Coluna do Novo Jornal – 077 – Tempos de histeria – 11.02.2012

Povo véi histérico! Nããã!

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Tempos de histeria

Estamos vivendo uma época estranha. Todo cuidado é pouco. As vozes se levantam, sobem de tom e exigem de nós uma posição definitiva com relação a tudo para, logo em seguida, nos julgar e classificar de acordo com as convenções bipolares contemporâneas.

Se a artista se indispõe com a polícia, é preciso escolher um lado e sustentar posição firme. Se você acha que a polícia não tem o direito de agredir os cidadãos e que a função dela é proteger a sociedade, você é um hipócrita que denigre a imagem da corporação e dos valorosos policiais, além de um simpatizante da contravenção e do Estado anárquico, mas a quem vai recorrer quando for vítima de um assalto? E se você achar que a artista se excedeu? Se disser que ela se deixou levar pela emoção, impulsionada pelo calor do momento, e falou de uma maneira mais ríspida do que deveria, contribuindo com o clima de confronto? Aí, você é um reaça, uma aberração anacrônica inclinada a injustiças, conservador amante da estratificação social e da desigualdade tal e qual ela está, tendendo sempre ao autoritarismo e à prática do esmagamento deliberado dos menos favorecidos. Mas se você pondera: ambos podem estar errados? Não. Neste mundo em que vivemos, ou alguém está 100% certo ou completamente equivocado.

Se o programa de TV cultua valores frívolos e, a guisa de entretenimento, promovendo mostras explícitas de touperice que apenas espelham nossa inculta e bela nação, às pessoas não lhes basta dividir-se entre as que assistem ou não o programa. É preciso odiar ou acompanhar apaixonadamente a “trama” do “show”. Se você está entre os que odeiam, deve proclamar seus sentimentos de ojeriza aos 4 cantos com toda a intensidade, compartilhando em redes sociais a maneira rasa com que o programa tenta distrair e anestesiar a mente da população, argumentando de forma raivosa como aquela degradação televisiva atrofia o cérebro do país e impede o povo de raciocinar ou de desenvolver seu senso crítico. Ressaltam como numa sociedade tão vulnerável como a nossa, uma atração como esta na TV promove a permanência de uma grande camada da população fora do centro de tomada de decisões importantes, mantendo-a como massa a ser manobrada de políticos e conglomerados empresariais ou midiáticos. Também denunciam que tudo isso faz parte da estratégia de manter o povão eternamente como gado a ser tangido, numa relação de pura e simples submissão.

O que os delatores não percebem é que seu ódio dirigido ao BBB, seus memes compartilhados no Facebook, suas frases desabonadoras no Twitter e suas participações em acalorados debates públicos em mesas de bar produzem justamente o efeito contrário do que esperam. Em vez de reduzir a audiência e a repercussão do programa, eles estão aumentando o seu alcance e abrangência.

Se todos que odeiam o Big Brother simplesmente o ignorassem, evitassem falar a seu respeito, procurassem não repercutir um suposto caso de estupro ocorrido no ar, seriam muito mais eficazes no que tencionam fazer. Porém, esta não é uma atitude popular em tempos correntes. Nosso comportamento é regido pela extroversão elevada à enésima potência e o silêncio destoa desse padrão moderno comportamento. Por que recorrer ao respeitoso silêncio indiferente se podemos bradar contra os que são distintos de nós nos gostos e opiniões? A serenidade calculada dos que podem vencer pela resistência pacífica, simplesmente fazendo sua parte para a construção de um Brasil melhor, mais culto e menos afeito aos Big-brothers da vida não estão em voga. Prefere-se o escândalo e o embate maniqueísta e quase bélico dos contrários. Nessa disputa, não vence quem grita mais alto. Perdemos todos nós.

No futebol, a histeria é uma antiga prática ancestral, assimilada já há algumas décadas. A dualidade dos que são contra ou a favor desta ou daquela agremiação reside na natureza da disputa desportiva. Porém, o que vimos nas últimas décadas do século XX na Inglaterra , leste europeu, Argentina e grandes centros brasileiros foi a ascensão de grupos de torcedores extremamente violentos dispostos a massacrar os adversários e, infelizmente, não apenas no sentido figurado do jogo como metáfora da vida. Foi uma espécie de retorno aos tempos em que os velhos clãs britânicos, por meio de um comportamento tribal, prevaleciam sobre os demais em épicas e cruéis batalhas.

De uns 10 anos pra cá, este modelo de “torcedores” construído a partir dos “hooligans” ingleses, “Barra Bravas” argentinos ou os marginais uniformizados do sudeste brasileiro chegou a Natal. Diversas rixas de quadrilhas juvenis natalenses migraram das periferias da capital para outro campo propício: o futebolístico. A violência de gangues ganhou as cores dos 2 maiores clubes do Estado e tem transformado os clássicos em programas impróprios para famílias ou torcedores comuns. O que se vê num América X ABC hoje em dia são duas hordas de jovens ávidos por matar os inimigos. Sejam os de vermelho e branco ou os de branco e preto, o que importa é bater e humilhar os antagonistas pelo simples motivo de eles preferirem outra equipe.

Tal lógica prevalece pelos mesmos motivos que os exemplos citados anteriormente nesta mesma coluna. Vivemos tempos de extremos. Uma escandalosa época na qual devemos disfarçar nossas naturais limitações ou falta de razão, utilizando o torpe expediente de gritar mais alto que os nossos antagonistas. Já que a lógica nos abandonou, é justo e legítimo recorrer à mais tradicional das maneiras de nos impor: a força. Se isso gera alguns efeitos colaterais como violência, intolerância e ódio deliberado, não há problema algum. É o preço a se pagar por vivermos em sociedade nos dias de hoje.

A impressão que me dá é a de que tais atitudes explícitas e excessivamente intensas com relação ao convívio social ou às opiniões alheias são fruto de resquícios autoritários, de um conservadorismo atroz, de uma intolerância predatória que emana de ambos os lados, seja qual for a causa, esvaziando os debates e lhes conduzindo ao escuro túnel da estupidez.

Que consigamos a serenidade necessária para atravessar ilesos tempos tão difíceis, que tenhamos calma para conviver e que saibamos semear respeito e compreensão nesse terreno minado cercado de seres humanos que chamamos de cotidiano. Torço por tempos mais amenos e não tão histéricos, por mais tranquilidade e menos escândalos a troco de nada, por mais educação (essa vacina infalível contra a tibieza da zoada sem sentido), por menos ignorância (essa estufa onde germinam as sementes do preconceito).

Enfim, que avancemos, passemos de fase, sobrevivamos.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 077 – Tempos de histeria – 11.02.2012”

  1. Pavan Says:

    Boa! A tal sociedade do IMEDIATISMO!

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