Coluna do Novo Jornal – 059 – A defesa do cronista – 08.10.2011

Vocês devem ter notado na atualização de ontem que mudei um pouco a ordem de inserção cronológica das colunas do Novo Jornal, pulando da número 55 para a 61. Agora, volto a fazer isso, publicando a 59. Fiz assim, pois fica mais fácil acompanhar a saga dos empreendedores potiguares em busca do êxito mercadológico e esta crônica extra é uma espécie de resumo de tudo, além de servir de relato de acontecimentos reais dos bastidores da trilogia. Ê Natal! Como diz um amigo meu: “Sucupira perde.”

***

A defesa do cronista

Por vezes o cronista é mal interpretado pelos leitores. Normal. Acontece. Somos senhores do que escrevemos, mas nunca do que os outros lerão. Mas o pior é quando certos leitores, munidos de má intenção, comunicam o que escrevi a terceiros, temperando minhas palavras com o molho da maldade e dourando com o calor da fofoca e maledicência.

Recentemente, escrevi uma série de colunas chamadas “Trilogia do empreendedorismo”. Tais textos, em que pese terem sido inspirados em comportamentos correntes em Natal, praticados por pessoas reais, não visavam atingir ninguém. Minha intenção era expor comportamentos com os quais não concordo e, portanto, tenho o direito de criticar.

O primeiro “episódio” da trilogia foi “O impostor da província” na qual critiquei uma classe de profissionais que, aproveitando-se do amadorismo inerente a uma determinada cidade provinciana, supostamente Natal, faz carreira por lá, ganhando a vida a partir da boa vontade e ignorância dos locais, especialmente dos mais abastados e incautos empresários. Minha intenção foi apenas divertir os leitores a partir de observações cotidianas, ao estimular que cada um identificasse pessoas conhecidas suas, que tivessem as mesmas características do meu personagem, espalhando por aí suas bem sucedidas imposturas.

Na segunda semana da série, publiquei “o empresário modelo”, texto no qual abordei o comportamento excessivamente (a meu ver) capitalista de muitos homens de negócio. Não serei hipócrita aqui, dizendo que tudo que está lá foi inventado. Não foi. Baseei minha crônica numa palestra que vi recentemente e que me chocou ao perceber que o auditório aplaudia efusivamente determinados valores ali explanados. Impressionou-me ver que aquele comportamento nocivo à própria cidade do empresário era cultuado pela maioria dos seus conterrâneos. Quis mostrar o outro lado da moeda, uma opinião dissonante, uma interpretação diferente à fala do empresário. Criei uma situação ficcional, um cenário inventado e acrescentei a eles palavras efetivamente ditas na fala que motivou meu texto.

Foi aí que entrou em cena um personagem novo. Um homem que, dotado de raro senso de oportunidade, vislumbrou em meus textos uma chance de se mostrar útil e, de quebra, prejudicar alguém. Chamemos tal sinistra figura de “eminência parda”.

Ao identificar, espertamente, em minhas crônicas duas das pessoas que inspiraram as mal traçadas linhas, fez questão de ler em voz alta ambos os textos para os possíveis personagens, na condição de bom amigo, sempre alerta na defesa da dignidade dos seus. Deu ainda de brinde a eles, sua peçonhenta interpretação, carregando minhas palavras de uma agressividade maior do que eu jamais faria. Acrescentou cada parágrafo com todo o veneno possível, conferindo peso e importância ao que escrevi.

Aos assessorados, seus conselhos e avisos de velho amigo e parceiro comercial caíram como uma bomba. Tão habituados que são aos insondáveis elogios bajulatórios e às tapinhas nas costas em profusão, uma crítica, por menor que fosse, já seria uma tragédia sem precedentes. Imaginem os textos desmoralizantes e cheios de cáusticas referências que foram relatados pela eminência parda. Somem a tudo isso, as muitíssimas teorias conspiratórias que a imaginação do assessor engendrou, atribuindo a mim as mais nefastas intenções, construindo ele próprio um personagem de ficção: “Carlos Fialho o implacável destruidor de reputações e colunista do Novo Jornal que empresta suas palavras aos interesses alheios a fim de difamar homens de bem com suas corrosivas agressões”. Foi assim que o bicho papão aqui foi pintado? Ah, faça-me o favor, vossa eminência!

Logo passei a receber recados, mensagens, recomendações de toda a ordem. Todos deixavam claro o quanto eu sou um homem mau, que agredi com palavras indevidas pessoas de bem, que estou numa posição vulnerável de jovem empresário e que até as pessoas que têm para comigo laços afetivos poderiam se prejudicar seriamente. Também ouvi muito uma pergunta feita por diversos interlocutores: “o que é que você ganha com isso?”

Soube que alguns trechos específicos de minha crônica ofenderam pessoalmente o empresário que teve o texto amplificado em seus ouvidos pela fiel eminência parda. Em minha defesa, afirmo que nada do que escrevi é diferente do que foi dito na palestra que assisti. Uma reação desproporcional e passional como a que meus textos causaram me parece típica de quem não está habituado a ser criticado.

Quanto à pergunta: “o que é que eu ganho com isso?” Um questionamento fruto do tipo de mentalidade materialista e egoísta que critiquei em muitos dos meus textos. Resultado do comportamento de gente que só faz alguma coisa se levar algo em troca. Pois é. Pensando assim, não ganho nada com isso. A intenção de muitos dos meus textos é falar do cotidiano natalense ou do mundo, propondo a vocês que me leem aí do outro lado da página algumas reflexões acerca de nossa cidade, proporcionando a mim mesmo um prazer parnasiano de escriba e aos demais a oportunidade de pensar um pouco sobre os temas que abordo.

No caso da trilogia do empreendedorismo, muitos leitores que se identificaram com o texto, atribuindo características descritas por mim a este ou aquele personagem de suas vidas. Pouquíssimas pessoas haviam relacionado meus textos aos nomes reais que tomaram para si as dores de agredidos, graças à eminência parda que soprou a intriga em seus ouvidos. Porém, após a interrupção abrupta da série (o terceiro episódio nunca veio à tona) muitas pessoas utilizaram seus dotes investigativos e acabaram identificando tais personas reais. Ou seja, mais um caso de tiro que saiu pela culatra, típico dos que são mal assessorados.

Antes de me despedir, gostaria de desmentir alguns boatos que têm sido lançados por aí. Primeiro: não atendi aos interesses de ninguém ao escrever tais textos a não ser os meus próprios de redigir crônicas picarescas sobre essa Natown velha de guerra. Segundo: Cassiano Arruda Câmara não me chamou a atenção nem deu uma bronca, como tem se espalhado por aí os impostores com síndrome de pequeno poder e muito tempo livre. Se isto houvesse ocorrido, eu nem estaria aqui publicando esta defesa.

Para tranquilizar os senhores, principalmente os que se ofendem com o que escrevo, alerto que tentarei ser mais cuidadoso, leve, poético e menos crítico. Por várias razões: primeiro, para proteger as pessoas próximas a mim; segundo, porque gostei muito das colunas amenas publicadas nas três últimas semanas; terceiro, para defender a mim mesmo de certas represálias articuladas por alguma eminência parda da vida. Vou inclusive me matricular na Academia Gracie, do mestre Ronaldo Aoqui, na Prudente de Morais, próximo à futura Arena das Dunas. Nada demais. Quero apenas me utilizar da arte suave do jiu-jitsu para me defender de alguma possível agressão física. Afinal, nesta cidade, nunca se sabe quando alguém vai tentar nos dar um soco em local público, não é mesmo?

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