Coluna do Novo Jornal – 044 – Protestos: “Tudo demais é muito.” – 25.06.2011

Uma coluna sobre excessos, argumentando que nem sempre as boas intenções bastam.

Boa leitura.

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Protestos: “Tudo demais é muito.”

A administração de Micarla de Sousa parece ter atingido todos os recordes de impopularidade que um prefeito de Natal pode almejar. O descontentamento da população com a atuação da alcaidessa e seus auxiliares próximos e distantes é geral e irrestrito, disseminado em todas as classes sociais, “nos bares, nos lares e em todos os lugares”. Não há um rincão sequer em toda a área metropolitana que não emane más impressões referentes a tudo que ocorreu no Palácio Felipe Camarão de janeiro de 2009 pra cá.

Tal estado de coisas ocorreu em meio a um inesperado amadurecimento de nossa sociedade, sempre tão letárgica, passiva e acomodada, que decidiu sair às ruas e dar demonstrações públicas de seu descontentamento. Em manifestações agendadas através da Internet, mais especificamente em perfis do Twitter, Facebook, sites e blogues, milhares de manifestantes acorreram às movimentações de “Fora Micarla”. Pediam o impeachment, o que é bem improvável, porém o desgaste provocado à imagem da governante deixará cicatrizes difíceis de esconder na continuidade de sua carreira política ou mesmo jornalística. O “Fora Micarla”, organizado por iniciativa de jovens inquietos e abnegados, competentes na missão de angariar numerosos adeptos, certamente contribui para que seja inviabilizada uma candidatura à reeleição da filha de Carlos Alberto.

Entretanto, como nem só de boas intenções vive o mundo, é preciso botar alguns pingos nos is para que se faça justiça e não sejamos tão maniqueístas em acreditar que é uma luta do “bem’ contra o “mal”. O movimento tem seus defeitos e comete excessos que devem ser questionados sim. O primeiro deles é cair na arrogância de achar que todas as pessoas deveriam largar tudo o que estejam fazendo para participar ou apoiar as passeatas. No segundo dia de protestos, os jovens fecharam a Avenida Engenheiro Roberto Freire no sentido Ponta Negra. Impediram motoboys de trabalhar, pais de família de chegarem em casa, gente comum que até simpatiza com os garotos, mas que se viram prejudicados por eles. Um amigo estava nessa situação. Mora em Ponta Negra, tinha o filho pequeno doente em casa e estava levando o remédio prescrito pelo pediatra para o seu tratamento.

Quando se deparou com a manifestação que não deixara nenhuma faixa livre para escoar o trânsito, encontrou jovens usando lenços para cobrir os rostos e, armados com paus, prontos para confrontar os motoqueiros que tentassem furar a passagem. Meu amigo não simpatiza nem um pouco com a Prefeita. Acha a iniciativa boa para a cidade, mas agora vê a coisa toda sob um prisma diferente. A aparente paz apregoada pelos organizadores através do termo “movimentação pacífica”, repetido tal qual um mantra, caiu por terra com os mascarados armados.

Para mim é uma enorme contradição que se promova um movimento que pregue a melhoria das condições de vida da população, mediante a punição de uma prefeita que tem atrapalhado os cidadãos no curso normal de suas vidas, por meio de manifestações que provocam caos e tumultuam o dia-a-dia desses mesmos conterrâneos.  É inclusive uma grande estupidez, uma vez que a o trabalho destes jovens poderia culminar num maciço apoio dos habitantes da cidade, caso fizessem tudo correto, respeitando todos aqueles que não puderam participar naquele dia, mas que adoraria aderir às próximas. Tudo o que eles conseguem é atrair para si a antipatia de muitos que estariam certamente marchando ao seu lado, entoando gritos de protesto, pedindo mudanças, exigindo a saída da chefe do executivo municipal, fosse agora, fosse em 2012.

Eu não sou o primeiro a alertar sobre a inconsequência dos manifestantes. Outras pessoas já o fizeram, avisando sobre o tiro no pé que os protestos poderiam surtir ao desrespeitar gente que não ficara sabendo com antecipação das movimentações. Tais conselhos foram repudiados sob sirenes das patrulhas que enxergaram neles o ranço dos caretas, dos reacionários, dos playboyzinhos e, o horror! o horror!, dos micarlistas. Diziam: “é impossível fazer uma manifestação sem provocar caos na cidade.”, “quem só reclama deveria fazer a sua parte em vez de ficar criticando.”, “protesto sem interromper o trânsito não é protesto, é São Silvestre.”, além de outras pérolas de quem não está disposto a ceder ou reconhecer que há correções a serem feitas.

Acredito que o “Fora Micarla” que tanto luta pela adesão de uma parcela maior de cidadãos e eleitores infringiu uma regra simples de convivência saudável: a boa e velha máxima  “respeite para ser respeitado.” Cometeu e vem cometendo exageros notáveis que acabam por atrapalhar seus próprios objetivos. Pois, como dizia o professor de história Kokinho Suassuna, lá atrás, quando fiz o ensino média, “tudo demais é muito”. Sem dúvida. Espero que os líderes do movimento tenham um pouquinho de bom senso para não terem uma postura tão prepotente e agressiva contra quem não merece ser prejudicado. É Fora Micarla, mas sem perder a ternura jamais.

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