Coluna do Novo Jornal – 047 – O maconheiro militante – 16.07.2011

Esta foi uma releitura de uma crônica antiga, adaptada ao Novo Jornal.

Boa leitura e ótimas risadas.

***

O maconheiro militante

Alguns leitores do Novo Jornal conversaram comigo a respeito da participação de seus filhos na marcha da maconha de uns dois meses atrás. A preocupação dessas pessoas não era com o fato de seus filhos estarem ou não usando a droga, algo irrelevante ante uma ameaça muito maior. O temor deles residia na possibilidade de seus rebentos terem se convertido em “maconheiros militantes”, o que é muito pior. É um equivalente chapado de um evangélico fervoroso ou de um homossexual sindicalizado, ou ainda (o horror! o horror!) um representante da Herbalife! A coisa ficou feia com a adesão do FHC ao movimento. Além de ter feito muito bem à imagem do ex-presidente de maneira mais eficaz que os últimos 9 anos de marketing do PSDB, deu uma certa legitimidade ao movimento. Os pais ficaram apreensivos. Por isso, para ajudá-los a reconhecerem se suas crias aderiram à militância político-partidária do partido verde folha, resolvi publicar esta elucidativa coluna.

Ele chega pra alguém e diz: “Você sabia que existem medicamentos cicatrizantes feitos de cânhamo?” Inocentemente, a pessoa responde que não e mostra-se levemente curiosa a respeito do assunto. Pronto. Já basta. Ela acaba de cair nas garras de um maconheiro militante que passará as próximas horas tentando convencê-la que o THC é a substância redentora da humanidade, que fumar maconha é a coisa mais legal que alguém pode fazer sobre a face da Terra e que os rumos do planeta estão intimamente ligados à folhinha de cinco pontas.

Se derem corda, ele se sairá com um discurso tão panfletário quanto possível, dizendo mais ou menos o seguinte: “A canabis apresenta propriedades anestésicas e regenerativas bastante atuantes. Os medicamentos cicatrizantes de cânhamo foram desenvolvidos no Egito antigo onde, aliás, a erva era utilizada para produzir de tudo, de papiros a bandagens para múmias. Os cremes e bálsamos feitos da erva foram muito usados por Antônio Conselheiro durante a Guerra de Canudos para tratar dos ferimentos de seus homens. Inclusive, há registros de que o próprio conselheiro era usuário de marijuana. Isso talvez explique o grande senso de justiça do homem. Você sabia?”

Para essas pessoas a erva é a razão principal de sua existência. Tudo o que eles fazem é baseado (com ironia, faz favor.) nesta singela plantinha. Para eles, maconha é religião, é o clube de coração, o partido político, a banda favorita, a tábua de salvação. Só a fumaça salva! Não são da Herbalife, mas se dedicam à Ervalife com o mesmo fervor messiânico. Gostam de reggae, de surfe e do verde que te quero fumo.

Os maconheiros militantes são verdadeiros advogados da marofa. Nunca perdem uma oportunidade de apresentar argumentos comprobatórios definitivos que ilustram a superioridade do THC sobre todos os elementos, constantes ou não na tabela periódica. Sua retórica encontra sustentação em três alicerces básicos:

1)      O Bombril Natural;

2)      Importância História;

3)      Putz! Esqueci o terceiro.

A teoria do Bombril Natural defende que a maconha tem mil e uma utilidades, sendo a erva mais versátil que jogador coringa, daqueles que batem escanteio e correm pra cabecear. Segundo os partidários, a versatilidade canábica é ilimitada, servindo para produzir roupas, calçados, papel, alimentos, tinturas, medicamentos, biocombustível, brinquedos, material de construção, condutores energéticos, maçanetas de porta, guarda-chuvas, baterias para celular, absorventes íntimos, escafandros e lancheiras do Bob Esponja. O aproveitamento da planta é total. Das sementes se faz tempero, das folhas se produz um delicioso chá para os nervos, do caule se confecciona móveis artesanais muito maneiros, bicho. Sacou? Só! Pode crer!

Não é raro, um militante chegar para afirmar toda a sorte de produtos derivados da erva. São verdadeiros catálogos mentais. E olhe que a memória deles já não é lá essas coisas. “Você sabia que existe sorvete de maconha? Você sabia que existe gravata feita de fibras de canabis? Você sabia que existe papel higiênico de cânhamo? Você sabia que nos países desenvolvidos são receitados baseados no tratamento do glaucoma/câncer/aids/gripe/insônia/falta de apetite?”

Outro argumento que ganha força entre os militantes verdes é o da importância histórica da erva. Os fiéis do cânhamo estão convictos da inquestionável participação da maconha em todos os grandes momentos protagonizados pelos homens. Eles afirmam categoricamente que na Grécia, não eram galhos de arruda que ornamentavam as cabeças dos atletas vencedores dos jogos olímpicos. Eram, na verdade, galhos de cannabis. A guerra de Secessão estadosunidense não teve nada a ver com algodão. Era tudo por causa das plantações de maconha dos estados do sul.

Eles defendem ainda que as cruzadas medievais também não eram bem como se diz nos nossos livros de história. Os cavaleiros partiram sim em busca do Santo Graal, mas o que todos ignoram é que tal termo era sinônimo para “Camarão Sagrado” numa clara referência à erva bendita. Amém! E aquela fumacinha que sai do Vaticano sempre que a igreja escolhe um novo Papa? Como é que vocês acham que aqueles cardeais todos mantêm a paz de espírito?

Os maconheiros militantes são dedicados, engajados e incansáveis em sua luta por um maior reconhecimento da erva pela sociedade careta e conservadora, dominada por pensamentos retrógrados e arcaicos. O problema é a ferrenha oposição do chamado Comando Delta, um inimigo invisível, uma megacorporação formada por políticos, exército, Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Municipal, Polícia dos condomínios, seguranças de shopping, as mães dos usuários e a máfia chinesa que se utiliza de todas as forças disponíveis para impedir o triunfo dos heróis da erva.

Mas nada os impedirá de prosseguir em sua pregação, seus discursos inflamados, sua paixão indomável, sua militância maconheira. Suas idéias se espalharão como fumaça e nenhuma estratégia nefasta da oposição, nenhuma manobra covarde e traiçoeira será capaz de arrefecer o ímpeto dos apaixonados militantes. Ninguém será capaz de cortar esse barato. Caso tentem, serão surpreendidos por uma bem articulada retórica, além de um discurso muitíssimas vezes ensaiado. Essa é a tônica. Esse é o sentimento. E eles vão à luta!

Mas só amanhã, porque hoje eles já fumaram um e devem estar com uma preguiça danada.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 047 – O maconheiro militante – 16.07.2011”

  1. Adriano Says:

    Na proxima Marcha da Maconha em Natal vou pedir pra galera gritar:

    “Ei Fialho, Maconha é do Caralho!”

    Que achas?

    =))

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