Coluna do Novo Jornal – 072 – Top 5 Literatura 2011 – 07.01.2012

No início de 2012, como em outros anos, fiz uma retrospectiva das melhores leituras de 2011.

Boa(s) leitura(s).

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Top 5 Literatura 2011

Todo o fim de ano (pelo menos, quando lembro) faço uma lista dos 5 melhores livros que li nos 12 meses anteriores e compartilho com os amigos e leitores. Logo abaixo, seguem os 5 eleitos de 2011. Recomendo.

 

Tanto faz – Reinaldo Moraes

Há muito ouvia falar do verborrágico romance de Reinaldo Moraes, contando as peripécias europeias do seu dândi protagonista, Ricardo de Mello, o Ricardinho, que vai a Paris cursar uma pós-graduação em farra, bebedeira e sacanagem. Lançado pela primeira vez em 1981, agora foi relançado, 30 anos depois, pelo nascente selo “Má Companhia” da “Cia das Letras”. Em face dos temas abordados, fica difícil de acreditar que alguém consiga desenvolver uma história assim com o mínimo de elegância e estilo. Pois bem, é exatamente aí que reside o grande mérito desta obra, considerada um clássico da contracultura brasileira dos anos 1980. Reinaldo beira à genialidade ao conseguir provocar o mais genuíno encantamento nos leitores, mesmo com as páginas embebidas em álcool e toda sorte de entorpecentes, impregnadas de sexo, sujas de vômito e embaladas em insistente vagabundagem.

Alguns trechos do texto são antológicos, como os que Ricardinho, aspirante a escritor que tenta escrever um romance a partir do oportuno exílio voluntário na capital francesa, discorre sobre a atividade a que tenta se dedicar: “Escritor é um bicho essencialmente vaidoso. Se não, não seria escritor. Escritor prefere ser amado a ser entendido. Daí o primado do estilo sobre o conteúdo. Ou pior: do estilo como conteúdo.” Em outro momento, ele conclui: “Acho que a gente (que escreve) só conquista um estilo próprio quando começa a ser influenciado por si mesmo.”

A verdade é que o protagonista não consegue avançar muito com seu livro em razão de passar metade do tempo se drogando e a outra metade comendo (ou tentando comer) alguém. O que ele produz bastante são reflexões acerca do comportamento humano, das relações homem-mulher e das suaves artimanhas do flerte: “Sylvana é das companhias solitárias, jogo rápido. Ninguém passa muito tempo esquentando seus lençóis.” ou “Era um marmanjo manjado e manjador, feliz proprietário de uma carcaça enxuta de trintanos e de uma charmosa simpatia transoceânica. Enrubesceu feito um adolescente pilhado em flagrante e delito de ser boa pinta.” Em uma de suas antológicas tiradas, o narrador se sai com essa: “Brasileiro só aceita a solidão na privada ou no caixão.”

Confesso que, para um grifador e anotador compulsivo como eu, vencer as páginas de “Tanto faz” tornou-se uma tarefa mais lenta que o habitual, muitas eram as paradas que eu impunha à leitura para tomar nota das inúmeras frases dignas de registro. No entanto, até que o vagar prolongou esta sensação tão prazerosa. Faz-se mais do que justo que eu inicie esta listagem pelo mais assanhado de 2011, um livro que, ao contrário do que sugere o título, não vai deixar nenhum leitor indiferente a sua leitura.

 

Diário da queda – Michel Laub

Um dia, no Twitter, um amigo indicou este livro. Fiquei curioso. Havia terminado outra leitura e estava buscando o próximo. Resolvi seguir a indicação genérica e comprar o recém lançado quinto romance do gaúcho Michel Laub. Foi assim que me deparei com um dos mais inspiradores textos do ano que passou, sobretudo para um aspirante a romancista como eu. O narrador conta a história de um garoto judeu de Porto Alegre cuja vida foi profundamente marcada pela relação fria com o pai e os traumas do avô, um sobrevivente de Auschwitz, e que um dia passa por uma experiência que mudará toda a sua existência dali em diante.

A partir de uma brincadeira de mau gosto contra o único menino não-judeu do colégio hebraico onde estuda, o rapaz vê todas as suas convicções ruírem de súbito. Todos os ensinamentos passados pelo pai (obcecado pelo antissemitismo) e pelo avô tornam-se frágeis diante da inversão de papéis entre opressores e oprimidos que o fatídico episódio provoca em seu entendimento.

“Diário da queda” está em quase todas as listas de melhores do ano a que tive acesso até agora. A primorosa narrativa sobre a vida de um homem, sua família, sua trajetória e como as escolhas que este protagonista fez desde a infância o conduziram a ser o adulto que se tornou deverá arrebanhar boa parte dos prêmios literários no próximo ano. Uma das razões para que este livro nos provoque tão profunda impressão é o fato de ele abordar aspectos cotidianos, presentes na vida de qualquer um de nós, humanos de diferentes berços. Michel aborda traumas de infância, inseguranças arraigadas e como as atitudes do pai (ou mesmo as experiências do avô em Auschiwitz) formaram a complexa equação de uma personalidade. Livraço!

 

O passageiro do fim do dia – Rubens Figueiredo

Este foi mais um livro que me encantou em 2011. É mais que uma simples história narrada na terceira pessoa. É um exemplo nítido dos recursos infinitos que a imaginação concede ao escritor para que este crie uma grande história a partir de qualquer situação, por mais singela que a descrição faça parecer.

 

“O passageiro do fim do dia” fala de uma viagem de ônibus de poucas horas. O transporte parte da região central de uma grande cidade em direção ao subúrbio no qual vive a namorada do protagonista. No caminho, o protagonista, repetidamente descrito como “um distraído”, vai tendo sua história de vida contada a partir de elementos que surgem pelo caminho de uma maneira que conduz o leitor a uma análise crítica das condições de vida das classes menos favorecidas, dos suburbanos e das relações gerais entre opressores e oprimidos. Venceu os prêmios São Paulo de Literatura e o Portugal Telecom.

 

Chabadabadá – Xico Sá

Xico Sá é um sábio escriba do Crato que ganhou o mundo e se tornou cidadão de tantas paragens quantas já tiveram a honra de sua presença. Neste livro de agudas crônicas nos propõe discutir o papel do homem e da mulher numa nova configuração social que já está dando demais na vista. Os medos, as inseguranças, a coragem delas (e a incapacidade deles) de chorar em público, de dizer “eu te amo”, de comprometer-se.  Em suas inúmeras elucubrações, devaneios mil, Xico tenta realizar feitos de Hércules, impossíveis, como o de tentar decifrar os enigmas da mulher. Não chega a muitas conclusões, além do confessado fascínio e reiterada paixão, mas solta uma pérola dos gêneros: “homem é vírgula, mas mulher é ponto final.” O livro é composto de dezenas de pílulas de sapiência ofertadas por este sertanejo cosmopolita, filósofo cearense, oráculo de edificantes e alcoólicas noites, lembrando-nos que “se a vida dói, uísque caubói.”

 

Toda terça – Carola Savedra

Recebi este romance de presente da minha tia Carminha. Ou seja, um livro de procedência inquestionável, uma vez que minha tia é ótima leitora. A autora construiu com incrível habilidade e delicadeza uma história narrada por 3 pessoas distintas, envolvendo-nos em finas tramas de escrita sutil que vão nos empolgando cada vez mais à medida em que os pequenos segredos vão se revelando aos nossos olhos de leitor. Mais não conto, pois posso acabar estragando aspectos decisivos da narrativa. Contudo, completo minha lista de Top 5 Literatura com “Toda terça”, honraria que poderia ter sido dada a “Nunca vai embora” de Chico Mattoso. O páreo foi duro, a escolha difícil. Mas agora, já está feita. Quem estiver à procura de boas leituras para iniciar bem 2012, estas são minhas dicas.

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