Coluna do Novo Jornal – 045 – Meu barbeiro de direita – 02.07.2011

Meu barbeiro de direita

Nunca fui afeito a teorias fantásticas e inusitadas sem maiores fundamentos científicos que as justifiquem. Tenho um amigo, por exemplo, que afirma sem reservas que uma mulher cujos dedos médios dos pés são maiores que os indicadores costumam ser mais inteligentes que as outras. Já uma conhecida minha me confidenciou que homens que demonstram maior desenvoltura e habilidade em desabotoar um sutiã são melhores de cama que os demais. Sempre invejei tais descobertas empíricas que carecem, claro, de uma investigação mais aprofundada, uma pesquisa acadêmica a respeito, talvez algum investimento do governo para que possa ser realizado um estudo que comprove ou descredencie tais teorias.

No entanto, outro dia estabeleci eu mesmo, uma dessas máximas aparentemente sem sentido, mas que funcionam comigo. Desde então, passei a crer que os cuidados com o visual, mais especificamente com o cabelo e a barba, dependem não apenas da escolha de profissionais competentes e experimentados em suas atividades, mas também de um equilíbrio ideológico capaz de conceber uma aparência mais simétrica e esteticamente agradável aos olhos alheios e espelhos diversos. Por isso, hoje, minha cabeleireira é de esquerda e meu barbeiro é de direita.

Meu barbeiro de direita é um prestador de serviço à moda antiga, chama os clientes pelo primeiro nome, conhece bem a todos e o principal, dedica-se ao seu ofício com tamanha meticulosidade que em muito lembra um ourives. Desfere sutis golpes de navalha com precisão cirúrgica nos movimentos executados e é capaz de retirar todos os pelos das faces e pescoço de alguém sem que este sinta qualquer desconforto, irritação na pele ou incômodo. Sua delicadeza e educação contrastam com a firmeza de caráter e opiniões convictas de quem, mesmo sem saber, tremula um dos últimos pavilhões da moral em nosso Estado. Inquieto, bem articulado e intransigente na defesa de valores que se perdem perante a orgia social que toma conta dos tempos atuais, impondo novos hábitos e nos levando para não se sabe onde. Um desses valores cultivados e cultuados por ele, difundido entre uma tesourada e passada de máquina, é a prática orgulhosa e sem culpa da heterossexualidade.

Entre os assuntos abordados no salão, as disputas políticas são recorrentes. Isto porque metade dos homens públicos em exercício de mandato de Natal frequenta o salão. Todos de direita também. Alguns da Direita Vermelha, outros da Direita Laranja ou Rosa, alguns da Direita Verde, mas nem todos direitos. Para eles, o barbeiro costuma valorizar a honestidade, a lisura e a correção, em palestras particulares que se espalham pelo salão como o aroma de colônia e loção pós-barba, numa tentativa de doutrinar os membros do legislativo da cidade para a prática do bem comum. Quase nunca funciona. Algumas vezes em que estive lá, dividi a espera com vários denunciados em escândalos de corrupção. Basta dizer que a turma da Operação Impacto quase toda corta lá, um figurão da Hígia também é cliente e outros eleitos de extensa folha corrida mantém o hábito de dar um trato no visual com o competente homem das tesouras. Inclusive, eu particularmente tenho a má sorte de constantemente me deparar com um ex-vereador que ocupava o cargo, acredito eu, graças a alguma cota para deficientes mentais de tanta demência expressa em seu semblante. Mas deixa isso pra lá. Digressiono, digressiono.

Pragmático que é, como bom homem de direita, meu barbeiro os aceita com um misto de benevolência, compreensão e esperança de que sua influência persistente, sempre ali, cortando cabelos e aparando pêlos, pregando a justiça e a nobreza ao pé do ouvido, possa surtir efeito um dia, mudando para sempre a maneira de pensar e agir destas figuras públicas tão corrompidas pelo perverso e predatório sistema.

Apesar de condenar veementemente a corrupção em todas as suas variáveis, o proprietário da barbearia diz que os políticos corruptos não deveriam ir presos. Deveriam sim, ser atingidos onde mais lhes dói, no bolso e nos bens. A justiça tinha que rastrear todas as suas posses e de todos os parentes de primeiro grau, retirando tudo o que eles têm. O barbeiro não crê que mandar esses gatunos de colarinho branco pra cadeia fosse útil para a sociedade. Com a tomada do que lhes é mais valioso, certamente ficaria claro que o roubo não compensa. Concordo com o barbeiro num ponto: dever-se-ia despojar os bandidos ricos dos seus bens e capital, mas essa pretensa imunidade às grades sob a justificativa de que não adiantaria muito, boto na conta ideológica do homem, pois pra mim isso é papo pra tirar rico da cadeia.

No dia a dia da barbearia também podemos ter agradáveis surpresas ao nos encontrarmos com clientes da envergadura do missivista Geraldo Batista, ou Dr. João Medeiros, ou ainda o titular deste mesmo espaço aqui às terças-feiras, Adriano de Sousa, amigos da mais alta estirpe com quem já me deparei por lá.

Outro dia meu barbeiro de direita me disse que lia minha coluna todos os sábados. Com muito tato, abordou aquela em que defendi o casamento gay, posicionando-se a respeito. Manteve sua inabalável coerência ao falar sobre o assunto. Não sei o que ela acha de minhas opiniões amplamente favoráveis à liberação da maconha, mas confesso, prefiro nem perguntar. Ao tomar conhecimento do prestígio que me empresta ao ler minhas crônicas semanais, decidi redigir algumas linhas sobre ele, até para preservar este espaço que ocupo dentro dos saudáveis e respeitosos limites do debate, do contraditório, disseminando também opiniões dos que pensam diversamente a mim.

Espero que o honrado barbeiro compreenda esta coluna como tencionei escrevê-la, uma singela e sincera homenagem. Até porque não é de bom tom desagradar alguém que manuseia objetos cortantes com tanta destreza e intimidade. Seja ele de direita, esquerda ou anarquista.

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