Coluna do Novo Jornal – 048 – O filósofo do Crato – 23.07.2011

No dia 23 de julho do ano passado, empolgado com a leitura de “Chabadabadá”, cometi esta crônica-exaltação ao livro e homenagem ao imortal e genial Xico Sá.

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O filósofo do Crato

 

Mês passado viajei de férias. Fui conhecer a Grécia de Papandreou. Para entrar em sintonia com o país que nos deu tantos filósofos, decidi absorver toda a sabedoria possível, aproveitando a atmosfera propícia à reflexão e ao aprendizado. Por esta razão, levei na bagagem uma leitura indispensável para quem aprecia a fina flor da filosofia ocidental nordestina. Não nasceu em Creta, mas no Crato. Não tem seu nome associado a sofistas, pré-socráticos (apesar de ser amigo do Dr. Sócrates) ou catedráticos, mas aos astutos e sapientes mestres da vida, surgidos em profusão no interior do Nordeste. Foi na companhia de Xico Sá, por meio da leitura do seu “Chabadabadá” que visitei a terra dos filósofos, oráculos e deuses.

O livro lançado em 2010 nos convida a peregrinar por bares nunca antes navegados, com a lanterna de Diógenes à mão, buscando não apenas um homem honesto, como fez o célebre grego do barril, mas “o” homem. Ou, como sugere o autor, “para usar a acepção mais adequada”, o macho. Segundo o cabalero solitário cearense, o macho está perdido, “no meio do mato sem cachorro ou GPS”. E é justamente a partir das graves avarias no prejudicado senso de orientação masculino que o “Chabadabadá” cunhou seu subtítulo: “Aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha”. O título foi inspirado na música tema do filme “Um homem e uma mulher” de 1966. Eu, cá do meu canto de leitor atento, deslumbrado mais e mais a cada página, já me pus a refletir sobre o sub do compêndio: existe algo pior para um macho perdido do que uma fêmea que se acha?

O mundo imagético e de ritmo excessivamente acelerado, tem deixado desnorteado o homem com H. Agora, além de todas as preocupações cotidianas inerentes ao cabra hômi (“Seje hômi, cabra!”), se assomam a quantidade de creminhos para as mais remotas partes do corpo, dedicar tempo a compras, seguir tendências, andar na moda, usar marcas de grife, apreciar um bom vinho, enfim, liberar o lado feminino. Xico não é dessa época. Essa “mudernidade” toda o causa estranheza. Prefere um punhado de Minâncora, borrifadas de Leite de Rosas e, apenas nos momentos de máxima delicadeza, uma discreta aplicação de Avanço.

Feito o diagnóstico da precária condição da macheza e a exposição sem precedentes da condição confusa do outrora sexo forte, uma vez denunciado o declínio do “macho jurubeba” perante o metrossexual nascido da costela de David Beckham (e certamente continuado na figura de Cristiano Ronaldo), Xico dá seguimento a sua prosa como se pedisse mais uma dose, de uísque ou cachaça, para refrescar as ideias, pavimentar os caminhos que levam às melhores reflexões, amolecer o juízo ou mesmo deixá-lo mais afiado, tecendo diálogos dignos de Platão, numa filosofia que, se não e sartreana, á Salina, pois vem de Sá, envelhecida em barris de carvalho e aprimorada em botecos mil.

Xico nos propõe discutir o papel do homem e da mulher numa nova configuração social que já está dando demais na vista. Os medos, as inseguranças, a coragem delas (e a incapacidade deles) de chorar em público, de dizer “eu te amo”, de comprometer-se. Condena a frieza e covardia contidos num deplorável “a gente se vê”,toma partido na peleja entre o “cafa que ama e o homem frouxo”. Apregoa uma vida simples, sem frescura, faz favor, como uma neo-dialética sertaneja. Pede a volta da cozinha punk, 3 acordes: arroz, feijão e bife. Lança o “decálogo do homem feio”, sugerindo que se aprove, admire e aproveite cada detalhe das crias de nossas costelas. Roga aos céus o fim da ditadura da mulher magra demais, essa desconfortável, pedindo a volta da “mulher Comfort”, com algumas fofurinhas onde apertar, do abraço mais gostoso, arrematando: “Pelo destravecamento da mulher. Pela mulher Comfort”.

O ombro amigo também é um elemento por demais presente na obra deste hombre de las letras. Oferece o seu para os lamentos de fêmeas amigas, estas habitantes de um inóspito lugar, identificado por ele, chamado “Carencolândia”, por vezes acometidas do que Machado já havia identificado como uma “Queda que as mulheres têm pelos tolos”, sofrendo a ilusão de “agora sim, viver enfim, um grande amor…”, mas deparar-se com o fato de o grande amor ser “…mentira!” Pois, como muitas pequenas descobrem um dia, o amor pode ser com as estações de metrô da Avenida Paulista: “começam no Paraíso e terminam em Consolação”. O cronista também pega emprestado ombros alheios, pedindo audiência e atenção dos velhos e bons garçons, amigos nas piores horas, sempre alertas a nos dizer os resultados do ludopédio e ouvir-nos praguejar contra as desalmadas mulheres de nossas vidas que teimaram em nos abandonar.

Em suas inúmeras elucubrações, devaneios mil, Xico tenta realizar feitos de Hércules, impossíveis, como o de tentar decifrar os enigmas da mulher. Não chega a muitas conclusões, além do confessado fascínio e reiterada paixão, mas solta uma pérola dos gêneros: “homem é vírgula, mas mulher é ponto final.”

Entre tantos modos de homem e modas de mulher, referências as mais pertinentes a verdadeiros bastiões da intelectualidade, de Gilberto Freyre a Pereio, de Buñuel a Thiago de Góes, Xico também discorre sobre nossas miudezas, banalidades corriqueiras que nos ocupam as ideias. Os cachorros na condição de bons ouvintes, as divertidas sessões de cinema no interior (ao melhor estilo “Cinema Paradiso”), a extinção das espirituosas frases de caminhão, dando lugar às espirituais sentenças religiosas, brindando, por fim, com saborosas e inebriantes pílulas de saber. Tais refrescos da sapiência deste sertanejo cosmopolita, filósofo cratense, oráculo de edificantes e alcoólicas noites, servem para nos lembrar, entre muitas outras cousas, que “a vida é breve, a D.R. é longa” e que “se a vida dói, uísque caubói.”

Nos descontos, como naquelas partidas decisivas que entram pra historia, ainda nos brinda com um primor de crônica, intitulada “Bença, mãe.” capaz de amolecer o mais durão dos machos jurubebas, o mais arredio dos homens de cangote grosso. Sensacional, irretocável, arretada. Êta cabra sabido da moléstia! Ave Xico Sá! E cantemos a uma só voz: “Chabadabadá, chabadabadá.”

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