Coluna do Novo Jornal – 043 – A blogueira tuiteira picareta – 18.06.2011

Esta crônica deu o que falar em 2011. Muita gente gostou, exceto algumas pessoas que se sentiram representados. Quem já leu, releia. Quem não leu, espero que goste.

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A blogueira tuiteira picareta

Poucas personagens são capazes de definir melhor a sociedade natalense atual do que a blogueira tuiteira picareta. Surgida nas hostes do jornalismo local, tal figura traz consigo algumas de nossas principais características como a burrice explícita cultivada com a preservação de valores frívolos e pequenas futilidades cotidianas, além do oportunismo e ganância desmedida que o culto desenfreado ao dinheiro provoca em mentes pueris.

Sua rotina é árdua e exige muita criatividade e imaginação para criar situações ficcionais e publicá-las como se fossem fatos recém ocorridos. Sua trajetória ascendente rumo ao sucesso foi meteórica. Teve a sagacidade de criar uma página virtual com notícias sobre políticos, empresários e administrações municipal e estadual. Escolheu fazê-lo em espaço próprio para atuar mais comodamente. É a versão 2.0 dos cronistas sociais que utilizam suas colunas como armazém de secos e molhados em que cada nota tem seu preço. Livre das amarras de um chefe mandão, a intervenção de editores rigorosos ou a censura de veículos comprometidos com grupos políticos ou econômicos pode escrever o que bem entender.

Logo seu espaço ganhou notoriedade e numerosos acessos graças a uma elite formadora de opinião que sofre de extrema falta de referências culturais e, por conseguinte, considera suas postagens muy bem redigidas, apesar do paupérrimo vocabulário, estilo sofrível e erros de concordância tão básicos que orgulhariam os neogramáticos do MEC.

Para chegar ao coração da classe mediana e dos mais abastados conterrâneos, a pseudojornalista pôs em prática uma simples e infalível fórmula de sucesso. Pautou seu conteúdo na falta de informação, num inconsequente culto à ignorância, além de exibir diversas fotos de pessoas célebres, sempre anunciadas como furos ou flagrantes exclusivos. Tal estratégia tem se revelado muito boa, uma vez que, ao nivelar por baixo sua “linha editorial” (não por vontade própria, que se diga, mas por absoluta carência de recursos intelectuais), fala a um amplo público local que sente dificuldades em ler textos minimamente bem escritos e qualquer redação com vocabulário maior que 100 palavras. As fofocas disfarçadas de notícias em postagens repletas de fotos também atendem à voracidade dos potiguares em saber tudo quanto possível da vida alheia.

A blogueira não teve dificuldades em vender banners virtuais para políticos ciosos da influência exercida por ela junto aos leitores eleitores. Logo sua página se encheu de reclames alusivos a administrações públicas que, a uma módica quantia de alguns milhares de reais todo mês, divulga logomarca e slogan como se estampasse ali seu selo de qualidade, o certificado de veículo chapa branca, recomendando a leitura para simpatizantes da prefeitura ou governo, dependendo para qual lado ela esteja trabalhando no momento.

Nas últimas semanas, a esperta senhora bateu todos os recordes de, digamos, popularidade. Ao desafiar a inteligência dos internautas de forma desmedida e suprimir qualquer resquício de bom senso de suas recentes atualizações, atraiu para si a ira de jovens que foram caluniados. Inventou histórias tão fantasiosas que quase entra numa antologia de contos fantásticos. Até aí, tudo bem. O problema foi tentar convencer as pessoas de que suas “notícias” eram factuais.

A blogueira percebeu que os protestos de rua contra a prefeita precisavam ser combatidos, desqualificados, esvaziados. Daí, começou a dizer que haveria um confronto das torcidas de América e ABC no mesmo local e hora da concentração do protesto. Como não surtiu nenhum efeito, a não ser conseguir unir as duas torcidas em sua indignação, criou um perfil falso no microblog Twitter e o utilizou como fonte jornalística, repercutindo frases supostamente ditas por este espectro internético. Como o torpe expediente carecia de uma melhor elaboração, foi facilmente descoberto por outros usuários da rede social e logo passou a tentar novas acusações direcionadas ao movimento de rua, mas a esta altura o que restava de sua credibilidade já se havia esvaído. Talvez, para sempre.

Além de proteger seus mecenas políticos, a blogueira tuiteira picareta põe em prática outras artimanhas em busca de sobrevivência. Uma delas é ir a um bom restaurante da cidade e, ao menor deslize no atendimento, começar a criticar o estabelecimento pelo Twitter, Facebook, no blog, onde for. O dono ou gerente fica sabendo do que ela vem postando na net e oferece a refeição como cortesia, além de um pedido público de desculpas. Dessa maneira, ela alimenta o corpo, o ego e não desembolsa um tostão dos anúncios que estampa em sua página.

Além deste golpe dos restaurantes que, segundo apurei, ela também tem aplicado em boutiques da Afonso Pena, é bom os empresários evitarem anunciar no seu blogue. Um amigo meu, dono de uma ótima empresa, líder em sua área na cidade, me mostrou os dados de quão inócuo, sem efeito ou repercussão foi anunciar na página da comunicadora sênior. Nada de telefonemas, novos clientes ou aumento de acessos no seu site. Ou seja, o alto número de acessos disfarça uma situação de pouco retorno para eventuais anunciantes. Sem falar, claro, que as empresas estarão associando suas marcas a alguém desprovida de qualquer coisa que se pareça vagamente com credibilidade.

A forma como tal personagem natalense tem se destacado e se mantido imune acaba por gerar filhotes e imitadores. Uma delas é uma espécie de cópia em miniatura que foi jocosamente intitulada de “rainha”. Tal miniatura da picareta que deu origem à série, lembra bastante a original. Desde a flagrante toupeirice até a sobrevalorização de sua influência, passando pelo estilo da redação cheio de erros, em quase tudo ambas se assemelham. Assim como a blogueira, mantém uma atuação parasitária junto a políticos e acredita ser alguém realmente importante em nossa província. A bichinha.

Hoje, enquanto escrevo esta coluna para vocês, tomei uma decisão importante. Vou ajudar a senhora blogueira. Passarei a ser seu leitor e seguidor. Corrigirei a gramática, chamarei a atenção para os erros graves, darei sugestões de que terceirize o conteúdo com alguém que saiba escrever. Ou que pelo menos não seja uma analfabeta funcional como ela. Inclusive, recomendo a vocês que também façam o mesmo. Afinal, somos nós os verdadeiros donos daquele sítio, pois se quem paga por ele é a prefeitura com o dinheiro de nossos tributos, nada mais justo que queiramos receber um melhor serviço.

E você? Sabia que cada vez que você paga o IPTU ou que uma empresa paga o ISS, parte do dinheiro é investido em um superbanner no site da blogueira tuiteira picareta?

Agora você sabe. Mas aprova?

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 043 – A blogueira tuiteira picareta – 18.06.2011”

  1. MARCELO ESCÓSSIA Says:

    ficaria grato em saber o nome da pessoa em questão, pra poder fazer o mesmo trabalho de ajuda, mas ajuda ácida

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