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Coluna do Novo Jornal – 080 – Foi observando meus grisalhos das têmporas. – 03.03.2012

março 7, 2012

Boa leitura.

Sem mais.

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Foi observando meus grisalhos das têmporas.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que me pus a pensar na finitude de tudo, em como o tempo, esse carrasco, corre solto e desimpedido, impunemente atingindo a todos com o peso dos anos e seus inconfundíveis sinais a nos denunciar. Percebi que o cronômetro que faz a contagem determinante de nossa participação, começou a operar no sentido regressivo, anunciando que cheguei à metade do caminho ou já passei dela e que, a partir de agora, é só descida. Não se sabe muito sobre o trajeto, se o terreno é acidentado, se há buracos na estrada, intempéries no caminho, obstáculos, dificuldades, lombadas demais, curvas sinuosas, desvios inesperados, obras na pista, poucas retas, trechos acidentados, motoristas embriagados. Não sei. Não disseram. O quão sofrido será, não está claro. Mas os reluzentes fios brancos laterais anunciam a brevidade do porvir. Seja como for, passará voando.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que me dei conta de tudo o quanto não percebi enquanto ainda era tempo de fazê-lo. Os tiranos pelos descoloridos passam um recado claro como eles próprios. Por hora, são poucos, despontando em ambas as laterais da cabeça, mas em breve serão mais. Eles inquirem se prestei suficiente atenção no que realmente importava, nos momentos de serena alegria, se valorizei, como devia, as boas companhias, se ouvi aquele conselho de amigo como se fosse único e especial, se vivi aquele feriado na praia com a intensidade adequada, se curti as conquistas profissionais sem a leniência manifesta em má vontade, se me dediquei o suficiente em ajudar aquela pessoa que precisou de mim. Sei que fui, por mais vezes do que gostaria, envolvido pelo quase insustentável fardo da preguiça. Estive acometido de comodismo crônico e aguda insegurança, que muy frequentemente impediram ações mais ousadas e me mantiveram refém da inércia disfarçada de suposta sensatez.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que parei para avaliar como andam as coisas nessa encenação sem direito a ensaio que insistimos em chamar de vida, essa peça cujo elenco nos vai sendo apresentado já no palco e nunca nos dão a nossa deixa. Será que tem valido a pena participar mesmo sem poder dar contribuições quanto aos demais personagens? E onde estou agora? É “aqui” onde eu gostaria de estar? O que ainda falta para que eu possa chamar de plena essa existência transitória? Será que eu possuo as coisas que preciso? Ou já passei da medida, possuindo tantas coisas que, na verdade, foram elas que passaram a ser donas de mim? E as pessoas que escolheram estar comigo e que, por isso, me fazem feliz? Tenho retribuído à altura, cumprindo minha missão de criar um ambiente de agradável convivência, amizade e amor?

Foi observando meus grisalhos das têmporas que percebi o quanto ainda resta por fazer, quantos trabalhos precisam ser realizados, quais objetivos ainda podem (e devem) ser alcançados. Tantos livros ainda por ler, tantos filmes não vistos, lugares que não vi, músicas que não ouvi, cervejas que não tomei e aquela crônica legal, divertida, espirituosa, crítica e certeira que ainda não escrevi. Haverá tempo, estímulo, oportunidade ou disposição de fazê-lo? Aprenderei a desenhar, jogar bola, tocar violão, editar vídeos, falar chinês, a tabuada, o novo acordo ortográfico (que já caduca sem que eu o domine)? Serei capaz de me tornar um atleta disciplinado a bordo das duas rodas mais lentas da Rota do Sol? Terei o dinamismo exigido, espírito empreendedor e associativo de realizar trabalhos em cinema, teatro, quadrinhos, literatura e publicidade? Continuarei gastando o bico da pena, praticando a máxima de que “gosto tanto de escrever que é capaz de um dia eu aprender?” Serei zeloso e atencioso o bastante com minha família?

Foi observando meus grisalhos das têmporas que vi acender-se um pavio que se consumirá daqui pra frente e que, cada vez mais, se aproximará do fim, explodindo no preciso momento em que tudo terminar pra mim. Haverá mais fios alvos em meio a minha já não tão basta cabeleira, que se encontra em profunda crise existencial revelada pela dúvida entre empalidecer ou cair de vez.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que adentrei por elucubrações tortas e devaneios inconclusos. Os fios, caso devolvessem meu olhar e pudessem falar, diriam: “Daqui pra frente não lhe resta muito tempo. Fica a dica!”

 

Coluna do Novo Jornal – 079 – Pinto e Rêgo Advogados Associados – Grandes casos recentes – 25.02.2012

março 6, 2012

O melhor e mais aclamado escritório de advocacia da cidade nos contou a respeito dos seus mais recentes trabalhos.

Boa leitura.

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Pinto & Rêgo Advogados Associados – Grandes casos recentes.

Alguns leitores mais atentos devem se lembrar do escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” do qual falei em crônica anteriormente. Trata-se da sede onde atuam os mais requisitados defensores da cidade, Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo. Pois bem, desde o ano passado o escritório de tão destacados homens da lei tem recebido diversos novos casos e clientes graças à postura atuante do Ministério Público, especialmente dos workaholics promotores do patrimônio.

Todo esse trabalho extra e os dividendos gerados levaram até mesmo a cogitar-se o envio de um cartão de “Boas Festas” aos promotores, parabenizando pela proatividade e profícuo trabalho, mas tal ideia foi logo abandonada para evitar equívocos de interpretação em relação às reais intenções dos advogados por parte dos promotores.

A razão porquê o renomado escritório “Pinto&Rêgo Advogados Associados” tem sido procurado por diversos novos clientes implicados em denúncias de corrupção é a reputação de bons oradores e excelentes redatores de peças jurídicas que a dupla construiu em anos de atuação na área, além do que, como bons adeptos da consagrada prática jurídica de “falar, falar e não dizer porra nenhuma”, eles levam vantagem sobre outros escritórios, uma vez que conseguem enrolar com pleno êxito juízes, imprensa e opinião pública.

Vejam o caso de um rapaz que os procurou, pobrezinho. Escorraçado de um órgão público por seus conceitos modernos e dinâmicos de administração, está agora sendo acusado de ter subtraído milhões de Reais do erário em benefício próprio, da mãe, irmão e até da namorada. O curioso é que o suposto esquema pareceu se revelar após o jovem ter sido visto lavando os pés com uísque a bordo de uma suntuosa lancha. Escrevi ao escritório para que os advogados pudessem esclarecer a situação de seu cliente. Segue a resposta:

Enquanto triunfarem as injustiças contra os nobres de espírito, haverá uma causa à qual abraçar para que a correta atitude da sociedade para com seus mais proeminentes agentes possa ser aplicada e, desta forma, sejam punidos os ímpios e semeadores de discórdia nestes férteis campos de maldade.

É público e notório que o nosso cliente apresenta largos serviços prestados em benfeitoria desta unidade federativa, seja como profissional respeitador da ordem ou como prestimoso gestor púbico que cedeu sua força de trabalho e bem sucedida experiência no setor privado à esfera pública, vem sofrendo com infundadas acusações embebidas no mortal veneno da inveja.

Acusam-no vulgarmente de usurpar o patrimônio público estadual. Ora, que falácia inclemente! O audacioso gestor nada mais fez do que evitar que a verba percorresse os perigosos e convencionais caminhos, tornando-a menos vulnerável às ações venais de criminosos sempre à espreita de grandes montantes. Ao manejar alguns milhões da conta do órgão que comandava, ele agiu de forma a protegê-los de eventuais pessoas mal intencionadas, transferindo-os para lugares seguros como sua própria conta-corrente, de seus parentes e namorada. Tomando tal medida, de muito boa fé, tencionou manter o dinheiro público longe das garras de gatunos astutos que sabidamente atuam nos órgãos governamentais, salvaguardando as reservas que devem prover o bem estar da população.

O investimento dos recursos em um supermercado, uma pizzaria e uma lancha apenas evidenciam o espírito bondoso de nosso cliente, bem como suas profundas preocupações sociais. O supermercado fornecia produtos alimentares a preços abaixo da tabela para a população carente graças aos subsídios conseguidos. A pizzaria atendia a outra camada da população, menos carente, mas que nem por isso, merecia sofrer discriminação. Já a lancha, ao ser equipada com um potente equipamento de som, pretendia irradiar entretenimento de qualidade a um sem número de conterrâneos dentro e fora d’água. Em nossa abalizada avaliação, se estes não são exemplos do uso justo e democrático do dinheiro público em prol de um numeroso extrato populacional, não sabemos mais que é.

Quanto às insinuações feitas de que o necessário hábito de lavar os pés com uísque mantido por nosso cliente denote um comportamento irresponsável e perdulário, temos o dever de informar que ele padece de um raro fungo que provoca um odor terrível nos seus artelhos inferiores. Para combatê-lo é preciso aplicar no local enzimas eficazes que são encontradas apenas nos mais puros maltes escoceses, promovendo assim uma justa equiparação entre os membros de seu corpo. Afinal, como nosso cliente sempre manteve as mãos limpas, é bom que faça o mesmo com os pés.

Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo “Pinto&Rêgo Advogados Associados

Os argumentos dos dois grandes juristas são mesmo de impressionar o mais indiferente dos cidadãos, tanto é que o réu já está solto, podendo novamente cuidar dos problemas higiênicos de seus pés que só o puro néctar das highlands escocesas pode resolver.

Outro caso recente que muito me comoveu foi a defesa que os mais requisitados advogado da cidade fizeram de um colega que se envolveu mais do que devia em causas ambientais. Vejam vocês que o rapaz sonhava ver o RN  livre da poluição causada pela crescente frota de automóveis. Questionei sobre o episódio e eles prontamente me

responderam:

Muito nos apraz poder defender uma causa tão justa quanto a proteção ao meio-ambiente, algo que faz muitíssimo bem a toda a população de nosso dadivoso Estado. As boas intenções deste nosso cliente são tão certas quanto o ar que respiramos e tão puras quanto uma infante donzela temente a nosso bom Deus misericordioso.

O sonho deste justo homem de ver nossa atmosfera livre de tantas impurezas vem ao encontro da filosofia defendida por este escritório de que uma sociedade mais justa, limpa e transparente é possível. Por isso, e não pelos generosos honorários oferecidos, aceitamos o caso para proteger o pobre rapaz do linchamento popular que vem sofrendo graças à atuação daqueles que preferem ver o meio-ambiente destruído a mexerem ,um pouco que seja ,em suas rotinas, privilégios ou comodidades econômicas.

Pois foram estas pessoas que trabalharam para incriminar nosso cliente e impedir seu tão cuidadosamente elaborado projeto de inspeção veicular, inventando as mais absurdas histórias sobre ele e os seus sócios, pessoas da mais alta estirpe e de absoluta confiança neles depositada pelo próprio povo, já havendo todos prestado grandes serviços ao nosso Estado.

Como amantes da justiça e militantes do verde que somos (verde da natureza e não das notas de 100, que fique claro) trabalhamos bastante para que nosso cliente seja declarado inocente.

Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo “Pinto&Rêgo Advogados Associados

Por fim, pedi ao prestigiado escritório que me ajudasse as razões de mais uma de suas clientes. O caso tem relação com precatórios e tribunais e o esbanjamento da corruptora foi tanto que, ao que parece, ela chegou a ser convidada para o programa “Mulheres Ricas” da Record.

Caríssimo, a senhora em questão tem sido vítima de uma síndrome perversa que costuma afligir as pessoas que percebem alguém próximo ascender socialmente. Este mal provoca desespero e gera acusações falsas como a que seus dois automóveis de 600 mil cada não poderiam ser adquiridos com seu salário de importante funcionária da justiça.

Aliás, toda a história que inventaram a seu respeito, tentando enredá-la numa trama de precatórios e desvio de verba pública é fruto da mais clamorosa calúnia. Estamos convictos de sua inocência e tão resolutos de que sairá ilesa deste pesadelo quanto a fortuna que foi depositada em nossa conta como pagamento de sua defesa.

Giovanni de Sousa Pinto e Adriano Sérgio Rêgo “Pinto&Rêgo Advogados Associados

Após a leitura das mensagens do escritório em resposta a minhas arguições, fica fácil compreender porque os doutores Giovanni e Adriano são os advogados mais procurados da cidade. Não que sejam propriamente os maiores conhecedores das leis, mas certamente são os mais aplicados em descobrir atalhos e artimanhas que livrem seus clientes de maiores complicações. Tanto charme e astúcia encanta os réus mais desesperados e, com certeza, alguns juízes também.

Data máxima vênia.

Coluna do Novo Jornal – 078 – Norberto e Betinha – 18.02.2012

março 5, 2012

Crônica carnavalesca de 2012. Boas risadas, juventude!

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Norberto e Betinha

 

Norberto de Almeida Prado era um distinto senhor. Pai de família exemplar, marido devotado à Dona Laura e um cidadão cumpridor de todas as suas obrigações perante governos e sociedade. Andava sempre bem vestido. Usava terno escuro em eventos noturnos e graves roupas sociais (mesmo que de cores mais amenas) em seus compromissos diurnos. Os filhos afirmavam que nunca o haviam visto de bermuda, shorts ou mesmo de calça jeans. Não frequentava a beira-mar, apesar de ter uma bela casa na praia de Pirangi. Passava o verão no terraço, recebendo importantes visitas de homens de posição no Estado e suas senhoras. Durante sua vida, conquistara o mais profundo respeito de todos em Natal, além de proeminentes autoridades de todo o país. Nunca falava um palavrão para impor suas opiniões. Quando falava, os outros calavam para ouvi-lo. Era um sujeito muito sério, pouco afeito ao humor. Nunca contava uma piada. No máximo, causos verídicos e divertidos que provocavam risadas condescendentes nos ouvintes e satisfeitos sorrisos em si próprio.

Só tinha uma data no ano em que o senhor Norberto mudava o padrão de comportamento. Todos os anos, na segunda-feira de carnaval, vestia-se de mulher e saía no bloco das virgens de Pirangi. Ele não só se caracterizava como mulher em todos os seus pormenores, como também se transfigurava na mais animada das rainhas do carnaval, daquelas de segurar estandarte e sambar de salto alto na avenida. Nesse dia, ele virava a Betinha. Gargalhava, cantava todas as músicas com muita alegria, desde inocentes marchinhas até as suingueiras de duplo sentido, contagiava todos com a sua extroversão e, sempre que encontrava algum conhecido de outros carnavais, cumprimentava efusivamente: “Amooore, que saudaaaaade!”, lascando um beijo na bochecha e deixando uma marca de batom de alguma cor bastante chamativa, tão escandalosa quanto ela.

Suas amigas e amigos de folia achavam que ela morava em outro Estado. Só isso poderia explicar o fato de nunca a encontrarem em Natal durante o ano. Porém, quando a encontravam, a felicidade era tanta que era como se ela sempre estivesse por perto. Os filhos e a mulher encaravam aquele comportamento tão destoante do Norberto, como uma extravagância de ocasião, uma forma de se contrapor à sisudez cotidiana que era parte indissociável de sua personalidade, de botar pra fora toda a alegria represada pelo comportamento sério que ele mostrava à sociedade. Apesar de toda a entrega de corpo e alma com que se deixava levar pela folia de momo, nunca se viu a Betinha aderir à devassidão comum ao período carnavalesco. Muitos homens se apaixonaram perdidamente por ela e, mais de uma vez, tentaram lhe roubar beijos à força, ao que foram recebidos com certeiros socos no nariz. Houve até o caso do Dimas que quase acabou o casamento com a Cida por causa de uma atração louca que sentiu pela Betinha. Acabou o carnaval com dois olhos roxos e choramingando o perdão da mulher.

Todos os anos, quando chegava a segunda-feira, mal o dia amanhecia e ele já se trancava no quarto. Não permitia nem que sua mulher entrasse para não atrapalhar a metamorfose. Cada vez que se vestia de Betinha, ela vinha homenageando alguma figura famosa. Já teve o ano da Carmem Miranda, outro da Marylin Monroe, da Sophia Loren e, mais recentemente, fantasias da Amy Winehouse, Lady Gaga, Ivete e Cláudia Leite. Essa constante atualização também intriga sua família. Seus filhos comentam: “Pô, o pai é tão resistente a modernidades. Faz questão de não saber o nome dos grupos que fazem sucesso. Diz que ator é tudo bicha e atriz é tudo puta. Como é que, no carnaval, ele se veste de mulheres que estão na moda?” E o pior é que não podiam nem perguntar ao Seu Norberto, pois ele não falava sobre esse assunto. Exigia respeito. Também evitavam falar com a mãe sobre a mania estranha do pai porque ela sempre se punha a chorar, como se a Betinha fosse “a outra”. A conclusão possível é que esse anacronismo todo era coisa do Seu Norberto, mas a Betinha não era assim. Ela era super-antenada com o show business, amava de paixão todas as divas da música pop e dizia abertamente que “a-do-raaa-va” prestar homenagens.

Quando o Seu Norberto saía do quarto, todo trabalhado na caracterização da Betinha, homenageando alguma diva, conversava bastante com a família, mas todos se mostravam arredios. A Dona Laura nunca ficava. Refugiava-se na casa de uma irmã. Os filhos nunca deixaram de se chocar com aquela situação. Evitavam receber amigos na segunda de carnaval e, se ficassem em casa, eram monossilábicos com , er, o pai.

Em 2012, porém, o Senhor Norberto surpreendeu a família. Não quis esperar a segunda-feira para se vestir de mulher. Já na sexta à noite marcou uma reunião na sala da casa de praia. Quando apareceu, todos ficaram boquiabertos. A Dona Laura e 3 dos 5 filhos fizeram menção de ir embora, mas ele, com a voz do Seu Norberto, ordenou enfático: “FIQUEM!” A Betinha estava na dúvida se deveria se vestir de Maria Gadu ou Penélope Cruz, mas devido à seriedade da conversa que teria com os seus, vestiu-se de presidente Dilma.

Sem maiores rodeios, declarou que a partir daquele dia não usaria mais roupas masculinas. Também não se esconderia por trás da identidade da Betinha, uma invenção que servia para justificar seu fascínio pelas vestimentas femininas. O senhor Norberto, que usava um sóbrio vestido vermelho na altura dos joelhos e um penteado igual ao da líder da nação, declarou que sempre fora apaixonado pelo mundo da moda. Comprava secretamente revistas específicas e passava o ano todo pensando e preparando a indumentária que a Betinha usaria no carnaval. Este ano, no entanto, ele se cansara. Resolveu assumir que não existe Betinha nenhuma e que é ele, o Seu Norberto, que gosta de se vestir de mulher. Se eles quisessem aceitá-lo daquele jeito, ótimo. Caso não quisessem mais conviver com ele, entenderia. Afirmou que doaria todo o seu guarda-roupa para uma instituição de caridade e que formaria um grupo de “cross-dressers” composto por homens que, como ele, sofram da mesma angústia de querer vestir-se de mulher, mas não poder em virtude da incompreensão da sociedade.

Este ano, o Bloco das Virgens de Pirangi sofreria um sério desfalque. A Betinha, pela primeira vez em décadas, não cairia no samba. Quem iria em seu lugar seria o Seu Norberto vestido de mulher e acompanhado de toda a família. Certamente, seria um choque também para o pessoal do bloco. Os filhos entraram na brincadeira e vão fantasiados de Restart que é quase como se fossem de mulheres. A Dona Laura resignou-se e resolveu ficar com o marido. Afinal, era tão bem casada nesses anos todos. Quando alguma amiga vinha perguntar qualquer coisa a respeito da situação inusitada, respondia: “Pelo menos, ele nunca deixou faltar nada em casa”.

E segue a vida. Bom carnaval pra todo mundo.

Coluna do Novo Jornal – 077 – Tempos de histeria – 11.02.2012

março 2, 2012

Povo véi histérico! Nããã!

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Tempos de histeria

Estamos vivendo uma época estranha. Todo cuidado é pouco. As vozes se levantam, sobem de tom e exigem de nós uma posição definitiva com relação a tudo para, logo em seguida, nos julgar e classificar de acordo com as convenções bipolares contemporâneas.

Se a artista se indispõe com a polícia, é preciso escolher um lado e sustentar posição firme. Se você acha que a polícia não tem o direito de agredir os cidadãos e que a função dela é proteger a sociedade, você é um hipócrita que denigre a imagem da corporação e dos valorosos policiais, além de um simpatizante da contravenção e do Estado anárquico, mas a quem vai recorrer quando for vítima de um assalto? E se você achar que a artista se excedeu? Se disser que ela se deixou levar pela emoção, impulsionada pelo calor do momento, e falou de uma maneira mais ríspida do que deveria, contribuindo com o clima de confronto? Aí, você é um reaça, uma aberração anacrônica inclinada a injustiças, conservador amante da estratificação social e da desigualdade tal e qual ela está, tendendo sempre ao autoritarismo e à prática do esmagamento deliberado dos menos favorecidos. Mas se você pondera: ambos podem estar errados? Não. Neste mundo em que vivemos, ou alguém está 100% certo ou completamente equivocado.

Se o programa de TV cultua valores frívolos e, a guisa de entretenimento, promovendo mostras explícitas de touperice que apenas espelham nossa inculta e bela nação, às pessoas não lhes basta dividir-se entre as que assistem ou não o programa. É preciso odiar ou acompanhar apaixonadamente a “trama” do “show”. Se você está entre os que odeiam, deve proclamar seus sentimentos de ojeriza aos 4 cantos com toda a intensidade, compartilhando em redes sociais a maneira rasa com que o programa tenta distrair e anestesiar a mente da população, argumentando de forma raivosa como aquela degradação televisiva atrofia o cérebro do país e impede o povo de raciocinar ou de desenvolver seu senso crítico. Ressaltam como numa sociedade tão vulnerável como a nossa, uma atração como esta na TV promove a permanência de uma grande camada da população fora do centro de tomada de decisões importantes, mantendo-a como massa a ser manobrada de políticos e conglomerados empresariais ou midiáticos. Também denunciam que tudo isso faz parte da estratégia de manter o povão eternamente como gado a ser tangido, numa relação de pura e simples submissão.

O que os delatores não percebem é que seu ódio dirigido ao BBB, seus memes compartilhados no Facebook, suas frases desabonadoras no Twitter e suas participações em acalorados debates públicos em mesas de bar produzem justamente o efeito contrário do que esperam. Em vez de reduzir a audiência e a repercussão do programa, eles estão aumentando o seu alcance e abrangência.

Se todos que odeiam o Big Brother simplesmente o ignorassem, evitassem falar a seu respeito, procurassem não repercutir um suposto caso de estupro ocorrido no ar, seriam muito mais eficazes no que tencionam fazer. Porém, esta não é uma atitude popular em tempos correntes. Nosso comportamento é regido pela extroversão elevada à enésima potência e o silêncio destoa desse padrão moderno comportamento. Por que recorrer ao respeitoso silêncio indiferente se podemos bradar contra os que são distintos de nós nos gostos e opiniões? A serenidade calculada dos que podem vencer pela resistência pacífica, simplesmente fazendo sua parte para a construção de um Brasil melhor, mais culto e menos afeito aos Big-brothers da vida não estão em voga. Prefere-se o escândalo e o embate maniqueísta e quase bélico dos contrários. Nessa disputa, não vence quem grita mais alto. Perdemos todos nós.

No futebol, a histeria é uma antiga prática ancestral, assimilada já há algumas décadas. A dualidade dos que são contra ou a favor desta ou daquela agremiação reside na natureza da disputa desportiva. Porém, o que vimos nas últimas décadas do século XX na Inglaterra , leste europeu, Argentina e grandes centros brasileiros foi a ascensão de grupos de torcedores extremamente violentos dispostos a massacrar os adversários e, infelizmente, não apenas no sentido figurado do jogo como metáfora da vida. Foi uma espécie de retorno aos tempos em que os velhos clãs britânicos, por meio de um comportamento tribal, prevaleciam sobre os demais em épicas e cruéis batalhas.

De uns 10 anos pra cá, este modelo de “torcedores” construído a partir dos “hooligans” ingleses, “Barra Bravas” argentinos ou os marginais uniformizados do sudeste brasileiro chegou a Natal. Diversas rixas de quadrilhas juvenis natalenses migraram das periferias da capital para outro campo propício: o futebolístico. A violência de gangues ganhou as cores dos 2 maiores clubes do Estado e tem transformado os clássicos em programas impróprios para famílias ou torcedores comuns. O que se vê num América X ABC hoje em dia são duas hordas de jovens ávidos por matar os inimigos. Sejam os de vermelho e branco ou os de branco e preto, o que importa é bater e humilhar os antagonistas pelo simples motivo de eles preferirem outra equipe.

Tal lógica prevalece pelos mesmos motivos que os exemplos citados anteriormente nesta mesma coluna. Vivemos tempos de extremos. Uma escandalosa época na qual devemos disfarçar nossas naturais limitações ou falta de razão, utilizando o torpe expediente de gritar mais alto que os nossos antagonistas. Já que a lógica nos abandonou, é justo e legítimo recorrer à mais tradicional das maneiras de nos impor: a força. Se isso gera alguns efeitos colaterais como violência, intolerância e ódio deliberado, não há problema algum. É o preço a se pagar por vivermos em sociedade nos dias de hoje.

A impressão que me dá é a de que tais atitudes explícitas e excessivamente intensas com relação ao convívio social ou às opiniões alheias são fruto de resquícios autoritários, de um conservadorismo atroz, de uma intolerância predatória que emana de ambos os lados, seja qual for a causa, esvaziando os debates e lhes conduzindo ao escuro túnel da estupidez.

Que consigamos a serenidade necessária para atravessar ilesos tempos tão difíceis, que tenhamos calma para conviver e que saibamos semear respeito e compreensão nesse terreno minado cercado de seres humanos que chamamos de cotidiano. Torço por tempos mais amenos e não tão histéricos, por mais tranquilidade e menos escândalos a troco de nada, por mais educação (essa vacina infalível contra a tibieza da zoada sem sentido), por menos ignorância (essa estufa onde germinam as sementes do preconceito).

Enfim, que avancemos, passemos de fase, sobrevivamos.

Coluna do Novo Jornal – 076 – O leitor da P&C – 04.02.2012

março 1, 2012

Gostei dessa. Espero que vocês também gostem.

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O leitor da P&C

Todos nós somos peças de uma enorme engrenagem. A nossa função é comparecer a locais públicos, clareiras existenciais, enormes espaços abertos de consciência coletiva onde nos exibimos para sermos cuidadosamente observados pelos instrumentos de opressão e controle social. Para não ficarmos parados numa sufocante vigília do nada que poderia afastar os espíritos mais inquietos, somos orientados a nos movermos constantemente, em filas indianas, conduzindo numeroso contingente humano num fluxo e refluxo de pessoas, seguindo verdadeiras correntes marítimas de atitudes e pensamentos aprovados pelos que nos observam do alto. Dessa forma organizada a sociedade nos transforma em indivíduos úteis aos seus propósitos. A essa eterna peregrinação cíclica e vigiada de perto pelas autoridades damos o nome de rotina.

Vez por outra, nos sentimos desnoretados pela incessante repetição e buscamos fugas eventuais que se equipara à atitude sub-reptícia dos mamíferos marinhos de vir à tona para respirar. Há ainda a possibilidade de agregarmos ao dia-a-dia, refúgios particulares que servem para nos fornecer o fôlego necessário para a árdua tarefa de todo dia fazer tudo sempre igual. Tais refúgios são como recantos secretos onde reabastecemos e passamos óleo nas articulações a fim de aguentarmos o tranco da rotina, dos espaços abertos, das correntes circulares, da memetização da vida.

Para mim, um desses refúgios é a padaria perto de casa, aonde passo todos os dias para tomar um espresso capaz de conectar os circuitos de energia e, a partir de descargas elétricas nas sinapses neuronais, canalizar toda a minha força de trabalho em direção às mais diversas realizações. A ida à padaria é uma artimanha, uma pequena fuga, trapaça inofensiva, mas providencial, no percurso diário do cumprimento dos meus deveres sociais. Aproveito para anotar na agenda os compromissos do dia e, quando o tempo permite, leio algumas páginas de algum livro, mais uma concessão que me protege do rotineiro relento.

Um dia, quando eu estava percorrendo alguns parágrafos com o olhar, o homem que servia meu café perguntou: “Você gosta de ler? Eu também. Estou sempre lendo algum livro.” Curioso e intrigado com o fato de um hábito tão enobrecedor fazer parte da rotina daquele homem simples, perguntei o que ele mais gostava de ler: “Gosto de contos e crônicas. Acho massa.” Fiquei animado com a descoberta de um inesperado cúmplice,autor confesso de crime de lesa-ignorância, um transgressor que, oculto entre pães, lanches requintados e xícaras fumegantes, após suas jornadas diárias de atender e servir toda uma infinidade de clientes que acorrem à padaria, recolhe-se a seu próprio refúgio particular, encontrando nas páginas dos livros de contos ou crônicas que lê, o esconderijo perfeito, distante dos olhos curiosos do mundo que o veem com suas retinas de um grande irmão lobotomizado.

O leitor da P&C proporcionou à leitura que aderisse ao seu cotidiano, trazendo livros pra dentro de sua vida, compondo a grande miscelânea de objetos comuns presentes em nosso dia-a-dia, porque os compreendeu como um insubstituível e inestimável fonte de lazer. Ao fazê-lo, seu fascínio foi tamanho que resolveu abrir um sebo no bairro de Mãe Luíza, onde reside, na tentativa de disseminar aos demais todo um mundo que aquelas páginas têm para revelar. Apesar da sua persistência e dedicação, frutos de abnegado entusiasmo, a empreitada mostrou-se pouco promissora e o sebo precisou fechar as portas. Não dava para cultivar orquídeas em terreno desértico. No entanto, sua desistência não é definitiva. Trata-se apenas de um passo atrás estratégico, uma pausa para descanso e, no futuro, com as baterias restabelecidas, seguir em frente com seu projeto de difundir o gosto pela leitura, o prazer de apreender palavras dispostas uma após a outra com coerência e criatividade, à comunidade de Mãe Luíza.

O leitor da P&C, que se chama Jorge, é um símbolo de que podemos sonhar com uma sociedade melhor, mais culta e bem educada. Se um homem adulto de origem humilde, vida simples busca voluntariamente a virtude contida na literatura, o que dizer daqueles que forem estimulados?

Por hora, segue lendo, sempre que o papel de trabalhador dedicado permite, ele se refugia na leitura. Basta a sociedade e os instrumentos de controle e opressão baixarem a guarda, para que ele pratique o hábito que o torna tão distinto da maioria. A leitura nos concede um pouco mais de dignidade nessa existência, por vezes turva, insípida e sem graça. Fujamos, pois. Enquanto houver leitores, haverá esperança.