Coluna do Novo Jornal – 082 – Meu padrinho Rubro-negro – 17.03.2012

Meu padrinho rubro-negro

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Meu padrinho se foi na manhã de sábado. Derrapou numa curva de Pium para não mais figurar no mundo dos vivos. 77 anos, acho que era essa a idade. Morreu um ano após minha madrinha que sofreu uma queda em casa ano passado. A velocidade com que as coisas se deram no dia de sua morte é estarrecedora. Recebi o telefonema com a notícia às 9h da manhã. O velório começou às 15h, missa às 16h, de forma que às 18h ele já estava enterrado. Muito rápido. Não valemos nada. Podemos estar aqui vivendo nossas vidas pueris e, de uma hora para outra, não estarmos mais. Lembrei-me de uma frase dita por um personagem do livro “O caso Morel” de Rubem Fonseca: “A morte do meu pai me ensinou duas coisas: eu estou vivo; e isso não vai durar muito tempo.”

No dia de sua morte, minha mãe, que é irmã dele, me disse que a crônica de dois sábados atrás, “Foi observando os meus grisalhos das têmporas”, era como uma homenagem a ele. Achei curiosa a coincidência. Sincronicidade Junguinana? Será? Desde criança, meu padrinho era foi minha referência de cabelos brancos. Ele tinha aquela cabeleira incolor desde sempre. Não foi pra ele que escrevi a crônica, mas gosto de pensar que poderia ter sido uma última homenagem.

Nascido de uma família humilde de Caicó, junto com outros 5 irmãos e 3 irmãs, prosperou como muitos daquela cidade. Com a ascendência judaico-cristã nas veias e uma tradição forte na educação de qualidade, os caicoenses nasceram para dominar o mundo. São inteligentes, envolventes, exímios negociantes, expansionistas e trabalhadores. Meu padrinho, que se chamava José Augusto Dias, é um bom exemplo. Mudou-se para o Rio de Janeiro, enriqueceu, constituiu família composta de numerosa prole de filhos e netos. Depois voltou a Natal e a Caicó. Vivia entre as duas cidades, entre o sítio no interior e uma casa de praia em Barra de Tabatinga.

Para mim, o meu tio recém-falecido será sempre lembrado como alguém que deixou marcas indeléveis na formação de minha personalidade. Foi ele o grande responsável pela paixão que tenho pelo futebol e, mais especificamente, o Clube de Regatas do Flamengo. Lá no Rio, ele frequentava o clube, era amigo de conselheiros importantes e, no início dos anos 80, em meio a uma comemoração de título ligou para minha  casa para falar com meu irmão. Quando Marquinhos atendeu, ele disse: “Peraí que tem um cara aqui que quer falar com você.” Era Zico. Dizendo ao meu irmão que ele deveria torcer pro Flamengo. Não havia nada que meu pobre e vascaíno pai pudesse fazer para reverter a situação.

Meu irmão fez a escolha certa e assegurou-se que eu trilhasse o mesmo caminho de sucessos e celebrações. Recordo-me bem que, em 1986 houve um pênalti decisivo contra algum dos liliputianos rivais cariocas do Mengão. Zico bateu e fez o gol. Naquele mesmo ano, tinha ocorrido aquela eliminação escrota na Copa do México e meu irmão me ensinou: “Aprenda uma coisa. Brasil é o caralho! O importante é o Flamengo, entendeu?” Entendi. Senti-me culpado diversas vezes por gostar muito mais do Flamengo do que da Seleção. Culpa cristã. Depois descobri que a paixão clubística superar o apreço pelo selecionado é normal. No livro “A dança dos deuses – Futebol, Sociedade, Cultura”, que me foi presenteado por Adriano de Sousa, o autor Hilário Franco Júnior explica que o amor que sentimos pelos clubes decorre de uma identificação profunda e duradoura, uma vez que vivemos o seu dia-a-dia, nos habituamos aos jogadores, nos afeiçoamos a todos os aspectos referentes a eles, enquanto os escretes nacionais só se reúnem muito de vez em quando.

Tio Zé Augusto sabia das coisas. Um bem material se acaba, mas um sentimento de amor verdadeiro, como o sentido por um clube de futebol, não. Até hoje, não sei se foi ele também o responsável, mas toda a minha geração de primos, filhos dos seus irmãos: Rafael Dias, Adauto Neto, José Dias Neto, entre outros, também são Flamengo.

Depois da infância, afastei-me das famílias. Tanto os tios maternos quanto os paternos passaram a ser apenas nomes citados em casa por mainha. Eu andava ocupado. Lia livros, via filmes, jogava bola (ou pelo menos tentava), aprendia a beber, paquerava as meninas, ia à praia, frequentava as faculdades de comunicação, ouvia Rock na Ribeira. Não havia tempo nem maturidade suficiente para conviver com tios e toda aquela legião de primos.

Nos últimos anos, porém, houve uma reaproximação. Meu padrinho ficou sabendo que andei publicando uns livros. Ficou orgulhoso. Saímos para jantar ou almoçar algumas vezes e, quando andei viajando, ele guardava os jornais com as notícias de títulos do Mengão. Costumávamos nos falar com certa frequência por telefone, sempre marcando de almoçar ou jantar “qualquer dia desses”.

Não deu. Uma curva privou o mundo do meu padrinho rubro-negro. Ele não viu a vitória do Fla-Flu de domingo passado. Quando, antes da partida, anunciaram 1 minuto de silêncio, fiquei imaginando que era por causa dele.

Sábado passado foi ele. Um dia seremos nós. O que a gente faz no intervalo de tempo entre o agora e o momento derradeiro é o que vai fazer a diferença. Que até lá, sobrevivamos. Vai em paz, Zé Augusto. Você vai deixar saudades.

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