Coluna do Novo Jornal – 061 – Trilogia do Empreendedorismo – Episódio Final: O Publicitário Conterrâneo – 22.10.2011

E fechando a série, o episódio final. Amanhã, publico um balanço que justifica e revela mais um personagem desta trilogia que acabou rendendo 4 capítulos.

Valeu!

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Trilogia do Empreendedorismo – Episódio Final: O Publicitário Conterrâneo.

Antes que comecem a injusta distribuição de carapuças, gostaria de revelar que esta coluna é puramente ficção e nada tem a ver com os donos de agência mais bem sucedidas do mercado.

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Uma das figuras mais pitorescas do empreendedorismo local é a do inconfundível publicitário conterrâneo. Um personagem e tanto, que não poderia ficar de fora de nossa trilogia, convertendo-se, inclusive, no perfeito fechamento para esta singela e inofensiva série de crônicas bem humoradas. Tal personagem é, invariavelmente, dono de uma agência de propaganda. Está no ramo há muitos anos. Foi um dos primeiros a perceber que esta é uma área fértil em recursos e carente de conhecimento específico, convertendo-se numa enorme fonte de dinheiro ao melhor estilo “em terra de cego, quem tem um olho é rei”. Aliás, ele parece levar muito a sério tal proverbial afirmativa, uma vez que age como se fosse um verdadeiro rei, soberano de suas ações, ostentando a pose de um déspota absolutista e deixando claro aos seus funcionários que não passam de humildes e inexpressivos súditos destinados a servi-lo.

Sua figura de monarca pode ser facilmente observada em solenes almoços, eventos exclusivos e gabinetes obscuros. Sempre a olhar de soslaio, buscando políticos importantes, empresários endinheirados e personagens influentes. Ao encontrar uma potencial vítima, arma-se com seu mais aberto sorriso, um cordial aperto de mão e vasto vocabulário bajulatório de ocasião. Posiciona-se estrategicamente, tal qual a rêmora que se alimenta dos nacos de carne fresca deixados para trás pelo imponente tubarão. Em tais encontros sociais, aproveita também para conversar com pessoas que admirem o trabalho de sua agência, extraindo-lhes astuciosamente elogios em voz alta que possam alcançar ouvidos alheios e preciosos a seus interesses comerciais.

Em restaurantes frequentados pela society, o Publicitário se destaca no grupo ao passar o tempo todo tecendo elogios a si mesmo e ao trabalho realizado por sua agência. Não vê nada de estranho em praticar o auto-elogio indiscriminadamente, uma vez que nem sempre as pessoas comuns percebem sua evidente genialidade, precisando ele próprio alertar ou lembrar a todos sobre tal característica inerente a si.

Outra forma de identificá-lo é prestando atenção nos trejeitos peculiares e maneirismos indisfarçáveis, como o peito estufado, o permanente olhar de desdém e a respiração profunda que antecede suas falas, na tentativa de conferir alguma importância e ineditismo às mais banais e corriqueiras afirmações. Numa roda de conversa, precisa ser o centro das atenções, brilhar mais que os demais, exibir-se tal qual um garboso pavão.

É provável que tal comportamento tenha duas origens distintas:

1 – Parecer genial é ser genial.

Na terra do Publicitário Conterrâneo, as aparências contam mais do que qualquer outro aspecto de sua vida. Por isso, passar para as pessoas uma imagem vencedora equivale a ser, de fato, um vencedor. Como ninguém presta muita atenção ao conteúdo do que se diz, pode-se perfeitamente falar a esmo um monte de asneiras e generalidades incongruentes e, ainda assim, conquistar o respeito e a admiração de todos. Como foi desta forma, ostentando uma postura de pseudo-superioridade, que o bem sucedido empresário chegou ao topo, não há razão para mexer em time que está vencendo na vida.

2 – A afirmação que se torna verdade.

A atividade da propaganda costuma exercer certo fascínio nas pessoas, fruto do desconhecimento relativo quanto ao que se faz no dia-a-dia de tal profissão. Há uma tênue névoa de charme e mistério envolvendo o universo dos anúncios e reclames. Tal fenômeno leva muitos leigos a acreditarem que a publicidade é a mais perfeita representação da arte em nossos dias, pois só ela une a sublime genialidade dos artistas ao senso de oportunidade dos grandes empresários. Os publicitários podem dizer de si mesmos que são uma espécie de mescla entre Michelângelo e Rockfeller, Mozart e Donald Trump, Machado de Assis e Eike Batista. Tal inverdade, ao ser repetida exaustivamente com o passar dos anos, acabou fixando residência no subconsciente do Publicitário Conterrâneo.  Por isso, ele também crê na imagem de ser supremo e de proeminente córtex cerebral que vende aos seus pares, pois repete a máxima da própria genialidade como um mantra motivacional que rege sua vida.

Em que pese ser a vaidade, alimentada por muitos anos de prática, um de seus maiores atributos, muitos dizem que ela é superada em intensidade e potência pela voracidade de animal selvagem com que se lança aos negócios. O Publicitário Conterrâneo apresenta um apetite insaciável por dinheiro, novas contas, verbas de mídia e produção.

Com sua trajetória irretocável, enorme êxito empresarial, maiúscula competência gerencial e uma carreira marcada por conquistas grandiosas, é natural concluir que nosso herói tenha adquirido alguns inimigos. Aliás, vários. Pensando bem, muitos. Todos os seus concorrentes o odeiam, muitos dos seus ex-clientes também e qualquer um de seus ex-funcionários apresentam sintomas de estresse, bruxismo, convulsões e estranhos tiques nervosos à simples menção de seu nome.

No entanto, tais percalços não o abatem em absoluto. Afinal, ele precisa continuar desempenhando seu papel de detentor de maior entendido em marketing que já surgiu, apesar de ter parado de se atualizar a muitos anos. Segue atuando com desenvoltura e destemor, evitando concorrências leais, regras claras de disputa e decisões pautadas na qualidade do trabalho, preferindo o jogo de bastidores, o tráfico de influência, os telefonemas a amigos importantes, a lábia de quem se acha mais charmoso que Brad Pitt e mais perspicaz que Sherlock Holmes. Tais supostas qualidades são fundamentais para novas conquistas, pois a qualidade do seu trabalho vem sendo duramente questionada nos últimos anos. Mas ele não se abala. Quem é rei, nunca perde a majestade.

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