Coluna do Novo Jornal – 087 – Manicaca Fashion Week – 28.04.2012

Crônica bem legal que fiz sobre, er, tipo, moda.🙂 Divirtam-se!

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Manicaca Fashion Week

Manicaca Fashion Week

Escolher roupa nunca havia sido um problema. Bastava pegar uma calça que servisse, uma camiseta bonitona e calçar os tênis. Pronto. Agora era só partir pra guerra. Eu pensava cá com minha teimosia de jovem cabeça dura, burro como uma porta e preconceituoso até a última célula, enfim, um natalense como qualquer outro, que essa história de moda não passava da boa e velha frescura disfarçada de sofisticação e estilo. Até que um dia Ela me mostrou toda a verdade, abrindo minha cabecinha limitada para o significado que está por trás das meras tendências.

Eu imaginava a mim mesmo como um autêntico herói da resistência pacífica, recusando submeter-me às convenções sociais mais fúteis e pueris. Uma espécie de Gandhi insurgindo-se contra o consumismo exacerbado das marcas que dominam nosso imaginário de província pobre e sem cultura perdida nos recônditos deste país capitalista emergente. Não gostava de marcas caras. Pra mim, uma bolsa era uma bolsa. Uma calça era uma calça. E uma simples camisa não poderia conferir um título de nobreza simplesmente por conter um emblema de um jacaré, um homem a cavalo ou um número ridiculamente grande. Era meu dever cívico de rapaz politizado nadar contra a correnteza, conscientizar a massa ignara, pregando valores positivos como a justiça, a parcimônia e tudo aquilo que não está a venda nos centros de compras do meio do caminho. O caráter, senhoras e senhores, não estará em oferta na “Liquida Natal”.

Mas Ela sabia como desconstruir todos os meus argumentos, fazendo cair por terra as mais arraigadas convicções e incontestáveis certezas. Apontou minhas mais que evidentes contradições. Mostrou que, ao seguir símbolos da contracultura, ao frequentar a Ribeira em detrimento dos camarotes VIP, ao optar pelo Dusouto em vez de Bel, eu estava apenas cultuando outros ídolos em meu sagrado altar de consumo particular. Ela escancarou que eu, assim como todos a minha volta, fazia tipo, seguia um padrão de comportamento que poderia diferir na aparência, mas não no essencial. A imagem que eu fazia de mim mesmo estava longe de ser uma forma de apaziguar minha consciência, de fazer-me sentir bem. Eu queria, na verdade, que os outros percebessem minha “atitude” e (podem rir) “autenticidade”.

No fundo, eu estava tentando ser percebido pelos outros de uma maneira idealizada. Eu, assim como Ela, o Padre Fábio de Melo, a Amy Winehouse e vocês, sou um personagem de mim mesmo. Eu me inventei de acordo com o que gostaria de ser. Represento o papel que eu mesmo escrevi. E já que era pra ser melhor percebido, por que não me comportar de maneira mais elegante de acordo com a ocasião? Que mania era essa de querer causar? Eu tinha que respeitar certos grupos que eu frequentasse eventualmente, precisava sim usar terno em casamentos e saber que a roupa de ir ao shopping não deveria ser a mesma de uma reunião de trabalho.

Ela me mostrou que eu não tinha o mais remoto senso estético, que o meu ideal de beleza no que se referia ao vestir era o mesmo de um letrista de axé com relação à métrica. Eu não sabia combinar camisa com calça. Camisa, calça e tênis então, jamais. E, grave, muitas vezes eu errava até na seleção do par de meias. Fui sumariamente proibido de comparecer a eventos públicos (qualquer aglomeração maior que 3 pessoas) sem que ela escolhesse minha indumentária. Tentei me esquivar, mas sucumbi aos primeiros elogios. Logo, cansada de exercitar a criatividade diante de um guarda-roupa quase tão parco em opções quanto o do Cebolinha, Ela me levou para fazer compras.

Apresentou-me às lojas legais, às marcas que importam, conheci as tão alardeadas “últimas tendências” e soube que as novas coleções trazem consigo todo um passado de minuciosas pesquisas, trabalho hercúleo e evolução constante. A Primavera Verão 2012, por exemplo, não difere tanto das escolas literárias que se baseavam na negação da geração anterior. A única diferença é que com as roupas acontece de 6 em 6 meses. Hoje, sou um homem mudado. Tenho um estilo novo, o Manicaca Style, que não posso definir como próprio por razões mais que evidentes. Sempre que vou a uma festa, um jantar, uma balada, Ela pergunta: “vai vestir o que?”, para depois zombar de minha resposta e determinar como eu realmente devo ir. Alguns podem achar essa situação meio embaraçosa, mas acredito que seja mais comum do que se pensa. Quando existe amor, respeito e consideração pelo outro, nos preocupamos com todos os aspectos relativos a ele. Daí os fraternos e sinceros cuidados das mulheres em nos vestir quase na mesma medida em que tentamos despi-las.  É a vida. É bom e, nesses tempos mudernos, ser manicaca tá na última moda. E, convenhamos, mesmo que você não tenha tendência, não tem nada demais em seguir algumas.

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Uma resposta to “Coluna do Novo Jornal – 087 – Manicaca Fashion Week – 28.04.2012”

  1. Bia Madruga Says:

    ooooown.

    e ser a Ela do manicaca dá um trabaaalho… (de conseguir fazê-lo ser).

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