Coluna do Novo Jornal – 055 – Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 2: O Empresário Modelo – 10.09.2011

Dando seguimento à trilogia do empreendedorismo, o empresário modelo.

Boa leitura.

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Trilogia do Empreendedorismo – Episódio 2: O Empresário Modelo

Vi anunciarem a palestra. Seria na Convenção dos Empresários. O ex-presidente da Câmara dos Dirigentes Empresariais falaria do seu caso de sucesso. Um evento para inspirar corações e mentes empreendedoras.

Corri para garantir um lugar na plateia. Afinal, o Empresário era um ótimo exemplo de êxito e causava grande admiração em seus pares. Sua ambição, seu sucesso, seus ganhos, tudo em torno dele provocava a inveja alheia. Era algo que os outros queriam pra si. Havia construído um vasto patrimônio com muito trabalho, metas bem definidas e apurado faro de negócios. Eu, como pequeno empresário que sou, tinha, portanto, a obrigação moral de assistir à palestra.

Auditório lotado, a expectativa era grande. O homem começou sua fala com uma piada. Não funcionou. Ninguém riu. O silêncio constrangedor tomou conta do ambiente, mas logo foi quebrado pelo protagonista que contou que sua vida é movida pelas metas a bater. Todos os meses ele inicia o mês com um número a atingir e canaliza toda a sua energia a alcançá-lo, e até superá-lo, o quanto antes. A frase que expressava tal sentimento e que, de certa maneira, definia sua vida era: “Tenho meta pra bater.”

Sua história não difere de muitas outras que conhecemos, quase um lugar comum. Começou administrando humildemente sua firma. Logo a ampliou, comprou as duas maiores concorrentes, dominou o mercado, prosperou economicamente, atraiu sócios importantes e estribados. Abriu capital na bolsa, fez negócios com estrangeiros e muito mais. Tudo isso, as pessoas ali presentes já sabiam. O que interessava mais eram seus métodos. O que ele fizera de diferente para ser tão exitoso?

Em instantes, ele supriu tal expectativa dos presentes. O foco sem desvios nos objetivos pretendidos era o primeiro dos seus segredos. O Empresário afirmou ter aberto mão de qualquer modalidade de lazer. Diversão pra ele era analisar balanços positivos. Não gostava de futebol, nem de cinema, não via televisão, não ouvia música. “Não faço nada disso! Tenho meta pra bater!” A certa altura, quando citou um ensinamento aprendido em um livro, descreveu da seguinte maneira: “Não tenho tempo para ler, pois tenho meta pra bater, mas uma vez dei uma folheada num livro e um autor disse que pra vencer na vida, temos que mirar nos grandes.”

Em que pese à velha e esfarrapada desculpa da “falta de tempo” que, na verdade, quer dizer que ele não prioriza aquela atividade, o empresário deu uma preciosa dica. Um dos seus segredos é a obsessão pelo trabalho de forma a não permitir distrações. A renúncia aos livros ou a qualquer aquisição de conhecimento não específico denotava certo culto à ignorância que deixava todo o potencial intelectual livre para que o indivíduo se dedicasse a uma única atividade.

O palestrante foi além. Disse que não lembrava a última vez que havia almoçado com a filha num fim de semana. Ou seja, amava o desempenho de sua firma, mais do que a família. Um sacrifício pessoal que fazia em nome das margens de lucro. A vida é feita de escolhas e ele havia feito a sua. O público se sentiu um tanto incomodado. Estava claro que, se quisessem ter êxito em suas carreiras de empresários e executivos, teriam que abandonar a diversão e deixar a família de lado.

O Empresário também explicou como fazia para “mirar nos grandes”, conforme recomendou o livro que havia citado antes. “Eu visito os estandes dos grandes do segmento e copio tudo! Tem gente que fala em se basear nos outros. Eu não tenho esse negócio de me basear não. Eu copio mesmo!” Risos constrangidos na plateia, logo seguidos de aplausos nervosos, em meio a questionamentos éticos silenciosos que remoíam os pensamentos dos assistentes, conceitos de certo e errado que pairavam no ar, duelando em seus juízos de valor, na tentativa de determinar se a atitude do homem se justificava ou não.

Novo embaraço veio na sequência. O Empresário contou a história do boom imobiliário vivido em sua cidade, motivado por investimentos estrangeiros. “Foi uma época muito boa. 1 Euro valia 4 Reais. Foquei nos estrangeiros. Vendia centenas de apartamentos e não queria nem saber dos locais.” As pessoas ali sentadas, atentas e interessadas, quase todas locais, tiveram novo momento de desconforto. Porém, o astro do dia apresentou uma reviravolta. Disse que, após 5 anos de fartura, os europeus começaram a enfrentar uma grave crise econômica e deixaram de investir na cidade. “Eu percebi isso e voltei a dar atenção ao público local.” O público local se entreolhou, sentindo-se um prêmio de consolação, ao melhor estilo “só-tem-tu-vai-tu-mesmo”.

Ou seja, para ser bem sucedidos também não se deve guardar grandes afeições pelo lugar de origem. Se o dinheiro vier de fora, mesmo que prejudique os clientes conterrâneos por concorrência desleal, represente sobrecarga à infraestrutura e ao meio ambiente do lugar, ele será sempre bem-vindo. E quanto mais rápido ele vier, melhor. Depois, se for o caso, deve-se pensar nos habitantes da cidade.

Alguns presentes lembraram-se de denúncias envolvendo o Empresário Modelo, anos antes, que davam conta de subornos pagos a vereadores para que estes votassem o plano diretor da cidade de acordo com as pretensões do mercado imobiliário. Não que as acusações tivessem fundamento, mas já que o palestrante tornava públicos naquele dia, valores morais tão elásticos, que iam do hábito de copiar os outros ao total desapego das pessoas de sua cidade, não seria por demais absurdo pensar que ele pudesse fazer certos agrados a políticos simpáticos a sua causa e, claro, a suas metas.

Ao final de sua fala, o homem revelou as metas a serem atingidas este ano e disse já estar próximo de alcançá-las. A palestra acabou com efusivos aplausos, tão intensos que quase levaram o auditório abaixo. Apesar dos momentos de sinceridade extrema, os ouvintes tinham muitos motivos para admirar o Empresário. O faturamento de sua empresa, a expansão obtida ano a ano, a voracidade insaciável com que partia para cima de novas fatias do mercado. Tudo isso fazia dele um modelo para aquelas pessoas ali, que uniam as palmas das mãos com energia e espontaneidade.

Eu próprio também saí de lá considerando o Empresário, um modelo… que não quero seguir. De jeito nenhum.

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