Coluna do Novo Jornal – 064 – A festa é sua, meu amor, sorria. – 12.11.2011

O Carnatal, festa que ganhou dimensões gigantescas sustentando-se em alegações falsas.

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A festa é sua, meu amor, sorria.

 

Aproxima-se mais um Carnatal. A celebração maior de nossa identidade cultural importada da Bahia. Já são 22 anos de evento. Há mais de duas décadas, uma estrutura mambembe gigante é armada no coração da cidade, convertendo o primeiro fim de semana de dezembro em uma festa e a vida das pessoas que vivem nas redondezas num enorme transtorno. Todos os que optem por permanecer são automaticamente transformados em foliões. Seja por opção ou coação, pois o barulho ensurdecedor, a sujeira generalizada, a privação do direito de ir e vir e a essência de urina que toma conta das ruas obrigam os moradores de Lagoa Nova a fazerem parte da festa, por bem ou por mal, tais quais fumantes passivos envoltos em fumaça de cigarro. São os foliões passivos que nem sempre conseguem fugir de casa, movidos pelo sagrado direito à carnafobia.

Abordo este assunto na coluna de hoje para propor uma reflexão. Após todos esses anos, quais os benéficos que o Carnatal trouxe à cidade? Qual foi o seu legado? O que ficou para a sociedade natalense além de lembranças fortuitas de lazer e migalhas distribuídas a guisa do que insistem em chamar de “trabalho e renda”? Vale lembrar que o evento é, em grande parte, bancado com dinheiro público, ou seja: por você que me lê neste momento e recolhe seus impostos em território potiguar. Os lucros, porém, e a despeito do financiamento público, são privados e concentrados nas mãos de alguns pouquíssimos empresários que todos nós seríamos capazes de citar ou mesmo destacar.

Sou a favor da realização do evento. Que conste nos autos. Porém, contudo, no entanto e todavia, tenho sérias ressalvas que dizem respeito, sobremaneira, à forma como é oferecida uma contrapartida à sociedade. O alto investimento exigido para os 4 dias de festa se sustenta na justificativa de que é dada à população uma alternativa de lazer e cultura. Concordo. Nem quero entrar no mérito da pertinência cultural do evento, pois compreendo a cultura como algo indissociável do entretenimento. Também se diz que “todos ganham com a festa”, pois são atraídos milhares de turistas, movimentados milhões de Reais e muitos comerciantes informais, os chamados ambulantes, podem vender seus produtos no entorno da folia. Dessa forma, o evento atrai divisas que são, imediatamente, destinadas à população, inclusive à camada de renda mais baixa. Aí, eu já discuto. Acho que isso não passa esmola.

Por que não se aproveita as proporções do Carnatal para promover um legado permanente e que possa realmente contribuir com o desenvolvimento da cidade? As bandas baianas têm enorme apelo junto à população, então que tal incluir nos caríssimos cachês pagos aos artistas, oficinas de música em comunidades carentes, com doação de instrumentos para tentar formar artistas e incentivá-los a, um dia, puxarem os seus próprios blocos ou fazerem shows em carnatais, carnavais e quetais? O jornalista Paulo Celestino, certa vez, me chamou a atenção: “Em 20 anos, não surgiu nenhuma banda de axé em Natal?” Por que não pegar parte do lucro para capacitar trabalhadores à montagem de estruturas de grandes eventos, manutenção de trios elétricos ou até ao receptivo turístico, já que são atraídos tantos visitantes?

O problema é que nada disso é pensado. O Carnatal é uma celebração que se esgota em si. É uma festa “parnasiana”, por assim dizer: “a festa pela festa”. Trata-se da celebração vazia de uma sociedade que, durante 4 dias, quer apenas divertir-se, cantando, dançando, bebendo e repetindo refrões sem sentido e recheados de vogais. É só aquilo mesmo que a gente vê, mesmo que a gente não veja nada. Quando acaba o evento, acaba o ciclo. Só no ano seguinte. Nenhum aprendizado, assimilação ou conhecimento fica para quem participou. A massa deve contentar-se com a venda de latinhas de cerveja, o recolhimento dessas mesmas latinhas para reciclagem e a visão por instantes dos seus artistas preferidos na muvuca da “pipoca”.

Os organizadores não pensam em deixar um legado permanente para a cidade. E eles nem têm obrigação disso. É um negócio (muito bem sucedido, por sinal) e sua única intenção é convertê-lo num êxito empresarial. O Governo e a Prefeitura, porém, têm sim a obrigação de exigir contrapartidas mais consistente de um projeto aprovado em leis de incentivo à cultura e cuja existência é viabilizada com dinheiro público. É preciso enxergar o potencial deste gigante que é o Carnatal e convertê-lo numa herança positiva e permanente. Associar o evento a projetos que incentivem a cultura, educação, prática esportiva ou formação profissional. A marca Carnatal é muito valiosa para ser utilizada de forma tão pueril, tão inconsciente.  Melhorar sempre, é possível e está nas mãos de quem paga a conta exigir isso.

Eu pago a conta. Financio o Carnatal com o dinheiro dos meus impostos. Por isso, resolvi escrever este texto. Para mim, nada poderia ser mais emblemático do que a folia ocorrendo em meio aos destroços do velho Machadão, lembrando-nos que logo após seu encerramento, não ficará nada mais que estruturas a serem postas abaixo. Espero que um dia este “grande evento”, nossa festa mais popular, possa ser também de incontestável valor social. Aí sim, poderemos cantar com toda convicção: “Sorria. A festa é sua (e não só deles), meu amor, sorria.”

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