Coluna do Novo Jornal – 067 – O homem que não falava Carnatalês! – 03.12.2011

Um clássico revisitado.

Divirtam-se, jovens!

***

O homem que não falava Carnatalês!

NÃO! Não vou pegar uma latinha e bater uma na outra! Não quero! Muito obrigado. Também não vou chupar toda e manivela pra mim é uma engrenagem e não uma dança. Gramaticalmente, eu vos digo: o que arria, arria. Não arreia! Piuí, piuí, piuí, tira a mão do meu ombro. Maria Joaquina de Amaral Pereira Góis não contribói com porcaria nenhuma! No máximo, ela contribuiria com alguma coisa, mas acreditem, não é o caso.

Vou me apresentar. Eu sou o deslocado, aquele que está no lugar errado e na hora errada, o corpo estranho, o último natalense que não vai passar pelo corredor da folia, nem assistir de cima a batalha num ostentoso e feliz camarote.

Não vou levantar poeira nem estar presente quando rolar a festa. Não quero presenciar o grandioso espetáculo de exibicionismo social e de conquista primitiva, quando os machos da espécie recuperam suas raízes tribais, utilizando-se inclusive de violência no ritual da corte, empreendido sobre fêmeas em período de cópula. Os milhares de Rômulos Lemos que tentarão seus golpes de sorte com puxavancos de cabelo e chaves de braço nas pobres meninas serão privados de minha companhia. Os políticos e empresários denunciados nos inúmeros inquéritos que desbaratam graves esquemas de corrupção nos últimos meses terão um cidadão a menos para direcionarem seus acenos e sorrisos de Coringa. Eles que se estivessem numa lancha em meio a parrachos, lavariam os pés com uísque sem a menor cerimônia.

Vou perder o fenômeno da sociedade conservadora e preconceituosa que se despe de seus valores arcaicos durante três dias, se desempacota e vive um breve e alegre período libertino para, na segunda-feira seguinte, se empacotar novamente e vestir sua máscara de hipocrisia e podre tradição. Não vou chorar, não vou me arrepender. Quero olhar fundo nos olhos do meu netinho e dizer que não chafurdei feito um rato nos escombros, dançando e zombando sobre o cadáver do que um dia foi o Machadão.

Sou praieiro, fui solteiro e lembro do Cid Guerreiro, mas mesmo adorando cerveja e coco, prefiro consumi-los separadamente e ao som de canções outras que não estas. Porque, em cima do trio, não quero ouvir um pio. Se você era feio e agora tem um carro, se você me pede lapada na rachada ou se Chico bateu no seu bode, parabéns. Sua vida deve ser muito estimulante, mas eu de minha parte, rogo: me leva… pra bem longe daqui.

Vou para o exílio! Serei refugiado de um país remoto, onde não se fale esse idioma obrigatório. Uma nação que, pelo menos no próximo fim de semana, não seja colônia da Bahia, que não considere Salvador a capital de um reino. Tenho que fugir. Vou embora daqui! Fico ridículo de abadá. Saio e só volto quando a sociedade se empacotar novamente, quando essa cidade for um lugar mais ou menos seguro outra vez. Quero emergir no obscurantismo e só vir à tona quando pudermos respirar em paz sem ser sufocados por refrões opressores.

Sei do tamanho de minha renúncia. Entendo que abro mão de toda a devassidão de ocasião, da atmosfera libidinosa, do sexo, das drogas, da alegria inconsciente, inconsequente e sem sentido que fizeram desse país o que ele é hoje! Por isso, se eu ficar, não me deixem cairem tentação. Queeu não ouça o canto da sereia das belas natalenses em flor, oferecendo-se ao som de cânticos odiosos, verdadeiros mantras impregnados de vogais: “aê-aê-aê, eô-eô-eô”! NÃO! Se eu fraquejar me amarrem, mas não num cordão de isolamento. Internem-me, mas não na colônia pinel. Não quero ser um burro elétrico, correndo atrás do trio. Vou fugir dessa cidade. Comigo ninguém pode e eu odeio mamãe sacode!

Avisa lá que eu vou pra algum lugar onde eu não precise me comportar como um zumbi, participando de toda aquela alucinação coletiva engendrada por alguns poucos para os muitos que pipocam. A política do circo sem nenhum pão. Não, não quero ser um zumbi. Quero sair para ver e curtir o que gosto. Quero sentir-me vivo, com sangue correndo nas veias, ouvindo música que me agrade. Porque atrás do trio elétrico, amigo, só vai quem já morreu.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 067 – O homem que não falava Carnatalês! – 03.12.2011”

  1. Araceli Says:

    Olá, Carlos,

    Boa lembrança, porque o carnaval já está aí, acolá…tem gente que não come, não dorme, só vive para o carnaval!

    Nada contra, até que gosto também.

    Só que o mundo não gira em torno disso!

    Abraço,

    Araceli

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