Coluna do Novo Jornal – 058 – À mesa com Marçal – Aniversário do Senhor Bira – 01º.10.2011

Mais uma coluna dupla do Novo Jornal com duas crônicas bem lesgaizinhas. Gosto bastante das duas.

Divirtam-se!

***

À mesa com Marçal

“Você percebe que alguém é acima da média quando percebe que ele é o ídolo dos seus próprios ídolos.” Em outubro de 2006, cheguei esta conclusão numa viagem a São Paulo, junto com outros 3 colegas escritores potiguares para lançarmos nossos livros e o selo literário Jovens Escribas. Numa noite fria na capital paulista, percebi que Marçal Aquino é o cara. Nossos convidados começavam a chegar ao local do lançamento, a Mercearia São Pedro.  Vários deles, escritores residentes em Sampa, lidos e admirados por alguns de nós. O primeiro foi André Laurentino, autor de “A Paixão de Amâncio Amaro”, um romance considerado como um dos melhores publicados no Brasil em 2005. Autor revelação da Festa Literária de Paraty no Rio de Janeiro. Foi Laurentino que apontou com indisfarçável admiração: “O Marçal chegou.” Eu, sem ligar o nome ao escriba, perguntei: “Quem?” “Marçal Aquino. Você não conhece? Olha ele ali. Você precisa conhecer!”

Daniel Galera, autor bem-sucedido da geração 00, adaptado para o cinema, teatro e o escambau, o homem por trás da histórica editora Livros do Mal, passou boa parte da noite conversando e absorvendo o que o grande Marçal tinha a dizer. Antonio Prata também fez o mesmo.

A noite foi passando e, em dado momento, tive eu também o privilégio de sentar à mesa com o Marçal. Numa roda de bate-papo bem aquilatada, todos só tinham olhos e ouvidos para ele e suas histórias. Eu aproveitei o momento o quanto pude. Deliciei-me com alguns ótimos “causos” da vida real vividos por ele.

“Um amigo meu transou com uma hermafrodita!”, declarou. “Tava lá, fazendo amor com ela, ele, sei lá, quando a hermafrodita começou a ter uma ereção. Não riam ainda que a história não acabou. Não é que a hermafrodita ficou excitada e melecou o meu amigo?! Olha, eu não sei vocês, mas eu não gosto de ter algo entre mim e a parceira não. Prefiro o tradicional mesmo.”, decretou.

“Um dia eu cheguei meio estressado de trabalho pra um amigo e disse casualmente: tô a fim de dar umas porradas. Aí ele disse que tinha um clube sadomasoquista que ele freqüentava em que as pessoas iam lá pra apanhar voluntariamente. Eu fui. Cheguei lá, peguei um chicotinho e comecei a espancar uma mulher que gemia a cada porrada. Lá pras tantas, ela disse: ‘Isso é o melhor que você consegue fazer? Pode bater com força, meu!’ Aí, eu desci a porrada e ela chegou ao êxtase de tanto apanhar. É estranha a sensação. Nunca mais quis bater em ninguém depois disso.”

Lá pras tantas, uma mulher muito bêbada, estilo mala-sem-alça, sentou à mesa conosco e anunciou dramática: “Uma cartomante disse que eu vou morrer.” O sábio Marçal de bate e pronto: “Eu digo a mesma coisa. Essa é a única certeza, minha filha. Não precisa ser cartomante pra saber disso.” “Mas você não está entendendo. Ela disse que eu só tenho 15 anos de vida.” “Ela disse isso? Imagina! Você não chega a isso tudo não!” A mulher saiu horrorizada da mesa. Antes de ir embora perguntou como era o nome daquele homem de afirmações tão terríveis: “Marcelino. Meu nome é Marcelino Freire.”

Marçal tem muitas outras histórias pra contar. E as melhores a gente não acha em mesas de bar, mas em DVDs ou livros. Leia o romance “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” e garanto que você vai ter que ir atrás de todo o restante. Agora, uma coisa é certa: tomar uma cerveja com ele, mesmo que por um breve (apesar de memorável) tempo, ajuda a entender de onde tira personagens tão elaborados. Em muitos casos, são os personagens que buscam o escritor.

***

O aniversário do Senhor Bira

Quando éramos pré-adolescentes o que havia de mais moderno eram as festas americanas. Levávamos comida e refrigerante e tentávamos vencer a timidez de meninos buchudos e beradeiros com as meninas mais bonitas da escola.

Depois, na juventude e vida adulta, os churrascos, festas e reuniões de amigos ganharam um novo componente entorpecente, uma vez que passaram a ser regadas com álcool. Mas uma coisa não mudava. Na mesma data, 25 de setembro, todos os anos, o motivo do encontro era o mesmo: celebrar o aniversário do Senhor Bira.

Teve até uma época em que ele fazia muitos churrascos e para ter argumentos fortes o bastante para convencer todos os amigos a comparecerem, dizia sempre que era seu aniversário.

– Mas, Seu Bira, estamos em abril. Seu aniversário é só no segundo semestre.

– E daí? A Destaque não organiza um carnaval em dezembro e todo mundo acha o máximo?

E foi assim que o Sr. Bira passou a ser o único natalense com 4 datas de aniversário por ano. Mas eu, ortodoxo que sou, só dava parabéns no dia mesmo.

Eu era implacável. Sempre fui bom nisso. Um Dirty Harry da lembrança. Todo dia 25 de setembro, era um dos primeiros a contatá-lo para transmitir meus votos de felicidade. Era minha obrigação, certamente. Afinal, o Sr. Bira é um dos meus melhores e mais antigos amigos. Estudamos na mesma escola, o Neves, veraneamos na mesma praia, curtíamos rock, jogávamos futebol e basquete, demos força um para o outro em momentos difíceis (mortes de entes queridos, fins de namoros) e também estivemos presentes nas melhores horas (aprovação no vestibular, sucessos na carreira profissional, casamentos.). Até hoje temos os mesmos amigos, a mesma turma. Por tudo isso, eu não poderia esquecer seu natalício nunca nesta vida.

Sendo assim, a pergunta é uma só: por que diabos eu esqueci de, no dia 25/09 passado transmitir-lhe meus parabéns? Será a idade? Um lapso? Tive um dia atípico?

Bem, a verdade é que eu até lembrei. Passei o dia inteiro repetindo como um mantra: “Tenho que ligar pro Seu Bira. Tenho que ligar pro Seu Bira…”, mas acabei deixando pra mais tarde e… vocês já sabem. Acontece com quase todo mundo. Findei esquecendo.

Então, Sr. Bira, este finzinho vai pra você. Foi mal ter esquecido de dar os parabéns no seu dia. Ato falho (ou seria ato Fialho?) que tento corrigir por meio deste texto.

Feliz aniversário.

…atrasado.

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: