Coluna do Novo Jornal – 054 – Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 1: O Impostor da província – 03.09.2011

Série de crônicas baseadas em observações corporativas cotidianas. Divirtam-se!

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Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 1: O Impostor da província

Não se sabe ao certo quando o Impostor chegou à província. Também não se tem conhecimento de qual função desempenhava. Talvez nem ele saiba explicar. Certamente, dirá o cargo que ocupava, de maneira pomposa, impostando a voz para expressar a aparente complexidade e importância do emprego, tal qual um locutor de rádio nato que, por um caprichoso do destino, elegeu outra carreira a seguir. Porém, caso queira perguntar-lhe o que fazia exatamente ali, nem ele nem ninguém poderá responder satisfatoriamente.

 

Estima-se que sua chegada tenha ocorrido em meados dos anos de 1990, quando o lugar começou a viver um surto de crescimento econômico e precisou importar gestores e líderes especializados, vindos de centros desenvolvidos. Era preciso ordem para gerir o progresso da província e a solução estava fora. Fazia-se imperativo ir às metrópoles, aquelas que já se haviam desenvolvido anos antes, garimpar os melhores agentes desta prosperidade para que eles guiassem os provincianos pelos tortuosos caminhos das decisões difíceis, alugando-lhes sua competência gerencial e inegável capacidade.

Quando chegou, logo atraiu outros como ele. Toda uma horda de Impostores foi dar com os costados na província. Instalaram-se em amplos escritórios acarpetados em cujas portas poder-se-ia ler nomes como “gerente de marketing”, “diretor de novos negócios”, “superintendente executivo”, “chefe supremo do universo corporativo”, “Pai, Filho e Espírito Santo, Amém”. A tropa comandava veículos de comunicação, compunha os conselhos de algumas das mais abastadas empresas em diversos segmentos, infiltrou-se em escalões quase altos do poder público, prestou consultorias especializadas para empresários desesperados por maiores lucros ou menores prejuízos.

Se as coisas não davam certo, o que costumeiramente ocorria, o Impostor sabia exatamente o que fazer: botar a culpa nos outros. Ele era muito bom nisso. Quando os resultados não vinham, sempre havia um subalterno incompetente que descumprira uma ordem crucial, uma conjuntura desfavorável que se interpôs no caminho, um contexto macro-econômico internacional que implodiu o seu trabalho, um concorrente desleal que lhe passou a perna, o próprio contratante que não seguiu suas recomendações ao pé da letra, ou mesmo o El Niño que andava muito cruel àquela época. Enfim, a responsabilidade era de todos, menos dele.

No entanto, caso o desempenho da organização onde estava inserido fosse bom, tomava para si todo o mérito. Palestrava aos chefes como portador da boa notícia, insuflava a assessoria de imprensa a distribuir releases festivos, dava entrevistas como um infalível homem de negócios que acabava de angariar mais um troféu para sua coleção particular de êxitos empresariais. Dessa forma, prolongava sua trajetória de enganos, convencendo um grande número de pessoas de suas competências essenciais, aproveitando-se do amadorismo reinante na pobre e ingênua província.

Não demorou muito e logo os Impostores ocuparam também as vagas de professores nos incipientes cursos de propaganda, marketing e gestão da época. Distraíam os alunos com os cargos que ocupavam, as roupas sociais que pressupunham um líder no mercado, a voz bem ritmada, a retórica elaborada, a capacidade de falar sem parar e nunca dizer nada, o hábito de repetir generalidades inócuas que não faziam outra coisa a não ser preencher o tempo das aulas e deixar nos pupilos a certeza de que “marketing é a ciência de enrolar os outros”.

Esta conclusão dos estudantes nascia de uma constatação real. Os Impostores são verdadeiros especialistas em porra nenhuma, mestres em amenidades sem importância, papagaios engravatados que repetiam sem cessar trechos de livros de auto-ajuda corporativa em palestras, salas de aula ou em suas repartições e empresas. Em seus ambientes de trabalho, além de todo esse falatório, distribuíam ordens sem sentido, omitiam-se dos fracassos e usurpavam as boas idéias dos subalternos, ganhando fortunas para isto.

A grande pergunta que você deve estar se fazendo é: “Como alguém consegue enganar tanta gente? Onde é que fica essa província de gente tão néscia e ignorante?” As respostas residem no charme pessoal dos Impostores. Mesmo não tendo profundo conhecimento a respeito de nada, comunicam-se bem como poucos. São artistas da eloquência, expressando-se com maestria numa terra em que a grande maioria balbucia um vocabulário rudimentar, ou berra em altos brados um repertório de poucas dezenas de palavras. O Impostor não. Sabe falar. Alguns deles chegam até a dar cursos de como falar em público, nos quais transmitem ensinamentos como “o que fazer com as mãos”, “que frases evitar em discursos” e outras dicas de mesma estirpe.

Tal desenvoltura oral os leva a exercer um inevitável magnetismo para microfones. Não perdem a oportunidade de discorrer sobre assuntos que não dominam sequer remotamente ou de alardear os ótimos números das empresas que gerem. Com frequência fazem as vezes de mestres de cerimônias de eventos e convenções, mantendo-se em evidência nos grandes palcos, compondo mesas lado a lado com as mais representativas autoridades, alimentando o insaciável ego ao manter-se sempre em evidência. Porque, para ele, o mais importante não é o dinheiro, mas estar próximo do poder e, dessa forma, exercê-lo também.

Vez em quando surgem convites para escrever em alguma revista de negócios da província. Ao fazê-lo, escolhem um tema insípido, sem muita profundidade, minimizando os riscos de derrapagem. Com uma abordagem superficial e professoral, escolhem um tema como “será que nós estamos nos comunicando bem?”, tratando da comunicação entre a empresa e seus funcionários ou dos funcionários entre si. Na prática, porém, não costuma manter boas relações com as camadas mais baixas dos organogramas, deixando sempre muito claro que ele é superior em importância e hierarquia.

O Impostor da província é um personagem que não pode ser eliminado. Continua por aí, perambulando de cargo em cargo, ganhando dinheiro por inércia, por W.O., por falta de outro que saiba fazer o serviço que ele também não sabe, mas dize saber.

Já ouvi dizerem que é impossível enganar a muitos por tanto tempo. Não é verdade. O Impostor segue em plena forma, ostentando um currículo repleto de apropriações de realizações alheias e propagando um discurso mais afiado do que nunca. A província não percebe nada. Lá, ele é rei, exaltado e incensado, prestigiado e influente. Porque a impostura é uma espécie de patrimônio local, tão valiosa que os provincianos não cansam de dizer ao Impostor: “Me engana que eu gosto.”

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 054 – Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 1: O Impostor da província – 03.09.2011”

  1. Ryanny Guimarães (@ynnayr) Says:

    Impossível detectar a presença desses seres em nossa esfera social, rsrs.
    Adorei o texto. Como sempre, acho muito bom quando vc fala de coisas que são calos nas bases da nossa sociedade, ou de forma requintada ou de Mano Celo mesmo – que, aliás, é muito fofo.

    Té mais, não deixe de escrever, Fialho.

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