Coluna do Novo Jornal – 057 – Por trás daquele beijo – Eu vi o amor – 24.09.2011

Esta foi uma coluna em homenagemao amor. Muitos gostaram. Espero produzir outras como esta mais à frente.

Aproveitem.

***

Por trás daquele beijo

Sinal aberto. Eu, pedestre. Esperava o câmbio de cores que permitiria minha passagem para o outro extremo. Nada mais usual, nada mais corriqueiro, até que uma visão ousou desafiar a normalidade da urbe. Uma imagem terna, do outro lado da rua, quebrava a urgência da rotina, destoava dos passos apressados, dos olhares determinados ou perdidos, apontando o vazio.

Era um beijo. Intenso, demorado, com direito a um abraço apertado. Ele, sujeito jovem, mas formal. Terno cinza, gravata, sapatos italianos, óculos de grau, a pasta executiva no chão, aos seus pés, sustentada entre os calcanhares. Nada nele poderia revelar que fosse capaz de tamanho arrojo, de ir na contramão do senso comum, de declarar o seu amor, de sucumbir a espontaneidade de um gesto tão significativo, assim, em público, na frente de quem quisesse ver, nesses dias tão impessoais, de discrições e limites, de boa conduta e vida em sociedade, de etiqueta e autocontrole.

Ela, também vestida para o trabalho, menos formal, mas bem arrumada, de calças e salto alto, maquiada, cabelos lisos, se entregava completamente. Era cedo da manhã. O expediente ainda não começara, mas a metrópole já despertara, por suas artérias corriam carros e pessoas, pulsando, bebendo café, com pressa de chegar. Porém, aquele casal desafiava a paisagem, quebrava o ritmo frenético, promovia uma intervenção, quase uma licença romântica inesperada, surpreendente, longa, demorada.

O sinal abriu. Atravessei a larga avenida, passei pelo casal, andei mais de 100 metros além deles, minutos se passaram, olhei pra trás. Nenhuma mudança. Ambos permaneciam completamente envoltos um no outro, alheios ao mundo que os cercava. Os cidadãos iam e vinham, fingindo sórdida indiferença. Mas eles viam, ah viam. Teriam inveja? Satisfação? Esboçariam um sorriso em pensamento? Censurariam aquela depravação? Sentiriam vergonha alheia?

Fiquei imaginando o que esconderia aquela demonstração explícita e afetuosa. Seria um reencontro? Ou talvez um primeiro encontro? Seriam colegas de empresa, apaixonados um pelo outro, e que finalmente resolveram se declarar? O que haveria por trás daquele ilimitado catálogo de possibilidades?  Cheguei ao meu destino. Pensei em olhar pra trás, comtemplá-los mais uma vez, saber se ainda estavam se beijando com a mesma intensidade depois de tanto tempo. Não o fiz. Preferi crer que sim, prosseguiam absortos pela mesmíssima paixão que testemunhei. E continuo acreditando nisso. Penso que eles ainda estão se beijando naquela esquina neste preciso momento. E vou além: vão continuar se beijando amanhã, depois de amanhã e para sempre, mostrando aos impassíveis transeuntes, que um beijo como aquele é uma dessas coisas que fazem a vida valer a pena.

 ***

Eu vi o amor

Eu vi o amor. Aliás, tenho visto o amor todas as manhãs. Não reconheci de início, é verdade. já faz meses que cruzo com ele, mas só um dia desses me dei conta. É que o amor é assim mesmo: dissimulado. Anda por aí sempre fingindo não ser, disfarçando-se, misturando-se à multidão. Aí, quando você se dá conta, eles está lá, bem diante de seus olhos.

Encontrei o amor por acaso e no lugar mais inusitado possível. Estava pedalando na Rota do Sol. Sim, sim, tenho essa mania estranha de acordar de madrugada e sair por aí avançando uma perna após a outra em movimentos circulares, até considerar já ter vertido suficiente sudorese a ponto de me considerar um atleta amador médio de desempenho minimamente aceitável. Pedalando e suando e seguindo a canção vou me deparando com outros ciclistas e corredores da alvorada. E foi em meio a estes tipos madrugadores e umedecidos por glândulas sudoríparas em plena atividade que encontrei o amor. Por essa eu não esperava. Mas o amor é assim mesmo: surpreendente. Se você espera, ele não vem.

O amor que vi se apresentou na forma de um casal por volta dos 40. Ele, sempre correndo. Ela, sempre ao seu lado, pedalando numa bicicleta com cestinha. Todos os dias, eles cumprem a mesma rotina esportiva. Ele corre num bom ritmo e a regularidade com que o faz deve render uma dose extra de saúde e disposição para encarar o dia-a-dia. Talvez o faça por recomendação médica, ou por amor ao esporte, dependência de endorfina, ou por qualquer outra razão. Mas, apesar de seu trote ininterrupto, mostra-se sempre preocupado com sua consorte, para que ela esteja sempre protegida de veículos e desviando de outros ciclistas. Ela pedala devagar, muito lentamente mesmo. Para poder acompanhar uma pessoa a pé, o ciclista precisa moderar o ritmo a um nível quase inercial. Em suma, ela não se exercita de fato. Seu passeio diário tem o mesmo efeito sobre seu corpo que teria ficar dormindo por mais uma hora. Fica claro que o que a faz levantar mais cedo todas as manhãs é ele.

Porém, não foi essa demonstração diária de afeto mútuo que me fez ver o amor naquele casal. Um dia, quando eu pedalava, estava nublado e já nos últimos quilômetros o céu resolveu que não tinha nada melhor para fazer naquele momento que não fosse cair em nossas cabeças e assim o fez. Em meio ao caos, encharcado por um dilúvio que faria Noé botar as barbas de molho e tremer na arca, apressei o ritmo para chegar logo em casa, quando vi, do outro lado da pista, o casal, caminhando lentamente de mãos dadas. Ele conduzia a bicicleta com uma das mãos, enquanto segurava a dela com a outra. Ela, já no chão, o acompanhava sorridente rumo ao ponto final de seu trajeto. O amor é assim: adora andar de mãos dadas na chuva.

Naquele momento compreendi o que minha percepção capenga havia negligenciado por todos os meses passados. Ao ver os dois caminhando calmamente no aguaceiro que caía, de mãos dadas, sem se abalar, transmitindo uma sensação boa de calor no coração, contrastando com a frieza da chuva.

Segunda-feira, bem cedo, eles vão estar lá de novo. Ele, desprendendo-se de alguns ml de suor em troca de um suprimento extra de saúde e vigor físico, dispensando a ela toda a atenção. Ela, sempre ali, apoiando com sua companhia, numa pedalada inócua. Porque o amor é assim: rotineiro, sem nunca ser chato. Faça chuva ou faça sol.

 

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