Coluna do Novo Jornal – 051 – Media Noche en Madrid – 13.08.2011

Uma crônica sobre nostalgia.

***

Media Noche en Madrid

“Não se faz mais nostalgia como antigamente.” Assim expressou sua ironia alguém espirituoso e bem-humorado de cuja identidade não me recordo. Tal frase me faz lembrar o mais recente filme de Woody Allen, “Meia noite em Paris”. Uma produção com a qual o baixinho nervoso do Brooklin encantou meio mundo com seu envolvente clima romântico e história povoada por grandes personagens da alta cultura mundial, além de inúmeras referências à literatura, cinema, música e artes plásticas.

O filme repetiu diversas virtudes de produções recentes de Allen. Um texto preciso, como em “Se tudo der certo”; um ótimo roteiro como em “Match Point”; um ar de sofisticação europeia como em “Vicky Cristina Barcelona”; e ainda resgata ingredientes fantasiosos presentes em filmes como “A Rosa Púrpura do Cairo”. O resultado logo apareceu. A produção agradou críticos e o público fiel às películas do judeu nova-iorquino, que alcançou sua melhor bilheteria desde os anos 70.

Vi “Meia noite em Paris” nas minhas últimas férias. Ocasião na qual, eu próprio vivia uma certa nostalgia. Estava em Madrid, cidade onde vivi por 6 meses entre 2009 e 2010 numa temporada de estudos. Agora, 1 ano e meio depois, quis voltar à cidade e encontrar tudo como lá deixei, além de repetir as mesmíssimas sensações que tinha quando vivia ali. Seria o final perfeito para minhas férias: 4 dias em Madrid, revendo amigos, andando por ruas conhecidas, frequentando novamente os mesmos bares e cafés aos quais costumava ir. Seria como reviver um período recente de minha vida que me traz muitas boas recordações.

No tempo em que morei na capital espanhola, Nina e eu conhecemos um grupo de amigos com os quais saíamos todas as sextas para tomar umas cervejas (na verdade, muitas) no bar San Julian. Eram 3 amigos espanhóis, 2 deles casados com brasileiras e outro com uma ucraniana. Inseparáveis, divertidos e acolhedores.

Entre 2009 e 2010, o clima não era bom. Só se falava em crise, desemprego, falta de perspectiva e outras milongas. As pessoas falavam do Brasil como se fôssemos a potência econômica hegemônica no mundo. Eu tentava dizer a elas: “vejam bem, não é assim. Temos 30% de analfabetos. Desenvolvimento não é só dinheiro, também é cultura, educação, infraestrutura…” Não adiantava. A autoestima deles estava tão em baixa que a admiração ao Brasil ganhava contornos quase ficcionais. Na TV, todos os dias havia debates no congresso entre Zapatero (primeiro ministro) e Mariano Rajoi (líder da oposição). Eu achava aquilo engraçado. Os dois homens expondo suas ideias acaloradamente, repetindo-se diariamente como num episódio do Chaves, discutindo, discutindo, mas sem nunca resolver os problemas do país.

Na minha volta, há 2 meses, planejei com Nina um grande reencontro com os casais amigos no San Julian. Chegaríamos exatamente na manhã de uma sexta-feira e seria muito bom fazer parte novamente daquela turma, mesmo que por uma noite ou um fim de semana apenas. No entanto, e como diz o ditado contemporâneo: “na teoria, a prática é outra”. O grupo de amigos inseparáveis, harmoniosos e bem-humorados estava bastante mudado. Os casais já não eram amigos. Uma pequena centelha de desentendimento e certa falta de afinidade entre as mulheres cresceram e multiplicaram-se como células cancerígenas em metástase.

Cada uma das 3 famílias vivia sem encontrar as outras 2. Viviam sem se encontrar, sem se falar, sem compartilhar nada, nem fotos no Facebook. As fofocas e intrigas sem valor ou relevância envenenaram os 6 corações, fazendo com que nossa noite se transformasse numa longa e tensa sucessão de lamentos em que cada parte expunha seu ponto de vista e tentava explicar o inexplicável: uma amizade verdadeira, de muitos anos, acabou-se pura e simplesmente por causa de pequenas fofocas sem o menor cabimento.

Na TV, Mariano Rajoi e Rodrigues Zapatero continuam brigando em cadeia nacional todos os dias, mas sem nunca conseguir solucionar os problemas do país e do povo. Ambos são vítimas dos erros cometidos lá atrás pelos próprios partidos de que fazem parte. Quando a Espanha entrou na União Europeia, agiu como um novo rico num misto de otimismo e irresponsabilidade que culminou na atual situação de insolvência iminente. Um dos casais amigos (não amigos entre si, mas ainda nossos amigos) passa por dificuldades financeiras sérias. A esposa perdeu o emprego, o marido teve o salário rebaixado e passou a dar menos aulas. E eles ainda se julgam com sorte por conseguirem pagar o aluguel e o supermercado.

Enquanto estávamos lá, desisti da ideia de voltar à rua em que vivi, tomar um espresso na cafeteria que frequentava diariamente e outras pequenas aventuras nostálgicas. Concluí, tal qual o personagem de Woody Allen, que tentar reviver, ainda que na imaginação, um passado desbotado e já distante do cenário atual, não seria tão positivo assim.

A verdade é que nunca fui bom em matéria de nostalgia. Quando olho pra trás, lembro de muitos momentos bons, felizes, experiências positivas, mas tenho a nítida sensação de que tudo o que vivi foi apenas um prólogo do que vivo hoje. Eram a entrada para que eu saboreasse o prato principal que, no caso, é o hoje. Minha infância foi meio conturbada por razões pessoais e familiares; minha adolescência, uma sucessão de inseguranças e hormônios represados pela culpa católica cultivada por anos a fio; a minha entrada na idade adulta, uma comédia de erros shakespeareana na qual fui conquistando certo êxito ao melhor estilo “Bem está o que bem acaba”.

Já no presente de onde você me lê, tudo me parece melhor. A alegria constante é intercalada por breves momentos de intensa euforia ou de tristezas pontuais. Enfim, uma vida equilibrada e feliz, pois como acreditava Epicuro: a felicidade está no equilíbrio, o caminho está no meio.

Em Madrid, não tive a mesma sensação do personagem de Woody Allen de viajar no tempo. Estava no mesmo lugar, mas os tempos eram outros. Cheguei, porém à mesma conclusão que o protagonista. Nossa vida está no agora. O resto é aprendizado.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 051 – Media Noche en Madrid – 13.08.2011”

  1. FFF Says:

    Um dos seus melhores textos Fialho. Uma boa diretriz a ser seguida.

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