Coluna do Novo Jornal – 065 – A Pipa pré-Flipipa – 19.11.2011

Coluna com cheirinho de nostalgia.

***

A Pipa pré-Flipipa.

Pipa era um lugar distante, para onde íamos nos curar de nossas rotinas de estudantes, estagiários e aprendizes de ébrios. Ganhávamos, quando muito, um salário mínimo o que, no tempo em que o plano real engatinhava, não dava pra pagar muita coisa. Por isso investíamos pesado na bolsa (de nossas mães) e numa carteira de clientes que se resumia, na verdade, à carteira dos nossos pais. Criados a leitinho com pêra e Danoninho de morango, queríamos passar para o próximo estágio de fermentados, destilados e ervas relaxantes. Diziam que era o melhor caminho para libertarmos de nossas educações católicas castradoras para o maravilhoso mundo do sexo fácil e descompromissado. Enfim, precisávamos passar da escola para a faculdade, cruzar a tênue linha que separa meninos de homens, ter o nosso próprio ritual de passagem para uma vida melhor, digna e plena.

Nesse contexto, que lugar melhor pra isso que uma praia paradisíaca e distante mais de uma hora de qualquer olhar vagamente paterno? Pegávamos um carro emprestado da vasta frota de nossos progenitores e lá íamos uma turba de filhos do amor divino para Tibau do Sul como o elenco de um filme ruim de Sessão da Tarde “em busca das mais loucas aventuras”. As expectativas eram sempre exageradas. Queríamos comer bem (com duplo sentido, faz favor), beber todas e ter, durante um feriado que fosse, uma vida de rei. Nossa grana dava pra lanchar no Laricão ou em restaurantes no peso ocultos em sombrios recônditos praianos. Enchíamos a cara na casa alugada com a feira que levávamos, pois a bebida à venda na rua era um luxo caro, e saíamos munidos de nossas piores intenções, prontos para sermos condenados ao inferno mais próximo.

Lembro de uma casa que alugávamos. Cabiam umas 2 pessoas confortavelmente, segundo as mais generosas avaliações imobiliárias amadoras. Mas nós ocupávamos a maloca com 16 indivíduos. Moços e moças livin La vida loca, dispostos a dividir um único banheiro e comer todo o miojo que conseguíssemos engolir com Skol. Os donos do imóvel eram um casal argentino muito simpático que, no dia em que chegamos estavam debulhando algo na mesa que não era exatamente feijão e nos fizeram sentir em casa. Havia uma cama de casal no único quarto. Na parede atrás da cama, uma pintura a óleo de um homem nu e cabelos longos sentado numa falésia. Começou a correr boatos pela casa dando conta que o personagem do quadro costumava ter ereções durante a madrugada e, desde então, nenhum homem ousou jamais dormir naquela cama. Dar as costas a um pau duro não fazia parte da nossa ideia de diversão. Nem de brincadeira.

Sempre que dava a badalada das 12, no preciso momento em que carruagens se convertem em abóboras mundo afora, saíamos às ruas dispostos a entrar de carrinho nas jacas que eventualmente cruzassem os nossos caminhos. O ferver das ruas de Pipa num feriado prolongado elevava nossos índices hormonais a uma temperatura de vulcão mediterrâneo. A boate Calangos era o limite, num repertório que ia de Rappa a Red Hot, amigos, paqueras e uma atmosfera convidativa que emanava sacanagem.

Nos dias seguintes, independente de quão brutal fosse nossa ressaca, íamos ao encontro do mar. Fosse nas barraquinhas próximas à Igreja ou nas cadeirinhas da famigerada Afogados, estávamos lá, lavando a bebedeira da noite anterior com água de coco ou cerveja. Foi lá que o ilustre roqueiro Flávio Horroroso consumiu um tatuí vivo numa desajeitada tentativa de entrar no mundo da alimentação natural. Também houve alguns réveillons que marcaram época na praia. Faz tempo, claro. Pois de uma década pra cá, as datas mais disputadas passaram a estar tão cheias de gente que me contaram um causo de um homem que faleceu na rua às 22h e só caiu no chão às 06h da manhã do dia seguinte devido à densidade demográfica noturna num dado feriadão.

Com o tempo, crescemos e a vida assalariada nos elevou ao patamar de hóspedes em pousadas. Nunca mais dormiríamos nas casas de gringos chapados ou nos fundos do Pipão, num quarto cuja porta não trancava e que acordávamos com a ingrata surpresa de um cão vira-lata dividindo o colchonete. Também não teríamos que nos preocupar com obras de arte com priapismo à nossa retaguarda. Porém, a molecagem e fome de viver momentos da “mais louca diversão” (outra chamada de Sessão da tarde) permanecem intactas. Um amigo, por exemplo, de tão arrojado que se tornou na paquera, está escrevendo um “Best-seller” (isso mesmo: ele não está escrevendo um livro, mas um “Best-seller”, segundo suas palavras) chamado “O Caçador de Pipa”. Não sei se vai vender algo, mas já estou salivando e de garganta seca para ir ao bem servido coquetel de lançamento.

De uns anos pra cá, a praia também se converteu em destino cultural. E hoje, em especial, está ocorrendo um festival literário de primeira, com alguns dos mais admiráveis nomes da literatura brasileira. É reconfortante voltar ao cenário de lembranças tão legais que a grande maioria eu não poderia nem publicar aqui. O estranho é que desta vez vou bater papo em público com um romancista premiado. Se ele souber do que andei aprontando por aquelas plagas, tantas obscenidades, contravenções e libertinagens mil… era capaz de já gostar de mim sem nem me conhecer.

Enfim, a coluna de hoje é só pra lembrar a vocês que Pipa é um lugar incrível, que se aquela rua principal falasse, teria muita história pra contar e que, se você estiver lendo o Novo Jornal nas primeiras horas do dia, ainda dá tempo de chegar por lá e curtir o último dia de Flipipa. Bom feriado a todos e como diria o maravilhoso Alex Nascimento em “Recomendações a Todos” (peça de Henrique Fontes baseada em livro de mesmo nome em cartaz hoje e amanhã na Casa da Ribeira e que, será tema de minha próxima coluna): “Amai-vos uns aos outros desde que não gozem dentro!”

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 065 – A Pipa pré-Flipipa – 19.11.2011”

  1. Gabi Says:

    feliz, li seu texto e lembrei de altos “causos” meus com as amigas por lá. ainda gosto muito de lá e ainda durmo em barraca de camping ehehhehe

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