Coluna do Novo Jornal – 053 – Um Dia Verde – 27.08.2011

Crônica nostálgica. Viagem no tempo comigo, jovens.

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Um Dia Verde

Eu gosto do verde. Da cor verde. E não se trata de consciência ecológica ou simpatia gratuita. Minha predileção por essa cor tem duas razões bastante simples: sou consumidor e fã da cerveja holandesa Heineken e quando eu tinha 15 anos ouvi um certo som que fez muito bem aos meus ouvidos em meio à confusa e cheia de sobressaltos adolescência. Era um som, digamos assim, “verde”, que tomava conta de tudo como uma trepadeira cobre muros e, como não poderia deixar de ser, era um som punk. Naquele já longínquo 94 do século passado, ano de muita efervescência musical, tive a consciência que só o Punk salva. Amém!

O ano do tetra foi marcado por trabalhos e acontecimentos que me causaram profunda impressão: teve o “Da Lama ao Caos” de Chico Sciensce e Nação Zumbi, o acústico do Nirvana (e o tiro na cabeça do Kurt Cobain), o primeiro disco dos Raimundos, a explosão do Oasis (“Wonderwall”, “Don’t look back in anger”), o surpreendente “Usuário” do Planet e o “Smash” do Offspring, só pra citar alguns de memória. Gosto de todos, mas para mim talvez o CD mais divertido a ser prensado naquele ano tenha sido um com encarte bonito em que havia uma ilustração bem bacana de uma cidade e uma explosão, o “Dookie” do Green Day.

Som vibrante, alegre, moleque, urgente e pegajoso, que invadiu meu toca-CDs e segue tocando alto nos fones de ouvido até hoje. Faixa por faixa era um disco quase todo composto por hits e meio que me salvou de um caminho muito perigoso. Entre os 13 e 17 anos o adolescente vive aquele período de tomada de decisão, busca de uma identidade, formação de um caráter e de uma personalidade. As escolhas que a gente faz nessa fase da vida podem marcar para sempre nossa passagem por este mundo. Por isso eu me encontrava em um terreno bastante perigoso, pois o Colégio das Neves onde estudava era uma verdadeira incubadora de idiotas. O nível educaional era muito bom. Tínhamos bons professores e o conteúdo, tirando os dogmas medievais que nos eram repetidos como mantras, produziu alguns dos melhores e mais bem sucedidos adultos de minha geração. O problema era a mentalidade reinante entre os meus colegas, uma gente muito simpática, mas careta, preconceituosa e adepta de uma estupidez corrosiva e mais contagiante que a gripe espanhola.

Num ambiente como esse, se você não reza segundo a cartilha reinante da coletividade, o que para um jovem aluno Neves significava ir a shows de Axé, saber dançar forró e frequentar os pagodes de fim de semana, pode estar condenado a uma rápida morte social ou, muito pior, ganhar reputação de excêntrico o que, aliás, dá no mesmo. Eu gostava de rock. Até me esforçava (não muito) para ser igual aos outros, mas não dava. Paguei um preço por minhas opções. Meus amigos achavam exótico, as meninas da GRD nem olhavam pra mim e os que não me conheciam tinham a sensação de que era melhor continuarem assim. Até que descobri em outras salas e séries, alguns como eu.  Minha solidão terminou quando percebi que havia um pequeno nicho roqueiro na escola. Fiz amigos como Fernando Filho, Thales Lago, Caio Vitoriano, Leonardo Medeiros, Diogo Salim, Vítor Duarte e juntos criamos nosso próprio gueto, protegido da intolerância e hostilidade dos demais.

O Green Day, Offspring e muitos outros conjuntos roqueiros gringos e também brasileiros proporcionaram minha catequese, pavimentando um caminho para que eu conhecesse outros sons, bandas mais pesadas, ritmos mais frenéticos. Estava salvo. Só havia um problema: possivelmente eu nunca teria a oportunidade de ver meus grupos preferidos em apresentações ao vivo. Numa cidade em que Durval é rei e todos os puxadores de bloco ganham títulos de cidadãos locais, deveria haver alguma lei que mantinha os shows internacionais a milhares de quilômetros. Felizmente, os anos mostraram que eu estava errado.

Em 2004, o Offspring tocou em Recife. Em 2009 e 2011, foi a vez do Iron Maiden fazer o mesmo. Vez por outra também rola um concerto imperdível em São Paulo ou Rio e, com um pouco de economia e planejamento, dá pra marcar presença. Mas ainda faltava o Green Day. Faltava, pois por uma dessas jogadas do destino, acabei vindo passar um período de estudos fora de Natal e haveria um show dos californianos na cidade onde eu morava.

Quando chegamos à fila do evento, gigantesca, dando voltas no quarteirão, a primeira coisa que vi foi a multidão de camisetas pretas que passavam uma mensagem clara: eu estava em casa. Depois percebi que a maioria era de adolescentes ou adultos bem mais jovens que eu. Senti-me o tiozão do Rock. Aquela gurizada conheceu o grupo certamente através do “American Idiot”. Ao percorrer a extensão da fila, comecei a perceber representantes de minha época, facilmente identificáveis pelas rugas pioneiras, grisalhos precoces ou calvícies proeminentes. Fiquei imaginando se a banda foi tão importante para eles, na formação de seus gostos musicais, quanto foi pra mim. Durante a espera, muitos senhores e senhoras que passavam, paravam um pouco para nos perguntar o propósito de uma multidão de jovens como aquela, disciplinadamente alinhada, ordenadamente a espera de algo certamente grande. “Vamos a um concerto de Rock”, eu respodia todo simpático.

Até que, finalmente, teve início o espetáculo: público insano, devotado e de alma lavada. Inclusive eu, pois finalmente podia ver Billy Joe, Tré Cool e Mike Dirnt numa performance memorável. Quase 3 horas de clássicos (“Basket Case”, “She”, “When I come arround”), canções históricas (“Minority”, “American Idiot”, “Boulevard of broken dreams”) e baladas (“Good riddance”), além das mais recentes do “21st Century  Breakdown”. Tudo bem orquestrado com uma produção impecável, muita energia na plateia e ótima presença de palco.

A data de 29 de setembro de 2009 entrou para a história, pelo menos para a minha história. Foi um bom dia, colorido com contornos verdes, regado ao sabor amargo de muita cerveja e cada vez que lembro do concerto se anuncia um largo e satisfeito sorriso em meu rosto. O que aconteceu naquela terça-feira foi uma celebração aos 15 anos que se passaram desde que eu ouvi o Green Day pela primeira vez.  A alegria que eu exibia no show não era apenas de um fã que via ao vivo a performance de seus ídolos, mas de um adulto que se descobria muito feliz pelas escolhas que fez.

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