Coluna do Novo Jornal – 046 – Anderson Miguel – O nosso Brás Cubas – 09.07.2011

Este ano reli um clássico da literatura brasileira: “Memórias póstumas de Brás Cubas”. Daí, fiquei com umas ideias malucas na cabeça e … cometi essa crônica, né? Fazer o que?

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Anderson Miguel – O nosso Brás Cubas

O advogado Ânderson Miguel, morto em junho passado, sócio de uma empresa que prestava serviços de mão de obra terceirizada poderia muito bem se converter numa versão local de Brás Cubas, o célebre defunto autor machadiano, caso aproveitasse a eternidade para escrever suas memórias. Poderia fazê-lo com a pena da galhofa e a tinta da melancolia a fim de eternizar importantes linhas da crônica política local. Tentei imaginar como seria um texto curto do desencarnado empresário, incluindo várias referências ao texto original do bruxo do Cosme Velho.

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“Morri supostamente de tiros desferidos por um desafeto, talvez algum dos denunciados por mim no caso da Operação Hygia pudesse ter sido o mandante; mas se lhes disser que foi menos de tiros do que de uma ideia grandiosa e útil, a causa de minha morte, é possível que não me creiam, e todavia é verdade. Também tenho o dever de esclarecer que não morri em virtude das acusações que fiz, mas de um projeto ousado que tornaria a vida de muitos políticos brasileiros bem mais difícil.

Eu queria realizar uma memorável administração pública sem qualquer traço de corrupção, com o único objetivo de provar à população que é possível fazê-lo, deixando então meu legado de benfeitorias, limpando meu nome de toda e qualquer mácula, fazendo-me recordar sempre. Seria a minha marca junto à posteridade, pois só ela tem o poder da absolvição definitiva.

Tal propósito tencionava curar a sociedade de um grande mal que se tem abatido sobre ela.  A roubalheira desenfreada já nos pôs a todos enfermos. Chega a ser uma hipocondria tal convívio com os desvios de conduta e de caráter. E a conivência geral e irrestrita acaba causando uma tolerância e até mesmo uma aceitação total, dando a tais violações um absurdo rótulo de normalidade. São as camadas de caráter que a vida altera, conserva ou dissolve.

Minha ideia, portanto, constituir-se-ia em uma medicina perfeita para a cura deste mal. Por meio de um exemplo bem sucedido de que é possível empreender um excelente trabalho sem fazer uso da flexibilidade moral que tanto tem nos afligido. Meu projeto, caso realizado, seria uma espécie de emplasto que proporcionaria a cura de um grande mal. O exemplo dado por mim perduraria por gerações, seria o “Emplasto Ânderson Miguel”, ideal para qualquer indício de incorreção. Percebam que perigoso era tal projeto e quantas centenas de homens públicos seriam prejudicados pelo exemplo.

Devo, entretanto, confessar-lhes algo. Embora revestido de aparente nobreza, este meu particular empreendimento escondia também uma muy humana intenção. Eu tinha a sede da nomeada e o amor pela glória. Queria ver meu nome associado, não a escabrosos e flagrantes casos de subtração do erário, mas a boas causas que me fizessem ser bem visto por esta sociedade que me tem por réu confesso.

Foi, portanto, por vaidade desmedida que alimentei o quixotesco devaneio de me converter em um, sem precedentes, prefeito honesto. Seria, naturalmente, uma negação de meus princípios, um sacrifício enorme, alcançado graças a um esforço hercúleo, mas que poderia valer a pena, pois proporcionaria eternizar meu nome como probo homem público, redimindo candidamente o pelintra prestador de serviços de outrora. Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. O que eu queria era ver nas ruas e na boca do povo o meu próprio “Emplasto”, com rótulo indicativo de um gestor íntegro, uma volta por cima digna das melhores tramas de novela.

Aliás, para falar uma grande verdade, a necessidade urgente de mudar minha imagem junto à sociedade advinha muito mais de mim mesmo que de uma suposta pressão exterior. A gente de Natal sempre foi muito compreensiva comigo. Dela, não tenho nada do que reclamar. Por definição particular, considero a sociedade natalense uma senhora fraca, de pouco cérebro e muito coração, assaz crédula, sinceramente piedosa, temente às trovoadas e ao ridículo. Para ela, ser considerado de uma posição social mais baixa é mais grave do que roubar para manter-se ou chegar ao topo. As pessoas percebiam que eu já não envergava uma sobrecasaca cujas abas se perdiam nas noites do tempo. Tal mudança era suficiente para ser tido em alta cota junto a meus pares.

Entretanto, ter sobre mim a égide de um notório ladrão, ainda que refinado, íntimo do primeiro escalão do governo, era por demais incômodo. Afinal, os homens valem de diferentes modos, mas o mais seguro deles é valer pela opinião dos outros homens.

No caso da Operação Hygia, nosso esquema ia muito bem. Conquanto não fôssemos descobertos, não me sentiria mal pelo que fazia de errado, absolutamente. Vivia aflições que sempre desabrochavam em alegria. Porém, vi todos aqueles milhões do Estado se perderem no horizonte do pretérito assim que um certo personagem novo no negócio quis ganhar mais do que lhe cabia. Era um experimentado político potiguar que negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro, verme roedor daquela existência. A partir de tão grande ambição, a Polícia Federal acabou com a nossa operação. Foi quando passei a alimentar a ideia de uma administração pública honesta capaz de limpar meu nome.

Convocado a depor, denunciei todos os envolvidos e passei a ter como admiradores muitos cidadãos que fremiam de indignação e piedade. Os demais envolvidos no caso não ficaram muito felizes com o que fiz. Sei que compreendem minhas razões. Em troca da delação premiada, consegui minha liberdade, como bom homem de negócios que fui. Portanto, tudo estava explicado, mas não perdoado, menos ainda esquecido. Talvez se os tiros que levei em virtude de minha ideia fixa não tivessem ocorrido, levaria outros por ter implicado tanta gente graúda através de minhas denúncias.

Cordialmente,

Ânderson Miguel”

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Miguel poderia fazer ainda outras revelações. É possível que dedicasse suas memórias ao primeiro verme que roeu sua fria carne. Verme este que em muito se assemelha aos chefes do esquema que roia o dinheiro público.

Destes outros personagens, no entanto, me furtarei (verbo, aliás, bem familiar a todos eles) de falar qualquer coisa. É que não tenho a menor intenção de, uma vez autor de linhas indevidas, me ver convertido em, não um defunto autor, mas num autor defunto.

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