Coluna do Novo Jornal – 076 – O leitor da P&C – 04.02.2012

Gostei dessa. Espero que vocês também gostem.

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O leitor da P&C

Todos nós somos peças de uma enorme engrenagem. A nossa função é comparecer a locais públicos, clareiras existenciais, enormes espaços abertos de consciência coletiva onde nos exibimos para sermos cuidadosamente observados pelos instrumentos de opressão e controle social. Para não ficarmos parados numa sufocante vigília do nada que poderia afastar os espíritos mais inquietos, somos orientados a nos movermos constantemente, em filas indianas, conduzindo numeroso contingente humano num fluxo e refluxo de pessoas, seguindo verdadeiras correntes marítimas de atitudes e pensamentos aprovados pelos que nos observam do alto. Dessa forma organizada a sociedade nos transforma em indivíduos úteis aos seus propósitos. A essa eterna peregrinação cíclica e vigiada de perto pelas autoridades damos o nome de rotina.

Vez por outra, nos sentimos desnoretados pela incessante repetição e buscamos fugas eventuais que se equipara à atitude sub-reptícia dos mamíferos marinhos de vir à tona para respirar. Há ainda a possibilidade de agregarmos ao dia-a-dia, refúgios particulares que servem para nos fornecer o fôlego necessário para a árdua tarefa de todo dia fazer tudo sempre igual. Tais refúgios são como recantos secretos onde reabastecemos e passamos óleo nas articulações a fim de aguentarmos o tranco da rotina, dos espaços abertos, das correntes circulares, da memetização da vida.

Para mim, um desses refúgios é a padaria perto de casa, aonde passo todos os dias para tomar um espresso capaz de conectar os circuitos de energia e, a partir de descargas elétricas nas sinapses neuronais, canalizar toda a minha força de trabalho em direção às mais diversas realizações. A ida à padaria é uma artimanha, uma pequena fuga, trapaça inofensiva, mas providencial, no percurso diário do cumprimento dos meus deveres sociais. Aproveito para anotar na agenda os compromissos do dia e, quando o tempo permite, leio algumas páginas de algum livro, mais uma concessão que me protege do rotineiro relento.

Um dia, quando eu estava percorrendo alguns parágrafos com o olhar, o homem que servia meu café perguntou: “Você gosta de ler? Eu também. Estou sempre lendo algum livro.” Curioso e intrigado com o fato de um hábito tão enobrecedor fazer parte da rotina daquele homem simples, perguntei o que ele mais gostava de ler: “Gosto de contos e crônicas. Acho massa.” Fiquei animado com a descoberta de um inesperado cúmplice,autor confesso de crime de lesa-ignorância, um transgressor que, oculto entre pães, lanches requintados e xícaras fumegantes, após suas jornadas diárias de atender e servir toda uma infinidade de clientes que acorrem à padaria, recolhe-se a seu próprio refúgio particular, encontrando nas páginas dos livros de contos ou crônicas que lê, o esconderijo perfeito, distante dos olhos curiosos do mundo que o veem com suas retinas de um grande irmão lobotomizado.

O leitor da P&C proporcionou à leitura que aderisse ao seu cotidiano, trazendo livros pra dentro de sua vida, compondo a grande miscelânea de objetos comuns presentes em nosso dia-a-dia, porque os compreendeu como um insubstituível e inestimável fonte de lazer. Ao fazê-lo, seu fascínio foi tamanho que resolveu abrir um sebo no bairro de Mãe Luíza, onde reside, na tentativa de disseminar aos demais todo um mundo que aquelas páginas têm para revelar. Apesar da sua persistência e dedicação, frutos de abnegado entusiasmo, a empreitada mostrou-se pouco promissora e o sebo precisou fechar as portas. Não dava para cultivar orquídeas em terreno desértico. No entanto, sua desistência não é definitiva. Trata-se apenas de um passo atrás estratégico, uma pausa para descanso e, no futuro, com as baterias restabelecidas, seguir em frente com seu projeto de difundir o gosto pela leitura, o prazer de apreender palavras dispostas uma após a outra com coerência e criatividade, à comunidade de Mãe Luíza.

O leitor da P&C, que se chama Jorge, é um símbolo de que podemos sonhar com uma sociedade melhor, mais culta e bem educada. Se um homem adulto de origem humilde, vida simples busca voluntariamente a virtude contida na literatura, o que dizer daqueles que forem estimulados?

Por hora, segue lendo, sempre que o papel de trabalhador dedicado permite, ele se refugia na leitura. Basta a sociedade e os instrumentos de controle e opressão baixarem a guarda, para que ele pratique o hábito que o torna tão distinto da maioria. A leitura nos concede um pouco mais de dignidade nessa existência, por vezes turva, insípida e sem graça. Fujamos, pois. Enquanto houver leitores, haverá esperança.

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