Coluna do Novo Jornal – 075 – Ainda somos os mesmos – 28.01.2012

Choque de gerações. Sempre vai rolar.

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Ainda somos os mesmos

Há pouco mais de uma semana, o jornalista e apresentador do Jornal do SBT, Carlos Nascimento, trouxe novamente à tona, uma discussão milenar ao dar um breve chilique em forma de arremedo de lição de moral em todos nós, graças a dois assuntos muito comentados pelo Brasil, especialmente em redes sociais alimentadas pela classe média. O primeiro foi um episódio ocorrido no Big Brother global em que alguns acusam um participante de estupro por não ter cessado as carícias sensuais mesmo após sua parceira ter adormecido. O segundo assunto foi uma expressão simples e sem efeito, brincadeira inocente e praticamente inofensiva que logo se tornou uma tremenda piada interna de abrangência nacional: “menos a Luíza que está no Canadá”.

Esta breve sequência de palavras, inexplicavelmente, tornou-se um sucesso imediato, incontrolável, pautando de mesas de bar a redações de jornal, indistintamente, sem falar nos sites Facebook e Twitter. O caso converteu-se num fenômeno viral ou, mais especificamente num meme, gíria criada para denominar tudo o que é repetido à exaustão no mundo virtual, com pequenas variações ou não. Recentemente, vivenciamos alguns memes bastante disseminados. A entrevista da atriz Cristiane Torloni embriagada no Rock in Rio, na qual disse a frase “Hoje é dia de rock, bebê.” multiplicou-se na grande rede em inúmeras reproduções. Outro episódio que bombou em 2011 foi o vídeo da travesti Luíza Marilac que, ao mergulhar numa piscina, declara: “e ainda teve gente dizendo que eu estava na pior. Se isso é estar na pior, POAHÃM!, que quer dizer ‘tá bem’, né?” Musicalmente, posso lembrar de 3 grandes memes sem muito esforço: “Pôneis malditos”, “A banda mais bonita da cidade” e “Vou não, posso não, minha mulher não deixa não”.

Ou seja, apesar da nova denominação e do verniz tecnológico, estas ocorrências virais nada mais são do que expressões que caíram na boca do povo, presentes desde sempre em nosso cotidiano. Quem não se lembra dos que a publicidade gerou antes da Luíza? “O primeiro sutiã a gente nunca esquece” ou “Não basta ser pai. Tem que participar.” Sem falar nas inúmeras expressões surgidas na TV, cinema ou música.

Por tudo isso, considero totalmente despropositada a indignação de Carlos Nascimento. Um desabafo tão sem sentido quanto o sucesso avassalador da própria Luíza. Dizer que as gerações atuais são medíocres porque repercutiram uma piada tão inocente, como se isso também não fosse feito no passado, é exercer o ato de falar sem refletir. O desabafo chiliquento do âncora e sua frase mais marcante (“Já fomos mais inteligentes.”) não me parece nem de longe uma verdade. Dizer que a geração dele é melhor que a minha tomando por base duas bobagens ocasionais é oportunismo barato de quem quer aparecer, se amostrar, em horário nobre.

O problema da mediocridade endêmica que assola o país é um fenômeno que independe de gerações. Somos uma sociedade inteira de novos ricos, que está melhorando de vida sem cuidar da educação, cultura e bons modos. Estamos tendo acesso a um pouquinho mais de dinheiro sem ninguém ter nos dito o que fazer com ele. Compramos Mont Blancs, mas ainda mantemos o hábito de limpar os ouvidos com a tampa da Bic. Criticamos os jogadores de futebol por enriquecerem da noite pro dia sem terem a devida estrutura para suportar a pressão e não enxergamos no espelho que o Brasil inteiro é um pouco o jogador de futebol que chegou lá. Nós, os filhos, estamos aqui fazendo um monte de merda porque foi isso que aprendemos com as gerações anteriores. Somos a sociedade da falta do respeito ao próximo, do “levar vantagem em tudo”, do culto da forma sem conteúdo porque foi esse o exemplo que nos foi legado.

Outra questão é que esse embate de gerações é mais antigo do que se possa supor. Corta para a 1ª metade dos anos 1990, Canecão (RJ) lotado para um show da Legião Urbana. Renato Russo anuncia que a próxima canção seria uma das favoritas dos fãs: “Faroeste caboclo”. Ante a calorosa reação da platéia, o vocalista de tendências messiânicas, passou uma mensagem a todos ali: “Lembrem-se, as drogas fazem você virar os seus pais.” Delírio geral na casa de shows. Aparentemente, os jovens ali presentes se identificaram com a ironia contida na frase do líder da Legião Urbana.

Este episódio retrata um pouco que o sentimento de Carlos Nascimento com a geração atual também costuma encontrar reciprocidade entre a juventude. Os mais novos estão sempre dispostos a renegar seus progenitores e vice-versa. É uma relação eternamente conflituosa, mas como muito bem cantou Roger, do Ultraje a Rigor, outro ícone do Rock Nacional: “Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar?”

Para mim, a maior evidência que tive de que o jornalista está errado foi revelada, por acaso, numa roda em que os casais já passavam dos 55 anos e conversavam animadamente num bar qualquer do Plano Palumbo. Ouvi atentamente toda a prosa despejada sobre a mesa e não identifiquei nada de muito aproveitável. Nenhum filme assistido, nenhum livro lido, nenhuma história edificante. Os assuntos giravam em torno das vidas dos outros, limitando-se a personagens da sociedade potiguar que haviam se casado com essa ou aquela pessoa, sido traídos ou traído uma ou outra ex, ocupado tais e quais cargos, possuído este ou aquele bem.

Após tão emblemática noite como agente infiltrado, pude perceber que a mesma geração que acusa meus contemporâneos de um espírito por demais pueril e chegado a uma frivolidade, não se distingue de nós em sua falta de conteúdo. Se a juventude é carnatalesca, roqueira doidona ou disseminadora de memes, a deles é a do “quem comeu quem” e estamos conversados.

Quanto ao jornalista, Carlos Nascimento, que condenou o contágio da sociedade pelos vírus inócuos através do seu showzinho na tela da TV, acabou tendo a declaração reproduzida em escala infinitesimal nas redes sociais e viu seu jargão “já fomos mais inteligentes” se tornar um hit da grande rede, produzindo homenagens e paródias. Moral da história: quem um meme fere, com meme será ferido.

 

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