Coluna do Novo Jornal – 040 – Pra frente é que se marcha – 28.05.2011

No dia da marcha da maconha ocorrida no primeiro semestre de 2011, publiquei esta crônica. Tudo baseado na minha própria opinião, morou? Vejam se concordam ou se foi viagem minha.

***

Pra frente é que se marcha

Hoje às 14h, em frente ao Bar Astral, em Ponta Negra, ocorrerá a concentração para a 2ª Marcha da Maconha realizada em Natal. Um evento que conta com meu apoio pela sua natureza pacífica, iconoclasta, questionadora e, acima de tudo, pela liberdade de expressão que diretamente representa nesta cidade tão reprimida em ações, palavras e pensamentos. A mobilização de agentes ativos da sociedade, seja reivindicando a melhoria do transporte público, a queda nos preços do combustível ou a legalização do consumo de uma substância proibida é um eletrochoque social que nos desperta da letargia dominante já há 412 anos.

Por isso, aproveito esta coluna para exaltar o evento, sua realização, a coragem destas pessoas em desafiar os valores morais conservadores vigentes e a mobilização organizada em torno de um tema tão polêmico. A marcha da maconha é um evento que, mediante argumentos científicos e experiências reconhecidamente bem sucedidas no exterior, pede a legalização da erva ou, pelo menos, um debate amplo em torno do assunto, discutindo vantagens e desvantagens de uma mudança na legislação que resulte em medidas de afrouxamento do Estado com relação à cannabis, permitindo que ele possa se dedicar ao combate de crimes de verdade, estes sim nocivos ao nosso bem-estar social.

Faço também um apelo às autoridades jurídicas, tantas vezes ávidas por manchetes e holofotes, e também aos secretários de Governo de justiça . e segurança pública … que não tentem impedir esta simples passeata nem permitam o uso da violência para reprimir estes jovens que estarão, apenas e tão somente empunhando cartazes e faixas, pedindo que a sua causa sejam dados o merecido valor e a importância devida. Recordo aos senhores chefes policiais que pedir a liberação de algo que está proibido não é crime. Também exponho a possíveis leitores que por ventura sofram de eventuais arroubos autoritários e pseudomoralistas que o convívio com o contraditório e a existência de pessoas que pensem diferente de nós geram ótimas discussões em torno de assuntos diversos que, por si só, são extremamente benéficas à evolução da sociedade.

Aos participantes do movimento de logo mais, peço prudência e maturidade nas relações estabelecidas com as autoridades que se fizerem presentes. Nada de fumar ou portar maconha na ocasião. Não cometam o equívoco de pedir que a lei os respeite e ampare para, contraditoriamente, desrespeitá-la no preciso momento em que luta por direitos. Saibam separar as coisas, conforme fizeram na marcha do ano passado.

Acredito que a legalização da maconha é um passo importante para que a opinião pública perceba que não vale à pena apegar-se a dogmas ancestrais que delineiam monstros imaginários, maiores e mais perigosos do que a realidade mostra. O Estado e a população precisam concentrar suas energias na promoção da educação, saúde pública, combate ao Crack e prevenção da violência, e não ficar repetindo lugares comuns em torno de uma droga social cujo combate ostensivo só serve para desperdiçar milhões anualmente, lotar cadeias e ser utilizado como instrumento de extorsão para maus policiais.

Os próprios “argumentos” dos que se dizem convictamente contrários à legalização se mostram tão obsoletos que mais parecem frases vazias proferidas incessantemente por um simpático papagaio sem a devida reflexão do que significam. Dizer que é a porta de entrada para outras drogas é ignorar que a cerveja ou a cachaça são o portão da garagem que se atravessa antes de chegar à porta. Afirmar que a legalização vai aumentar exponencialmente o consumo é não saber que o cigarro, que é liberado, vem sendo cada vez menos fumado pela população brasileira e que nos países onde a maconha foi legalizada, como Holanda e Portugal, o aumento percentual de usuários não ocorreu. Além do que existem instrumentos muito mais eficazes no controle e inibição do consumo, como a sobretaxa do produto, a proibição da publicidade e, a maior de todas, a difusão de que a maconha, assim como o álcool e o tabaco são prejudiciais à saúde. Insistir numa guerra perdida contra o comércio de uma substância que têm um enorme público consumidor é pura e simplesmente um desperdício de dinheiro público em curto prazo e uma inevitável demonstração de ineficiência do Estado em cumprir seus objetivos ao largo de muitos anos.

O fato é que muitos viajam ao dizer suas pérolas anti-legalização, tentando espalhar uma cortina de fumaça sobre os aspectos mais importantes de toda essa questão e deixando confusa a opinião pública para que esta opte pela permanência do atual estado de coisas. A marcha da maconha é uma oportunidade para que as pessoas possam conhecer o outro lado da questão e poder conduzir a sociedade a uma evolução, se não pela mudança da lei, pelo menos pelo aprendizado que um debate engrandecedor e uma convivência respeitosa e harmônica com os que defendem algo diferente podem suscitar. Porque de uma coisa tenho certeza: dar passos para trás só é bacana quando dançamos moonwalker. Pra frente é que se anda. Ou se marcha.

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2 Respostas to “Coluna do Novo Jornal – 040 – Pra frente é que se marcha – 28.05.2011”

  1. Beatriz Says:

    Como é bom ler textos onde as pessoas conseguem dizer e explicar direitinho o que tanta gente pensa, e não consegue dizer com as palavras certas!

    É isso aí🙂 e a marcha 2012 vem aí também..

  2. Bia Madruga Says:

    sou eu a beatriz aí do comentário ¬¬

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