Archive for junho \30\+00:00 2013

Coluna do Novo Jornal – 091 – O Maconheiro Militante 2 – 26.05.2012

junho 30, 2013

O Maconheiro Militante 2

Como vocês devem ter notado, pulei uma coluna. Publiquei anteriormente a de número 89 e agora pulei para a 91. Não foi por acaso. É que a de número 90 estava muito ruim. Por isso, resolvi poupá-los do suplício de ler um texto tão sofrível.

Já este “O Maconheiro Militante 2”, segundo episódio de uma feliz trilogia de crônicas, pode agradar a muitos de vocês.

Divirtam-se!

 

camisaprezanova

Naquele dia, o maconheiro militante típico acordou cedo, por volta do meio dia, tomou banho com seu sabonete de ervas verdes e o xampu de cannabis. Em seguida calçou o tênis de cânhamo, a bermuda de surfista e a camiseta do Capitão Presença. Fumou um baseado pra abrir o apetite e comeu 2 sanduíches de ovo frito com salsicha. Depois comeu mais 2. Aí, comeu mais 4. Por fim, resolveu tirar um cochilo ante de sair de casa.

Era uma sexta-feira especial para o movimento natalense para a libertação dos pintas. Finalmente os militantes do THC na cidade teriam voz e vez. Havia chegado o momento há muito esperado de levantar-se ante a tirania conservadora de ultradireita que vilipendiava os direitos dos amantes da fumaça que leva a paz. A partir daquele dia, eles poderiam reagir contra aquela nefasta manobra de forças ocultas poderosíssimas, dominadas por interesses escusos e idealizada pelo capital financeiro internacional, a indústria armamentista, os capos e traficantes, a rede Globo, os juízes e promotores, o presidente (aliás, todos os presidentes), os petroleiros, o Edir Macêdo e o Papa.

Os principais argumentos já estavam muito bem articulados. A erva da paz curava doenças (insônia, glaucoma, ansiedade, câncer, AIDS, dor de cabeça, timidez e falta de apetite.), movimentava a economia (tabacarias, lojas de colchão, lanchonetes, skates e pranchas de surf), proliferava a paz ao sufocar pressões sociais prestes a explodir e desenvolvia nos jovens o interesse por diversas áreas do conhecimento, desde a jardinagem (para o cultivo caseiro) até a culinária (ao se estudar maneiras mais eficazes e rápidas de saciar a fome), passando pela literatura (os fumantes costumam comprar livros baratos com papel fininho que possa substituir a seda.) e pela religiosidade (é muito comum ver os usuários acendendo velas com claros sinais de sagrada devoção). É claro que existiam alguns efeitos colaterais como a promoção de shows de reggae nos lugares onde a popularidade da erva já atingiu as massas. Mas deixa esse assunto pra oposição que o papel dos organizadores do movimento era promover unicamente os benefícios.

Seria o início de algo maior. Era preciso dar continuidade àquela luta e desfraldar a bandeira da descriminalização (mas sem dar muita bandeira, claro). Os idealizadores do evento teriam que se empenhar ao máximo, a causa deveria ser permanente, sem relaxar um só minuto. Quer dizer, uma meia horinha de morgação depois de fumar tá liberado. Mas apenas isso.

O nome do protesto organizado seria o mesmo utilizado em todas as cidades do Brasil em que havia sido realizado até então: “Marcha da Maconha”. O cenário seria o sempre democrático campus da UFRN e os líderes do movimento reivindicatório esperavam reunir algumas centenas de adeptos e simpatizantes da causa verde.

O perfil para ser um autêntico recruta engajado na revolução natural que tomava conta do planeta, do país e, finalmente, de Natal, era constituído de um incondicional comprometimento com os ideais cannábicos e um amor sincero pela plantinha relaxante. A folhinha de 5 pontas tinha que ser o seu pavilhão nacional, estar no escudo do seu time de coração, ser a logo de sua banda preferida, a representação sagrada de sua fé (in Jah we smoke). O maconheiro homem comum não deveria ir à passeata se quisesse manter em sigilo sua identidade secreta de cidadão acima de qualquer suspeita. Para protestar com vigor e comovente paixão, os participantes não poderiam ter vergonha de ser malhados.

Os insurgentes que integrassem esta relevante parada cívica, divisora de águas na história de lutas e conquistas dos direitos civis da cidade deveriam ser iniciados na arte de apontar o THC como solução de todos os males, como tábua de salvação para uma sociedade careta e corrompida. Deveriam evocar os grandes vultos históricos que já deram um tapinha, de Bill Clinton a Che Guevara, de Maurício de Nassau a, sei lá, Ronaldo Fenômeno. Também poderiam alegar o apego às raízes do nosso Estado na produção e consumo de camarão como justificativa plausível e tentativa de convencimento dos mais tradicionais. A história da maconha também não deveria ser desprezada enquanto retórica, uma vez que sua matéria prima esteve presente em momentos significativos da história, servindo para confeccionar pergaminhos, tintas para pinturas de guerra tribais e princípio ativo que proporcionou a evolução da escultura em durepoxi. Enfim, era um desafio para profissionais, usuários cultos e estudiosos da erva. Um dos líderes declarou enfático: “Qualquer um pode ter os olhos vermelhos e os dedos amarelos, mas só alguns poucos tem um coração puro, os pulmões verdes e o cérebro em intensa atividade sináptica. Por isso, nada de amadores.”

Por isso, foi elaborado um processo seletivo, mediante uma entrevista presencial numa rodinha de fumo. Quem viajasse com mais fluência e continuasse argumentando bem (ou falando qualquer coisa que fizesse algum sentido) depois de alguns charas estava aprovado. Quem embaçasse a conversa e tivesse passado superbonder nos dedos, estava eliminado. Afinal, a causa era essencialmente coletiva e não haveria lugar para usuários fominhas que não passavam a bola para os companheiros. Esses acabavam queimados pelos demais. E não no bom sentido.

Ainda assim, com um rigoroso critério de seleção, na hora e local marcados, 500 pessoas prestigiaram a 1ª Marcha da Maconha de Natal. Todas munidas de argumentos fortes, cartazes impactantes e uma desculpa pra faltar aula. A imprensa deu ampla cobertura, a sociedade discutiu durante toda a semana seguinte e os mais conservadores fizeram firme oposição ao movimento subversivo. Inclusive, preocupados com a possibilidade de o evento dispersar-se como fumaça no ar, os organizadores prepararam uma carta aberta com as 10 principais reivindicações do público carburante, que estavam associadas à descriminalização da maconha e beneficiavam enormemente todos os setores da sociedade local. O problema é que ninguém encontrou a carta, pois como havia sido escrita num papel fininho, a turma acabou usando pra enrolar um chara. E como ninguém conseguiu lembrar o conteúdo depois de terem “dado um 2”, deixaram pra lá. Só depois, quando puxaram muito pela memória, alguém lembrou que liberar a maconha estava no meio.

– E as outras 9, braw?

– Pô, as outras eu não lembro.

– Sóóóó.

– Podcrê.

Coluna do Novo Jornal – 089 – É a festa da torcida campeã – 12.05.2012

junho 29, 2013

É a festa da torcida campeã

Bolada

O futebol exerce sobre nós um indescritível fascínio. Apaixona, encanta, incute o mais profundo sentimento de arrebatamento, um transe esportivo, a lobotomia da bola, transformando-nos em arremedos dos indivíduos cotidianos que tentamos ser em nossas rotinas diárias. O centenário esporte bretão tem o poder de metamorfosear o mais inteligente e racional dos homens num bárbaro, inconsequente ou completo idiota. É a vitória (de goleada) do coração sobre o cérebro, fazendo os mais autênticos gênios perderem completamente a razão. É uma máquina de converter homens bestiais em bestas.

Exemplos não faltam. O resoluto intelectual Luiz Gonzaga Beluzzo, economista renomado, procurado para dar entrevistas e prestar consultorias a cada novo sinal de turbulência que a economia demonstra, conhecido por seus maneirismos cordiais e temperamento equilibrado, sujeito tido como educado e bem relacionado, não só fez uma administração economicamente desastrosa à frente do Palmeiras, como deu indícios do monstro que habita o seu âmago, um verdadeiro “Mr. Hyde”, boquirroto e destemperado, apontando para todas as direções seu canhão de intempéries e cometendo todo um conjunto das mais tresloucadas e irrefletidas atitudes à guisa de uma gestão.

Nos outros grandes de São Paulo, a situação não se difere muito. O Corínthians é gerido por bravateiros que se utilizam de sua enorme torcida como massa de manobra, manipulando-os para manter-se no poder. Têm funcionado. Grupos políticos costumam perdurar por muitos anos à frente do Timão. No São Paulo, apesar de uma certa altivez forçada e regada nos Jardins, Morumbi e demais bairros nobres da capital econômica do país, o comportamento não difere em nada dos coirmãos do Parque São Jorge. As mesmas bravatas e estilo administrativo percebido nos alvinegros paulistanos podem ser observados nos tricolores. Tais características acabam por beneficiar o dirigente santista, Luís Álvaro, dirigente acima da média, mas superestimado porque a média é muito baixa. É o caso típico do rei caolho, soberano de uma terra de cegos, destaque absoluto e líder disparado de uma terra onde grassa a pasmaceira, incompetência e a mediocridade.

No Rio, falemos do Flamengo. Aliás, não falemos. É tanta desordem, mandos, desmandos e atropelos nesta administração micárlica de Patrícia Amorim que seriam necessários vários espaços como este no jornal para que citássemos tudo de errado que ocorrer na Gávea. Mesmo que nos utilizássemos de resumos e tópicos não daria. E o pior é que, no rubro-negro, oposição e situação trabalham juntas, unindo esforços no ininterrupto e acelerado processo de falência e desgraça completas do clube. Até um esquema contra o maior ídolo do clube, envolvendo um empresário de jogadores (financiador da campanha da presidente) e um ex-líder de torcida organizada (e hoje presidente do conselho deliberativo) ela aprontou para afugentar uma voz dissonante da sua, mesmo que esta voz fosse a do galinho Zico.

Aí, desembarcamos em Natal, terra boa, povo cordial, receptivo, capital de um Estado que desenvolveu a indústria do turismo, não só em razão das belezas naturais, mas também pela vocação para receber bem de um povo acolhedor e amável. Porém, quando se trata do ludopédio, nada nos difere das duas mais ricas unidades federativas. O que se presenciou neste campeonato estadual, tendo como clímax o dia da final, foi estarrecedor, de perder a fé no ser humano. Dirigentes alienados, inconscientes das consequências de seus atos e palavras, incapazes de perceber o quão nocivas podem ser suas atitudes e alheios ao poder multiplicador de suas declarações viscerais. Pensam com o fígado e agem como torcedores.

E não aceito a argumentação de alguns de que, antes de serem dirigentes, estes homens já eram torcedores apaixonados pelas cores das agremiações cujas gestões assumiram com espírito de entrega e abnegados cumpridores de um dever quase cívico, incutido pela paixão clubística. Tudo bem, vá lá, entendo, MAAAAS… É preciso assumir, junto com o cargo, certas liturgias que a função exige. Uma delas nos diz que “dirigente não é (ou não deve ser) torcedor”. A referência jocosa ao adversário, as brincadeiras, gozações inerentes ao dia-a-dia da disputa esportiva podem até ser artifícios utilizados por este ou aquele cartola mais irreverente. Porém, o que não precisa ter limites na voz da multidão ganha certas amarras ditadas pelo respeito ao próximo e o bom senso quando se trata dos gestores dos clubes. Quem quer liderar precisa ter a postura de um líder. Mesmo que finja ser o líder que efetivamente não seja.

No último domingo, ouvi relatos dando conta de dirigentes que impediram uma das torcidas de entrar no estádio, retiraram cadeiras do vestiário para que o time adversário não tivesse onde sentar, um senhor que mandou desligar arbitrariamente a energia de uma equipe de TV que transmitiria a partida, declarações coléricas e inflamadas daqueles que são vistos por suas torcidas como os administradores dos objetos de suas paixões e, como tal, de certa forma, líderes e modelos a serem seguidos. É a estupidez sendo disseminada de cima pra baixo, como sói ocorrer neste Brasil varonil, novo rico de um mundo em crise.

Em seu livro “A dança dos deuses – Futebol, sociedade e cultura”, o professor da USP Hilário Franco Júnior analisa o comportamento dos torcedores futebolísticos, mediante um fenômeno psicanalítico que o Dr. Freud chamava de “narcisismo das pequenas diferenças”. Os torcedores tendem a ver os adversários como inimigos, pois enxergam neles enormes diferenças, terríveis, irreconciliáveis, abissais. Quando, na verdade, os torcedores de quase todos os times apresentam enormes semelhanças nas constituições demográficas de suas torcidas. Não há mais grandes diferenças como havia no início. As torcidas diferem em quantidade, mas não em características. Porém, essa mania de enxergar pequenas diferenças como sendo enormes faz surgir toda a hostilidade de um torcedor com relação ao adversário. E como os dirigentes locais estão muito mais para torcedores fanáticos do que para gestores de fato, veem uns aos outros como inimigos e não como adversários.

Os relatos de violência antes, durante e, sobretudo, após a partida, para mim, decorrem em grande parte do comportamento destes homens de camisas polo e calças sociais que vociferam impropérios uns contra os outros, alimentando os bélicos e “organizados” fãs de ambos os times. Se houve tiros e, dizem, até mortes durante as comemorações, bem que eles poderiam ser co-responsabilizados. Como da última vez que fui a um clássico local e um morteiro explodiu a um metro do meu rosto. Um torcedor do outro time apontou um rojão em direção à multidão que escolheu cores distintas das suas. Fiquei imaginando o que poderia ter ocorrido se o petardo me atingisse e também no que pode ter levado aquele cara que nunca me viu, não me conhece, querer me matar ou me machucar seriamente. Só porque eu escolhi apoiar um time que não o seu? Para mim, não é o bastante.

Nunca mais fui a um clássico e sugiro aos torcedores dos dois times mais tradicionais de Natal que prestem bem atenção na próxima vez que um dirigente destilar seu repertório de ódio e intolerância contra os “inimigos”. Na verdade, aquelas palavras também são destinadas a você. E, se você sofrer uma violência,  elas podem ser a causa. Independente do seu time ou do dele. Toda ação gera uma reação. Desde Newton todo mundo sabe disso. Quer dizer, quase todo mundo, né? Os diretores de clubes ainda não descobriram.

Coluna do Novo Jornal – 088 – Beleza Interior – Versão Novo Jornal – 05.05.2012

junho 20, 2013

Beleza interior 

Texto original publicado em "É Tudo Mentira!" Esta versão foi especialmente editada para o Novo Jornal.

Texto original publicado em “É Tudo Mentira!” Esta versão foi especialmente editada para o Novo Jornal.

Ela era linda por dentro. Desde o momento que a conheci, vi logo que era. E pra mim, isso é muito mais importante, sabe? O que a gente tem dentro da gente, a nossa essência, o nosso âmago, a nossa índole, a força de caráter em cada um, a personalidade. Porque tudo é efêmero, finito, passageiro e insignificante, exceto o que a gente leva dentro. Casas podem ruir, carros enferrujam, ou se espatifam em postes e ficam mais amassados que um maracujá, ou que a pele da minha avó, propriedades podem deixar de ser de quem são, dinheiro se acaba. Aliás, eu costumo dizer sempre: dinheiro é papel. O importante é o que tá aqui, ó (e aponto para o coração). As pessoas sempre concordam com isso. É batata. E também ficam enternecidas como se estivessem vendo um daqueles comerciais que passam no Natal. De panetone ou de banco, não importa. E também criam uma empatia comigo sempre que digo isso. Tem sido muito bom pra me socializar melhor com as pessoas, me tornar mais popular, virar um boa praça. Mas não é só fingimento ou atuação canastrona não. Eu realmente acredito nisso e repito com toda a convicção: “Dinheiro é papel. O importante é o que tá aqui ó (mão no coração)”.

Quando minha mãe conheceu a Sabrina, disse logo: “Ela é linda por fora e por dentro”. Quase fui às lágrimas com a aprovação materna. Juro por Deus que fiquei emocionado. As mães sabem mesmo das coisas. Passei a me dedicar totalmente a Sabrina. Era uma devoção irrefreável. Preocupava-me demais com ela. Tanto que, por vezes, meu excesso de zelo causava certa estranheza nela. Dizia que eu era superprotetor, que estava exagerando e essas coisas que a gente diz quando está se sentindo sufocado. Mas eu não podia me conter. Amava cada parte do corpo daquela mulher. Essa é a verdade. E só essa é a verdade.

Mas Sabrina era realmente encantadora. Tudo bem que eu tive lá meus motivos para me envolver com ela, mas qualquer um seria facilmente atraído por ela. Sabrina era única. Era uma dessas mulheres que podia conseguir tudo, tudo mesmo, com um simples sorriso. Seu charme era arrebatador e jamais perdia o encanto, nem ao se sujar de molho rosê comendo um sanduíche, nem mesmo ao cortar as unhas dos pés. Linda pra valer. Morena dos olhos verdes. Fenótipo perfeito, genótipo promissor.

No entanto, e apesar de todas as evidências, passei seis meses com ela para ter certeza. Sou um homem cauteloso, cuidadoso, metódico, perfeccionista. Por isso, convivi seis prazerosos meses antes de me decidir. Preparei tudo para o “nosso” momento. Tinha que ser perfeito. Afinal, seria um momento único na vida dela. Seria num apartamento à meia luz, aliás, iluminado por velas. A comida seria de primeira e um champanhe genuinamente francês temperaria nossa noite. A louça utilizada no jantar também seria a que eu sempre guardo para ocasiões especiais e usaria um terno de corte italiano. Flores ornamentariam todo o ambiente e o nosso fundo musical seria de canções instrumentais suaves e românticas, cuidadosamente gravadas para criarem um clima crescente até chegar ao ápice que marcaria a hora mágica da grande noite.

Eu estava muito excitado e, por conseguinte, com muita fome. A ansiedade é pródiga em me abrir o apetite. Estava com tanta fome que até meio Big Mac dormido esquecido na geladeira me faria salivar. Mas havia lagosta e um suflê tão chique que seu nome era impronunciável para um homem rude como eu. Ao chegar, Sabrina disse nunca ter me visto tão elegante. Fiquei lisonjeado e convidei-a a entrar. Ela se encantou com o ambiente que eu criei. Todo pensado nos mínimos detalhes. Tudo que já relatei e mais o perfume de bálsamo que se sentia no ar a fizeram perceber que aquela noite seria diferente de todas as outras que passamos juntos.

Conversamos animadamente durante o jantar. Comemos a lagosta, tomamos o champanhe e beliscamos o suflê. Mas ela estava mesmo era curiosa para saber o motivo daquela produção toda. O que estava por trás daquilo, afinal? Não sou um cara cruel. Tenho mesmo o coração mole. Por isso, não fiz muito suspense. A certa altura, propus um brinde. Um brinde ao instante definitivo que viveríamos naquela noite. Ela sorriu, seus olhos brilharam e sorveu o conteúdo de sua taça lentamente como que se deliciando com cada gole, tentando fazer com que seu champanhe durasse para sempre. Ela era mesmo muito meiga. Nem mesmo quando terminou de beber sua taça e caiu com a cara na mesa deixou de ser linda. Sorte eu ser um homem atento, pois pude aparar seu rosto com o guardanapo de linho que havia providenciado para a ocasião e ela não sofreu nenhum dano.

Assoviei e os paramédicos vieram do quarto. Carregamos seu corpo adormecido para a banheira cheia de gelo. As extrações foram rápidas, apesar de não haver necessidade de pressa. O sonífero que eu colocara em sua taça era do bom. Modéstia à parte, sou especialista em “Boa Noite, Cinderela”. Os rins, fígado e coração iriam para a África do Sul, pra transplante. 38 mil Dólares pelos rins, 43 mil pelo fígado e 50 mil doletas pelo coração. O cérebro e os pulmões iriam para a suíça, ser estudados em uma renomada universidade. Nesse caso o pagamento era em Euros. A pele ia pra Paris. Estilistas utilizavam em modelos conceito de novas coleções. Casacos de pele humana são o que há. 100 mil Euros por uma couraça de responsa como a de Sabrina. As córneas iriam pra São Paulo, também pra transplante. 60 mil Reais. Precinho camarada pros amigos brasileiros. Pensei muito no que ela me disse sobre sua vontade de conhecer o mundo. Ela tinha paixão por viajar. E eu a ajudaria a realizar esse sonho. E o que é melhor, de uma vez só.

Fiquei lá, olhando e esperando os doutores terminarem a operação enquanto eu comia o resto do jantar. Pronto. Missão cumprida. Agora é só despachar o material e pagar os parceiros envolvidos. Falando assim, aparece até meio frio, mas na verdade não é. Eu sou bastante profissional, admito, mas a verdadeira razão disso é que eu sou um apaixonado pelo que faço. Amo minha atividade que, por acaso, também é bastante rentável. Mas mesmo que eu não recebesse um tostão por isso, continuaria traficando órgãos. Pois dinheiro é papel. O que vale é o que tá aqui ó (e aponto para o coração).

Eu também sou muito bonito por dentro.