Coluna do Novo Jornal – 052 – A Entrevista – 20.08.2011

True story! Podem perguntar pra Minchoni.

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A Entrevista

Este fim de semana, está em Natal o escritor, artista plástico e publicitário, Daniel Minchoni. Nasceu em São Paulo, viveu uma década em Natal e em seguida voltou a sua cidade de origem. É meu sócio na editora Jovens Escribas que surgiu como um voluntarioso selo literário no 4º ano da década passada. Aproveito a presença de Minchoni em Natal para contar uma história real que vivenciamos em 2006.

Tudo começou numa noite de sexta-feira, eu já a caminho da praia após uma exaustiva semana de trabalho, recebi um telefonema seu. Ele disse que ligaram para ele de um canal de TV, querendo agendar para o dia seguinte, às 8 da manhã, uma entrevista ao vivo no programa de maior audiência do canal, para falar da Jovens Escribas. Minchoni achava que era uma boa chance de divulgação do nosso trabalho, mas que não iria sozinho, uma vez que um dos nossos diferenciais sempre foi a natureza coletiva do projeto. Patrício Jr. (nosso terceiro sócio) não poderia ir, pois já se encontrava no litoral norte, na casa de praia de sua família. Adiei minha ida à praia pra depois da entrevista e fui pegar Daniel bem cedo em sua casa.

A caminho da emissora, combinamos como seria todo o nosso roteiro. Primeiro, antes de entrar no ar, conversaríamos com o apresentador do programa, para dizermos que eu começaria falando um pouco de como surgiu a ideia do selo, como começamos a publicar os livros, o que pretendíamos publicar ainda em 2006. Em seguida, Minchoni falaria um pouco dos livros (Verão Veraneio, Lítio, É Tudo Mentira!, Contos Bregas e Escolha o Título) que já havíamos publicado. Com tudo combinado previamente não teria erro, uma vez que, tanto eu, quanto ele, somos muito tímidos diante de microfones ligados, estúdios com ar-condicionado no máximo e câmeras de TV apontadas para nós.

Ao chegarmos na sede do canal de TV, fomos cumprimentados pelo apresentador. Ele reconheceu Minchoni como sendo publicitário, pois já o havia entrevistado a respeito de um evento do Clube de Criação do RN, entidade da qual ele era diretor. Daniel respondeu algo como: “Sim, sou publicitário, faço parte do CCRN, mas hoje estamos aqui para falar só de literatura.” O apresentador soltou um “hum-rum” enquanto amarrava sua gravata e perguntou o que eu fazia da vida além de publicar livros. Falei que também era publicitário e trabalhava numa agência ao que ele também soltou um desinteressado “hum-rum”.

Fomos conduzidos a um estúdio refrigerado e posicionados em tamboretes altos com os microfones de lapela devidamente presos em nossas camisas. Conosco no estúdio, além do apresentador, havia uma garotinha de uns 8 anos de idade a frente de um microfone de pedestal. Meu frio na barriga crescia rapidamente e eu ficava cada vez mais nervoso (o programa era ao vivo). “Silêncio no estúdio!”, passa a vinheta de abertura e…

“Boooom dia! Bom dia! Este é mais um programa … da sua TV… e hoje nós temos aqui a Ádala Nataly, a cantora mirim de Macaíba. E temos também os publicitários Daniel Minchoni e Carlos Filho, que vão falar de publicidade e também de livros num papo muito interessante. Mas antes vamos ouvir um pouco de Ádala Nataly, a cantora evangélica mirim de Macaíba.

A garotinha começou então a cantar altíssimo com uma voz muito aguda em seu microfone: “DEEEEEEEUS, ME CAPACIIIIIITA EM SEU BEM QUEREEEEEER! POIS É PRA TI QUE EU QUERO VIVEEEEEEER!!!” Eu e Minchoni, assustados com aquela voz vigorosa e intimidados com a desenvoltura da menina com as câmeras, certamente inversamente proporcional à nossa, ficamos pensando em que contexto, nós falaríamos sobre os livros. Quando a garotinha terminou sua canção, o apresentador chegou ao nosso lado e disse novamente: “Daniel Minchoni e Carlos Filho vão conversar com a gente…” Eu já me preparava para dizer o que havia combinado previamente com Daniel, quando o homem completou “… mas não agora, porque temos uma participação ao vivo”.

Durante os seguintes 5 minutos, uma telespectadora falou o quanto ela estava tocada pela voz da pequenina Ádala Nataly, como aquela garotinha melodiosa era um instrumento de promoção do Senhor, como era possível sentir a presença do Altíssimo ao se deliciar com a suas canções maravilhosas e etc…  O apresentador, influenciado pela vivaz empolgação da telespectadora do programa, pediu a Ádala Nataly que cantasse mais uma canção. Ele próprio, visivelmente comovido, olhava para nós, fora do foco das câmeras e comentava: “É um rouxinol! É um rouxinol!” Com isso, encerrou-se o primeiro bloco e a entrevista ficou para a segunda metade do programa.

Ao voltarmos do intervalo, cumprindo a promessa, o apresentador, logo após saldar o público de casa, dirigiu-se a nós e fez a primeira pergunta da entrevista: “Clube de Publicidade de Natal! Meu amigo, Carlos Filho, explique o que faz o Clube de Publicidade de Natal…” Eu, que não tinha nada a ver com o Clube de Criação do Rio Grande do Norte, fiquei sem saber o que fazer. Então, fiz o que talvez a maioria fizesse em meu lugar, tive uma crise de riso de quase um minuto. Quando voltei a mim, tive que responder alguma coisa uma vez que aquilo era televisão ao vivo. Falei então de todas as ações maravilhosas que o CCRN promovia (todas inventadas ali mesmo de improviso) e, pra não passar vergonha sozinho, citei um monte de nomes de colegas publicitários para poder dividir, pelo menos um pouco, todo aquele embaraço surreal.

Em seguida à minha resposta, o apresentador se voltou pra Minchoni e perguntou: “E como vai a agência …?”, referindo-se à agência de propaganda em que EU trabalhava. Daniel, acompanhando o que eu havia feito, também mentiu descaradamente, falando que era uma ótima empresa, repleta de pessoas formidáveis e que tinha muito orgulho de trabalhar lá. O apresentador, muito satisfeito com a entrevista, elogiou nossa postura de jovens profissionais, exemplos para os muitos garotos que assistiam ao programa e agradeceu a presença naquela manhã de sábado. Saímos de lá sem nem sequer mencionar os assuntos livros ou selo editorial, mas antes de irmos embora, fomos mais uma vez agraciados com a voz de rouxinol da cantora evangélica mirim de Macaíba, Ádala Nataly em sua derradeira canção da manhã.

Deixei Minchoni em casa em meio a risos incontidos de ambos e torcendo para que nenhum dos nossos amigos tenha assistido ao programa. Depois, finalmente fui pra praia com vontade de não voltar. Nunca mais.

 

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