Coluna do Novo Jornal – 066 – Tempestade Cerebral – 26.11.2011

A cada nova operação de Ministério Público + Polícia Federal para prender vagabundo, fico imaginando como são as reuniões para escolha dos nomes das operações. Daí, escrevi essa crônica engraçadinha. Divirtam-se!

***

Tempestade Cerebral.

Com o anúncio da operação “Sinal Fechado” que levou mais uma numerosa turma de empresários, políticos e espertalhões para a cadeia, o pelo menos ao banco dos réus e capas dos principais jornais, chamou mais uma vez a atenção da população a criatividade das autoridades em escolher nomes sugestivos para as ações de combate a crimes como os que foram revelados na última quinta-feira. Em tempos recentes, tivemos a “Operação Hygia”, o “Foliaduto”, a “Operação Impacto”, “Pecado Capital” e tantas outras que custariam muito papel de jornal para enumerar.

Fiquei imaginando como fazem os promotores para batizar tais ações. Será que eles promovem uma reunião de brainstorm no Ministério Público para decidir este que é um dos pontos mais relevantes das operações? Afinal de contas, trata-se simplesmente da escolha do nome pelo qual cada trabalho será conhecido junto à população e imprensa.  Um batismo desastrado poderia fazer uma investigação de meses cair em total descrédito. Já pensou se a tão falada “Operação Impacto” fosse batizada de “Operação Pipoco”  ou mesmo “Operação Concreta”? Ninguém prestaria atenção nela, não haveria apelo nenhum de marketing e os envolvidos estariam dando risadas até hoje. Por isso, acredito que os promotores de justiça do RN levem tão a sério a criação de nomes  adequados, sonoros e, vá lá, impactantes, na hora de batizar suas investigações.

No caso da Operação Sinal Fechado que desbaratou um esquema de R$ 1 bilhão, imaginemos uma ampla sala de reuniões no MP-RN. O promotor que conduziu toda a operação poderia haver convocado o maior número possível de colegas para que pudessem decidir como iria se chamar a operação que seria deflagrada no dia seguinte.

– Senhores, amanhã anunciaremos as prisões e ordens de busca e apreensão referentes ao esquema de corrupção do DETRAN. Encontramos inúmeras evidências de que a implantação da inspeção veicular no Estado teria a intenção de favorecer monetariamente um grupo de pessoas e que todo o esquema de corrupção foi armado desde a elaboração da lei, em 2009. Diante dos fatos, precisamos de um bom nome para a operação, algo que expresse todo a sua gravidade, bem como a justiça representada pela interrupção das ações da quadrilha.

Logo os demais presentes apresentariam suas sugestões:

– Data vênia, doutor Fulano, gostaria de submeter ao senhor e aos demais colegas um nome que acredito ser o ideal para cumprir para com nossas aspirações, além de simbolizar a limpeza que a instituição pretende implementar. Que tal “Operação Lavajato”?

Vários dos senhores e senhoras ali reunidos gostariam da sugestão. Contudo, como a ideia era ouvir mais alguns nomes antes de tomar a decisão, o presidente da assembleia achou por bem ouvir mais algumas sugestões. A próxima a falar seria uma promotora, bastante conhecida pela competência com que cumpria sua função, altiva e admirada por colegas e pela sociedade.

– Doutor Fulano, muito me agradam as palavras do doutor Sicrano. De fato, indivíduos que sujam as mãos e a reputação em atos ilícitos e condenáveis devem ser submetidos a rigorosos processos de limpeza, sendo varridos da sociedade. Porém, acredito que o termo lavajato seja mais adequadamente aplicado a um episódio de corrupção generalizada em que se faça necessário uma acelerada ação de erradicação da sujeira de nosso Estado. Acredito que no presente caso, devamos escolher um nome como “Operação Blitz Surpresa” para simbolizar a agilidade com que surpreendemos os criminosos.

Diversos promotores também gostariam da eloquência da exposição da doutora. As opiniões se dividiriam até que mais um dos presentes poderia sugerir, “por uma questão de coerência que deve marcar uma entidade como o MP-RN”, seguir com a tendência iniciada na “Operação Pecado Capital” de batizar as operações com títulos de canções de Paulinho da Viola.

– Percebam os senhores que seria uma bela homenagem ao sambista. Daríamos a ele a oportunidade de associar seu nome ao da promoção da justiça contra os inimigos do povo e da lei.

Neste ponto, imagino uma ovação. A sala da promotoria seria pequena para tantos aplausos. Os geralmente contidos, sérios e discretos promotores de justiça seriam só sorrisos pela excelente ideia do colega. De pé, fariam questão de cumprimentá-lo por tamanha felicidade no batismo da operação. Antes de encerrar a reunião, porém, o promotor que a convocou, na condição de presidente da mesa, poderia haver sugerido que já criassem nomes para os próximos escândalos, aproveitando o fato que teriam estabelecido um critério.

Os promotores teriam decidido que as próximas operações levariam nomes como “Caso Encerrado”, “Novos Rumo” e “Tudo se transformou”. Pelo que consta, os únicos que não gostaram dos nomes das operações foram os réus. Talvez porque sejam ruins da cabeça. Ou quem sabe, doentes do pé.

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