Coluna do Novo Jornal – 089 – É a festa da torcida campeã – 12.05.2012

É a festa da torcida campeã

Bolada

O futebol exerce sobre nós um indescritível fascínio. Apaixona, encanta, incute o mais profundo sentimento de arrebatamento, um transe esportivo, a lobotomia da bola, transformando-nos em arremedos dos indivíduos cotidianos que tentamos ser em nossas rotinas diárias. O centenário esporte bretão tem o poder de metamorfosear o mais inteligente e racional dos homens num bárbaro, inconsequente ou completo idiota. É a vitória (de goleada) do coração sobre o cérebro, fazendo os mais autênticos gênios perderem completamente a razão. É uma máquina de converter homens bestiais em bestas.

Exemplos não faltam. O resoluto intelectual Luiz Gonzaga Beluzzo, economista renomado, procurado para dar entrevistas e prestar consultorias a cada novo sinal de turbulência que a economia demonstra, conhecido por seus maneirismos cordiais e temperamento equilibrado, sujeito tido como educado e bem relacionado, não só fez uma administração economicamente desastrosa à frente do Palmeiras, como deu indícios do monstro que habita o seu âmago, um verdadeiro “Mr. Hyde”, boquirroto e destemperado, apontando para todas as direções seu canhão de intempéries e cometendo todo um conjunto das mais tresloucadas e irrefletidas atitudes à guisa de uma gestão.

Nos outros grandes de São Paulo, a situação não se difere muito. O Corínthians é gerido por bravateiros que se utilizam de sua enorme torcida como massa de manobra, manipulando-os para manter-se no poder. Têm funcionado. Grupos políticos costumam perdurar por muitos anos à frente do Timão. No São Paulo, apesar de uma certa altivez forçada e regada nos Jardins, Morumbi e demais bairros nobres da capital econômica do país, o comportamento não difere em nada dos coirmãos do Parque São Jorge. As mesmas bravatas e estilo administrativo percebido nos alvinegros paulistanos podem ser observados nos tricolores. Tais características acabam por beneficiar o dirigente santista, Luís Álvaro, dirigente acima da média, mas superestimado porque a média é muito baixa. É o caso típico do rei caolho, soberano de uma terra de cegos, destaque absoluto e líder disparado de uma terra onde grassa a pasmaceira, incompetência e a mediocridade.

No Rio, falemos do Flamengo. Aliás, não falemos. É tanta desordem, mandos, desmandos e atropelos nesta administração micárlica de Patrícia Amorim que seriam necessários vários espaços como este no jornal para que citássemos tudo de errado que ocorrer na Gávea. Mesmo que nos utilizássemos de resumos e tópicos não daria. E o pior é que, no rubro-negro, oposição e situação trabalham juntas, unindo esforços no ininterrupto e acelerado processo de falência e desgraça completas do clube. Até um esquema contra o maior ídolo do clube, envolvendo um empresário de jogadores (financiador da campanha da presidente) e um ex-líder de torcida organizada (e hoje presidente do conselho deliberativo) ela aprontou para afugentar uma voz dissonante da sua, mesmo que esta voz fosse a do galinho Zico.

Aí, desembarcamos em Natal, terra boa, povo cordial, receptivo, capital de um Estado que desenvolveu a indústria do turismo, não só em razão das belezas naturais, mas também pela vocação para receber bem de um povo acolhedor e amável. Porém, quando se trata do ludopédio, nada nos difere das duas mais ricas unidades federativas. O que se presenciou neste campeonato estadual, tendo como clímax o dia da final, foi estarrecedor, de perder a fé no ser humano. Dirigentes alienados, inconscientes das consequências de seus atos e palavras, incapazes de perceber o quão nocivas podem ser suas atitudes e alheios ao poder multiplicador de suas declarações viscerais. Pensam com o fígado e agem como torcedores.

E não aceito a argumentação de alguns de que, antes de serem dirigentes, estes homens já eram torcedores apaixonados pelas cores das agremiações cujas gestões assumiram com espírito de entrega e abnegados cumpridores de um dever quase cívico, incutido pela paixão clubística. Tudo bem, vá lá, entendo, MAAAAS… É preciso assumir, junto com o cargo, certas liturgias que a função exige. Uma delas nos diz que “dirigente não é (ou não deve ser) torcedor”. A referência jocosa ao adversário, as brincadeiras, gozações inerentes ao dia-a-dia da disputa esportiva podem até ser artifícios utilizados por este ou aquele cartola mais irreverente. Porém, o que não precisa ter limites na voz da multidão ganha certas amarras ditadas pelo respeito ao próximo e o bom senso quando se trata dos gestores dos clubes. Quem quer liderar precisa ter a postura de um líder. Mesmo que finja ser o líder que efetivamente não seja.

No último domingo, ouvi relatos dando conta de dirigentes que impediram uma das torcidas de entrar no estádio, retiraram cadeiras do vestiário para que o time adversário não tivesse onde sentar, um senhor que mandou desligar arbitrariamente a energia de uma equipe de TV que transmitiria a partida, declarações coléricas e inflamadas daqueles que são vistos por suas torcidas como os administradores dos objetos de suas paixões e, como tal, de certa forma, líderes e modelos a serem seguidos. É a estupidez sendo disseminada de cima pra baixo, como sói ocorrer neste Brasil varonil, novo rico de um mundo em crise.

Em seu livro “A dança dos deuses – Futebol, sociedade e cultura”, o professor da USP Hilário Franco Júnior analisa o comportamento dos torcedores futebolísticos, mediante um fenômeno psicanalítico que o Dr. Freud chamava de “narcisismo das pequenas diferenças”. Os torcedores tendem a ver os adversários como inimigos, pois enxergam neles enormes diferenças, terríveis, irreconciliáveis, abissais. Quando, na verdade, os torcedores de quase todos os times apresentam enormes semelhanças nas constituições demográficas de suas torcidas. Não há mais grandes diferenças como havia no início. As torcidas diferem em quantidade, mas não em características. Porém, essa mania de enxergar pequenas diferenças como sendo enormes faz surgir toda a hostilidade de um torcedor com relação ao adversário. E como os dirigentes locais estão muito mais para torcedores fanáticos do que para gestores de fato, veem uns aos outros como inimigos e não como adversários.

Os relatos de violência antes, durante e, sobretudo, após a partida, para mim, decorrem em grande parte do comportamento destes homens de camisas polo e calças sociais que vociferam impropérios uns contra os outros, alimentando os bélicos e “organizados” fãs de ambos os times. Se houve tiros e, dizem, até mortes durante as comemorações, bem que eles poderiam ser co-responsabilizados. Como da última vez que fui a um clássico local e um morteiro explodiu a um metro do meu rosto. Um torcedor do outro time apontou um rojão em direção à multidão que escolheu cores distintas das suas. Fiquei imaginando o que poderia ter ocorrido se o petardo me atingisse e também no que pode ter levado aquele cara que nunca me viu, não me conhece, querer me matar ou me machucar seriamente. Só porque eu escolhi apoiar um time que não o seu? Para mim, não é o bastante.

Nunca mais fui a um clássico e sugiro aos torcedores dos dois times mais tradicionais de Natal que prestem bem atenção na próxima vez que um dirigente destilar seu repertório de ódio e intolerância contra os “inimigos”. Na verdade, aquelas palavras também são destinadas a você. E, se você sofrer uma violência,  elas podem ser a causa. Independente do seu time ou do dele. Toda ação gera uma reação. Desde Newton todo mundo sabe disso. Quer dizer, quase todo mundo, né? Os diretores de clubes ainda não descobriram.

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