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Coluna do Novo Jornal – 075 – Ainda somos os mesmos – 28.01.2012

fevereiro 29, 2012

Choque de gerações. Sempre vai rolar.

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Ainda somos os mesmos

Há pouco mais de uma semana, o jornalista e apresentador do Jornal do SBT, Carlos Nascimento, trouxe novamente à tona, uma discussão milenar ao dar um breve chilique em forma de arremedo de lição de moral em todos nós, graças a dois assuntos muito comentados pelo Brasil, especialmente em redes sociais alimentadas pela classe média. O primeiro foi um episódio ocorrido no Big Brother global em que alguns acusam um participante de estupro por não ter cessado as carícias sensuais mesmo após sua parceira ter adormecido. O segundo assunto foi uma expressão simples e sem efeito, brincadeira inocente e praticamente inofensiva que logo se tornou uma tremenda piada interna de abrangência nacional: “menos a Luíza que está no Canadá”.

Esta breve sequência de palavras, inexplicavelmente, tornou-se um sucesso imediato, incontrolável, pautando de mesas de bar a redações de jornal, indistintamente, sem falar nos sites Facebook e Twitter. O caso converteu-se num fenômeno viral ou, mais especificamente num meme, gíria criada para denominar tudo o que é repetido à exaustão no mundo virtual, com pequenas variações ou não. Recentemente, vivenciamos alguns memes bastante disseminados. A entrevista da atriz Cristiane Torloni embriagada no Rock in Rio, na qual disse a frase “Hoje é dia de rock, bebê.” multiplicou-se na grande rede em inúmeras reproduções. Outro episódio que bombou em 2011 foi o vídeo da travesti Luíza Marilac que, ao mergulhar numa piscina, declara: “e ainda teve gente dizendo que eu estava na pior. Se isso é estar na pior, POAHÃM!, que quer dizer ‘tá bem’, né?” Musicalmente, posso lembrar de 3 grandes memes sem muito esforço: “Pôneis malditos”, “A banda mais bonita da cidade” e “Vou não, posso não, minha mulher não deixa não”.

Ou seja, apesar da nova denominação e do verniz tecnológico, estas ocorrências virais nada mais são do que expressões que caíram na boca do povo, presentes desde sempre em nosso cotidiano. Quem não se lembra dos que a publicidade gerou antes da Luíza? “O primeiro sutiã a gente nunca esquece” ou “Não basta ser pai. Tem que participar.” Sem falar nas inúmeras expressões surgidas na TV, cinema ou música.

Por tudo isso, considero totalmente despropositada a indignação de Carlos Nascimento. Um desabafo tão sem sentido quanto o sucesso avassalador da própria Luíza. Dizer que as gerações atuais são medíocres porque repercutiram uma piada tão inocente, como se isso também não fosse feito no passado, é exercer o ato de falar sem refletir. O desabafo chiliquento do âncora e sua frase mais marcante (“Já fomos mais inteligentes.”) não me parece nem de longe uma verdade. Dizer que a geração dele é melhor que a minha tomando por base duas bobagens ocasionais é oportunismo barato de quem quer aparecer, se amostrar, em horário nobre.

O problema da mediocridade endêmica que assola o país é um fenômeno que independe de gerações. Somos uma sociedade inteira de novos ricos, que está melhorando de vida sem cuidar da educação, cultura e bons modos. Estamos tendo acesso a um pouquinho mais de dinheiro sem ninguém ter nos dito o que fazer com ele. Compramos Mont Blancs, mas ainda mantemos o hábito de limpar os ouvidos com a tampa da Bic. Criticamos os jogadores de futebol por enriquecerem da noite pro dia sem terem a devida estrutura para suportar a pressão e não enxergamos no espelho que o Brasil inteiro é um pouco o jogador de futebol que chegou lá. Nós, os filhos, estamos aqui fazendo um monte de merda porque foi isso que aprendemos com as gerações anteriores. Somos a sociedade da falta do respeito ao próximo, do “levar vantagem em tudo”, do culto da forma sem conteúdo porque foi esse o exemplo que nos foi legado.

Outra questão é que esse embate de gerações é mais antigo do que se possa supor. Corta para a 1ª metade dos anos 1990, Canecão (RJ) lotado para um show da Legião Urbana. Renato Russo anuncia que a próxima canção seria uma das favoritas dos fãs: “Faroeste caboclo”. Ante a calorosa reação da platéia, o vocalista de tendências messiânicas, passou uma mensagem a todos ali: “Lembrem-se, as drogas fazem você virar os seus pais.” Delírio geral na casa de shows. Aparentemente, os jovens ali presentes se identificaram com a ironia contida na frase do líder da Legião Urbana.

Este episódio retrata um pouco que o sentimento de Carlos Nascimento com a geração atual também costuma encontrar reciprocidade entre a juventude. Os mais novos estão sempre dispostos a renegar seus progenitores e vice-versa. É uma relação eternamente conflituosa, mas como muito bem cantou Roger, do Ultraje a Rigor, outro ícone do Rock Nacional: “Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar?”

Para mim, a maior evidência que tive de que o jornalista está errado foi revelada, por acaso, numa roda em que os casais já passavam dos 55 anos e conversavam animadamente num bar qualquer do Plano Palumbo. Ouvi atentamente toda a prosa despejada sobre a mesa e não identifiquei nada de muito aproveitável. Nenhum filme assistido, nenhum livro lido, nenhuma história edificante. Os assuntos giravam em torno das vidas dos outros, limitando-se a personagens da sociedade potiguar que haviam se casado com essa ou aquela pessoa, sido traídos ou traído uma ou outra ex, ocupado tais e quais cargos, possuído este ou aquele bem.

Após tão emblemática noite como agente infiltrado, pude perceber que a mesma geração que acusa meus contemporâneos de um espírito por demais pueril e chegado a uma frivolidade, não se distingue de nós em sua falta de conteúdo. Se a juventude é carnatalesca, roqueira doidona ou disseminadora de memes, a deles é a do “quem comeu quem” e estamos conversados.

Quanto ao jornalista, Carlos Nascimento, que condenou o contágio da sociedade pelos vírus inócuos através do seu showzinho na tela da TV, acabou tendo a declaração reproduzida em escala infinitesimal nas redes sociais e viu seu jargão “já fomos mais inteligentes” se tornar um hit da grande rede, produzindo homenagens e paródias. Moral da história: quem um meme fere, com meme será ferido.

 

Coluna do Novo Jornal – 074 – Mais raparigueiro do que eu – 21.01.2012

fevereiro 28, 2012

Um brinde aos bestiais paredões de som e às bestas que os montam em seus veículos 4×4 patas.

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Mais raparigueiro do que eu

Senhoras e senhores, é com muito pesar que venho até vocês anunciar nosso retumbante fracasso. É triste dizer, mas falhamos clamorosamente como sociedade. Permanecemos estagnados numa fase embrionária de nosso processo civilizatório e ainda nos faltam perspectivas de avanço a médio, ou mesmo longo, prazo. Houve algum erro não identificado no exato momento em que nossos antecessores nos transmitiam aquela parte sobre nosso direito terminar onde começa o do outro, sabem? Enfim, todo aquele papo de respeito ao próximo, de existirem certos limites ou de tratar as pessoas como nós mesmos gostaríamos de ser tratados.

É fácil constatar isso em face das evidências de que alguns de nós têm se comportado muito mal. Uma perigosa combinação de individualismo, vaidade e falta de educação produziram uma noção distorcida de cidadania que lhes faz acreditar que o correto é a diversão desmedida, o êxtase absoluto, histérico e barulhento. Não se contentam em se fazer concessões simples, no prazer sereno que satisfaz, no compartilhamento equilibrado de sensações boas. Não. Isso não é o bastante. Precisam que o mundo saiba de sua euforia. Querem sujeitar todas as outras pessoas da terra ao seu estado de espírito de superlativa alegria e embriaguez. Almejam evangelizá-las de acordo com as suas preferências e opiniões, gostos e opções para, no caso de resistência, identificar com dedo em riste os estraga-prazeres e acusá-los de invadir seu espaço sagrado com silêncio opressor, discrição petulante e paz autoritária.

São os adoradores dos paredões de som. Têm governado esse Estado cheio de faixas de areia e borboletas dizendo adeus. Só reconhecem a palavra barulho se acompanhada do adjetivo ensurdecedor. Aproveitam-se da anarquia estabelecida nesta capitania do Rio Grande para tomar o poder e exercê-lo com mão de ferro, agressividade e a encorajadora sensação de impunidade. São eles que nos perseguem a cada praia, ignorando completamente a necessidade de convivência harmoniosa com os demais.

Nossa capital está cheia de gente assim. Indivíduos que tentam atingir o nirvana sem serem importunados com qualquer notícia que lhes faça recordar da falível condição de mortais. Eles param seus carros em garagens alheias ou em vagas de deficientes como fez o advogado cidadão em imagem conhecida na Internet. Eles ligam suas potentes caixas de som em altíssimos decibéis com o mais novo hit do verão. Eles arremessam lixo das janelas dos seus carros e sentem-se pessoalmente ofendidos caso alguém os repreenda ou chame a atenção para seus erros. Também não adianta reclamar, pois você pode ganhar uma agressão física que se soma à moral já abalada.

Por tudo isso, resolvi desistir. Se não pode vencê-los, junte-se a eles. Não é assim que se faz? Pergunte à maioria dos vereadores ou deputados que eles vão confirmar. Aderi aos paredões. Parei de tentar fugir, até porque eles ficam repetindo pra mim sem parar: “Ai se eu te pego!” Pois é. Eles me pegaram. Foi o jeito. Neste verão, tenho frequentado ambientes cujo som ambiente é gerado por essas máquinas monstruosas.

Troquei os habituais sentimentos negativos de outros anos, como o desejo da morte súbita por combustão espontânea dos malditos desordeiros ou que fossem deixadas amostras de antrax em seus invocados coolers, pela tentativa de compreensão. O que tenho feito, sem muito sucesso, é tentar conhecê-los de perto para refletir sobre seu comportamento, as razões que os levam a agir de tal forma e o porquê de o péssimo gosto musical vir acompanhado de surdez congênita. Não tenho encontrado muitas respostas e novas perguntas se multiplicam como Gremlins na água ou periguetes de escova no cabelo ao redor das caminhonetes e 4×4.

Minhas primeiras perguntas não foram ouvidas, pois o ruído provocado pela mistura de sons e ritmos sofríveis de um evento à beira-mar que reunia metade do PIB do RN impedia qualquer um de conversar. Depois de muito me esforçar, consegui me comunicar com o dono de um dos mais potentes paredões do planeta, valendo-me da ajuda de mímica e de um vocabulário rudimentar inferior a uma centena de palavras. Porém, não logrei êxito em minha pesquisa, pois, ao perguntar se ele não se importava em incomodar os outros, respondeu candidamente: “Outros? Quem são os outros?” Com alguma dificuldade, expliquei que os outros são as pessoas que vivem em outras casas, que não são seus amigos, que coincidem na mesma cidade, praia, bairro, vizinhança e que, talvez, não gostem das mesmas coisas que ele. Surpreso com a existência dos “outros”, o jovem playboy natalense me disse: “Ah, esses outros? Que se fodam!” Esta última frase me pareceu a mais perfeita síntese definidora e ilustrativa do fracasso da nossa sociedade.

Ao fundo, tocava o grande sucesso do verão 2012, “mais raparigueiro do que eu, só papai”, música incessantemente ouvida por todos nós nas últimas semanas. Menos pela Luíza (aquela sortuda!) que estava no Canadá.

Coluna do Novo Jornal – 073 – Top 5 Cinema 2011 – 14.01.2012

fevereiro 27, 2012

Passei uns dias sem atualizar o blogue, pois estava viajando. Um mini-recesso aproveitando o carnaval. Porém, hoje na retomada, um dia após o Oscar, por coincidência, a postagem se refere aos 5 melhores filmes que vi em 2011 (não necessariamente produzidos em 2011, mas vistos por mim durante o ano).

Espero que gostem das dicas.

Abralhos.

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Top 5 Cinema 2011

Em 2011, algumas gratas surpresas saltaram aos olhos deste espectador distraído e cinéfilo amador. Graças a isto, a lista de 5 melhores filmes do ano, que elaboro a cada troca de calendário, me deixou muito satisfeito, como há muito não ficava. Vamos à relação.

 

Meia noite em Paris

Woody Allen na sua melhor forma, divertindo, encantando e surpreendendo em igual medida. Vejo cada filme do cineasta nova-iorquino com grande interesse e entusiasmo renovado, mesmo porque, de “Match Point” (2005) em diante, tenho percebido um sopro de inspiração em suas histórias, como se ele estivesse sempre se atualizando, aplicando roupagens mais atuais a sua conhecida genialidade criativa. “Meia noite em Paris”, porém, superou ainda mais as sempre positivas expectativas em torno do judeu nervosinho. Ao transformar personagens icônicos da cultura mundial em interlocutores do protagonista interpretado por Owen Wilson, numa Paris boêmia e romântica dos anos 1920, o diretor joga o anzol da criatividade contida numa ótima história, fisgando direitinho o público e convertendo este nos seu filme mais bem sucedido desde dos últimos 40 anos. De quebra, o elenco está repleto de coadjuvantes de luxo, muitos ganhadores do Oscar, como Cristopher Waltz, Adrien Brodie, Marion Cotillard e Kathy Bates.

 

Senna

Uma equipe de produção inglesa resolveu fazer este documentário, contando a vida de um dos maiores ídolos do esporte mundial. O Ayrton que se revela na tela é um verdadeiro herói, não por causa das incríveis habilidades na pista, mas por suas características mais humanas. A obstinação, o carisma, personalidade forte e a simpatia, incomum ao frio e arrogante ambiente da Fórmula 1. Tudo isso mostrado sem a pieguice e patriotada que certamente marcaria uma produção nacional. O fato de a história ser contada a partir de um olhar europeu também permite a utilização de reportagens veiculadas em outros países, saindo um pouco do eixo GalvãoBueno-ReginaldoLeme, além de serem exibidas também imagens de bastidores inéditas, conferindo um tempero extra à história.

Outro ponto alto do filme é a contextualização do papel de um cidadão como Ayrton Senna no Brasil da virada dos anos 1980 para os 1990 (eras Sarney e Collor), amplificando mais ainda a idolatria de um povo em torno do homem que se fez mito, do rico que tinha todos os motivos para se envergonhar do seu país, mas preferiu trilhar o caminho mais difícil: o de não apenas de sentir orgulho, mas de irradiá-lo a todo um povo pobre e sofrido, provocando também a admiração por parte do mundo numa época muito anterior aos promissores tempos atuais.

 

X-Men – Primeira Classe

Vivemos um período de transição no mercado cinematográfico. A crise desencadeada pela democratização ao acesso de filmes ou mesmo pela pirataria, situação idêntica à que ocorreu com a falida indústria fonográfica, assola os estúdios, vitimando primeiro a capacidade inventiva dos filmes e, por consequência, a qualidade do que é levado às salas de projeção. A insegurança dos executivos e investidores tiraram o a ousadia da ordem do dia hollywodiano, levando os produtores a jogarem escancaradamente na retranca. Daí a tendência irrefreável às adaptações e refilmagens. Tudo o que fez sucesso em outra mídia (livros, quadrinhos, TV, videogames) pode virar filme, assim como todos os filmes que obtiveram êxito em tempos remotos (ou nem tanto) têm chance de serem refeitos em meio à seca imaginativa que assola os grandes estúdios.

Um dos expedientes mais utilizados é o das continuações ou filmes de origem, como o “X-men: Primeira Classe” que conta o início de uma das franquias de heróis mais bem sucedidas do cinema. Um grande acerto da produção é o respeito ao legado do que já havia sido realizado até então na grande tela para estes personagens. Ao manter a coerência com tudo o que foi contado no cinema até agora sobre os mutantes o filme ganhou pontos com os fãs e, por seguir uma tendência dos estúdios Marvel de priorizar os bons roteiros, alcançou um enorme êxito de bilheteria. O início dos X-Men, a antiguidade da amizade entre Charles Xavier e Magneto, a descoberta dos primeiros mutantes e uma trama cuidadosamente amarrada com a época em que se passa: o auge da Guerra Fria. “X-Men: Primeira Classe” foi uma das grandes surpresas do ano, lançado com desconfiança após os dois filmes anteriores na franquia ( “X-Men 3” e “X-Men Origens: Wolverine”) apenas bonzinhos. Como o filme se mostrou muito bom, o bom e velho boca-a-boca, que tem seu poder amplificado pelas redes sociais, fez o resto. O resultado foi sucesso de público e crítica e a consagração do intérprete do jovem Magneto: Michael Fassbender.

 

Capitalismo, uma história de amor

Como funciona o mercado financeiro? O que aconteceu, realmente, na crise de 2007/2008? Como agem as grandes empresas na condução dos seus negócios e, por consequência, das vidas de milhões de pessoas? Até que ponto uma grande corporação é capaz de ir para obter lucro? Todas essas perguntas serviram de ponto de partida para o norte-americano Michael Moore mostrar o lado mais insaciável do sistema capitalista.

A despeito da ironia do título, o que se vê nos relatos obtidos pelo documentarista, bem como nas histórias de vida mostradas na tela, são retratos desoladores da sociedade de consumo que construímos de forma, aparentemente, irreversível, na qual não se pensa duas vezes em destruir as vidas de pessoas, desde que se assegurem alguns décimos a mais no balanço do mês. Também está permitido lucrar com a morte de pais de família por meio de um curioso sistema de seguros de vida, ou mesmo destruir o patrimônio de milhares de cidadãos ao incentivá-los a pegar empréstimos que não vão poder pagar, com a conivência, incentivo e respaldo do Governo.

“Capitalismo, uma história de amor” promove uma reflexão acerca de um sistema predatório que pode (e deve) ser ajustado para promover o bem de um número muito maior de indivíduos, revelando ainda o tipo de atitude gananciosa, egoísta e sem escrúpulos com que o topo da pirâmide oprime sua base. Um belo filme: elucidativo e divertido ao melhor estilo Michael Moore.

 

Planeta dos macacos – A origem

Numa quarta-feira à tarde da minha infância, liguei a TV para ver o filme da sessão da tarde global. Quando os créditos iniciais anunciaram “O Planeta dos Macacos”, meus sentidos vibraram num misto de curiosidade e excitação para, em seguida,  todo um novo mundo se revelar diante de mim. A história de um grupo de astronautas que viaja para o futuro e se depara com um planeta em que os macacos dominam e os homens são seus inferiores na cadeia evolutiva encantou aquele garoto viciado em desenhos, quadrinhos e filmes legais. Depois disso, revi o filme muitas vezes ao longo dos anos, li a respeito e compreendi sua real dimensão e valor como clássico da sétima arte.

Detestei a refilmagem de Tim Burton de 2001. Por isso, e também em nome da prudência, desconfiei deste filme de origem símio. Minha resistência começou a fraquejar quando saiu o trailer. Logo, percebi que algo muito bom se anunciava. Quando conferi o filme, fiquei muito feliz com a produção, que faz justiça à original da década de 1960. A história de César e sua trajetória até se tornar líder são contadas de forma magistral.

 

5 filmes que valeram a pena ver em 2011.

5 dicas pra você.

Coluna do Novo Jornal – 072 – Top 5 Literatura 2011 – 07.01.2012

fevereiro 17, 2012

No início de 2012, como em outros anos, fiz uma retrospectiva das melhores leituras de 2011.

Boa(s) leitura(s).

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Top 5 Literatura 2011

Todo o fim de ano (pelo menos, quando lembro) faço uma lista dos 5 melhores livros que li nos 12 meses anteriores e compartilho com os amigos e leitores. Logo abaixo, seguem os 5 eleitos de 2011. Recomendo.

 

Tanto faz – Reinaldo Moraes

Há muito ouvia falar do verborrágico romance de Reinaldo Moraes, contando as peripécias europeias do seu dândi protagonista, Ricardo de Mello, o Ricardinho, que vai a Paris cursar uma pós-graduação em farra, bebedeira e sacanagem. Lançado pela primeira vez em 1981, agora foi relançado, 30 anos depois, pelo nascente selo “Má Companhia” da “Cia das Letras”. Em face dos temas abordados, fica difícil de acreditar que alguém consiga desenvolver uma história assim com o mínimo de elegância e estilo. Pois bem, é exatamente aí que reside o grande mérito desta obra, considerada um clássico da contracultura brasileira dos anos 1980. Reinaldo beira à genialidade ao conseguir provocar o mais genuíno encantamento nos leitores, mesmo com as páginas embebidas em álcool e toda sorte de entorpecentes, impregnadas de sexo, sujas de vômito e embaladas em insistente vagabundagem.

Alguns trechos do texto são antológicos, como os que Ricardinho, aspirante a escritor que tenta escrever um romance a partir do oportuno exílio voluntário na capital francesa, discorre sobre a atividade a que tenta se dedicar: “Escritor é um bicho essencialmente vaidoso. Se não, não seria escritor. Escritor prefere ser amado a ser entendido. Daí o primado do estilo sobre o conteúdo. Ou pior: do estilo como conteúdo.” Em outro momento, ele conclui: “Acho que a gente (que escreve) só conquista um estilo próprio quando começa a ser influenciado por si mesmo.”

A verdade é que o protagonista não consegue avançar muito com seu livro em razão de passar metade do tempo se drogando e a outra metade comendo (ou tentando comer) alguém. O que ele produz bastante são reflexões acerca do comportamento humano, das relações homem-mulher e das suaves artimanhas do flerte: “Sylvana é das companhias solitárias, jogo rápido. Ninguém passa muito tempo esquentando seus lençóis.” ou “Era um marmanjo manjado e manjador, feliz proprietário de uma carcaça enxuta de trintanos e de uma charmosa simpatia transoceânica. Enrubesceu feito um adolescente pilhado em flagrante e delito de ser boa pinta.” Em uma de suas antológicas tiradas, o narrador se sai com essa: “Brasileiro só aceita a solidão na privada ou no caixão.”

Confesso que, para um grifador e anotador compulsivo como eu, vencer as páginas de “Tanto faz” tornou-se uma tarefa mais lenta que o habitual, muitas eram as paradas que eu impunha à leitura para tomar nota das inúmeras frases dignas de registro. No entanto, até que o vagar prolongou esta sensação tão prazerosa. Faz-se mais do que justo que eu inicie esta listagem pelo mais assanhado de 2011, um livro que, ao contrário do que sugere o título, não vai deixar nenhum leitor indiferente a sua leitura.

 

Diário da queda – Michel Laub

Um dia, no Twitter, um amigo indicou este livro. Fiquei curioso. Havia terminado outra leitura e estava buscando o próximo. Resolvi seguir a indicação genérica e comprar o recém lançado quinto romance do gaúcho Michel Laub. Foi assim que me deparei com um dos mais inspiradores textos do ano que passou, sobretudo para um aspirante a romancista como eu. O narrador conta a história de um garoto judeu de Porto Alegre cuja vida foi profundamente marcada pela relação fria com o pai e os traumas do avô, um sobrevivente de Auschwitz, e que um dia passa por uma experiência que mudará toda a sua existência dali em diante.

A partir de uma brincadeira de mau gosto contra o único menino não-judeu do colégio hebraico onde estuda, o rapaz vê todas as suas convicções ruírem de súbito. Todos os ensinamentos passados pelo pai (obcecado pelo antissemitismo) e pelo avô tornam-se frágeis diante da inversão de papéis entre opressores e oprimidos que o fatídico episódio provoca em seu entendimento.

“Diário da queda” está em quase todas as listas de melhores do ano a que tive acesso até agora. A primorosa narrativa sobre a vida de um homem, sua família, sua trajetória e como as escolhas que este protagonista fez desde a infância o conduziram a ser o adulto que se tornou deverá arrebanhar boa parte dos prêmios literários no próximo ano. Uma das razões para que este livro nos provoque tão profunda impressão é o fato de ele abordar aspectos cotidianos, presentes na vida de qualquer um de nós, humanos de diferentes berços. Michel aborda traumas de infância, inseguranças arraigadas e como as atitudes do pai (ou mesmo as experiências do avô em Auschiwitz) formaram a complexa equação de uma personalidade. Livraço!

 

O passageiro do fim do dia – Rubens Figueiredo

Este foi mais um livro que me encantou em 2011. É mais que uma simples história narrada na terceira pessoa. É um exemplo nítido dos recursos infinitos que a imaginação concede ao escritor para que este crie uma grande história a partir de qualquer situação, por mais singela que a descrição faça parecer.

 

“O passageiro do fim do dia” fala de uma viagem de ônibus de poucas horas. O transporte parte da região central de uma grande cidade em direção ao subúrbio no qual vive a namorada do protagonista. No caminho, o protagonista, repetidamente descrito como “um distraído”, vai tendo sua história de vida contada a partir de elementos que surgem pelo caminho de uma maneira que conduz o leitor a uma análise crítica das condições de vida das classes menos favorecidas, dos suburbanos e das relações gerais entre opressores e oprimidos. Venceu os prêmios São Paulo de Literatura e o Portugal Telecom.

 

Chabadabadá – Xico Sá

Xico Sá é um sábio escriba do Crato que ganhou o mundo e se tornou cidadão de tantas paragens quantas já tiveram a honra de sua presença. Neste livro de agudas crônicas nos propõe discutir o papel do homem e da mulher numa nova configuração social que já está dando demais na vista. Os medos, as inseguranças, a coragem delas (e a incapacidade deles) de chorar em público, de dizer “eu te amo”, de comprometer-se.  Em suas inúmeras elucubrações, devaneios mil, Xico tenta realizar feitos de Hércules, impossíveis, como o de tentar decifrar os enigmas da mulher. Não chega a muitas conclusões, além do confessado fascínio e reiterada paixão, mas solta uma pérola dos gêneros: “homem é vírgula, mas mulher é ponto final.” O livro é composto de dezenas de pílulas de sapiência ofertadas por este sertanejo cosmopolita, filósofo cearense, oráculo de edificantes e alcoólicas noites, lembrando-nos que “se a vida dói, uísque caubói.”

 

Toda terça – Carola Savedra

Recebi este romance de presente da minha tia Carminha. Ou seja, um livro de procedência inquestionável, uma vez que minha tia é ótima leitora. A autora construiu com incrível habilidade e delicadeza uma história narrada por 3 pessoas distintas, envolvendo-nos em finas tramas de escrita sutil que vão nos empolgando cada vez mais à medida em que os pequenos segredos vão se revelando aos nossos olhos de leitor. Mais não conto, pois posso acabar estragando aspectos decisivos da narrativa. Contudo, completo minha lista de Top 5 Literatura com “Toda terça”, honraria que poderia ter sido dada a “Nunca vai embora” de Chico Mattoso. O páreo foi duro, a escolha difícil. Mas agora, já está feita. Quem estiver à procura de boas leituras para iniciar bem 2012, estas são minhas dicas.

Coluna do Novo Jornal – 071 – A cidade da piada pronta – 31.12.2011

fevereiro 16, 2012

HAHAHA-BUÁBUÁBUÁ!

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A cidade da piada pronta – uma retrospectiva

Joãozinho é um astro. Famoso pelas inúmeras piadas que povoam nosso imaginário coletivo desde que nos entendemos por gente. Por isso, na hora de escolher uma cidade para morar, decidiu por um lugar em que as pessoas estivessem sempre se deparando com situações absurdas e inusitadas como nas mais cômicas anedotas de salão. Natal foi o destino de Joãozinho, aonde ele veio dar com os costados, com duplo sentido, como é de se esperar de qualquer história que envolva o pequeno João.

Mal começou o ano para o rapazinho gaiato e espirituoso conhecer o grande hit do verão: “Eu era feio, agora eu tenho carro”. Naqueles meses germinais do ano que se encerra também curtíamos ávidos e ensandecidos o sucesso viral “Vou não. Posso não. Minha mulher não deixa não.”

Muito provavelmente eram essas as músicas que Joãozinho ouviu em altíssimos decibéis emanarem de uma moderna embarcação que infernizava os parrachos de Pirangi, munida de um imponente e diabólico paredão de som. Um aloprado advogado com importante cargo no governo ostentava histericamente toda a sua prosperidade econômica e respondia com insultos e palavrões todos que o abordavam, rogando que reduzisse o volume de suas poderosas caixas de som.

O impacto ambiental provocado pelo ruído da lancha do idiota e pelos resíduos jogados no mar (Joãozinho percebeu que toda sorte de lixo como restos de comida e latas de cerveja era despejada no oceano) é incalculável. Entre um conjunto de notas medonhas e outro, o dono da lancha, um ex-Zé-Ninguém que enriquecera da noite pro dia, promovia uma cerimônia de lava-pés, utilizando uísque Old Parr legítimo, zombando de mim, de vocês e de todos que tiveram o dinheiro dos seus impostos roubados para que ele aprontasse aquele espetáculo decrépito, aquela ópera bufa, com a sensação de que agora não era mais uma nulidade. Posso até ouvi-lo entoar: “eu era feio. Agora tenho uma lancha”. Joãozinho achava graça daquilo.

Porém, toda a zombaria do ridículo protagonista da história não durou muito. Foi preso junto com sua mãe, irmão e mais uma turma boa. Sua história não acabou em pizza (ainda). Se acabar, certamente vai saboreá-la numa casa de massas do terceiro piso de um shopping local, empreendimento que abriu para lavar o dinheiro que ganhava ilicitamente. Pelo visto, não eram só os pés que o rapaz gostava de lavar. A foto do jovem sendo preso, esforçando-se inutilmente para cobrir o rosto contrastava com todo o exibicionismo de meses antes a bordo de sua lancha. É uma bela imagem. As gravações telefônicas em que ele diz a um comparsa amenidades como: “Esse delegado é um galado! A gente tomou foi no c* agora!” soam tão bem aos meus ouvidos quanto as suingueiras/axés/pagodes tocadas em suas caixas de som náuticas deveriam soar aos dele. Nessa história, Joãozinho riu por último.

Vejam que coincidência formidável. Parece piada, mas o tal advogado do Old Parr não era o único homem da lei a aprontar das suas. Um dos seus colegas de faculdade, que havia se formado junto com ele, liderava um dos esquemas mais ardilosos de que se tem notícia em nosso Estado. Ele desejava instaurar no RN a inspeção veicular obrigatória e pensou em tudo. Foi redigida uma lei, aprovada pelas autoridades competentes, criada uma licitação que foi ganha por uma empresa também forjada especialmente para a ocasião (da qual ele era sócio junto com diversos políticos) e elaborado um plano de negócios a longuíssimo prazo, prevendo dividendos de uns 2 bilhões nos próximos 20 anos. Estava tudo certo, combinaram com todo mundo… menos com o Ministério Público. A casa caiu, os réus foram sendo mostrados um a um: ex-governadores, suplente de senador, empresário da construção civil. Só menino besta e garota safada. Eles esperavam rir à toa com as engrenagens todas em funcionamento, mas Joãozinho notou que todos ficaram com as caras mais fechadas que furico de sapo ao ter que justificar as denúncias na imprensa. Teve um que até passou mal, foi internado no hospital, mas teve alta milagrosa no mesmo dia em que um advogado o livrou da prisão preventiva. Joãozinho vai rindo disso tudo, aquele peste.

Este ano também fomos destaque em rede nacional, me lembrou Joãozinho. Tivemos o bravo baladeiro que quebrou o braço de uma garota em 2 lugares numa abordagem pouco galante, nossos policiais comendo suas bolas em batidas filmadas pelo Fantástico, a merenda escolar municipal com validade vencida, o roubo da corrente do presidente do América. Imagens que correram o mundo e que levaram entretenimento a milhões de internautas ligados neste reality show que é a nossa terra Natal.

Uma anedota que animou o Jet set local se passava durante uma partida de pôquer, realizada no apartamento de um Deputado dado a cultivar valores frívolos, em que um empresário perdeu 1 milhão de Reais apostando com um profissional do carteado. A partida foi narrada em muitas versões nas inúmeras rodinhas de conversa  espalhadas pelo Plano Palumbo. Pra mim, o mais tragicômico foi ter se passado na residência de alguém que deveria se preocupar com outras prioridades, afinal, o povo potiguar tem muito mais em jogo.

Realmente, foi um ano movimentado, mas a maior protagonista de episódios atrapalhados foi ninguém menos que a chefe do executivo municipal. Depois de promover na vida pública o que todos nós fazemos na privada, a alcaidessa nos brindou com a maior de todas as piadas prontas. Virou promoter da banda evangélica “Diante do Trono”, financiando a gravação do DVD do grupo, utilizando R$ 250 mil (mais do que a verba do Fundo de Cultura de 2010). Essa, nem os blogueiros e tuiteiros comissionados conseguiram explicar a contento. Até Joãozinho ficou chocado.

Enfim, se continuarmos assim em 2012, vamos desbancar Fortaleza como a capital brasileira do humor. Joãozinho já pensa em morar aqui pra sempre. O problema é que, na boa, mesmo diante desse festival de piadas infames, não vejo motivos para rir. Só se for pra não chorar.

Coluna do Novo Jornal – 070 – Blogues com a bola toda – 24.12.2011

fevereiro 15, 2012

Eu num digo é nada!

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Blogues com a bola toda

Alô, Prefeita Micarla de Sousa, gostaria de protestar contra o escândalo do “Bloguegate” que estourou essa semana. Realmente, é um absurdo! Como é que a senhora permite um negócio desses? Não que eu ache errado pagar uma baba praquela blogueira famosa, até porque ela retribui da mesma forma. Também não vejo nada de estranho em distribuir mesadas de R$ 5.000,00 para veicular banners em espaços virtuais honrados e de credibilidade inquestionável. O problema, prefeita, foi não ter me incluído na lista. Sacanagem! Sério mesmo, com essa mesada linda no pé do cipa, eu falaria bem da senhora até não poder mais. Era pagar pra ler.

 

Já pensou? Você poderia abrir o Novo Jornal e eu estar lá defendendo os efeitos da homeopatia no tratamento e erradicação da dengue. Não seria incrível? Exibiria um estudo científico fictício (mas que eu diria ser da Fundação Getúlio Vargas) sobre a melhoria da qualidade de vida da população e do clima da cidade a partir da extração indiscriminada de árvores, bem como do bem que faz ao sistema imunológico das pessoas a exposição ao lixo não recolhido. Também argumentaria, com base em números, que a inadimplência promove o desenvolvimento econômico do município ao obrigar que as empresas e fornecedoras esqueçam um pouco a mamata pública e recorram ao setor privado. Aliás, essa argumentação teria uma dupla intenção, pois acabaria sobrando mais dinheiro para ser investido em blogues.

Eu usaria meu espaço nesta página para discorrer longamente sobre o talento do Padre Fábio de Melo e a necessidade do pagamento de vultosos cachês para cantores religiosos. Resenharia todos os livros do Gabriel Chalita. Sempre ao som do novo DVD do “Diante do trono” e sem puxar a descarga. Também poderia defender apaixonadamente a decoração de Natal de 2009 e proclamar a Árvore de Mirassol como a mais importante obra da história do nosso Estado. Melhor do que qualquer estrada, qualquer hospital, escola ou praça.

Atacaria sem nenhum pudor os artistas sanguessugas que, só porque foram contemplados em editais da FUNCARTE, ficam reclamando que o dinheiro não foi depositado na conta. Bando de chorões. Querem ganhar dinheiro? Vão escrever blogues, seus vagabundos! Inclusive, seria uma boa questionar a real necessidade de política cultural na nossa cidade, uma vez que esse negócio de cultura não gera benefícios reais à cidade como, por exemplo, o Carnatal que o seu vice-prefeito promove magistralmente.

Não tocaria no assunto do enriquecimento de alguns dos seus secretários e parentes, que circulam em carros luxuosos e adquirem imóveis a preços proibitivos bem debaixo dos nossos narizes. Pelo contrário, exaltaria sua fidelidade aos aliados, apreço com pessoas próximas e carinho para com os familiares. Assistiria a TV Ponta Negra dia e noite, achando tudo lindo, lindo! De altíssimo nível. Que beleza, né não?

Se fosse para o seu bem, mentiria sem me acanhar. Diria pra quem quisesse ouvir que vi o terrorista natalino cortar os fios da Árvore de Mirassol, pois estava com você no estacionamento do Carrefour, agradecendo a Deus no preciso momento em que ele usou de sua astuta tesoura. Também poderia revelar que vi grupos de oposicionistas espalhados pela cidade com britadeiras, fazendo buracos nas vias para depois atribuir a você. Criaria um perfil falso no Twitter para me passar informações inventadas por mim mesmo e servir de fonte jornalística para desqualificar os adversários, os desafetos, o #ForaMicarla e todos que se insurgissem contra você. Poderia chamar esse perfil falso de Milena Tristo, por exemplo e xingar os usuários virtuais que ousassem criticar sua gestão. Seria “jenial”.

Mas, por falar em #ForaMicarla, que tal falarmos em como trataríamos os opositores? Prefeita, seria muito divertido. Se eu fechar os olhos, posso nos ver em um sofisticado restaurante paulistano, confabulando entre taças de vermute e deliciosos carpaccios das pequenas maldades que eu poderia aprontar ao direcionar minhas peçonhas para todos esses “do contra”. Afirmaria que no #ForaMicarla só tinha vagabundo maconheiro, que Júlia Arruda isso, Mineiro aquilo e muito mais. Carlos Eduardo?! Coitadinho. Cabeção seria o mínimo! Ali ia sofrer, viu?  Eu seria uma espécie de Xeleléu cover. Lembra dele? Mudou de nome, mas continua na sua equipe, né? Então, não seria ótimo?

Mas agora é tarde. Quem perdeu foi você. Não teve sensibilidade para perceber que eu poderia ser o seu mais eficiente e purpurinado pitbull. Pagando bem, que mal tem? Bastaria me dar uns R$ 12.500,00 por mês em troca de um banner estático no meu blogue que estaria tudo certo entre nós. Aliás, o meu blogue pessoal se chama “O Fiasco”. Tudo a ver com sua gestão. Tá vendo? Juntos, faríamos uma boa dupla. Eu poderia ser como aquela blogueira das reticências, mas com a vantagem de que eu sei escrever.

Coluna do Novo Jornal – 069 – O Cidadão Natalense – 17.12.2011

fevereiro 14, 2012

Soube que um impostor da província recebeu um título de cidadão por aí. Resolvi engrossar o coro e homenagear o caba.

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O cidadão natalense

Caro senhor Vereador, tenho um singelo pedido a lhe fazer. Eu gostaria de, se não for muito incômodo, interferir levemente em sua extenuante e valorosa atividade parlamentar para fazer uma simples sugestão. Nada demais, apenas uma ação que considero justa e que, se aprovada, expressará o profundo reconhecimento da cidade do Natal para com um dos seus mais dignos habitantes que, por uma lástima do destino, não nasceu em solo natalense. O cidadão a quem me refiro sou eu mesmo e a solicitação que venho lhe fazer é a de um título de cidadão natalense. Acho que chegou minha hora. Depois de tantos anos me esforçando bastante, brilhando e contribuindo com meus inúmeros conhecimentos para o desenvolvimento do Estado e a doutrinação da população local, julgo a mim mesmo um grande merecedor de tão nobre honraria.

Veja, senhor Vereador, que cheguei a esta cidade num tempo imemoriável. Não vivíamos nesta neo-metrópole urbano-litorânea que ganha loas do mundo e que alcança as mais variadas conquistas como o direito de sub-sediar uma Copa ou atrair grandes nomes mundiais como o Nicolelis, o David Beckham e eu (não nesta ordem de importância, que fique registrado). Naquele tempo, éramos um grande interior à beira mar e as pessoas faziam filas quilométricas para conhecer a primeira loja do McDonalds na Prudente de Morais. E a inauguração do Carrefour que levou centenas a dormirem na calçada? Eu vi com os mesmos olhos que agora deito sobre esta tela em que redijo o presente e-mail.

Posso dizer ao senhor que eu, humildemente, com meus múltiplos talentos e capacidade empreendedora fora do comum, transformei este município na capital que ele sempre sonhou ser. Com minha força de trabalho, liderança inata e visão além do alcance, obrei um verdadeiro milagre para converter aqueles nativos rudes e bárbaros em profissionais competentes, cidadãos do mundo, gente cosmopolita e antenada com as mais novas tendências. Se hoje nossa cidade (permita-me referir a ela desta forma) é o que é, isto se deve em grande medida a minha intervenção pessoal e meu engenho profissional. Ou você acha que estou lhe pedindo esta pequena concessão por puro capricho? Claro que não. Eu fiz jus a ela.

Quero entrar no panteão onde já figuram nomes de enorme prestígio e expressão que, assim como eu, muito fizeram por este lugar. Afinal, já faz parte da tradição da Câmara dos Vereadores, premiar grandes personalidades que tenham em seu currículo inquestionáveis serviços prestados a nossa gente. Sonho em entrar para esta lista em que já constam Serginho da Pimenta Nativa, Gil da Banda Beijo, Durval Lélis, Capilé, Ricardo Chaves, o Pastor Malafaia (Ô homem bom!) e Cláudia Leitte. Aliás, como essa moça foi injustiçada no Rock in Rio. Você não acha? Espero, sinceramente, ser o próximo da lista. Para mim, seria motivo de indistinto orgulho compor grupo tão exclusivo e especial. Mal posso esperar.

Acredito que o senhor deva estar se perguntando: “mas se ele é tão importante como diz, por que já não propuseram o título antes e de forma espontânea? Por que ele precisa se oferecer de forma tão ostensiva, praticamente suplicar tal honra?” Pois bem, apresso-me em explicar. Faço questão de esclarecer tão inconveniente questão. Até porque, como se sabe, o senhor é o terceiro vereador a quem recorro para que se promova justiça após tanto tempo de inestimáveis serviços prestados por mim à capital dos Magos incautos. Minha intenção não é me promover às custas do título, mas destacar o nome de Natal ante os que me conhecem e reverenciam em todo o mundo, emprestando todo o meu prestígio e reputação à cidade que adotei para conduzir a um novo patamar de visibilidade interplanetária. E perceba o senhor que amo tanto esta aprazível localidade que não tenho poupado esforços no meu trabalho de articulação política, fazendo uso de todos os meus contatos e influência para obter o que pretendo pelo mais elevado mérito e inegável direito.

Já posso ver o senhor defendendo minha postulação de cidadão num inspirado discurso repleto de sinceros elogios que, se o senhor preferir, eu posso redigir de próprio punho para facilitar sua tarefa na sessão de concessão. Vislumbro também os olhares admirados do público presente, meus novos conterrâneos, todos muitíssimo felizes com a mais recente aquisição de sua cidade. Ao final de suas palavras, ao ouvirem sua saudação, certamente, todos aplaudirão de pé, efusivamente, emocionados, agradecidos por eu ter aceitado o espontâneo convite. E que convite seria mais espontâneo? Em seguida, eu próprio, subirei à tribuna e darei meu show, num discurso de primeira linha, impressionando o plenário com minha retórica impecável, meu eloquente dom de comunicador nato, minhas palavras habilmente escolhidas para brindar tão valioso momento para a história desta cidade, outrora esquecida pelo mundo e que, graças a minha chegada, foi redescoberta pela civilização.

Perceba, senhor vereador, a oportunidade que estou lhe oferecendo. Os dividendos eleitorais que o senhor colherá são incalculáveis. Não tenho dúvidas de que esta será a sessão solene mais proveitosa de sua ascendente carreira política. Peço apenas que seja breve em sua resposta, pois a cidade não tem tempo a perder. Ela não merece esperar tanto, mesmo por mim. Caso o senhor demore em me responder, desistirei da Câmara de Vereadores e buscarei mais sensibilidade e bom senso na Assembleia Legislativa. Pode ser que algum Deputado me conceda um título de cidadão potiguar o que, aliás, talvez seja proporcionalmente mais apropriado a minha dimensão profissional e representatividade.

Saudações,

X.

Coluna do Novo Jornal – 068 – Histórias de uma Natal assombrada – 10.12.2011

fevereiro 13, 2012

Escrita originalmente para a Papangu, depois mudei um monte de coisas e publiquei na Digi. Aí, mudei mais ainda e publiquei no Novo Jornal.

Divirtam-se que essa é boa!

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Histórias de uma Natal assombrada.

Dia desses, encontrei um livro que me saltou aos olhos de súbito. Uma obra muito interessante que disserta sobre um capítulo da cultura popular de Natal que me era totalmente desconhecido. O autor é o jornalista e pesquisador Neto Pão com Ovo, filho do eminentíssimo intelectual do passado, Júnior Pão com Ovo. O tema abordado na publicação é a grande incidência de fenômenos sobrenaturais na cidade do sol e se chamava “Histórias de uma Natal Assombrada”.

O volume de elegante edição, capa dura, colada e costurada em couro, ricamente ilustrado e de vasto conteúdo catalogava algumas lendas urbanas surgidas em Natal em décadas recentes. Fui consumido pela leitura de imediato e separei aqui algumas das assombrações descritas no livro como exemplo para que eu possa dividir com vocês um pouco do fascínio que tive ao ter conhecimento destes formidáveis episódios que revelam uma riqueza folclórica interessantíssima.

Vamos às lendas:

 

O FANTASMA DA AFONSO PENA

Em noites de lua cheia e lançamentos de coleções de outono/inverno, um espectro de aparência torpe e maltrapilha vaga pela rua que é sinônimo do luxo e da usura na capital potiguar. Ele sai repetindo seu mantra que é basicamente “um dinheirinho pra eu comer, um dinheirinho pra eu comer, um dinheirinho pra eu comer”, exigindo dos vivos uma pequena parcela da riqueza ostentada. Os especialistas dizem que uma pequena quantidade de dinheiro ofertada pode serenar seus ânimos temporariamente, mas para afastá-lo de vez só com técnicas avançadíssimas chamadas distribuição de renda e oportunidades de vida. O Fantasma, que é definido pelos místicos como uma entidade de pobreza, se refugia no morro de Mãe Luíza e provoca um leve incômodo nos mais abastados da cidade, frequentadores daquela avenida, porém estes e também os políticos natalenses preferem fingir que não o veem (apesar destes últimos acenderem muitas velas para o espectro em época de eleições).

 

O LOBISOMEM DE PONTA NEGRA

Surgiu há alguns anos quando um turista italiano foi mordido por uma menina de 13 primaveras numa noite de entorpecida agitação na orla de Ponta Negra. Desde esse dia, ele assombra a beira-mar do tradicional bairro praiano natalense e a sua assustadora presença uivando ensandecido em noites de lua nova (porque ele prefere as novas) afugentou os moradores nativos. O “Lobisomem Italiano em Natal”, como foi batizado pelos doutores em Ciências Ocultas mais respeitados da capital, só se sente saciado perante a oferta de jovens garotas potiguares para que possa praticar sua cópula interespécies. Para evitar esse monstro de caráter maldito, é preciso nunca sair do caminho seguro, mantendo-se longe de seu território preferencial, a Avenida Beira-mar em Ponta Negra e a rua do antigo Salsa no alto Ponta Negra.

 

A CAVEIRA DE BURRO DA CULTURA

Em 1903, quando se estava construindo o Teatro Alberto Maranhão, que na época seria chamado de Teatro Carlos Gomes, um dos operários de nome Alexandre Bezerra Carvalho enterrou uma caveira de jumento embaixo de uma das colunas que alicerçam o prédio. Ao fazê-lo, decretou: “Nessa terra nenhuma manifestação cultural genuína tocará o coração do povo, nada germinará e frutificará, todo trabalho em prol do desenvolvimento da boa música, literatura, dramaturgia e artes plásticas será em vão. Apenas alguns poucos testemunharão o fracasso desta civilização que verá o tempo avançar sem nunca prosperar, que testemunhará a cidade crescer sem nunca encontrar uma real identidade. Nesta cidade ninguém nunca sentirá orgulho do que é, foi ou poderá vir a ser!” Após dizê-lo, deu uma risada sinistra e partiu para Salvador. A caveira de burro, porém, permaneceu entre nós, emanando seus poderes de atrofiamento cultural, cultivando nos espíritos o comodismo e semeando a má vontade em todas as camadas sociais.

 

OS ZUMBIS DO SOL

Eles se deslocam em grupo, aparentemente a esmo, hipnotizados pelos meios de comunicação de massa que, pos sua vez, são controlados por manipuladores chamados de “formadores de opinião” já que introduzem nas mentes ociosas das criaturas suas próprias vontades, valores morais e normas de comportamento a serem seguidas e adotadas por todos eles. Quando um zumbi começa a frequentar um lugar, utilizar uma roupa ou adotar um padrão de comportamento qualquer “sugerido” pelos “formadores de opinião”, logo é imitado por seus semelhantes que procuram fazer tudo exatamente igual. O aparecimento destas hordas de mortos-vivos em nossa cidade pode ser atribuído ao excesso de exposição solar na moleira, fato altamente perigoso para os miolos que, sem a solidez da boa educação, raciocínio lógico e cultura geral, se revelam demasiado flácidos e vulneráveis à alta temperatura, derretendo docilmente e originando tais aberrações. As maiores concentrações destes débeis monstros caminhantes podem ser vistas em concertos de verão, boates da cidade, além de acorrerem sempre no início de dezembro em desvairada perseguição aos trios elétricos que chegam da Bahia para inebriá-los com um espetáculo de sons, luzes e cores. Foi daí que surgiu o ditado: “Atrás do trio elétrico só vai quem já morreu!”

Já era quase noite quando eu fechei o livro “Histórias de uma Natal Assombrada”. Os relatos que expus aqui são apenas alguns poucos retirados do extenso dicionário de lendas reunidas pelo pesquisador e organizador da obra. Fiquei muito impressionante com tantas fantasias populares natalenses surgidas nas ruas e praias da cidade. Será preciso, a partir de agora, tomar mais cuidado quando andarmos distraídos pelas veias do organismo urbano, pois além da violência crescente dos vivos que ameaça nos converter em mortos, existem também todas essas criaturas do breu a nos aterrorizar com suas artimanhas do além. Eu digo é VÔTS!

Coluna do Novo Jornal – 067 – O homem que não falava Carnatalês! – 03.12.2011

fevereiro 10, 2012

Um clássico revisitado.

Divirtam-se, jovens!

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O homem que não falava Carnatalês!

NÃO! Não vou pegar uma latinha e bater uma na outra! Não quero! Muito obrigado. Também não vou chupar toda e manivela pra mim é uma engrenagem e não uma dança. Gramaticalmente, eu vos digo: o que arria, arria. Não arreia! Piuí, piuí, piuí, tira a mão do meu ombro. Maria Joaquina de Amaral Pereira Góis não contribói com porcaria nenhuma! No máximo, ela contribuiria com alguma coisa, mas acreditem, não é o caso.

Vou me apresentar. Eu sou o deslocado, aquele que está no lugar errado e na hora errada, o corpo estranho, o último natalense que não vai passar pelo corredor da folia, nem assistir de cima a batalha num ostentoso e feliz camarote.

Não vou levantar poeira nem estar presente quando rolar a festa. Não quero presenciar o grandioso espetáculo de exibicionismo social e de conquista primitiva, quando os machos da espécie recuperam suas raízes tribais, utilizando-se inclusive de violência no ritual da corte, empreendido sobre fêmeas em período de cópula. Os milhares de Rômulos Lemos que tentarão seus golpes de sorte com puxavancos de cabelo e chaves de braço nas pobres meninas serão privados de minha companhia. Os políticos e empresários denunciados nos inúmeros inquéritos que desbaratam graves esquemas de corrupção nos últimos meses terão um cidadão a menos para direcionarem seus acenos e sorrisos de Coringa. Eles que se estivessem numa lancha em meio a parrachos, lavariam os pés com uísque sem a menor cerimônia.

Vou perder o fenômeno da sociedade conservadora e preconceituosa que se despe de seus valores arcaicos durante três dias, se desempacota e vive um breve e alegre período libertino para, na segunda-feira seguinte, se empacotar novamente e vestir sua máscara de hipocrisia e podre tradição. Não vou chorar, não vou me arrepender. Quero olhar fundo nos olhos do meu netinho e dizer que não chafurdei feito um rato nos escombros, dançando e zombando sobre o cadáver do que um dia foi o Machadão.

Sou praieiro, fui solteiro e lembro do Cid Guerreiro, mas mesmo adorando cerveja e coco, prefiro consumi-los separadamente e ao som de canções outras que não estas. Porque, em cima do trio, não quero ouvir um pio. Se você era feio e agora tem um carro, se você me pede lapada na rachada ou se Chico bateu no seu bode, parabéns. Sua vida deve ser muito estimulante, mas eu de minha parte, rogo: me leva… pra bem longe daqui.

Vou para o exílio! Serei refugiado de um país remoto, onde não se fale esse idioma obrigatório. Uma nação que, pelo menos no próximo fim de semana, não seja colônia da Bahia, que não considere Salvador a capital de um reino. Tenho que fugir. Vou embora daqui! Fico ridículo de abadá. Saio e só volto quando a sociedade se empacotar novamente, quando essa cidade for um lugar mais ou menos seguro outra vez. Quero emergir no obscurantismo e só vir à tona quando pudermos respirar em paz sem ser sufocados por refrões opressores.

Sei do tamanho de minha renúncia. Entendo que abro mão de toda a devassidão de ocasião, da atmosfera libidinosa, do sexo, das drogas, da alegria inconsciente, inconsequente e sem sentido que fizeram desse país o que ele é hoje! Por isso, se eu ficar, não me deixem cairem tentação. Queeu não ouça o canto da sereia das belas natalenses em flor, oferecendo-se ao som de cânticos odiosos, verdadeiros mantras impregnados de vogais: “aê-aê-aê, eô-eô-eô”! NÃO! Se eu fraquejar me amarrem, mas não num cordão de isolamento. Internem-me, mas não na colônia pinel. Não quero ser um burro elétrico, correndo atrás do trio. Vou fugir dessa cidade. Comigo ninguém pode e eu odeio mamãe sacode!

Avisa lá que eu vou pra algum lugar onde eu não precise me comportar como um zumbi, participando de toda aquela alucinação coletiva engendrada por alguns poucos para os muitos que pipocam. A política do circo sem nenhum pão. Não, não quero ser um zumbi. Quero sair para ver e curtir o que gosto. Quero sentir-me vivo, com sangue correndo nas veias, ouvindo música que me agrade. Porque atrás do trio elétrico, amigo, só vai quem já morreu.

Coluna do Novo Jornal – 066 – Tempestade Cerebral – 26.11.2011

fevereiro 9, 2012

A cada nova operação de Ministério Público + Polícia Federal para prender vagabundo, fico imaginando como são as reuniões para escolha dos nomes das operações. Daí, escrevi essa crônica engraçadinha. Divirtam-se!

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Tempestade Cerebral.

Com o anúncio da operação “Sinal Fechado” que levou mais uma numerosa turma de empresários, políticos e espertalhões para a cadeia, o pelo menos ao banco dos réus e capas dos principais jornais, chamou mais uma vez a atenção da população a criatividade das autoridades em escolher nomes sugestivos para as ações de combate a crimes como os que foram revelados na última quinta-feira. Em tempos recentes, tivemos a “Operação Hygia”, o “Foliaduto”, a “Operação Impacto”, “Pecado Capital” e tantas outras que custariam muito papel de jornal para enumerar.

Fiquei imaginando como fazem os promotores para batizar tais ações. Será que eles promovem uma reunião de brainstorm no Ministério Público para decidir este que é um dos pontos mais relevantes das operações? Afinal de contas, trata-se simplesmente da escolha do nome pelo qual cada trabalho será conhecido junto à população e imprensa.  Um batismo desastrado poderia fazer uma investigação de meses cair em total descrédito. Já pensou se a tão falada “Operação Impacto” fosse batizada de “Operação Pipoco”  ou mesmo “Operação Concreta”? Ninguém prestaria atenção nela, não haveria apelo nenhum de marketing e os envolvidos estariam dando risadas até hoje. Por isso, acredito que os promotores de justiça do RN levem tão a sério a criação de nomes  adequados, sonoros e, vá lá, impactantes, na hora de batizar suas investigações.

No caso da Operação Sinal Fechado que desbaratou um esquema de R$ 1 bilhão, imaginemos uma ampla sala de reuniões no MP-RN. O promotor que conduziu toda a operação poderia haver convocado o maior número possível de colegas para que pudessem decidir como iria se chamar a operação que seria deflagrada no dia seguinte.

– Senhores, amanhã anunciaremos as prisões e ordens de busca e apreensão referentes ao esquema de corrupção do DETRAN. Encontramos inúmeras evidências de que a implantação da inspeção veicular no Estado teria a intenção de favorecer monetariamente um grupo de pessoas e que todo o esquema de corrupção foi armado desde a elaboração da lei, em 2009. Diante dos fatos, precisamos de um bom nome para a operação, algo que expresse todo a sua gravidade, bem como a justiça representada pela interrupção das ações da quadrilha.

Logo os demais presentes apresentariam suas sugestões:

– Data vênia, doutor Fulano, gostaria de submeter ao senhor e aos demais colegas um nome que acredito ser o ideal para cumprir para com nossas aspirações, além de simbolizar a limpeza que a instituição pretende implementar. Que tal “Operação Lavajato”?

Vários dos senhores e senhoras ali reunidos gostariam da sugestão. Contudo, como a ideia era ouvir mais alguns nomes antes de tomar a decisão, o presidente da assembleia achou por bem ouvir mais algumas sugestões. A próxima a falar seria uma promotora, bastante conhecida pela competência com que cumpria sua função, altiva e admirada por colegas e pela sociedade.

– Doutor Fulano, muito me agradam as palavras do doutor Sicrano. De fato, indivíduos que sujam as mãos e a reputação em atos ilícitos e condenáveis devem ser submetidos a rigorosos processos de limpeza, sendo varridos da sociedade. Porém, acredito que o termo lavajato seja mais adequadamente aplicado a um episódio de corrupção generalizada em que se faça necessário uma acelerada ação de erradicação da sujeira de nosso Estado. Acredito que no presente caso, devamos escolher um nome como “Operação Blitz Surpresa” para simbolizar a agilidade com que surpreendemos os criminosos.

Diversos promotores também gostariam da eloquência da exposição da doutora. As opiniões se dividiriam até que mais um dos presentes poderia sugerir, “por uma questão de coerência que deve marcar uma entidade como o MP-RN”, seguir com a tendência iniciada na “Operação Pecado Capital” de batizar as operações com títulos de canções de Paulinho da Viola.

– Percebam os senhores que seria uma bela homenagem ao sambista. Daríamos a ele a oportunidade de associar seu nome ao da promoção da justiça contra os inimigos do povo e da lei.

Neste ponto, imagino uma ovação. A sala da promotoria seria pequena para tantos aplausos. Os geralmente contidos, sérios e discretos promotores de justiça seriam só sorrisos pela excelente ideia do colega. De pé, fariam questão de cumprimentá-lo por tamanha felicidade no batismo da operação. Antes de encerrar a reunião, porém, o promotor que a convocou, na condição de presidente da mesa, poderia haver sugerido que já criassem nomes para os próximos escândalos, aproveitando o fato que teriam estabelecido um critério.

Os promotores teriam decidido que as próximas operações levariam nomes como “Caso Encerrado”, “Novos Rumo” e “Tudo se transformou”. Pelo que consta, os únicos que não gostaram dos nomes das operações foram os réus. Talvez porque sejam ruins da cabeça. Ou quem sabe, doentes do pé.

Coluna do Novo Jornal – 065 – A Pipa pré-Flipipa – 19.11.2011

fevereiro 8, 2012

Coluna com cheirinho de nostalgia.

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A Pipa pré-Flipipa.

Pipa era um lugar distante, para onde íamos nos curar de nossas rotinas de estudantes, estagiários e aprendizes de ébrios. Ganhávamos, quando muito, um salário mínimo o que, no tempo em que o plano real engatinhava, não dava pra pagar muita coisa. Por isso investíamos pesado na bolsa (de nossas mães) e numa carteira de clientes que se resumia, na verdade, à carteira dos nossos pais. Criados a leitinho com pêra e Danoninho de morango, queríamos passar para o próximo estágio de fermentados, destilados e ervas relaxantes. Diziam que era o melhor caminho para libertarmos de nossas educações católicas castradoras para o maravilhoso mundo do sexo fácil e descompromissado. Enfim, precisávamos passar da escola para a faculdade, cruzar a tênue linha que separa meninos de homens, ter o nosso próprio ritual de passagem para uma vida melhor, digna e plena.

Nesse contexto, que lugar melhor pra isso que uma praia paradisíaca e distante mais de uma hora de qualquer olhar vagamente paterno? Pegávamos um carro emprestado da vasta frota de nossos progenitores e lá íamos uma turba de filhos do amor divino para Tibau do Sul como o elenco de um filme ruim de Sessão da Tarde “em busca das mais loucas aventuras”. As expectativas eram sempre exageradas. Queríamos comer bem (com duplo sentido, faz favor), beber todas e ter, durante um feriado que fosse, uma vida de rei. Nossa grana dava pra lanchar no Laricão ou em restaurantes no peso ocultos em sombrios recônditos praianos. Enchíamos a cara na casa alugada com a feira que levávamos, pois a bebida à venda na rua era um luxo caro, e saíamos munidos de nossas piores intenções, prontos para sermos condenados ao inferno mais próximo.

Lembro de uma casa que alugávamos. Cabiam umas 2 pessoas confortavelmente, segundo as mais generosas avaliações imobiliárias amadoras. Mas nós ocupávamos a maloca com 16 indivíduos. Moços e moças livin La vida loca, dispostos a dividir um único banheiro e comer todo o miojo que conseguíssemos engolir com Skol. Os donos do imóvel eram um casal argentino muito simpático que, no dia em que chegamos estavam debulhando algo na mesa que não era exatamente feijão e nos fizeram sentir em casa. Havia uma cama de casal no único quarto. Na parede atrás da cama, uma pintura a óleo de um homem nu e cabelos longos sentado numa falésia. Começou a correr boatos pela casa dando conta que o personagem do quadro costumava ter ereções durante a madrugada e, desde então, nenhum homem ousou jamais dormir naquela cama. Dar as costas a um pau duro não fazia parte da nossa ideia de diversão. Nem de brincadeira.

Sempre que dava a badalada das 12, no preciso momento em que carruagens se convertem em abóboras mundo afora, saíamos às ruas dispostos a entrar de carrinho nas jacas que eventualmente cruzassem os nossos caminhos. O ferver das ruas de Pipa num feriado prolongado elevava nossos índices hormonais a uma temperatura de vulcão mediterrâneo. A boate Calangos era o limite, num repertório que ia de Rappa a Red Hot, amigos, paqueras e uma atmosfera convidativa que emanava sacanagem.

Nos dias seguintes, independente de quão brutal fosse nossa ressaca, íamos ao encontro do mar. Fosse nas barraquinhas próximas à Igreja ou nas cadeirinhas da famigerada Afogados, estávamos lá, lavando a bebedeira da noite anterior com água de coco ou cerveja. Foi lá que o ilustre roqueiro Flávio Horroroso consumiu um tatuí vivo numa desajeitada tentativa de entrar no mundo da alimentação natural. Também houve alguns réveillons que marcaram época na praia. Faz tempo, claro. Pois de uma década pra cá, as datas mais disputadas passaram a estar tão cheias de gente que me contaram um causo de um homem que faleceu na rua às 22h e só caiu no chão às 06h da manhã do dia seguinte devido à densidade demográfica noturna num dado feriadão.

Com o tempo, crescemos e a vida assalariada nos elevou ao patamar de hóspedes em pousadas. Nunca mais dormiríamos nas casas de gringos chapados ou nos fundos do Pipão, num quarto cuja porta não trancava e que acordávamos com a ingrata surpresa de um cão vira-lata dividindo o colchonete. Também não teríamos que nos preocupar com obras de arte com priapismo à nossa retaguarda. Porém, a molecagem e fome de viver momentos da “mais louca diversão” (outra chamada de Sessão da tarde) permanecem intactas. Um amigo, por exemplo, de tão arrojado que se tornou na paquera, está escrevendo um “Best-seller” (isso mesmo: ele não está escrevendo um livro, mas um “Best-seller”, segundo suas palavras) chamado “O Caçador de Pipa”. Não sei se vai vender algo, mas já estou salivando e de garganta seca para ir ao bem servido coquetel de lançamento.

De uns anos pra cá, a praia também se converteu em destino cultural. E hoje, em especial, está ocorrendo um festival literário de primeira, com alguns dos mais admiráveis nomes da literatura brasileira. É reconfortante voltar ao cenário de lembranças tão legais que a grande maioria eu não poderia nem publicar aqui. O estranho é que desta vez vou bater papo em público com um romancista premiado. Se ele souber do que andei aprontando por aquelas plagas, tantas obscenidades, contravenções e libertinagens mil… era capaz de já gostar de mim sem nem me conhecer.

Enfim, a coluna de hoje é só pra lembrar a vocês que Pipa é um lugar incrível, que se aquela rua principal falasse, teria muita história pra contar e que, se você estiver lendo o Novo Jornal nas primeiras horas do dia, ainda dá tempo de chegar por lá e curtir o último dia de Flipipa. Bom feriado a todos e como diria o maravilhoso Alex Nascimento em “Recomendações a Todos” (peça de Henrique Fontes baseada em livro de mesmo nome em cartaz hoje e amanhã na Casa da Ribeira e que, será tema de minha próxima coluna): “Amai-vos uns aos outros desde que não gozem dentro!”

Coluna do Novo Jornal – 064 – A festa é sua, meu amor, sorria. – 12.11.2011

fevereiro 7, 2012

O Carnatal, festa que ganhou dimensões gigantescas sustentando-se em alegações falsas.

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A festa é sua, meu amor, sorria.

 

Aproxima-se mais um Carnatal. A celebração maior de nossa identidade cultural importada da Bahia. Já são 22 anos de evento. Há mais de duas décadas, uma estrutura mambembe gigante é armada no coração da cidade, convertendo o primeiro fim de semana de dezembro em uma festa e a vida das pessoas que vivem nas redondezas num enorme transtorno. Todos os que optem por permanecer são automaticamente transformados em foliões. Seja por opção ou coação, pois o barulho ensurdecedor, a sujeira generalizada, a privação do direito de ir e vir e a essência de urina que toma conta das ruas obrigam os moradores de Lagoa Nova a fazerem parte da festa, por bem ou por mal, tais quais fumantes passivos envoltos em fumaça de cigarro. São os foliões passivos que nem sempre conseguem fugir de casa, movidos pelo sagrado direito à carnafobia.

Abordo este assunto na coluna de hoje para propor uma reflexão. Após todos esses anos, quais os benéficos que o Carnatal trouxe à cidade? Qual foi o seu legado? O que ficou para a sociedade natalense além de lembranças fortuitas de lazer e migalhas distribuídas a guisa do que insistem em chamar de “trabalho e renda”? Vale lembrar que o evento é, em grande parte, bancado com dinheiro público, ou seja: por você que me lê neste momento e recolhe seus impostos em território potiguar. Os lucros, porém, e a despeito do financiamento público, são privados e concentrados nas mãos de alguns pouquíssimos empresários que todos nós seríamos capazes de citar ou mesmo destacar.

Sou a favor da realização do evento. Que conste nos autos. Porém, contudo, no entanto e todavia, tenho sérias ressalvas que dizem respeito, sobremaneira, à forma como é oferecida uma contrapartida à sociedade. O alto investimento exigido para os 4 dias de festa se sustenta na justificativa de que é dada à população uma alternativa de lazer e cultura. Concordo. Nem quero entrar no mérito da pertinência cultural do evento, pois compreendo a cultura como algo indissociável do entretenimento. Também se diz que “todos ganham com a festa”, pois são atraídos milhares de turistas, movimentados milhões de Reais e muitos comerciantes informais, os chamados ambulantes, podem vender seus produtos no entorno da folia. Dessa forma, o evento atrai divisas que são, imediatamente, destinadas à população, inclusive à camada de renda mais baixa. Aí, eu já discuto. Acho que isso não passa esmola.

Por que não se aproveita as proporções do Carnatal para promover um legado permanente e que possa realmente contribuir com o desenvolvimento da cidade? As bandas baianas têm enorme apelo junto à população, então que tal incluir nos caríssimos cachês pagos aos artistas, oficinas de música em comunidades carentes, com doação de instrumentos para tentar formar artistas e incentivá-los a, um dia, puxarem os seus próprios blocos ou fazerem shows em carnatais, carnavais e quetais? O jornalista Paulo Celestino, certa vez, me chamou a atenção: “Em 20 anos, não surgiu nenhuma banda de axé em Natal?” Por que não pegar parte do lucro para capacitar trabalhadores à montagem de estruturas de grandes eventos, manutenção de trios elétricos ou até ao receptivo turístico, já que são atraídos tantos visitantes?

O problema é que nada disso é pensado. O Carnatal é uma celebração que se esgota em si. É uma festa “parnasiana”, por assim dizer: “a festa pela festa”. Trata-se da celebração vazia de uma sociedade que, durante 4 dias, quer apenas divertir-se, cantando, dançando, bebendo e repetindo refrões sem sentido e recheados de vogais. É só aquilo mesmo que a gente vê, mesmo que a gente não veja nada. Quando acaba o evento, acaba o ciclo. Só no ano seguinte. Nenhum aprendizado, assimilação ou conhecimento fica para quem participou. A massa deve contentar-se com a venda de latinhas de cerveja, o recolhimento dessas mesmas latinhas para reciclagem e a visão por instantes dos seus artistas preferidos na muvuca da “pipoca”.

Os organizadores não pensam em deixar um legado permanente para a cidade. E eles nem têm obrigação disso. É um negócio (muito bem sucedido, por sinal) e sua única intenção é convertê-lo num êxito empresarial. O Governo e a Prefeitura, porém, têm sim a obrigação de exigir contrapartidas mais consistente de um projeto aprovado em leis de incentivo à cultura e cuja existência é viabilizada com dinheiro público. É preciso enxergar o potencial deste gigante que é o Carnatal e convertê-lo numa herança positiva e permanente. Associar o evento a projetos que incentivem a cultura, educação, prática esportiva ou formação profissional. A marca Carnatal é muito valiosa para ser utilizada de forma tão pueril, tão inconsciente.  Melhorar sempre, é possível e está nas mãos de quem paga a conta exigir isso.

Eu pago a conta. Financio o Carnatal com o dinheiro dos meus impostos. Por isso, resolvi escrever este texto. Para mim, nada poderia ser mais emblemático do que a folia ocorrendo em meio aos destroços do velho Machadão, lembrando-nos que logo após seu encerramento, não ficará nada mais que estruturas a serem postas abaixo. Espero que um dia este “grande evento”, nossa festa mais popular, possa ser também de incontestável valor social. Aí sim, poderemos cantar com toda convicção: “Sorria. A festa é sua (e não só deles), meu amor, sorria.”

Coluna do Novo Jornal – 063 – A queda do gigante – 05.11.2011

fevereiro 6, 2012

O Machadão caiu. Mas quando esta crônica saiu, ele ainda estava de pé (pelo menos em parte).

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A queda do gigante.

Todos os dias, ao subir de carro o viaduto do 4º centenário, vejo um filme, produzido em quadro a quadro, que mostra a queda de um gigante. Tal qual o personagem “Funes, o memorioso” de Jorge Luís Borges, as imagens que vislumbro a cada nova manhã de dia útil se eternizam desde a retina até o setor de arquivos imagéticos do cérebro. O “poema de concreto armado”, como eu costumava ouvir de Hélio Câmara, míngua como a lua e teima em desaparecer de nossa visão, prometendo dar lugar a uma estrutura muito maior, mais moderna e preparada para nos oferecer os espetáculos de qualidade que esta nascente metrópole com alma de província merece em sua trajetória de nova rica deslumbrada. Além, claro, de sub-sediar uma Copa do Mundo.

Não sou um saudosista inveterado, em que pese seja canceriano. No entanto, guardo com muito carinho os bons momentos vividos. E é em nome desses bons momentos que sinto uma estranha e indefinível sensação a cada pedaço que vejo faltar em minhas passagens diárias pelo Machadão. Trata-se de uma espécie de saudades do que não vou mais viver.

Minha primeira vez no estádio foi quando criança. Meu pai e irmão tentavam me converter para um dos grandes times de Natal. Eu não gostava de ir ali. Era meio rebelde e nada social. Queria ficar em casa com minhas revistas em quadrinhos e brincadeiras ensimesmadas e solitárias (Comandos em Ação, carrinhos de ferro, Playmobis, soldadinhos coloridos de plástico). Achava aquela história toda de sair de nossa casa no Alecrim para ir a um lugar distante (sim, jovens. Creiam-me: Lagoa Nova era distante.), cheio de adultos chatos e que ainda me pegavam de repente e me erguiam contra a minha vontade na hora dos gols. Era uma urgência, uma histeria, uma alegria inconsciente que eu não compreendia em absoluto. “Meu Deus, me tirem daqui! Levem-me de volta aos meus brinquedos!”, pensava comigo. Enfim, eu não estava preparado para me apaixonar pelo futebol, assim como os adolescentes não estão preparados para ler Machado de Assis aos 15. Tudo a seu tempo.

Os anos passaram e descobri-me rubro-negro. Meu padrinho, Zé Augusto, e meu irmão, Marcos Fialho, foram mais eficazes que meu pai, Zé Arruda, vascaíno. Sorte minha. Aí, um dia, voltei ao Machadão. Dessa vez, por vontade própria. Em 1993, o Flamengo Pentacampeão brasileiro vinha a Natal, jogar contra o América campeão estadual. 42 mil pessoas lotaram o estádio e viram um jogão. Um 2×2 lá e cá, com o Flamengo empatando apenas no fim. Eu tinha então, 13 anos de idade e, em vez de ficar chateado com a água que o time potiguar havia despejado no chope do Mengão, resolvi torcer por ele em âmbito local, tornando-me o que os fanáticos das torcidas organizadas locais que se agridem e matam mutuamente mais odeiam: um “misto”.

Em 1996, ano histórico, dois momentos importantes. Um título potiguar que embalou o time rumo ao vice-campeonato da série B. Eu, que estudava para o vestibular, faltei todos os aulões possíveis para acompanhar a campanha do América. O time que tinha Gito na zaga, Carioca, Moura e Biro-Biro no meio campo, contava ainda com uma trinca de centroavantes estrelados. Wanderley, “o artilheiro dos descontos”, sempre salvava no fim; Zé Ivaldo era o rei dos gols impossíveis; e o mossoroense Cícero Ramalho, quando entrava, decidia. Um gol que Zé Ivaldo fez contra o Náutico estará para sempre tatuado em nossas consciências rubras. Foi aos 36 do segundo e o goleiro pernambucano não defenderia aquela nem se pulasse dois dias antes com um cabo de vassoura na mão.

No ano seguinte, a permanência na primeira divisão também teve peso de título. Time redondinho armado por Júlio César Leal fez bonito e, contra tudo e todos, não caiu. Lembro dos gols de Gito, do jogo com o Cruzeiro em que a vitória veio de virada e com toda a torcida sacudindo suas latas de cerveja, provocando uma chuva digna de uma “São Saruê” etílica. O empate em 3×3 com o Grêmio também teve contornos épicos.

Aí veio 1998. A mesma base que jogava junta havia 2 anos, recebeu reforços como Paulinho Kobayashi e o centroavante Leonardo. O resultado foi o título do Nordeste com direito a vitórias sobre Ceará, Santa Cruz, Náutico, Vitória e um inesquecível 4×0 sobre o ABC. Lembro bem da manchete do Diário de Natal no dia seguinte: “Kobayashow!” Na mesma semana, num jogo pelo estadual que não valia nada, mais uma vitória em clássico, com direito a gol do meio de campo do camisa 10 nipônico e pé-quente.

Nos anos 2000, vieram tempos de altos (subidas da C pra B e depois pra A) e baixos (quedas da A pra B e depois pra C). Mas se o time não era sólido ou confiável, as idas ao Machadão se mantinham firmes e fortes. Programa de domingo (ou sábado à noite) junto a alguns bons amigos, como os irmãos Guanabara, Rodrigo Santos (o menino de Racine) e o Dr. Joélio de Oliveira.

Espero que esses momentos passados, importantes para minha formação como torcedor, inspirem muitos outros que virão na anunciada Arena das Dunas. Nesta segunda subirei o viaduto de novo e mais um pedaço do estádio haverá ruído, revelando um campo cheio de destroços de guerras ancestrais, desfraldando o espaço que dará lugar a um novo palco de batalhas esportivas, nesta esplêndida representação da ludopédica vida que é o bom e velho esporte bretão.

Porque se o Machadão some pouco a pouco, suas lembranças permanecerão conosco para sempre.

Coluna do Novo Jornal – 062 – Pelo amor dos meus filhinhos – 29.10.2011

fevereiro 3, 2012

Divirtam-se!

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Pelo amor dos meus filhinhos!

Será que existe um método científico para medir a virilidade? Algum procedimento feito em laboratório que indique se um cara é mais macho que outro. Ou se é macho o suficiente para os níveis de macheza exigidos pela sociedade contemporânea. A resposta é não, pois a ciência não avança na mesma velocidade que o metrossexualismo. Em todo caso e na falta de algo melhor, existe um exame que mede a fertilidade masculina. É o espermograma. E, como cheguei aos 30 recentemente, resolvi me submeter para saber se meus meninos corredores estão em forma.

Procurei um laboratório bem recomendado, próximo à Afonso Pena, a nossa Oscar Freire. Liguei, marquei com antecedência e estava lá na hora marcada. Fazer o primeiro espermograma me lembrou bastante da vez em que comprei minha primeira Playboy. Aliás, não por acaso, pois o produto das duas experiências foi o mesmo. Na época, o carinha da banca perguntou: “Seu pai deixa você comprar essa revista?” Eu respondi que sim, né? E nem foi exatamente uma mentira. Eu sabia que meu pai aprovaria se soubesse que eu queria ver mulher nua. Ficaria bravo se eu quisesse comprar uma Capricho, isso sim.

Mas vamos nos concentrar no assunto da crônica: o exame. Cheguei meio acanhado no laboratório como um adolescente comprando camisinhas na farmácia. O lugar estava lotado de clientes, esperando para fazer testes com seus mais diversos fluidos e excreções corporais. Isso me deixou mais tranquilo, pois as pessoas não saberiam o que eu fora fazer lá. Eu poderia pregar um esparadrapo no braço para me passar por um destemido paciente de exame de sangue. Fezes não ia colar, não estava tão arrumado. E urina… francamente, coisa mais sem graça. Dirigi-me tão discreto quanto pude à recepção, identifiquei-me e a recepcionista gritou: “Doutor! O paciente do espermograma chegou!” Desmascarado na frente de toda aquela gente da sala de espera, rezei para me encaminharem logo pra um quartinho, quando a moça pediu: “Espera um pouco até o doutor lhe chamar, por favor”.

Depois de intermináveis 5 minutos, o médico me convocou para estar diante dele. “Você sabe o que fazer, né, meu filho?” “Er, acho que sim.” “Você vai ter que se masturbar e colocar nesse potinho aqui.” “Tudo bem. Parece ser algo que eu seja capaz de fazer.” Tive vontade de dizer inclusive que tenho bastante prática, que sou muito bom nisso e que já me pus a fazê-lo até debaixo d’água, tentando balancear o ph de nosso mar, mas julguei dispensável. Outra coisa que eu poderia ter mencionado era a medida do “potinho”. Era mais ou menos do tamanho de uma lata de Leite Ninho. Quando eu o segurei, pensei de imediato: “Putz! Será que eu tenho que encher todo?” Porém, tudo o que eu perguntei foi: “Pra onde devo ir, doutor?” “Vá no banheiro à direita no corredor. Quando sair, deixe o pote com a enfermeira.” E lá fui eu botar os meninos pra correr direto pro pote.

Sabe aquelas histórias que os caras das clínicas dão umas revistas de mulher pelada ou deixam você ver uns filmes de sacanagem pra criar um clima? É mentira, gente! O banheiro é tão impessoal quanto se pode ser impessoal e a coisa mais próxima de excitante que tem lá dentro é o sabonete. Então, bota a cabeça pra funcionar e apele com força para a libidinagem imaginativa pra o seu negócio crescer. Era justamente o que eu estava fazendo quando ouvi uma cantoria “Seguuuuura na mão de Deeeeus! Seguuuuura na mão de Deeeeus!”. As paredes do banheiro eram finas demais e dava pra ouvir a tiaziinha da limpeza do lado de fora mandando ver na música gospel. Broxei. Só depois de algum esforço e concentração, os consegui. Deixei o vidrinho com a enfermeira e saí com uma gostosa sensação de missão cumprida.

O resultado chegou semana passada e, segundo me explicou o doutor, está “dentro da normalidade”. Meu esperma é homogêneo, de cor branco acinzentado e demora 20 minutos para se liquefazer. Meu PH é máximo. Num nível que vai de 7 a 8, meus meninos obtiveram média 8. O volume também me deixou feliz: 4,5 numa escala aceitável que vai de 2,0 até 5,0. A viscosidade é normal e o odor é “próprio”. Esse último quesito me pôs a pensar. Existe uma profissão de cheiradores de esperma? E você aí reclamando do seu emprego!

O número de hemácias e leucócitos também está bom e a população (confesso que me emocionei um pouco quando li) é de 52 milhões de espermatozóides por milímetro cúbico. Densidade demográfica invejável. Tive ganas de dar nomes a todos eles, meus filhinhos. Mas estou sem tempo hoje e vou deixar pra depois. A contagem diferencial morfológica, que chamo carinhosamente de “que-porra-é-isso?”, também teve porcentagens seguindo os padrões exigidos pelo Inmetro ou pela OMS ou seja lá por que órgão regule os espermas em nosso país. Por fim, os dados sobre motilidade. Após uma hora, 70% dos espermatozóides que saem de casa apresentam “motilidade progressiva rápida”, 5% demonstram uma “motilidade progressiva lenta”, 5% uma “motilidade não progressiva” e 20 % ficam imóveis. Esses 20%, eu deduzo que tenham parado pra fumar um cigarrinho ou algo que os espermatozóides fazem nas horas vagas, quando não estão correndo feito uns malucos.

O fato é que a leitura deste exame não me fez nada bem. Fiquei um pouco desapontado. Sabe aquele romantismo que a gente tem pelos nossos incipientes filhotinhos? Todo aquele papo de sermos os guardiões do néctar da vida? Pois é. Nada como a frieza da linguagem médica para acabar com tudo isso. Para mim, que comecei nas crônicas escrevendo um texto chamado “galado” (e galado vem de gala, todos devem saber disso.) o resultado desse exame foi especialmente impactante.  E isso não é nem um pouco gozado. Com trocadilho, faz favor.

Coluna do Novo Jornal – 060 – Ação entre amigos da leitura – 15.10.2011

fevereiro 2, 2012

Rolou em outubro último. Deverá rolar em maio próximo.

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Ação entre amigos da leitura

Outubro de 2010. Fui convidado pela professora de Letras da Universidade Potiguar, Klébia a conversar com estudantes do ensino médio da Escola Estadual Anísio Texeira. Eram alunos integrantes de um projeto de extensão desenvolvido por alunos da universidade, chamado “Cais da Leitura”. Era uma semana corrida para mim. Tinha acabado de voltar da campanha política para Governo e Senado, na qual havia trabalhado sob a batuta de Ênio Sinedino, Arturo Arruda e grande elenco e acabara de voltar para minha empresa, tomando pé dos clientes privados que ficaram a cargo dos meus sócios, Arnaldo e Thiago. Ou seja: estava absolutamente sem tempo para nada. E mesmo assim, não poderia recusar um convite como aquele.

Cheguei ao Campus da Floriano Peixoto às 16h de uma quinta-feira. Os estudantes me esperavam com textos meus impressos e retirados da Internet. O papo foi ótimo. Perguntaram sobre “O homem que não falava carnatalês”, a crônica seminal “Galado”, os textos de costumes locais “O Raqueiro” e “Não basta ser playboy. Tem que ser DJ.” Resultou numa conversa franca, divertida, de igual pra igual. Procurei sempre estar no mesmo nível deles, quebrando o gelo sempre, mostrando que o fato de eu ser um escritor com livros publicados não fazia de mim alguém especial e que estava tão feliz quanto eles por estar vivendo aquele momento. Ao final do papo, doei livros meus para a biblioteca da escola. E prometi à turma e à professora, levar outros escritores amigos como Patrício Jr. e Pablo Capistrano para conversarem com a turma.

Saí de lá com uma centelha de ideia na cabeça. Algo disforme e indefinido que um dia poderia resultar em um projeto mais amplo. Será que conseguiríamos estimular a leitura entre adolescentes promovendo mais encontros como aquele?

Voltemos no tempo. Corta para a praia de Porto de Galinhas, 2007. Eu participava da FLIPORTO, evento festivo, de alguns (na verdade muitos) milhões de Reais. Muita grana, pouca gente. Muita festa, poucas letras. Um desequilíbrio injusto e despendioso. Vi a literatura ser usada em prol da festa e não o contrário: uma festa que promovesse a leitura. À noite, acompanhando um show de uma banda que fazia versões roqueiras para Chico Buarque, um outro Xico, o Sá me falou: “temos que criar um evento no nordeste que promova a leitura, bicho. Isso aqui não está funcionando não. Tirando a nossa ressaca, não vai ficar nada desse evento amanhã.”

Em março de 2011, no início do novo ano letivo, voltamos à UnP para conversar com alunos do Anísio Texeira e também com estudantes de Letras. Dessa vez, levamos o mato-grossense Joca Reinners Terron, que acabara de ser premiado por seu romance “Do fundo do poço se vê a lua”. Em maio, foi a vez do mineiro Sérgio Fantini e, em agosto, do paraibano Rinaldo de Fernandes que falou para alunos da Escola Municipal 4º Centenário. A cada ida, novos livros eram doados às bibliotecas das escolas.

Em agosto, a professora Klébia, a mesma que havia me convidado a ir à escola 1 ano antes, me procurou para dar uma excelente notícia. A procura dos estudantes da Escola Anísio Texeira pelos livros da Editora Jovens Escribas doados à biblioteca da escola era altíssima. “Os livros não param nas prateleiras. Todos querem ler. Tem fila de espera. Têm alunos que já leram todos.”

Estes 3 episódios demonstram a pertinência de realizarmos um evento de incentivo à leitura voltado aos adolescentes e estendido ao público em geral. Foi então que tivemos a ideia da AÇÃO POTIGUAR DE INCENTIVO À LEITURA. Levar nossos autores para escolas, cursos de Letras e também para encontros com leitores em livrarias e locais públicos, realizando de quebra uma oficina de leitura com um especialista no assunto. Criamos o projeto, apresentamos a potenciais patrocinadores, fechamos com 4 deles (Assembleia Legislativa, ALE Combustíveis, Colégio CEI Romualdo Galvão e Cabo Telecom) e viabilizamos a vinda de 7 escritores de outros Estados, entre eles Mario Prata, Joca Terron e o potiguar residente no Rio, Nei Leandro de Castro.

Os autores visitarão as escolas Anísio Texeira, Castro Alves, 4º Centenário e CEI Romualdo Galvão. Todas as escolas ganharão livros para os acervos de suas bibliotecas. Haverá ainda debates noturnos e abertos ao público, além de uma oficina de leitura com o autor Sérgio Fantini para alunos universitários (de qualquer instituição).

A programação gratuita e aberta ao público do evento é a que segue:

 

Quarta-feira – 19.10.2011

Abertura oficial com Mario Prata e Nei Leandro de Castro na Assembleia Legislativa – 19h

Quinta-feira – 20.10.2011

Pablo Capistrano, Sérgio Fantini e Patrício Jr. batem papo na Siciliano – 18h30

Joca Terron e Rafael Coutinho batem papo na Siciliano – 19h30

Os autores presentes autografam seus livros na livraria – 20h30

Sexta-feira – 21.10.2011

Clotilde Tavares, Cláudia Magalhães e Ana Célia –18h30

Lançamento do livro “Paraíso Perdido” de Cláudia Magalhães – 19h30

Sábado – 22.10.2011

Lançamento do livro “Esporro – o underground carioca dos anos 90” de Leonardo Panço e Festa de encerramento – 16h. Centro Cultural Dosol.

 

Aproveito este espaço para convidar a todos os meus leitores para se fazerem presentes na ABERTURA OFICIAL, na Assembleia Legislativa, na próxima quarta-feira a partir das 19h. assim como no restante da programação, na Livraria Siciliano e no Centro Cultural Dosol.

Quem puder nos ajudar a divulgar o evento via Twitter ou Facebook também estará nos ajudando. Nosso Twitter é @jovens_escribas e nossa fanpage no Facebook é www.facebook.com/jovensescribas.

As inscrições para a oficina com o autor Sérgio Fantini podem ser realizadas pelo e-mail jovensescribas@gmail.com

Muito obrigado a todos e espero vê-los durante a semana.

Carlos Fialho