Coluna do Novo Jornal – 085 – As desventuras de uma ex-gostosa – Quero ser vice. – 14.04.2012

As desventuras de uma ex-gostosa

Carla Ubarana

Sempre tive especial predileção pela leitura. Se não fosse por ela, não estaria aqui, com fotinha no topo da página, nomezinho impresso e a oportunidade de grafar umas besteiras pra vocês num jornal de respeito e boa circulação. Nos tempos antigos da minha adolescência, só havia 3 carreiras possíveis: medicina, direito e engenharia. Havia poucas concessões para odontologia e arquitetura. Na provinciana Natal daquela época (ainda mais do que hoje) quem não se enquadrasse nessa cartilha, era precocemente taxado de “sem-futuro” ou fracassado. Eram tempos de poucas alternativas e parcas perspectivas.

Era de se esperar, portanto, que um rapaz tão dedicado a leituras como eu, seguisse o caminho do Direito. Quando manifestei publicamente o interesse em cursar comunicação, o choque foi grande. Alguns parentes chegavam para minha mãe, afirmando que eu passaria fome. Na escola, professores não entendiam como “um menino tão bom” desperdiçaria a chance de optar por alguma profissão digna.

Segui em frente, cursei comunicação na UFRN (Jornalismo) e UnP (Publicidade), depois fiz especialização, comecei a trabalhar, tive o trabalho reconhecido, ganhei algum dinheiro e, hoje, tenho uma vida estável. Como tudo ocorreu de forma natural até agora e as conquistas se deram de forma gradual e crescente, nunca compreendi bem porque as pessoas diziam que a única escolha possível para um estudante com o meu perfil seria cursar Direito, frequentar tribunais, conviver com todos aqueles artigos, leis, liminares, linguagem jurídica. Aí, esse caso dos precatórios do TJ me abriu os olhos.

Quando as pessoas falavam em uma carreira bem sucedida no Direito, era isso que eles queriam dizer! Percebi que as possibilidades da profissão não se limitavam a advogados, promotores, juízes e escrivães. Havia também os grandes empreendedores como a Carla Ubarana, a personagem da semana na cidade. Os escritos jurídicos também não se limitavam às peças que exercitam a arte de falar, falar e não dizer praticamente nada. Tem também os livros contábeis que distribuem riquezas entre desembargadores e operadores de esquemas como o dos precatórios. E eu aqui, descascando batatas no porão de uma empresa de comunicação.

Soube que a Carla Ubarana era uma bela e voluptuosa jovem. Estudou no mesmo colégio que eu, mas em outra época. Era craque no vôlei e muitos rapazes eram apaixonados por ela. Pus-me a pensar em como a vida foi cruel com a moça. Acredito que o desfalque que ela deu no dinheiro dos precatórios possa ter sido uma tentativa de vingar-se dos muitos revezes que o destino aprontou para si. Foi uma reação desesperada e tardia às brincadeiras de mau gosto do tempo, esse carrasco que é capaz de transformar a garota mais bonita da escola numa notória baranga cantada e decantada em prosa e verso nas capas dos jornais.

Só posso crer que seja essa a razão para que ela aprontasse o que aprontou. Seria justo por parte da Providência Divina que lhe pudesse agraciar com um pouco de generosidade ante tudo que lhe foi tirado. E agora que ela foi pega com a mão na cumbuca, talvez tenha percebido que tudo o que vem fácil, vai fácil. Perdeu toda a fortuna que nos roubou, assim como perdeu a formosura de outrora e hoje é apenas uma ex-gostosa falida e mal falada. A vida dá voltas e nem sempre é de Mercedes.

***

Quero ser vice.

Deixando um pouco de lado esse caso do TJ, tenho outra sugestão de carreira que esse ano está em forte evidência. Trata-se de um emprego que paga bem, traz certo status e, o melhor de tudo, não lhe faz correr riscos, pois é inteiramente lícito. Eu mesmo já penso em postular uma vaga para mim. Estou falando da profissão de “VICE”. Em outubro tem eleição eu descobri que é isso que quero da vida: eu quero ser vice! Eu nasci pra isso. Eu sempre fui vice! Sou o melhor nome para este cargo.

Sigam o meu raciocínio, mas não com muito interesse, já que nós, vices, não nascemos pra liderar. No máximo, para vice-liderar. E olhe lá! O que eu quero dizer é que sempre fui um aluno nota 7, nunca fui o melhor nos esportes, tinha um desempenho médio nas conquistas amorosas escolares(nem a garota mais desejada da sala nem a canhão da Jussara que nos dava balas Sete Belo, senão a gente nem cumprimentava). Eu ficava mais na minha, quieto, sem ser notado.

Fui crescendo, mas não muito, para não ficar mais alto que a média, e mantive a regularidade. Pois é isso que nós vices natos temos que ser: regulares. Se fôssemos bons ou ótimos, não serviríamos para o cargo. Nós vices não somos dignos de destaque. Aliás, nós geralmente somos lembrados pelo que não somos e nunca pelo que fomos ou somos. A única coisa que podemos dizer que somos é vice-isso, vice-aquilo.

Os vices não são nem altos, nem baixos, nem gordos, nem magros, nem fortes, nem fracos, nem disputa pelo título nem zona do rebaixamento. Um pobre não consegue ser vice, assim como um vice não fica milionário. Vice é tudo classe média.

Uma coisa boa sobre os vices é que você nunca vai encontrar um vice contando vantagem que fez isso, que fez aquilo, que faz e acontece. Um vice não faz e se orgulha por não ter feito. O vice é desleixado, relaxado, descansado e relapso. O vice adora uma rede e, de tão preguiçoso, faz o mais indolente dos veranistas natalenses parecer um novaiorquino yuppie da Bolsa.

Imaginem como seria um debate na televisão entre vices. Obviamente jamais poderia passar numa TV líder em audiência. Em vez de dizermos o que iríamos fazer como os candidatos principais, diríamos tudo o que não faríamos quando fôssemos eleitos. Quem mostrasse maior vocação para a vagabundagem levaria o cargo. Ou melhor: vice-cargo.

Eu poderia dizer algo como: “Eu prometo não trabalhar por vocês nem um diazinho sequer nos próximos quatro anos! É um compromisso que assumo de público. Comigo é assim: quando eu prometo, não cumpro mesmo!” E a platéia iria ao delírio, certa de que eu seria o seu vice-candidato.

Em todas as eleições eu fico fascinado com os vices. A inutilidade charmosa, a falta de função orgulhosa, a condição de simples acessório carregada de simbologia, o adorno eleitoral que anda (sem rumo definido) e fala (nunca coisa com coisa). Tanta admiração me despertou este sentimento sincero e obstinado de querer meu lugar à sombra, no cantinho das atenções. Tenho certeza que, se eu não fizer nada, como estou disposto a não fazer, chegarei a lugar nenhum, que é onde um vice almeja permanecer. Conto com o seu voto e só não prometo que serei o melhor dos vices porque se eu for inventar de ser melhor em alguma coisa, estaria sendo um péssimo vice.

 

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 085 – As desventuras de uma ex-gostosa – Quero ser vice. – 14.04.2012”

  1. Bia Madruga Says:

    hahaha
    texto bom, vice.
    😀

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