Coluna do Novo Jornal – 080 – Foi observando meus grisalhos das têmporas. – 03.03.2012

Boa leitura.

Sem mais.

***

Foi observando meus grisalhos das têmporas.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que me pus a pensar na finitude de tudo, em como o tempo, esse carrasco, corre solto e desimpedido, impunemente atingindo a todos com o peso dos anos e seus inconfundíveis sinais a nos denunciar. Percebi que o cronômetro que faz a contagem determinante de nossa participação, começou a operar no sentido regressivo, anunciando que cheguei à metade do caminho ou já passei dela e que, a partir de agora, é só descida. Não se sabe muito sobre o trajeto, se o terreno é acidentado, se há buracos na estrada, intempéries no caminho, obstáculos, dificuldades, lombadas demais, curvas sinuosas, desvios inesperados, obras na pista, poucas retas, trechos acidentados, motoristas embriagados. Não sei. Não disseram. O quão sofrido será, não está claro. Mas os reluzentes fios brancos laterais anunciam a brevidade do porvir. Seja como for, passará voando.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que me dei conta de tudo o quanto não percebi enquanto ainda era tempo de fazê-lo. Os tiranos pelos descoloridos passam um recado claro como eles próprios. Por hora, são poucos, despontando em ambas as laterais da cabeça, mas em breve serão mais. Eles inquirem se prestei suficiente atenção no que realmente importava, nos momentos de serena alegria, se valorizei, como devia, as boas companhias, se ouvi aquele conselho de amigo como se fosse único e especial, se vivi aquele feriado na praia com a intensidade adequada, se curti as conquistas profissionais sem a leniência manifesta em má vontade, se me dediquei o suficiente em ajudar aquela pessoa que precisou de mim. Sei que fui, por mais vezes do que gostaria, envolvido pelo quase insustentável fardo da preguiça. Estive acometido de comodismo crônico e aguda insegurança, que muy frequentemente impediram ações mais ousadas e me mantiveram refém da inércia disfarçada de suposta sensatez.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que parei para avaliar como andam as coisas nessa encenação sem direito a ensaio que insistimos em chamar de vida, essa peça cujo elenco nos vai sendo apresentado já no palco e nunca nos dão a nossa deixa. Será que tem valido a pena participar mesmo sem poder dar contribuições quanto aos demais personagens? E onde estou agora? É “aqui” onde eu gostaria de estar? O que ainda falta para que eu possa chamar de plena essa existência transitória? Será que eu possuo as coisas que preciso? Ou já passei da medida, possuindo tantas coisas que, na verdade, foram elas que passaram a ser donas de mim? E as pessoas que escolheram estar comigo e que, por isso, me fazem feliz? Tenho retribuído à altura, cumprindo minha missão de criar um ambiente de agradável convivência, amizade e amor?

Foi observando meus grisalhos das têmporas que percebi o quanto ainda resta por fazer, quantos trabalhos precisam ser realizados, quais objetivos ainda podem (e devem) ser alcançados. Tantos livros ainda por ler, tantos filmes não vistos, lugares que não vi, músicas que não ouvi, cervejas que não tomei e aquela crônica legal, divertida, espirituosa, crítica e certeira que ainda não escrevi. Haverá tempo, estímulo, oportunidade ou disposição de fazê-lo? Aprenderei a desenhar, jogar bola, tocar violão, editar vídeos, falar chinês, a tabuada, o novo acordo ortográfico (que já caduca sem que eu o domine)? Serei capaz de me tornar um atleta disciplinado a bordo das duas rodas mais lentas da Rota do Sol? Terei o dinamismo exigido, espírito empreendedor e associativo de realizar trabalhos em cinema, teatro, quadrinhos, literatura e publicidade? Continuarei gastando o bico da pena, praticando a máxima de que “gosto tanto de escrever que é capaz de um dia eu aprender?” Serei zeloso e atencioso o bastante com minha família?

Foi observando meus grisalhos das têmporas que vi acender-se um pavio que se consumirá daqui pra frente e que, cada vez mais, se aproximará do fim, explodindo no preciso momento em que tudo terminar pra mim. Haverá mais fios alvos em meio a minha já não tão basta cabeleira, que se encontra em profunda crise existencial revelada pela dúvida entre empalidecer ou cair de vez.

Foi observando meus grisalhos das têmporas que adentrei por elucubrações tortas e devaneios inconclusos. Os fios, caso devolvessem meu olhar e pudessem falar, diriam: “Daqui pra frente não lhe resta muito tempo. Fica a dica!”

 

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4 Respostas to “Coluna do Novo Jornal – 080 – Foi observando meus grisalhos das têmporas. – 03.03.2012”

  1. Mayara Pinheiro Says:

    Que crônica, Fialho! Bem existencialista, fluxo de consciência, aos moldes de Clarice Lispector.
    “Foi observando meus grisalhos das têmporas que…”
    … percebemos a chegada da maturidade plena.
    Os grisalhos das têmporas demarcam a nossa primeira reflexão identitária. Talvez se eles não tivessem aparecido, não teríamos o privilégio de ler o seu texto tão bem produzido, em vários aspectos.
    Cada fio grisalho, é uma missão bem cumprida!

  2. Mayara Pinheiro Says:

    Quando Fialho deixa de postar, é sinal que outro grande projeto vem por aí…

  3. Geórgia Câmara Says:

    Lindo!

  4. TÚLIO Says:

    Assim esperamos, Mayara, ou grisalhos nas têmporas nasceram menos em nossas cabeças.

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