”. A incapacidade de enxergar os próprios defeitos, a absoluta ausência de autocrítica e, ao mesmo tempo, o rigor com que se avalia os demais, percebendo neles problemas gravíssimos que muitas vezes também são do próprio autor das observações negativas, evidencia uma característica que Freud define como “Narcisismo das pequenas diferenças”. Os indivíduos são muitíssimo semelhantes, quase idênticos, mas enxergam nos outros, aspectos negativos terríveis que jamais atribuiriam a si mesmos, apesar de possuí-los.

O auge desse jeito de ser caicoense, dessa celebração do secundário, da liturgia da aparência, ocorre no famigerado “Baile dos Coroas”, uma festa de gala em que a nata da sociedade local exibe-se em todo o seu esplendor, com direito a tantos adornos que fariam o tapete vermelho do Oscar parecer uma festinha simples de paróquia. Um dia, com a intenção de prestar uma, digamos, er, “homenagem” a minhas raízes seridoenses, escrevi uma crônica ficcional em que uma senhora narra os preparativos para a grande noite pela qual ela espera há um ano. É o tal Baile dos Coroas, que dá título ao texto, evento que, segundo a protagonista, justifica todos os outros 364 dias do ano.

No desenrolar do texto, a narradora fala de como deve estar deslumbrante na noite da festa, apontando modelos de beleza e elegância os quais deseja imitar. Em seguida, ela aborda o momento econômico difícil pelo qual sua família passa, tendo inclusive sido obrigados a mudar o filho para uma escola mais barata, pois senão eles não poderiam bancar as despesas do baile, como as roupas caras, por exemplo. Em dado momento da história, a protagonista faz duras críticas a uma mulher, enxergando nela muitos defeitos que, na verdade são dela própria (a narradora), como inveja, cafonice, superficialidade e diversos outros atributos. Tais críticas tem a extensão de um parágrafo que, contextualizado com o restante da crônica, pode ser facilmente entendido como parte de uma ficção na qual uma personagem que NÃO EXISTE emite uma opinião a respeito de outra que TAMBÉM É FICCIONAL.

Ao citar essa personagem que é descrita impiedosamente por minha protagonista, cometi a insensatez de batizá-la, de atribuir-lhe uma alcunha. Um nome composto, como é comum no Seridó, mas sem sobrenome, para não me comprometer com alguém que pudesse existir de verdade e me causar problemas. Escolhi o nome inspirado num antigo comercial de TV, do Unibanco. Algo totalmente aleatório.

Postei a crônica no portal da Diginet, onde publicava algumas crônicas bissextas antes de vir dar com os costados neste nobre espaço do Novo Jornal. O texto repercutiu dentro da normalidade até que comecei a receber comentários acusando-me de ter ofendido deliberadamente uma certa senhora homônima à personagem secundária do texto, que nasceu em Caicó e frequenta o tal baile dos coroas. Defendi-me no espaço destinado aos comentários, esclarecendo que aquela crônica não tinha nenhuma relação com pessoas reais.  Em vão. Fui processado, junto com a Diginet, por danos morais, em ação na qual a senhora me pede R$ 10.000,00 de indenização.

Há alguns meses houve a audiência de conciliação, na qual eu expliquei toda a situação e a sucessão de coincidências que, infelizmente, devem ter causado mil transtornos à senhora que me interpela judicialmente. Pedi desculpas e me dispus a retratar-me publicamente no espaço de minha coluna da Diginet.

A outra parte não quis acordo. Explicou suas razões e se mostrou irredutível. Disse que, por causa do texto, que foi lido por toda a população de Caicó e mais os caicoenses espalhados pelo mundo, aos quais aproveito para agradecer a audiência, ela passou a ser pressionada pela comunidade caicoensese para que tomasse alguma atitude. As pessoas chegavam para ela, perguntando “já viu o que escreveram de você?”, numa mistura de sadismo e solidariedade típica dos caicoenses. A pobre mulher virou motivo de chacota entre seus conterrâneos, passando a ter que recolher-se em casa, para fugir dos inevitáveis comentários maldosos e admoestações de seus pares.

Após a audiência, cheguei à conclusão que a principal motivação para ela me processar não foi o texto em si, mas as consequências provocadas por ele. No fundo, ela sabe que não me referi a ela e que não foi minha intenção ofendê-la. Na verdade, não tenho razão nenhuma para tal atitude. Está me processando para dar uma satisfação à sociedade a qual faz parte. Ou seja: puro orgulho. É por causa dos caprichos de um determinado grupo social, provinciano e extremamente preconceituoso, e não pelo que escrevi, que estou sendo questionado na justiça. É em virtude do comportamento agressivamente inquiridor, alheio a minhas atitudes ou textos, que terei que comparecer diante de um juiz para me explicar.

Ao chegar a esta conclusão, resolvi escrever esta crônica e intitulá-la “Orgulho e Preconceito”, numa clara alusão à Inglaterra vitoriana tão bem retratada por Jane Austen em seus livros. Uma sociedade aristocrática em que manter tradições, aparências e títulos de nobreza valia mais do que a verdade. Enfim, um lugar igualzinho à cidade de Caicó do século 21.

Coluna do Novo Jornal – 048 – O filósofo do Crato – 23.07.2011

janeiro 16, 2012

No dia 23 de julho do ano passado, empolgado com a leitura de “Chabadabadá”, cometi esta crônica-exaltação ao livro e homenagem ao imortal e genial Xico Sá.

***

O filósofo do Crato

 

Mês passado viajei de férias. Fui conhecer a Grécia de Papandreou. Para entrar em sintonia com o país que nos deu tantos filósofos, decidi absorver toda a sabedoria possível, aproveitando a atmosfera propícia à reflexão e ao aprendizado. Por esta razão, levei na bagagem uma leitura indispensável para quem aprecia a fina flor da filosofia ocidental nordestina. Não nasceu em Creta, mas no Crato. Não tem seu nome associado a sofistas, pré-socráticos (apesar de ser amigo do Dr. Sócrates) ou catedráticos, mas aos astutos e sapientes mestres da vida, surgidos em profusão no interior do Nordeste. Foi na companhia de Xico Sá, por meio da leitura do seu “Chabadabadá” que visitei a terra dos filósofos, oráculos e deuses.

O livro lançado em 2010 nos convida a peregrinar por bares nunca antes navegados, com a lanterna de Diógenes à mão, buscando não apenas um homem honesto, como fez o célebre grego do barril, mas “o” homem. Ou, como sugere o autor, “para usar a acepção mais adequada”, o macho. Segundo o cabalero solitário cearense, o macho está perdido, “no meio do mato sem cachorro ou GPS”. E é justamente a partir das graves avarias no prejudicado senso de orientação masculino que o “Chabadabadá” cunhou seu subtítulo: “Aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha”. O título foi inspirado na música tema do filme “Um homem e uma mulher” de 1966. Eu, cá do meu canto de leitor atento, deslumbrado mais e mais a cada página, já me pus a refletir sobre o sub do compêndio: existe algo pior para um macho perdido do que uma fêmea que se acha?

O mundo imagético e de ritmo excessivamente acelerado, tem deixado desnorteado o homem com H. Agora, além de todas as preocupações cotidianas inerentes ao cabra hômi (“Seje hômi, cabra!”), se assomam a quantidade de creminhos para as mais remotas partes do corpo, dedicar tempo a compras, seguir tendências, andar na moda, usar marcas de grife, apreciar um bom vinho, enfim, liberar o lado feminino. Xico não é dessa época. Essa “mudernidade” toda o causa estranheza. Prefere um punhado de Minâncora, borrifadas de Leite de Rosas e, apenas nos momentos de máxima delicadeza, uma discreta aplicação de Avanço.

Feito o diagnóstico da precária condição da macheza e a exposição sem precedentes da condição confusa do outrora sexo forte, uma vez denunciado o declínio do “macho jurubeba” perante o metrossexual nascido da costela de David Beckham (e certamente continuado na figura de Cristiano Ronaldo), Xico dá seguimento a sua prosa como se pedisse mais uma dose, de uísque ou cachaça, para refrescar as ideias, pavimentar os caminhos que levam às melhores reflexões, amolecer o juízo ou mesmo deixá-lo mais afiado, tecendo diálogos dignos de Platão, numa filosofia que, se não e sartreana, á Salina, pois vem de Sá, envelhecida em barris de carvalho e aprimorada em botecos mil.

Xico nos propõe discutir o papel do homem e da mulher numa nova configuração social que já está dando demais na vista. Os medos, as inseguranças, a coragem delas (e a incapacidade deles) de chorar em público, de dizer “eu te amo”, de comprometer-se. Condena a frieza e covardia contidos num deplorável “a gente se vê”,toma partido na peleja entre o “cafa que ama e o homem frouxo”. Apregoa uma vida simples, sem frescura, faz favor, como uma neo-dialética sertaneja. Pede a volta da cozinha punk, 3 acordes: arroz, feijão e bife. Lança o “decálogo do homem feio”, sugerindo que se aprove, admire e aproveite cada detalhe das crias de nossas costelas. Roga aos céus o fim da ditadura da mulher magra demais, essa desconfortável, pedindo a volta da “mulher Comfort”, com algumas fofurinhas onde apertar, do abraço mais gostoso, arrematando: “Pelo destravecamento da mulher. Pela mulher Comfort”.

O ombro amigo também é um elemento por demais presente na obra deste hombre de las letras. Oferece o seu para os lamentos de fêmeas amigas, estas habitantes de um inóspito lugar, identificado por ele, chamado “Carencolândia”, por vezes acometidas do que Machado já havia identificado como uma “Queda que as mulheres têm pelos tolos”, sofrendo a ilusão de “agora sim, viver enfim, um grande amor…”, mas deparar-se com o fato de o grande amor ser “…mentira!” Pois, como muitas pequenas descobrem um dia, o amor pode ser com as estações de metrô da Avenida Paulista: “começam no Paraíso e terminam em Consolação”. O cronista também pega emprestado ombros alheios, pedindo audiência e atenção dos velhos e bons garçons, amigos nas piores horas, sempre alertas a nos dizer os resultados do ludopédio e ouvir-nos praguejar contra as desalmadas mulheres de nossas vidas que teimaram em nos abandonar.

Em suas inúmeras elucubrações, devaneios mil, Xico tenta realizar feitos de Hércules, impossíveis, como o de tentar decifrar os enigmas da mulher. Não chega a muitas conclusões, além do confessado fascínio e reiterada paixão, mas solta uma pérola dos gêneros: “homem é vírgula, mas mulher é ponto final.”

Entre tantos modos de homem e modas de mulher, referências as mais pertinentes a verdadeiros bastiões da intelectualidade, de Gilberto Freyre a Pereio, de Buñuel a Thiago de Góes, Xico também discorre sobre nossas miudezas, banalidades corriqueiras que nos ocupam as ideias. Os cachorros na condição de bons ouvintes, as divertidas sessões de cinema no interior (ao melhor estilo “Cinema Paradiso”), a extinção das espirituosas frases de caminhão, dando lugar às espirituais sentenças religiosas, brindando, por fim, com saborosas e inebriantes pílulas de saber. Tais refrescos da sapiência deste sertanejo cosmopolita, filósofo cratense, oráculo de edificantes e alcoólicas noites, servem para nos lembrar, entre muitas outras cousas, que “a vida é breve, a D.R. é longa” e que “se a vida dói, uísque caubói.”

Nos descontos, como naquelas partidas decisivas que entram pra historia, ainda nos brinda com um primor de crônica, intitulada “Bença, mãe.” capaz de amolecer o mais durão dos machos jurubebas, o mais arredio dos homens de cangote grosso. Sensacional, irretocável, arretada. Êta cabra sabido da moléstia! Ave Xico Sá! E cantemos a uma só voz: “Chabadabadá, chabadabadá.”

Coluna do Novo Jornal – 047 – O maconheiro militante – 16.07.2011

janeiro 13, 2012

Esta foi uma releitura de uma crônica antiga, adaptada ao Novo Jornal.

Boa leitura e ótimas risadas.

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O maconheiro militante

Alguns leitores do Novo Jornal conversaram comigo a respeito da participação de seus filhos na marcha da maconha de uns dois meses atrás. A preocupação dessas pessoas não era com o fato de seus filhos estarem ou não usando a droga, algo irrelevante ante uma ameaça muito maior. O temor deles residia na possibilidade de seus rebentos terem se convertido em “maconheiros militantes”, o que é muito pior. É um equivalente chapado de um evangélico fervoroso ou de um homossexual sindicalizado, ou ainda (o horror! o horror!) um representante da Herbalife! A coisa ficou feia com a adesão do FHC ao movimento. Além de ter feito muito bem à imagem do ex-presidente de maneira mais eficaz que os últimos 9 anos de marketing do PSDB, deu uma certa legitimidade ao movimento. Os pais ficaram apreensivos. Por isso, para ajudá-los a reconhecerem se suas crias aderiram à militância político-partidária do partido verde folha, resolvi publicar esta elucidativa coluna.

Ele chega pra alguém e diz: “Você sabia que existem medicamentos cicatrizantes feitos de cânhamo?” Inocentemente, a pessoa responde que não e mostra-se levemente curiosa a respeito do assunto. Pronto. Já basta. Ela acaba de cair nas garras de um maconheiro militante que passará as próximas horas tentando convencê-la que o THC é a substância redentora da humanidade, que fumar maconha é a coisa mais legal que alguém pode fazer sobre a face da Terra e que os rumos do planeta estão intimamente ligados à folhinha de cinco pontas.

Se derem corda, ele se sairá com um discurso tão panfletário quanto possível, dizendo mais ou menos o seguinte: “A canabis apresenta propriedades anestésicas e regenerativas bastante atuantes. Os medicamentos cicatrizantes de cânhamo foram desenvolvidos no Egito antigo onde, aliás, a erva era utilizada para produzir de tudo, de papiros a bandagens para múmias. Os cremes e bálsamos feitos da erva foram muito usados por Antônio Conselheiro durante a Guerra de Canudos para tratar dos ferimentos de seus homens. Inclusive, há registros de que o próprio conselheiro era usuário de marijuana. Isso talvez explique o grande senso de justiça do homem. Você sabia?”

Para essas pessoas a erva é a razão principal de sua existência. Tudo o que eles fazem é baseado (com ironia, faz favor.) nesta singela plantinha. Para eles, maconha é religião, é o clube de coração, o partido político, a banda favorita, a tábua de salvação. Só a fumaça salva! Não são da Herbalife, mas se dedicam à Ervalife com o mesmo fervor messiânico. Gostam de reggae, de surfe e do verde que te quero fumo.

Os maconheiros militantes são verdadeiros advogados da marofa. Nunca perdem uma oportunidade de apresentar argumentos comprobatórios definitivos que ilustram a superioridade do THC sobre todos os elementos, constantes ou não na tabela periódica. Sua retórica encontra sustentação em três alicerces básicos:

1)      O Bombril Natural;

2)      Importância História;

3)      Putz! Esqueci o terceiro.

A teoria do Bombril Natural defende que a maconha tem mil e uma utilidades, sendo a erva mais versátil que jogador coringa, daqueles que batem escanteio e correm pra cabecear. Segundo os partidários, a versatilidade canábica é ilimitada, servindo para produzir roupas, calçados, papel, alimentos, tinturas, medicamentos, biocombustível, brinquedos, material de construção, condutores energéticos, maçanetas de porta, guarda-chuvas, baterias para celular, absorventes íntimos, escafandros e lancheiras do Bob Esponja. O aproveitamento da planta é total. Das sementes se faz tempero, das folhas se produz um delicioso chá para os nervos, do caule se confecciona móveis artesanais muito maneiros, bicho. Sacou? Só! Pode crer!

Não é raro, um militante chegar para afirmar toda a sorte de produtos derivados da erva. São verdadeiros catálogos mentais. E olhe que a memória deles já não é lá essas coisas. “Você sabia que existe sorvete de maconha? Você sabia que existe gravata feita de fibras de canabis? Você sabia que existe papel higiênico de cânhamo? Você sabia que nos países desenvolvidos são receitados baseados no tratamento do glaucoma/câncer/aids/gripe/insônia/falta de apetite?”

Outro argumento que ganha força entre os militantes verdes é o da importância histórica da erva. Os fiéis do cânhamo estão convictos da inquestionável participação da maconha em todos os grandes momentos protagonizados pelos homens. Eles afirmam categoricamente que na Grécia, não eram galhos de arruda que ornamentavam as cabeças dos atletas vencedores dos jogos olímpicos. Eram, na verdade, galhos de cannabis. A guerra de Secessão estadosunidense não teve nada a ver com algodão. Era tudo por causa das plantações de maconha dos estados do sul.

Eles defendem ainda que as cruzadas medievais também não eram bem como se diz nos nossos livros de história. Os cavaleiros partiram sim em busca do Santo Graal, mas o que todos ignoram é que tal termo era sinônimo para “Camarão Sagrado” numa clara referência à erva bendita. Amém! E aquela fumacinha que sai do Vaticano sempre que a igreja escolhe um novo Papa? Como é que vocês acham que aqueles cardeais todos mantêm a paz de espírito?

Os maconheiros militantes são dedicados, engajados e incansáveis em sua luta por um maior reconhecimento da erva pela sociedade careta e conservadora, dominada por pensamentos retrógrados e arcaicos. O problema é a ferrenha oposição do chamado Comando Delta, um inimigo invisível, uma megacorporação formada por políticos, exército, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Municipal, Polícia dos condomínios, seguranças de shopping, as mães dos usuários e a máfia chinesa que se utiliza de todas as forças disponíveis para impedir o triunfo dos heróis da erva.

Mas nada os impedirá de prosseguir em sua pregação, seus discursos inflamados, sua paixão indomável, sua militância maconheira. Suas idéias se espalharão como fumaça e nenhuma estratégia nefasta da oposição, nenhuma manobra covarde e traiçoeira será capaz de arrefecer o ímpeto dos apaixonados militantes. Ninguém será capaz de cortar esse barato. Caso tentem, serão surpreendidos por uma bem articulada retórica, além de um discurso muitíssimas vezes ensaiado. Essa é a tônica. Esse é o sentimento. E eles vão à luta!

Mas só amanhã, porque hoje eles já fumaram um e devem estar com uma preguiça danada.

Coluna do Novo Jornal – 046 – Anderson Miguel – O nosso Brás Cubas – 09.07.2011

janeiro 12, 2012

Este ano reli um clássico da literatura brasileira: “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Daí, fiquei com umas ideias malucas na cabeça e … cometi essa crônica, né? Fazer o que?

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Anderson Miguel – O nosso Brás Cubas

O advogado Ânderson Miguel, morto em junho passado, sócio de uma empresa que prestava serviços de mão de obra terceirizada poderia muito bem se converter numa versão local de Brás Cubas, o célebre defunto autor machadiano, caso aproveitasse a eternidade para escrever suas memórias. Poderia fazê-lo com a pena da galhofa e a tinta da melancolia a fim de eternizar importantes linhas da crônica política local. Tentei imaginar como seria um texto curto do desencarnado empresário, incluindo várias referências ao texto original do bruxo do Cosme Velho.

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“Morri supostamente de tiros desferidos por um desafeto, talvez algum dos denunciados por mim no caso da Operação Hygia pudesse ter sido o mandante; mas se lhes disser que foi menos de tiros do que de uma ideia grandiosa e útil, a causa de minha morte, é possível que não me creiam, e todavia é verdade. Também tenho o dever de esclarecer que não morri em virtude das acusações que fiz, mas de um projeto ousado que tornaria a vida de muitos políticos brasileiros bem mais difícil.

Eu queria realizar uma memorável administração pública sem qualquer traço de corrupção, com o único objetivo de provar à população que é possível fazê-lo, deixando então meu legado de benfeitorias, limpando meu nome de toda e qualquer mácula, fazendo-me recordar sempre. Seria a minha marca junto à posteridade, pois só ela tem o poder da absolvição definitiva.

Tal propósito tencionava curar a sociedade de um grande mal que se tem abatido sobre ela.  A roubalheira desenfreada já nos pôs a todos enfermos. Chega a ser uma hipocondria tal convívio com os desvios de conduta e de caráter. E a conivência geral e irrestrita acaba causando uma tolerância e até mesmo uma aceitação total, dando a tais violações um absurdo rótulo de normalidade. São as camadas de caráter que a vida altera, conserva ou dissolve.

Minha ideia, portanto, constituir-se-ia em uma medicina perfeita para a cura deste mal. Por meio de um exemplo bem sucedido de que é possível empreender um excelente trabalho sem fazer uso da flexibilidade moral que tanto tem nos afligido. Meu projeto, caso realizado, seria uma espécie de emplasto que proporcionaria a cura de um grande mal. O exemplo dado por mim perduraria por gerações, seria o “Emplasto Ânderson Miguel”, ideal para qualquer indício de incorreção. Percebam que perigoso era tal projeto e quantas centenas de homens públicos seriam prejudicados pelo exemplo.

Devo, entretanto, confessar-lhes algo. Embora revestido de aparente nobreza, este meu particular empreendimento escondia também uma muy humana intenção. Eu tinha a sede da nomeada e o amor pela glória. Queria ver meu nome associado, não a escabrosos e flagrantes casos de subtração do erário, mas a boas causas que me fizessem ser bem visto por esta sociedade que me tem por réu confesso.

Foi, portanto, por vaidade desmedida que alimentei o quixotesco devaneio de me converter em um, sem precedentes, prefeito honesto. Seria, naturalmente, uma negação de meus princípios, um sacrifício enorme, alcançado graças a um esforço hercúleo, mas que poderia valer a pena, pois proporcionaria eternizar meu nome como probo homem público, redimindo candidamente o pelintra prestador de serviços de outrora. Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. O que eu queria era ver nas ruas e na boca do povo o meu próprio “Emplasto”, com rótulo indicativo de um gestor íntegro, uma volta por cima digna das melhores tramas de novela.

Aliás, para falar uma grande verdade, a necessidade urgente de mudar minha imagem junto à sociedade advinha muito mais de mim mesmo que de uma suposta pressão exterior. A gente de Natal sempre foi muito compreensiva comigo. Dela, não tenho nada do que reclamar. Por definição particular, considero a sociedade natalense uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração, assaz crédula, sinceramente piedosa, temente às trovoadas e ao ridículo. Para ela, ser considerado de uma posição social mais baixa é mais grave do que roubar para manter-se ou chegar ao topo. As pessoas percebiam que eu já não envergava uma sobrecasaca cujas abas se perdiam nas noites do tempo. Tal mudança era suficiente para ser tido em alta cota junto a meus pares.

Entretanto, ter sobre mim a égide de um notório ladrão, ainda que refinado, íntimo do primeiro escalão do governo, era por demais incômodo. Afinal, os homens valem de diferentes modos, mas o mais seguro deles é valer pela opinião dos outros homens.

No caso da Operação Hygia, nosso esquema ia muito bem. Conquanto não fôssemos descobertos, não me sentiria mal pelo que fazia de errado, absolutamente. Vivia aflições que sempre desabrochavam em alegria. Porém, vi todos aqueles milhões do Estado se perderem no horizonte do pretérito assim que um certo personagem novo no negócio quis ganhar mais do que lhe cabia. Era um experimentado político potiguar que negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro, verme roedor daquela existência. A partir de tão grande ambição, a Polícia Federal acabou com a nossa operação. Foi quando passei a alimentar a ideia de uma administração pública honesta capaz de limpar meu nome.

Convocado a depor, denunciei todos os envolvidos e passei a ter como admiradores muitos cidadãos que fremiam de indignação e piedade. Os demais envolvidos no caso não ficaram muito felizes com o que fiz. Sei que compreendem minhas razões. Em troca da delação premiada, consegui minha liberdade, como bom homem de negócios que fui. Portanto, tudo estava explicado, mas não perdoado, menos ainda esquecido. Talvez se os tiros que levei em virtude de minha ideia fixa não tivessem ocorrido, levaria outros por ter implicado tanta gente graúda através de minhas denúncias.

Cordialmente,

Ânderson Miguel”

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Miguel poderia fazer ainda outras revelações. É possível que dedicasse suas memórias ao primeiro verme que roeu sua fria carne. Verme este que em muito se assemelha aos chefes do esquema que roia o dinheiro público.

Destes outros personagens, no entanto, me furtarei (verbo, aliás, bem familiar a todos eles) de falar qualquer coisa. É que não tenho a menor intenção de, uma vez autor de linhas indevidas, me ver convertido em, não um defunto autor, mas num autor defunto.

Coluna do Novo Jornal – 045 – Meu barbeiro de direita – 02.07.2011

janeiro 11, 2012

Meu barbeiro de direita

Nunca fui afeito a teorias fantásticas e inusitadas sem maiores fundamentos científicos que as justifiquem. Tenho um amigo, por exemplo, que afirma sem reservas que uma mulher cujos dedos médios dos pés são maiores que os indicadores costumam ser mais inteligentes que as outras. Já uma conhecida minha me confidenciou que homens que demonstram maior desenvoltura e habilidade em desabotoar um sutiã são melhores de cama que os demais. Sempre invejei tais descobertas empíricas que carecem, claro, de uma investigação mais aprofundada, uma pesquisa acadêmica a respeito, talvez algum investimento do governo para que possa ser realizado um estudo que comprove ou descredencie tais teorias.

No entanto, outro dia estabeleci eu mesmo, uma dessas máximas aparentemente sem sentido, mas que funcionam comigo. Desde então, passei a crer que os cuidados com o visual, mais especificamente com o cabelo e a barba, dependem não apenas da escolha de profissionais competentes e experimentados em suas atividades, mas também de um equilíbrio ideológico capaz de conceber uma aparência mais simétrica e esteticamente agradável aos olhos alheios e espelhos diversos. Por isso, hoje, minha cabeleireira é de esquerda e meu barbeiro é de direita.

Meu barbeiro de direita é um prestador de serviço à moda antiga, chama os clientes pelo primeiro nome, conhece bem a todos e o principal, dedica-se ao seu ofício com tamanha meticulosidade que em muito lembra um ourives. Desfere sutis golpes de navalha com precisão cirúrgica nos movimentos executados e é capaz de retirar todos os pelos das faces e pescoço de alguém sem que este sinta qualquer desconforto, irritação na pele ou incômodo. Sua delicadeza e educação contrastam com a firmeza de caráter e opiniões convictas de quem, mesmo sem saber, tremula um dos últimos pavilhões da moral em nosso Estado. Inquieto, bem articulado e intransigente na defesa de valores que se perdem perante a orgia social que toma conta dos tempos atuais, impondo novos hábitos e nos levando para não se sabe onde. Um desses valores cultivados e cultuados por ele, difundido entre uma tesourada e passada de máquina, é a prática orgulhosa e sem culpa da heterossexualidade.

Entre os assuntos abordados no salão, as disputas políticas são recorrentes. Isto porque metade dos homens públicos em exercício de mandato de Natal frequenta o salão. Todos de direita também. Alguns da Direita Vermelha, outros da Direita Laranja ou Rosa, alguns da Direita Verde, mas nem todos direitos. Para eles, o barbeiro costuma valorizar a honestidade, a lisura e a correção, em palestras particulares que se espalham pelo salão como o aroma de colônia e loção pós-barba, numa tentativa de doutrinar os membros do legislativo da cidade para a prática do bem comum. Quase nunca funciona. Algumas vezes em que estive lá, dividi a espera com vários denunciados em escândalos de corrupção. Basta dizer que a turma da Operação Impacto quase toda corta lá, um figurão da Hígia também é cliente e outros eleitos de extensa folha corrida mantém o hábito de dar um trato no visual com o competente homem das tesouras. Inclusive, eu particularmente tenho a má sorte de constantemente me deparar com um ex-vereador que ocupava o cargo, acredito eu, graças a alguma cota para deficientes mentais de tanta demência expressa em seu semblante. Mas deixa isso pra lá. Digressiono, digressiono.

Pragmático que é, como bom homem de direita, meu barbeiro os aceita com um misto de benevolência, compreensão e esperança de que sua influência persistente, sempre ali, cortando cabelos e aparando pêlos, pregando a justiça e a nobreza ao pé do ouvido, possa surtir efeito um dia, mudando para sempre a maneira de pensar e agir destas figuras públicas tão corrompidas pelo perverso e predatório sistema.

Apesar de condenar veementemente a corrupção em todas as suas variáveis, o proprietário da barbearia diz que os políticos corruptos não deveriam ir presos. Deveriam sim, ser atingidos onde mais lhes dói, no bolso e nos bens. A justiça tinha que rastrear todas as suas posses e de todos os parentes de primeiro grau, retirando tudo o que eles têm. O barbeiro não crê que mandar esses gatunos de colarinho branco pra cadeia fosse útil para a sociedade. Com a tomada do que lhes é mais valioso, certamente ficaria claro que o roubo não compensa. Concordo com o barbeiro num ponto: dever-se-ia despojar os bandidos ricos dos seus bens e capital, mas essa pretensa imunidade às grades sob a justificativa de que não adiantaria muito, boto na conta ideológica do homem, pois pra mim isso é papo pra tirar rico da cadeia.

No dia a dia da barbearia também podemos ter agradáveis surpresas ao nos encontrarmos com clientes da envergadura do missivista Geraldo Batista, ou Dr. João Medeiros, ou ainda o titular deste mesmo espaço aqui às terças-feiras, Adriano de Sousa, amigos da mais alta estirpe com quem já me deparei por lá.

Outro dia meu barbeiro de direita me disse que lia minha coluna todos os sábados. Com muito tato, abordou aquela em que defendi o casamento gay, posicionando-se a respeito. Manteve sua inabalável coerência ao falar sobre o assunto. Não sei o que ela acha de minhas opiniões amplamente favoráveis à liberação da maconha, mas confesso, prefiro nem perguntar. Ao tomar conhecimento do prestígio que me empresta ao ler minhas crônicas semanais, decidi redigir algumas linhas sobre ele, até para preservar este espaço que ocupo dentro dos saudáveis e respeitosos limites do debate, do contraditório, disseminando também opiniões dos que pensam diversamente a mim.

Espero que o honrado barbeiro compreenda esta coluna como tencionei escrevê-la, uma singela e sincera homenagem. Até porque não é de bom tom desagradar alguém que manuseia objetos cortantes com tanta destreza e intimidade. Seja ele de direita, esquerda ou anarquista.