Coluna do Novo Jornal – 078 – Norberto e Betinha – 18.02.2012

Crônica carnavalesca de 2012. Boas risadas, juventude!

***

Norberto e Betinha

 

Norberto de Almeida Prado era um distinto senhor. Pai de família exemplar, marido devotado à Dona Laura e um cidadão cumpridor de todas as suas obrigações perante governos e sociedade. Andava sempre bem vestido. Usava terno escuro em eventos noturnos e graves roupas sociais (mesmo que de cores mais amenas) em seus compromissos diurnos. Os filhos afirmavam que nunca o haviam visto de bermuda, shorts ou mesmo de calça jeans. Não frequentava a beira-mar, apesar de ter uma bela casa na praia de Pirangi. Passava o verão no terraço, recebendo importantes visitas de homens de posição no Estado e suas senhoras. Durante sua vida, conquistara o mais profundo respeito de todos em Natal, além de proeminentes autoridades de todo o país. Nunca falava um palavrão para impor suas opiniões. Quando falava, os outros calavam para ouvi-lo. Era um sujeito muito sério, pouco afeito ao humor. Nunca contava uma piada. No máximo, causos verídicos e divertidos que provocavam risadas condescendentes nos ouvintes e satisfeitos sorrisos em si próprio.

Só tinha uma data no ano em que o senhor Norberto mudava o padrão de comportamento. Todos os anos, na segunda-feira de carnaval, vestia-se de mulher e saía no bloco das virgens de Pirangi. Ele não só se caracterizava como mulher em todos os seus pormenores, como também se transfigurava na mais animada das rainhas do carnaval, daquelas de segurar estandarte e sambar de salto alto na avenida. Nesse dia, ele virava a Betinha. Gargalhava, cantava todas as músicas com muita alegria, desde inocentes marchinhas até as suingueiras de duplo sentido, contagiava todos com a sua extroversão e, sempre que encontrava algum conhecido de outros carnavais, cumprimentava efusivamente: “Amooore, que saudaaaaade!”, lascando um beijo na bochecha e deixando uma marca de batom de alguma cor bastante chamativa, tão escandalosa quanto ela.

Suas amigas e amigos de folia achavam que ela morava em outro Estado. Só isso poderia explicar o fato de nunca a encontrarem em Natal durante o ano. Porém, quando a encontravam, a felicidade era tanta que era como se ela sempre estivesse por perto. Os filhos e a mulher encaravam aquele comportamento tão destoante do Norberto, como uma extravagância de ocasião, uma forma de se contrapor à sisudez cotidiana que era parte indissociável de sua personalidade, de botar pra fora toda a alegria represada pelo comportamento sério que ele mostrava à sociedade. Apesar de toda a entrega de corpo e alma com que se deixava levar pela folia de momo, nunca se viu a Betinha aderir à devassidão comum ao período carnavalesco. Muitos homens se apaixonaram perdidamente por ela e, mais de uma vez, tentaram lhe roubar beijos à força, ao que foram recebidos com certeiros socos no nariz. Houve até o caso do Dimas que quase acabou o casamento com a Cida por causa de uma atração louca que sentiu pela Betinha. Acabou o carnaval com dois olhos roxos e choramingando o perdão da mulher.

Todos os anos, quando chegava a segunda-feira, mal o dia amanhecia e ele já se trancava no quarto. Não permitia nem que sua mulher entrasse para não atrapalhar a metamorfose. Cada vez que se vestia de Betinha, ela vinha homenageando alguma figura famosa. Já teve o ano da Carmem Miranda, outro da Marylin Monroe, da Sophia Loren e, mais recentemente, fantasias da Amy Winehouse, Lady Gaga, Ivete e Cláudia Leite. Essa constante atualização também intriga sua família. Seus filhos comentam: “Pô, o pai é tão resistente a modernidades. Faz questão de não saber o nome dos grupos que fazem sucesso. Diz que ator é tudo bicha e atriz é tudo puta. Como é que, no carnaval, ele se veste de mulheres que estão na moda?” E o pior é que não podiam nem perguntar ao Seu Norberto, pois ele não falava sobre esse assunto. Exigia respeito. Também evitavam falar com a mãe sobre a mania estranha do pai porque ela sempre se punha a chorar, como se a Betinha fosse “a outra”. A conclusão possível é que esse anacronismo todo era coisa do Seu Norberto, mas a Betinha não era assim. Ela era super-antenada com o show business, amava de paixão todas as divas da música pop e dizia abertamente que “a-do-raaa-va” prestar homenagens.

Quando o Seu Norberto saía do quarto, todo trabalhado na caracterização da Betinha, homenageando alguma diva, conversava bastante com a família, mas todos se mostravam arredios. A Dona Laura nunca ficava. Refugiava-se na casa de uma irmã. Os filhos nunca deixaram de se chocar com aquela situação. Evitavam receber amigos na segunda de carnaval e, se ficassem em casa, eram monossilábicos com , er, o pai.

Em 2012, porém, o Senhor Norberto surpreendeu a família. Não quis esperar a segunda-feira para se vestir de mulher. Já na sexta à noite marcou uma reunião na sala da casa de praia. Quando apareceu, todos ficaram boquiabertos. A Dona Laura e 3 dos 5 filhos fizeram menção de ir embora, mas ele, com a voz do Seu Norberto, ordenou enfático: “FIQUEM!” A Betinha estava na dúvida se deveria se vestir de Maria Gadu ou Penélope Cruz, mas devido à seriedade da conversa que teria com os seus, vestiu-se de presidente Dilma.

Sem maiores rodeios, declarou que a partir daquele dia não usaria mais roupas masculinas. Também não se esconderia por trás da identidade da Betinha, uma invenção que servia para justificar seu fascínio pelas vestimentas femininas. O senhor Norberto, que usava um sóbrio vestido vermelho na altura dos joelhos e um penteado igual ao da líder da nação, declarou que sempre fora apaixonado pelo mundo da moda. Comprava secretamente revistas específicas e passava o ano todo pensando e preparando a indumentária que a Betinha usaria no carnaval. Este ano, no entanto, ele se cansara. Resolveu assumir que não existe Betinha nenhuma e que é ele, o Seu Norberto, que gosta de se vestir de mulher. Se eles quisessem aceitá-lo daquele jeito, ótimo. Caso não quisessem mais conviver com ele, entenderia. Afirmou que doaria todo o seu guarda-roupa para uma instituição de caridade e que formaria um grupo de “cross-dressers” composto por homens que, como ele, sofram da mesma angústia de querer vestir-se de mulher, mas não poder em virtude da incompreensão da sociedade.

Este ano, o Bloco das Virgens de Pirangi sofreria um sério desfalque. A Betinha, pela primeira vez em décadas, não cairia no samba. Quem iria em seu lugar seria o Seu Norberto vestido de mulher e acompanhado de toda a família. Certamente, seria um choque também para o pessoal do bloco. Os filhos entraram na brincadeira e vão fantasiados de Restart que é quase como se fossem de mulheres. A Dona Laura resignou-se e resolveu ficar com o marido. Afinal, era tão bem casada nesses anos todos. Quando alguma amiga vinha perguntar qualquer coisa a respeito da situação inusitada, respondia: “Pelo menos, ele nunca deixou faltar nada em casa”.

E segue a vida. Bom carnaval pra todo mundo.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 078 – Norberto e Betinha – 18.02.2012”

  1. Anastácia Vaz Says:

    Qualquer semelhança com a história do cartunista Laerte, não é mera coincidência. E viva a diversidade! As pessoas deviam ter coragem de realizarem seus desejos, mesmo os mais louco.

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