Coluna do Novo Jornal – 049 – Orgulho e preconceito – 30.07.2011

A crônica que nasceu de uma crônica. True story.

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Orgulho e preconceito

Caicó é uma cidade rica por sua história, mas também por suas histórias. A tradição da contação de causos cultivada por gerações fez a cidade mais proeminente de sua região passar adiante a “literatura oral” tão comum no sertão nordestino. Eu bem conheço essa característica caicoense, a urgência em dramatizar a realidade, a necessidade de passar adiante as ficções ou verdades floreadas do cotidiano de todos nós. Minha família materna tem origem naquela cidade e desde cedo convivi com muitas narrativas referentes a costumes interioranos, hábitos provincianos e atitudes típicas dos caicoenses.

Sempre ouvia que na Festa de Sant’anna, padroeira da cidade, as pessoas economizavam em itens básicos para investir em supérfluos. A frase: “tem gente que deixa de comer pra comprar um vestido”, por exemplo, era uma constante, vinda de diferentes emissores. Tal atitude demonstra bem as prioridades da elite e/ou classe média caicoense. Para o imaginário coletivo da cidade, o mais importante não seria aquilo que trazemos em nosso íntimo, que nos define como indivíduos, esse pequeno detalhe chamado personalidade, essa irrelevância de nome caráter. O que interessa é o exterior, o que as pessoas veem. Parecer bem é estar bem. É preciso sustentar as aparências, manter a pose.

Esse sentimento de vaidade desmedida talvez seja proveniente da constante sensação de observação reinante na cidade. As janelas e cadeiras nas calçadas direcionadas às biografias de outrem parecem repetir incessantemente um mantra sartriano: “o inferno são os outros.” Nesse contexto, aparentar sucesso, beleza e felicidade pode funcionar como um imprescindível mecanismo de defesa contra os predadores naturais, adversários do dia-a-dia, inimigos de todas as horas: os próprios conterrâneos.

Por isso, em virtude da importância desproporcional que é dedicada às vidas de terceiros, eu sempre ouvi outro comentário, resultado também da sabedoria popular: “cada um com um rabo enorme, mas só olha o dos outros”. A incapacidade de enxergar os próprios defeitos, a absoluta ausência de autocrítica e, ao mesmo tempo, o rigor com que se avalia os demais, percebendo neles problemas gravíssimos que muitas vezes também são do próprio autor das observações negativas, evidencia uma característica que Freud define como “Narcisismo das pequenas diferenças”. Os indivíduos são muitíssimo semelhantes, quase idênticos, mas enxergam nos outros, aspectos negativos terríveis que jamais atribuiriam a si mesmos, apesar de possuí-los.

O auge desse jeito de ser caicoense, dessa celebração do secundário, da liturgia da aparência, ocorre no famigerado “Baile dos Coroas”, uma festa de gala em que a nata da sociedade local exibe-se em todo o seu esplendor, com direito a tantos adornos que fariam o tapete vermelho do Oscar parecer uma festinha simples de paróquia. Um dia, com a intenção de prestar uma, digamos, er, “homenagem” a minhas raízes seridoenses, escrevi uma crônica ficcional em que uma senhora narra os preparativos para a grande noite pela qual ela espera há um ano. É o tal Baile dos Coroas, que dá título ao texto, evento que, segundo a protagonista, justifica todos os outros 364 dias do ano.

No desenrolar do texto, a narradora fala de como deve estar deslumbrante na noite da festa, apontando modelos de beleza e elegância os quais deseja imitar. Em seguida, ela aborda o momento econômico difícil pelo qual sua família passa, tendo inclusive sido obrigados a mudar o filho para uma escola mais barata, pois senão eles não poderiam bancar as despesas do baile, como as roupas caras, por exemplo. Em dado momento da história, a protagonista faz duras críticas a uma mulher, enxergando nela muitos defeitos que, na verdade são dela própria (a narradora), como inveja, cafonice, superficialidade e diversos outros atributos. Tais críticas tem a extensão de um parágrafo que, contextualizado com o restante da crônica, pode ser facilmente entendido como parte de uma ficção na qual uma personagem que NÃO EXISTE emite uma opinião a respeito de outra que TAMBÉM É FICCIONAL.

Ao citar essa personagem que é descrita impiedosamente por minha protagonista, cometi a insensatez de batizá-la, de atribuir-lhe uma alcunha. Um nome composto, como é comum no Seridó, mas sem sobrenome, para não me comprometer com alguém que pudesse existir de verdade e me causar problemas. Escolhi o nome inspirado num antigo comercial de TV, do Unibanco. Algo totalmente aleatório.

Postei a crônica no portal da Diginet, onde publicava algumas crônicas bissextas antes de vir dar com os costados neste nobre espaço do Novo Jornal. O texto repercutiu dentro da normalidade até que comecei a receber comentários acusando-me de ter ofendido deliberadamente uma certa senhora homônima à personagem secundária do texto, que nasceu em Caicó e frequenta o tal baile dos coroas. Defendi-me no espaço destinado aos comentários, esclarecendo que aquela crônica não tinha nenhuma relação com pessoas reais.  Em vão. Fui processado, junto com a Diginet, por danos morais, em ação na qual a senhora me pede R$ 10.000,00 de indenização.

Há alguns meses houve a audiência de conciliação, na qual eu expliquei toda a situação e a sucessão de coincidências que, infelizmente, devem ter causado mil transtornos à senhora que me interpela judicialmente. Pedi desculpas e me dispus a retratar-me publicamente no espaço de minha coluna da Diginet.

A outra parte não quis acordo. Explicou suas razões e se mostrou irredutível. Disse que, por causa do texto, que foi lido por toda a população de Caicó e mais os caicoenses espalhados pelo mundo, aos quais aproveito para agradecer a audiência, ela passou a ser pressionada pela comunidade caicoensese para que tomasse alguma atitude. As pessoas chegavam para ela, perguntando “já viu o que escreveram de você?”, numa mistura de sadismo e solidariedade típica dos caicoenses. A pobre mulher virou motivo de chacota entre seus conterrâneos, passando a ter que recolher-se em casa, para fugir dos inevitáveis comentários maldosos e admoestações de seus pares.

Após a audiência, cheguei à conclusão que a principal motivação para ela me processar não foi o texto em si, mas as consequências provocadas por ele. No fundo, ela sabe que não me referi a ela e que não foi minha intenção ofendê-la. Na verdade, não tenho razão nenhuma para tal atitude. Está me processando para dar uma satisfação à sociedade a qual faz parte. Ou seja: puro orgulho. É por causa dos caprichos de um determinado grupo social, provinciano e extremamente preconceituoso, e não pelo que escrevi, que estou sendo questionado na justiça. É em virtude do comportamento agressivamente inquiridor, alheio a minhas atitudes ou textos, que terei que comparecer diante de um juiz para me explicar.

Ao chegar a esta conclusão, resolvi escrever esta crônica e intitulá-la “Orgulho e Preconceito”, numa clara alusão à Inglaterra vitoriana tão bem retratada por Jane Austen em seus livros. Uma sociedade aristocrática em que manter tradições, aparências e títulos de nobreza valia mais do que a verdade. Enfim, um lugar igualzinho à cidade de Caicó do século 21.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 049 – Orgulho e preconceito – 30.07.2011”

  1. andréia Says:

    Sinceramente, você levou Caicó a sério demais. Seu ar provinciano só afeta a quem te a ver com ele, nao seria o seu caso? Para quem não circula nesses ambientes, tanto faz. Outra coisa, eu sou caicoense e sei que isso existe, no entanto, para mim faria mais sentido dizer que as características que você elencou se aplicam a quase todas as cidades do Rio Grande do Norte. Natal não fica tão distante, Mossoró e Currais Novos muito menos. Seria uma característica potiguar passar fome para ostentar? rs Só Sant’ana sabe.

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