Coluna do Novo Jornal – 071 – A cidade da piada pronta – 31.12.2011

HAHAHA-BUÁBUÁBUÁ!

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A cidade da piada pronta – uma retrospectiva

Joãozinho é um astro. Famoso pelas inúmeras piadas que povoam nosso imaginário coletivo desde que nos entendemos por gente. Por isso, na hora de escolher uma cidade para morar, decidiu por um lugar em que as pessoas estivessem sempre se deparando com situações absurdas e inusitadas como nas mais cômicas anedotas de salão. Natal foi o destino de Joãozinho, aonde ele veio dar com os costados, com duplo sentido, como é de se esperar de qualquer história que envolva o pequeno João.

Mal começou o ano para o rapazinho gaiato e espirituoso conhecer o grande hit do verão: “Eu era feio, agora eu tenho carro”. Naqueles meses germinais do ano que se encerra também curtíamos ávidos e ensandecidos o sucesso viral “Vou não. Posso não. Minha mulher não deixa não.”

Muito provavelmente eram essas as músicas que Joãozinho ouviu em altíssimos decibéis emanarem de uma moderna embarcação que infernizava os parrachos de Pirangi, munida de um imponente e diabólico paredão de som. Um aloprado advogado com importante cargo no governo ostentava histericamente toda a sua prosperidade econômica e respondia com insultos e palavrões todos que o abordavam, rogando que reduzisse o volume de suas poderosas caixas de som.

O impacto ambiental provocado pelo ruído da lancha do idiota e pelos resíduos jogados no mar (Joãozinho percebeu que toda sorte de lixo como restos de comida e latas de cerveja era despejada no oceano) é incalculável. Entre um conjunto de notas medonhas e outro, o dono da lancha, um ex-Zé-Ninguém que enriquecera da noite pro dia, promovia uma cerimônia de lava-pés, utilizando uísque Old Parr legítimo, zombando de mim, de vocês e de todos que tiveram o dinheiro dos seus impostos roubados para que ele aprontasse aquele espetáculo decrépito, aquela ópera bufa, com a sensação de que agora não era mais uma nulidade. Posso até ouvi-lo entoar: “eu era feio. Agora tenho uma lancha”. Joãozinho achava graça daquilo.

Porém, toda a zombaria do ridículo protagonista da história não durou muito. Foi preso junto com sua mãe, irmão e mais uma turma boa. Sua história não acabou em pizza (ainda). Se acabar, certamente vai saboreá-la numa casa de massas do terceiro piso de um shopping local, empreendimento que abriu para lavar o dinheiro que ganhava ilicitamente. Pelo visto, não eram só os pés que o rapaz gostava de lavar. A foto do jovem sendo preso, esforçando-se inutilmente para cobrir o rosto contrastava com todo o exibicionismo de meses antes a bordo de sua lancha. É uma bela imagem. As gravações telefônicas em que ele diz a um comparsa amenidades como: “Esse delegado é um galado! A gente tomou foi no c* agora!” soam tão bem aos meus ouvidos quanto as suingueiras/axés/pagodes tocadas em suas caixas de som náuticas deveriam soar aos dele. Nessa história, Joãozinho riu por último.

Vejam que coincidência formidável. Parece piada, mas o tal advogado do Old Parr não era o único homem da lei a aprontar das suas. Um dos seus colegas de faculdade, que havia se formado junto com ele, liderava um dos esquemas mais ardilosos de que se tem notícia em nosso Estado. Ele desejava instaurar no RN a inspeção veicular obrigatória e pensou em tudo. Foi redigida uma lei, aprovada pelas autoridades competentes, criada uma licitação que foi ganha por uma empresa também forjada especialmente para a ocasião (da qual ele era sócio junto com diversos políticos) e elaborado um plano de negócios a longuíssimo prazo, prevendo dividendos de uns 2 bilhões nos próximos 20 anos. Estava tudo certo, combinaram com todo mundo… menos com o Ministério Público. A casa caiu, os réus foram sendo mostrados um a um: ex-governadores, suplente de senador, empresário da construção civil. Só menino besta e garota safada. Eles esperavam rir à toa com as engrenagens todas em funcionamento, mas Joãozinho notou que todos ficaram com as caras mais fechadas que furico de sapo ao ter que justificar as denúncias na imprensa. Teve um que até passou mal, foi internado no hospital, mas teve alta milagrosa no mesmo dia em que um advogado o livrou da prisão preventiva. Joãozinho vai rindo disso tudo, aquele peste.

Este ano também fomos destaque em rede nacional, me lembrou Joãozinho. Tivemos o bravo baladeiro que quebrou o braço de uma garota em 2 lugares numa abordagem pouco galante, nossos policiais comendo suas bolas em batidas filmadas pelo Fantástico, a merenda escolar municipal com validade vencida, o roubo da corrente do presidente do América. Imagens que correram o mundo e que levaram entretenimento a milhões de internautas ligados neste reality show que é a nossa terra Natal.

Uma anedota que animou o Jet set local se passava durante uma partida de pôquer, realizada no apartamento de um Deputado dado a cultivar valores frívolos, em que um empresário perdeu 1 milhão de Reais apostando com um profissional do carteado. A partida foi narrada em muitas versões nas inúmeras rodinhas de conversa  espalhadas pelo Plano Palumbo. Pra mim, o mais tragicômico foi ter se passado na residência de alguém que deveria se preocupar com outras prioridades, afinal, o povo potiguar tem muito mais em jogo.

Realmente, foi um ano movimentado, mas a maior protagonista de episódios atrapalhados foi ninguém menos que a chefe do executivo municipal. Depois de promover na vida pública o que todos nós fazemos na privada, a alcaidessa nos brindou com a maior de todas as piadas prontas. Virou promoter da banda evangélica “Diante do Trono”, financiando a gravação do DVD do grupo, utilizando R$ 250 mil (mais do que a verba do Fundo de Cultura de 2010). Essa, nem os blogueiros e tuiteiros comissionados conseguiram explicar a contento. Até Joãozinho ficou chocado.

Enfim, se continuarmos assim em 2012, vamos desbancar Fortaleza como a capital brasileira do humor. Joãozinho já pensa em morar aqui pra sempre. O problema é que, na boa, mesmo diante desse festival de piadas infames, não vejo motivos para rir. Só se for pra não chorar.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 071 – A cidade da piada pronta – 31.12.2011”

  1. Mayara Says:

    Fialho, nessa crônica acredito que você perdeu um pouco de seu poder de inventividade. Quase “dando nome aos bois”, ficaram claras e muito diretas as críticas a mais um fato da corrupção política no estado do RN. O que há de mais genial na produção do cronista, por exemplo, é o modo como ele vela os nomes e atos dos corruptos e consegue acender para fatos comuns não só a cidade do Natal, como de qualquer cidade do Brasil e até mesmo do mundo. Grande exemplo disso, é a obra “Os Bruzundangas” de Lima Barreto, que é composta por um conjunto de crônicas que fazem referência ao seu contexto de produção, a república, mas que se lido hoje, poderemos facilmente estabelecer relações com as peripécias dos políticos atuais.
    Parabéns, pelos excelentes textos.

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