Coluna do Novo Jornal – 083 – Secretário Mano Celo – 24.03.2012

Secretário Mano Celo

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Mano Celo por Rafael Coutinho

 

Quando a nova prefeita assumiu, decidiu dar uma sacudida geral na administração municipal. Fazia-se necessário preparar o terreno para uma nova era de eficiência na gestão e maior identificação da população com o poder público municipal. A ordem era criar um conceito mais leve de governo, capaz de cativar as pessoas, assim como havia feito a então candidata nos meses anteriores.

Para por em prática tal estratégia, era preciso também apagar o passado recente das memórias dos natalenses. Todas as realizações dos últimos 6 anos deveriam ser encobertas. Os projetos iniciados seriam descontinuados ou rebatizados, ganhando novas embalagens e logomarcas muito bem boladas pelo marketing da prefeitura e relançados com o status de novos e revolucionários programas elaborados para melhorar a qualidade de vida da população.

Uma das iniciativas em pauta era a reformulação das secretarias do município. Seria preciso extinguir algumas, criar outras, fundir várias e, as que permanecessem, mudariam de nome. Os meses foram se passando, depois 1 ano, 2 anos e nada da tão falada eficiência ou modelo de gestão. Para tentar corrigir o rumo da administração, cabeças voaram nas secretarias, nomes eram trocados todos os meses. Os secretários eram demitidos e outros eram chamados para ocupar seus lugares. A prefeita já se aproximava do seu último ano de gestão quando veio a ideia, sempre oportuna, de algum aspone de plantão, de criar a “Secretaria da Juventude”, que funcionaria como uma ponte entre a prefeita e os jovens natalenses, além de servir como instrumento de marketing, uma vez que a novidade deveria atrair a atenção da imprensa, da população e gerar ótimas chamadas publicitárias para rádio e TV. Uma prefeita que se preocupa com os habitantes de menos idade, na verdade, está pensando no futuro do município.

A questão era: qual o melhor nome para ocupar tal cargo? Quem reuniria os requisitos necessários para ocupar o posto? Que jovem teria coragem, talento, desenvoltura, articulação e popularidade para desempenhar o papel? Tal pessoa deveria também, importantíssimo!, atender a uma conveniência política e econômica.

Foi então que alguém lembrou do filho do empresário Maurício Dutton, um dos maiores financiadores da campanha da Prefeita. A indicação do filho para secretário da juventude acalmaria um pouco os ânimos do homem de negócios que, segundo se comentava, não andava muito satisfeito com o retorno obtido dos investimentos realizados na campanha eleitoral. Para ele, a prefeita e sua equipe não haviam se mostrado agradecidos com sua valiosa ajuda durante o pleito passado. Ou seja, aquela seria uma solução para vários problemas de uma vez. Uma oportunidade de matar dois coelhos com uma caixa d’água só. Que chamassem o filho do Sr. Maurício.

Marcelo Maurício Rodrigo De Paula Faria Dutton parecia ser o nome perfeito para o cargo. Não só pela ascendência nobre, mas também por sua militância social e artística local. Após decidido o nome a ocupar a cadeira de secretário, era preciso elaborar as atribuições institucionais da nova pasta. E também um nome que chamasse a atenção das pessoas para a seriedade da empreitada. Afinal, só porque se tratava de uma ação identificada com o público jovem, não precisava chamar-se pura e simplesmente “Secretaria da Juventude”. Um nome mais composto, formado por uma sigla nova, daria o equilíbrio necessário entre o despojamento juvenil da secretaria e o profissionalismo exigido por uma administração que se dá ao respeito. Com isso, o nome da Secretaria da Juventude seria: “Secretaria Especial Futuro Unificado Da Educação Urbana”. A sigla seria SEFUDEU.

No dia seguinte, pela manhã, já estavam lá na sede da prefeitura, para uma reunião com o secretário chefe da casa civil. Definiu-se que o discurso a ser ensaiado e comunicado à imprensa e população era que o secretário Mano Celo seria responsável pela realização de programas voltados para a inserção dos jovens no mercado de trabalho por meio da arte, do esporte e da capacitação laboral. O Mano, que havia resistido até o último momento, em participar daquele encontro, começou a gostar muito daquela história toda de ajudar os outros e dar aos jovens a oportunidade de vencer na vida.

No seu primeiro dia de expediente à frente da SEFUDEU, procurou reunir sua equipe a fim de conhecer seus colegas de trabalho, expor ideias e traçar os planos de atuação. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que, dos 134 servidores lotados na secretaria, nomeados pelo Diário Oficial do Município, apenas 2 trabalhavam efetivamente no prédio: a secretária que atendia aos telefonemas e a copeira que trazia café e água para as visitas. O Mano pegou a lista de funcionários que, supostamente, estariam a sua disposição e logo estranhou vários sobrenomes conhecidos. Eram parentes de vereadores, deputados estaduais e empresários que, assim como o seu pai, ajudaram a prefeita a se eleger.

O Mano não desanimou. Imaginou que, assim como ele, a maioria daqueles nomes havia sido nomeada por politicagem, mas que sentiriam autêntica satisfação em trabalhar pelo bem das pessoas que mais precisam, realizando um grande trabalho em prol da sua cidade. De posse da lista, pediu à secretária que ligasse para todos, convocando para uma reunião de trabalho, na qual seriam divididas as funções de cada um e elaboradas as metas da secretaria. Era preciso deixar claro a todos que o trabalho realizado por eles seria muito importante para o bem da juventude natalense e essencial para a população mais.

Na manhã seguinte, o Mano Celo já estava na sala de reuniões, aguardando os servidores para que pudessem iniciar os trabalhos da Secretaria da Juventude (SEFUDEU). No entanto, ninguém apareceu. Em vez dos funcionários, quem entrou na sala foi a secretária com um documento que ordenava a exoneração do secretário. A chamada que ele deu nos filhos de políticos e empresários para que eles efetivamente trabalhassem, exercendo os empregos concedidos a eles, foi tomada como um insulto, uma afronta, ofensa das mais graves e indesculpáveis. Todos eles reclamaram aos seus padrinhos políticos que transmitiram suas insatisfações à prefeita. O resultado foi a demissão do Secretário Mano Celo, mais uma vítima da permanente reforma do secretariado da prefeitura. Em seu lugar, entraria uma garota que havia ganho notoriedade na cidade como “rainha do Twitter” e cuja trajetória se resumia ao mais autêntico puxa-saquismo virtual nas redes sociais.

O trabalho do Mano Celo como secretário da prefeitura durou exatas 24 horas e, mesmo assim, foi considerado como um dos melhores daquela desastrada gestão.

 

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