Coluna do Novo Jornal – 081 – Barcelona FC – O anjo vingador – 10.03.2012

Barcelona FC – O anjo vingador

Barça

Queridos amigos e leitores, passei mais de um ano sem atualizar este espaço. Retomo agora de onde parei, dando sequência na publicação das colunas do Novo Jornal.

Espero que gostem.

***

Em 1982, a cidade de Barcelona na Espanha, foi palco de um dos mais tristes episódios da história do futebol. A derrota da seleção brasileira para a pragmática Itália de Paolo Rossi na Copa do Mundo daquele ano deixou profundas feridas no orgulho nacional, além de graves sequelas que nos conduziram por caminhos tortuosos, guiados por filhotes bastardos daquela esquadra azul de triste lembrança, como Lazaroni, Parreira e, mais recentemente, Dunga. Aquela catástrofe de proporções universais que fizeram muitos torcedores perderem a fé também fez muito mal à “evolução” do futebol mundial na medida em que alimentou a sanha de alguns seres desprezíveis que Nelson Rodrigues definia como “idiotas da objetividade”. Tais criaturas diabólicas vivem à espreita, escondidos na escuridão, aguardando o momento propício para se manifestar com um sombrio “isso não vai dar certo” ou um fatídico “bem que eu avisei”.

Estes antagonistas foram seduzidos pelo pessimismo e costumam utilizar aquele único jogo como prova irrefutável de que só é possível vencer jogando feio. Nos últimos 30 anos, por todo o planeta, mas tristemente também no Brasil varonil, esta república federativa autoproclamada de país do futebol, sofremos com a ditadura da mediocridade erigida por tais imbecis. A tirania imposta por eles foi, em grande parte, encorajada e disseminada pelos grandes meios de comunicação e, com isso, assimilada pela massa sem educação nem senso crítico. Os repórteres e comentaristas vêm repetindo desde então o perigoso mantra do “quem joga bonito perde/quem joga pra frente é irresponsável” e assim por diante, ou melhor: é daí pra trás.

Os pragmáticos repetiam que, para vencer, era preciso ser mais eficientes, começar a montagem de um time a partir da defesa, o que significa, eufemisticamente falando, priorizar a defesa e abdicar quase que totalmente do ataque. Sempre que aparecia alguma equipe jogando o fino da bola, como se diz, surgiam as vozes dos espíritos de porco praguejando que aquela agremiação, por cultivar valores anacrônicos como a ofensividade e beleza plástica do futebol bem jogado, estava fadada ao mais absoluto insucesso e inevitável derrota. E de nada adiantava contra-argumentar, baseando-se nas evidências de que as equipes com maior chance de triunfar são as que jogam melhor, pois logo apelavam para a covardia retórica, evocando a derrota de 82 como o álibi perfeito, sabedores que são que, na tragédia do Sarriá, todos nós morremos um pouco, mesmo os que nem eram nascidos ainda. A derrota de 82 servia para justificar os mais clamorosos absurdos e nós tínhamos que engolir em seco.

Era como se recordassem um crime hediondo, um episódio traumático do nosso passado, alguma falta grave que carregamos como um pesado fardo, inscrita na nossa pele como uma tatuagem delatora. Um artifício torpe, digno dos ímpios que exaltam a defesa como forma de sobrepor-se aos demais, a superioridade da marcha à ré sobre o “pra frente é que se joga”, a vitória por pontos do medo sobre a coragem, o predomínio dos fracos ante o destemor dos que partem pra cima e utilizam como arma principal o talento puro e simples.

Na guerra da informação, além de desfraldar a bandeira da estupidez cujo brasão bem poderia ser uma bola quadrada, ignoravam solenemente qualquer campeão que jogasse bonito e, justamente por isso, vencia. Sua frase preferida era “é melhor jogar feio e vencer do que jogar bonito e perder” como se só houvesse estas duas possibilidades no mundinho maniqueísta e triste onde habitam. Também silenciavam de forma constrangedora a respeito dos incontáveis times que jogavam feio e… PERDIAM. Manipuladores!

Não vivi conscientemente a Copa de 82. Tinha 3 anos de idade e, por isso, não engrossei o coro de lamentos ou o justo choro na ocasião. Mas lamentei muitas vezes nos últimos anos por aquele time não ter vencido e mudado o caminho pelo qual o esporte mais popular da Terra percorreu até hoje, evitando sobressaltos e prolongados períodos de monotonia.

Porém, como os deuses do futebol são caprichosos e, vá lá, bem-humorados na mesma proporção em que são sádicos, as lágrimas derramadas no campo do Sarriá serviram para regar a sagrada relva catalã, fazendo brotar a alguns quilômetros dali, no estádio Camp Nou, as flores e frutos que desinfetaram o mau cheiro do futebol força e aplacaram a fome dos que sentiam falta de um jogo bonito que ganhava contornos de arte nos pés daquele meio campo (Cerezo – Falcão – Sócrates – Zico).

O Barcelona FC de hoje é o nosso anjo vingador. Veio ao mundo para nos saciar e desmoralizar os defensivistas de carteirinha. É um time a prova de qualquer tese desabonadora inventada por algum desses teóricos falaciosos e incoerentes. Joga pra frente e vence. Joga bonito e massacra. É ofensivo e desmonta defesas, por mais arrumadas que estejam.  Ponto. Simples assim. Alguém já declarou dia desses que, o que ele faz com os adversários não é futebol: é bullying. Pode ser. Mas é maravilhoso de assistir.

O time de Messi, Guardiola e companhia é uma espécie de compensação tardia, uma mostra da existência divina para todos nós que sofremos como um Jó diante das provocações disfarçadas de jornalismo e comentários “racionais” dos nossos arqui-inimigos. O elenco azul e grená foi convocado em outro plano que não o nosso e a eles foi dada a missão sagrada de fazer justiça em meio a este vale de pecadores que passaram 3 décadas cultuando o bezerro de ouro do jogo feio, acendendo velas para volantes cabeças de bagre ou adorando zagueiros rebatedores.  O time catalão vem cumprindo com redobrado êxito o papel que lhes foi dado. Aniquilaram todas as teorias que tentam burocratizar o jogo, derrubaram as mais caretas convenções e desarmaram os discursos prontos e decorados dos idiotas da objetividade.

E a cada novo triunfo, a cada adversário enredado em sua rede justiceira, nós, os admiradores do futebol bonito, nos sentimos vingados e ansiosos por mais. Ainda não sabemos se valeu à pena esperar por tanto tempo, mas posso afirmar que as lágrimas do Sarriá, envolvidas pela atmosfera mística e artística de Barcelona, ainda vão nos fazer sorrir muito no futuro. E até chorar, mas dessa vez, de alegria.

Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 081 – Barcelona FC – O anjo vingador – 10.03.2012”

  1. Mayara Pinheiro Says:

    Orações atendidas. rsrs! O Fiasco está de volta!

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