Coluna do Novo Jornal – 039 – Rios Grandes – 21.05.2011

Crônica que escrevi sobre o livro “Diário da queda” de Michle Laub, uma das melhores leituras de 2011.

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Rios Grandes

Esta semana começou com uma reportagem muitíssimo interessante da revista Veja a respeito de uma nova geração de leitores que surge no Brasil e que, ao contrário do que se pensa, aproveita-se do enorme fluxo de informações que circula na Internet para intensificar o prazeroso hábito de ler. Trata-se de uma turma jovem que percebeu o óbvio que ler é importante, não porque é instrutivo, mas porque é uma experiência bastante divertida e que pode ser compartilhada da mesma forma que um filme, uma peça ou um show musical. Grupos de leituras têm se organizado, referências são trocadas entre eles, o índice de leitura e o número de livros per capita no país vêm crescendo exponencialmente com o passar dos anos.  Avanços que ainda não são percebidos aqui na ensolarada capital da árvore de plasma, mas que também deverão ocorrer aqui em breve.

Inicio a coluna de forma esperançosa, pois gostaria de falar mais uma vez de leitura, assim como já o fiz em oportunidades prévias. No entanto, não me refiro ao costume de ler de uma maneira ampla, mas justamente o contrário. Quero falar de leituras recentes que posso indicar aqui neste espaço. Na verdade, mais especificamente de um livro chamado “Diário da queda”, do gaúcho Michel Laub. A narrativa fala de um homem, sua família, sua trajetória e como as escolhas que este protagonista fez desde a tenra infância o conduziram a ser o adulto que se tornou. Enfim, um romance de formação, como definem alguns. Nada de novo ou revolucionário, apenas a mesma história tantas vezes escritas e trazidas a nós em bons ou maus livros. “Encontro Marcado”, “Feliz Ano Velho”, “Mãos de Cavalo” já fizeram isto nas últimas décadas muito bem. Então, o que o livro do Laub tem de notável?

Primeiramente é muitíssimo bem escrito o que, em se tratando de um livro que se pretende bom, é obrigação. O que faz deste lançamento e deste autor em particular algo a se devotar um pouco mais de atenção é a sua origem. Michel Laub é mais um escritor gaúcho que se um notabilizou em um Estado de leitores, projetando-se a partir dele para fazer parte ativa do mercado editorial brasileiro. Percebam a importância disto. O Rio Grande do Sul é um celeiro de bons autores e de numerosos títulos editados. Porém, ao contrário do que pregam alguns, isto não se dá em virtude de uma economia forte, mas de uma consistente política de formação de leitores e de apoio à produção literária local. Eles foram pioneiros nas Leis de Livros, na compra pública que seleciona e distribui em bibliotecas espalhadas por seu território os melhores livros de autores locais, realizam a Jornada Literária de Passo Fundo, o mais impressionante evento do gênero realizado no Brasil. Todo este trabalho bem feito em benefício da população resulta em uma sociedade afeita aos livros, desencadeando uma enorme e irreversível corrente de desenvolvimento.

A história do garotinho judeu que sofre uma forte repressão paterna, que participa de uma brincadeira de péssimo gosto contra o único não-judeu da escola e, em razão disso, tem toda a sua vida influenciada pelo episódio, fala de aspectos cotidianos presentes em suas muitas variações nas vidas de todos nós, humanos de diferentes berços. Michel aborda traumas de infância, inseguranças mil e como as atitudes do pai (ou mesmo as experiências do avô em Auschiwitz) formaram a complexa equação de sua personalidade. Uma história como outra qualquer, que poderia ser contada por um potiguar, mas que calhou de virar publicação pelas mãos de outro riograndense, lá do sul. Mais um membro de uma geração que nos trouxe muitos bons livros e ótimas histórias e que, assim como seu personagem em “Diário da queda” é produto do passado, das leituras de sua infância, do que as pessoas fizeram antes mesmo de ele nascer, dos que criaram e deram continuidade às importantes ações que resultaram neste Estado de leitores, este estado de graça, que é o outro Rio Grande. Tomara que esta política, nós possamos imitar muito em breve. Que o Rio Grande do Norte de Leitores possa surgir num futuro próximo.

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